Off Script
16 O Recuo
Foi uma entrevista.
Não era nada extraordinário, Nolan fazia entrevistas regularmente, era parte do trabalho, era a parte que ele tolerava com a mesma disciplina que acordava às quatro da manhã. Um canal de esportes, um jornalista que ele conhecia de nome, quarenta minutos gravados numa sala do Rogers Place numa terça de tarde.
Lara não sabia da entrevista.
Soube quando Priya entrou na cafeteria na quarta de manhã com o celular na mão e a expressão de quem está medindo como entregar alguma coisa.
Lara já conhecia essa expressão.
— O quê? — disse ela.
Priya pousou o celular.
Era um clipe. Dois minutos e quarenta segundos, cortado da entrevista completa, que tinha sido postado pelo canal na noite anterior e tinha acumulado — ela viu o número no canto — quase oitenta mil visualizações em menos de doze horas.
Ela apertou play.
O jornalista estava perguntando sobre a temporada, sobre expectativas, sobre o vestiário. Nolan respondia com aquela voz de sempre, direta, sem enfeite. E então o jornalista mudou de tom — levemente, daquele jeito que jornalistas experientes fazem quando estão indo pra pergunta que sempre quiseram fazer.
— Fora do gelo, você parece diferente esse ano. Mais — ele pausou, escolhendo a palavra — centrado. Tem algo na vida pessoal que está contribuindo pra isso?
Uma pausa curta.
— Tem — disse Nolan.
— Pode contar?
— Não. — Simples, sem dureza. — Mas tem.
O jornalista sorriu do jeito de quem achou o que estava procurando sem precisar do nome.
— Sério?
— Sério.
— É alguém que te conhece de verdade ou alguém que conhece o Carter do número 29?
Uma pausa mais longa dessa vez.
— Me conhece de verdade. — Uma pausa. — Isso é raro. Não abro mão disso.
O clipe acabou.
Lara ficou olhando pra tela preta por um momento.
Priya não disse nada.
Os comentários do clipe — ela rolou sem querer, sem ter decidido rolar — eram do tipo que ela já conhecia. Curiosidade, especulação, alguns gentis, alguns não. Mas havia um que ficou.
Alguém tinha respondido ao clipe com a foto do artigo — ela e ele saindo do café na quarta à noite — e escrito:
É essa. A brasileira. Quatorze anos mais velha que ele. Deve ser isso que ele chama de 'raro'.
Com um emoji de risada.
Tinha trezentas e vinte curtidas.
Ela entregou o celular pra Priya.
Foi lavar as mãos.
Trabalhou o dia inteiro sem falar sobre isso.
Priya não forçou — tinha aquela sabedoria de quando deixar e quando entrar, e leu a Lara daquele dia com precisão e ficou na cozinha mais do que o necessário e só aparecia quando havia razão prática.
Nolan mandou mensagem às duas da tarde.
Tudo bem?
Ela ficou olhando pro celular no intervalo, com o livro fechado no colo e o café esfriando do lado.
Tudo, — ela digitou.
Lara?Fala comigo —ele continuou
Ela largou o celular virado pra baixo.
Não porque estava com raiva dele — não estava, e essa era a parte mais complicada. Ele não tinha feito nada errado. Tinha respondido com honestidade dentro dos limites que se impôs, tinha protegido o nome dela, tinha dito algo verdadeiro sem transformar em espetáculo.
O problema não era ele.
O problema era o comentário com trezentas e vinte curtidas.
O problema era que trezentas e vinte pessoas tinham achado graça.
O problema era que ela tinha trinta e quatro anos e estava num país que não era o seu, trabalhando numa cafeteria e tendo que ler comentários sobre si mesma na internet, e que uma parte dela — a parte velha, a parte que tinha aprendido cedo que era mais seguro ser pequena — estava dizendo que isso era o resultado natural de ter saído do roteiro.
Olha no que deu, dizia essa parte. Olha o que acontece quando você para de ser cuidadosa.
Ela conhecia essa voz.
Tinha passado a vida inteira acreditando nela.
Não foi à cafeteria no dia seguinte.
Ligou pra Priya de manhã cedo — antes que ele pudesse aparecer, antes do horário de sempre — e disse que não estava bem, que precisava de um dia, que sentia muito.
Priya ficou em silêncio por um segundo.
— Tudo bem — disse ela. — Cuida de você.
Só isso.
Lara ficou no apartamento.
Fez café. Tentou ler. Ficou na janela olhando a neve por um tempo que não mediu. Respondeu uma mensagem da mãe sobre uma coisa sem importância com mais detalhe do que a coisa merecia porque era mais fácil do que responder as mensagens que importavam.
Nolan mandou às oito e quarenta e cinco — o horário em que normalmente já estaria na cafeteria.
Você não está lá.
Ela ficou olhando.
Precisei de um dia, ela escreveu.
Uma pausa.
Ok.
Só isso.
Ela ficou esperando mais — sem saber o que esperava, alguma coisa, a insistência gentil de sempre, "o eu sei o que você está fazendo", que ele tinha dito outras vezes com aquela calma que a desarmava.
Não veio.
Ok.
Ela pousou o celular.
Ficou olhando pra Alberta.
— Eu fugi — disse ela, pra planta, com uma voz que ficou menor do que queria.
Alberta não respondeu.
E o silêncio do apartamento, que era o mesmo silêncio de sempre, ficou de repente com um peso que ele não tinha antes.
...
O segundo dia foi mais difícil que o primeiro.
Ela foi trabalhar — não havia razão prática pra ficar em casa de novo, e ficar parada era pior do que se mover — e a cafeteria era a cafeteria de sempre, com o cheiro de sempre e a máquina com a personalidade própria.
Só que às sete e vinte e cinco o banco do balcão ficou vazio.
Ela preparou o americano por hábito antes de se dar conta. Ficou com o copo na mão por um segundo, então virou e jogou fora e fez outra coisa.
Priya viu.
Não disse nada.
À tarde, no intervalo, Lara ficou olhando pro celular por um tempo longo sem abrir nenhuma conversa.
Tinha uma mensagem nova dele — chegada duas horas antes, que ela não tinha visto.
Quando você quiser conversar, estou aqui. Não precisa ser hoje.
Ela leu três vezes.
Havia algo naquilo que era diferente de tudo que ele tinha feito antes — não a aproximação gradual, não o vou continuar aparecendo, não a paciência ativa de quem fica perto mesmo sem ser chamado.
Era espaço real.
Espaço que doía mais do que ela esperava.
Porque ela tinha pedido espaço — não com palavras, mas com o recuo, com o dia em casa, com o celular virado pra baixo — e ele tinha ouvido. Tinha recuado junto. Tinha deixado.
E ela estava descobrindo que querer fugir e querer que ele ficasse eram coisas que existiam ao mesmo tempo dentro dela, com a mesma intensidade, sem se cancelarem.
Isso era novo.
Isso era o tipo de coisa que o roteiro nunca tinha pedido dela porque o roteiro não tinha nada que valesse tanto a ponto de criar esse conflito.
Na quinta Priya chegou com croissants e uma expressão que Lara reconheceu como decisão tomada.
— Pode falar — disse Lara, antes que Priya abrisse a boca.
— Não vou falar sobre ele — disse Priya. — Vou falar sobre você.
Lara ficou quieta.
— Você sabe o que está fazendo — disse Priya, direto, com aquele jeito dela que era franqueza sem crueldade. — Não é inconsciência. Você está com medo e está usando o comentário como motivo porque é mais concreto que o medo.
— O comentário existe.
— Existe. E é idiota e injusto e você não merece. — Priya partiu o croissant. — E também não é o motivo real.
Silêncio.
— O motivo real — disse Lara, devagar, como alguém testando o peso de cada palavra — é que domingo de manhã eu estava sentada naquela mesa da cozinha olhando pra ele explicar hockey pra você e pensei que era a coisa mais ordinária do mundo.
Priya ficou olhando pra ela.
— E ordinário me assustou mais do que tudo — continuou Lara. — Porque ordinário é real. Ordinário é vida. — Ela olhou pro balcão. — E se é real e é vida então pode acabar de verdade. Pode machucar de verdade. Não é mais experimento, não é mais Canadá como parêntese, não é mais eu sendo corajosa de forma controlada.
— É você sendo corajosa de verdade — disse Priya.
— É, eu não tendo controle nenhum.
Priya ficou em silêncio por um momento.
— Lara — disse ela, mais quieto. — Você sabe o que é mais assustador do que perder o controle?
— O quê?
— Chegar no fim e saber que você tinha o controle todo o tempo e usou pra ficar parada.
Lara ficou com isso.
A máquina de espresso fez o som do primeiro café do dia.
A campainha da porta soou — primeiro cliente de quinta-feira, o homem do jornal físico na pontualidade de sempre.
Ela foi trabalhar.
Mas a frase de Priya ficou rodando — usou pra ficar parada — com aquela persistência específica das verdades que você preferia não ter ouvido e que agora não saem.
À noite ela pegou o celular.
Abriu a conversa com ele.
A última mensagem era a dele — quando você quiser conversar, estou aqui. Não precisa ser hoje.
Ela ficou olhando por um tempo.
Digitou.
Apagou.
Digitou de novo.
Posso te ligar?
A resposta veio em quarenta segundos.
Pode.
Ela discou.
Ele atendeu no segundo toque.
Nenhum dos dois disse nada por um momento — só o silêncio de linha aberta, com a respiração de cada um do outro lado, e Edmonton do lado de fora de cada janela.
— Eu sei o que estou fazendo — disse ela, por fim.
— Eu sei que você sabe — disse ele.
— Estou com medo do ordinário — ela disse. — Parece idiota dizer assim.
— Não parece.
— Você não acha estranho?
Uma pausa.
— Não — disse ele. — As coisas grandes a gente enfrenta porque não tem escolha. As pequenas a gente pode fugir. — Uma pausa menor. — Você não fugiu das grandes.
Ela ficou com isso.
— Nolan.
— Sim.
— Sinto muito por ter fugido.
— Não precisa sentir. — A voz quieta de sempre. — Mas obrigado por ligar.
Ficaram mais um tempo no telefone sem dizer muito — o tipo de conversa que não precisa de conteúdo específico pra ser o que é, que existe pelo fato de existir, pela linha aberta e a respiração e o silêncio compartilhado de dois lados da mesma cidade fria.
Quando desligou ela ficou parada na borda da cama.
Não tinha resolvido nada.
O medo continuava lá, do tamanho de sempre.
Mas havia uma diferença entre ter medo e deixar o medo decidir, e ela estava aprendendo — devagar, de forma irregular, com recuos e avanços que não eram lineares — que essas eram duas coisas diferentes.
Deitou.
Olhou pro teto.
— Não fugi de vez — disse pra Alberta. — Só fui longe demais por dois dias.
A planta ficou em silêncio.
Mas o silêncio dessa vez tinha uma qualidade diferente — não de julgamento, não de espera.
De paciência.
A mesma paciência dele.
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