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17 A Cabana (Parte 1)
Ele falou numa quinta.
Estava no banco do balcão — eles tinham voltado ao ritmo de sempre depois do telefonema, com aquela aura diferente de coisas que pararam e recomeçaram — e ela estava preparando o americano quando ele disse:
— Semana que vem tem um intervalo de quatro dias. Não tem jogo, não tem viagem. — Uma pausa. — Minha família tem uma cabana a duas horas de Edmonton. Fica vazia no inverno.
Ela não virou imediatamente.
Terminou o café. Pousou na bancada. Então virou.
Ele estava olhando pra ela com aquela expressão quieta — não pedindo, não pressionando, só apresentando como fazia com todas as coisas, como se fossem simples porque pra ele eram.
— Só nós dois…? — disse ela.
— Só nós dois.
Ela ficou em silêncio por um momento.
Verifique a saída, disse a parte velha.
Quando o que está dentro começa a valer mais do que a garantia de poder sair, disse a voz de Priya.
— Tudo bem — disse ela.
Priya soube antes do fim do dia — Lara não contou, Priya simplesmente sabia as coisas, era uma das suas características mais desconcertantes — e ficou em silêncio por um tempo que foi respeitoso antes de dizer:
— Leva o casaco pesado. A cabana aquece mas leva.
Só isso.
Lara ficou olhando pra ela.
— Não vai dizer mais nada?
— Não. — Priya foi pra cozinha. — Já disse tudo que tinha pra dizer nos últimos dois meses. — Uma pausa. — Agora é contigo.
Saíram numa sexta de manhã.
O carro era dele — grande, daquele tipo que faz sentido em inverno canadense, com aquecimento que funcionava de verdade e um silêncio de motor que era conforto silencioso. Ela jogou a mochila no banco de trás e entrou com o casaco pesado e o cachecol e aquela sensação estranha de estar fazendo uma coisa sem ter planejado a fuga primeiro.
Edmonton foi ficando pra trás aos poucos.
A cidade virou subúrbio, o subúrbio virou rodovia, a rodovia virou estrada com árvores dos dois lados — pinheiros cobertos de neve com aquela postura de coisas que não se curvam, só ficam e aguentam.
Ela ficou olhando pela janela.
— Qual a história da cabana? — ela perguntou.
— Meu avô construiu. — Ele tinha aquela voz de motorista — um pouco mais relaxada, com os olhos na estrada. — Anos setenta. Ficava lá sozinho no verão, pescava, ficava quieto. Deixou pro meu pai. — Uma pausa. — Meu pai nunca foi muito de ficar quieto, então a cabana ficava fechada mais do que aberta.
— E você?
— Eu fui algumas vezes quando era menor. — Um traço de memória na voz. — Parecia grande pra mim. — Ele pausou. — Fui sozinho pela primeira vez com dezesseis anos depois de uma temporada ruim. Fiquei um fim de semana. Não fiz nada útil.
— E ajudou?
— Ajudou. — Simples. — Às vezes não fazer nada útil é o mais útil que existe.
Ela ficou com isso.
A cabana era menor do que ela imaginou e maior do que esperava ao mesmo tempo.
De fora era madeira escura e neve no telhado e janelas com aquela luz apagada de lugar fechado faz tempo. Dentro, quando ele abriu e foi ligando as coisas — aquecimento, luzes, a lareira que precisou de alguns minutos pra pegar de verdade — foi se tornando outra coisa.
Madeira por todo lado. Uma sala com dois sofás antigos que eram do tipo que abraça. Uma cozinha pequena com utensílios que tinham história de uso. Duas janelas grandes que davam pra um pátio coberto de neve e além dele as árvores, os pinheiros, o silêncio de lugar longe de tudo.
Ela ficou parada no meio da sala enquanto ele cuidava da lareira.
— É bonito — disse ela.
— É antigo — ele respondeu, com aquele traço de humor. — Mas funciona.
— Às vezes é a mesma coisa.
Ele virou.
Ficou olhando pra ela por um segundo com aquela expressão quieta.
— É — disse ele.
…
O primeiro dia foi simples.
Andaram um pouco pela neve do pátio — ela com o casaco pesado e as botas que Priya tinha insistido que comprassem juntas numa tarde de novembro, ele com aquela facilidade de quem cresceu nessa temperatura e não pensa mais nela. Fizeram comida na cozinha pequena — ele cozinhava melhor do que ela esperava, com aquela eficiência de quem aprendeu por necessidade e não por prazer mas acabou gostando.
Comeram na mesa junto à janela com a neve lá fora e a lareira atrás e aquela luz de fim de tarde de inverno que durava pouco e por isso concentrava tudo.
Ela ficou olhando o pátio enquanto comia.
— Você está quieta — disse ele.
— Estou processando.
— O quê?
— Isso. — Ela fez um gesto vago que tentava abranger a cabana, a neve, a mesa, ele do outro lado. — É muito quieto.
— É ruim?
— Não. — Ela voltou pro prato. — É que eu passo a vida inteira com barulho de fundo. Trabalho, cidade, pensamentos. — Uma pausa. — Aqui o barulho de fundo sumiu.
— E o que fica?
Ela ficou com a pergunta.
— Você — disse ela, simplesmente.
Ele não respondeu.
Mas havia alguma coisa na forma que ficou em silêncio — quieto, presente, sem precisar transformar em mais — que disse tudo que precisava.
…
À noite ficaram na sala.
A lareira tinha aquecido o ambiente num calor específico de madeira queimando que era diferente de qualquer aquecimento elétrico — mais vivo, mais variável, com aquela luz que mudava. Ele tinha encontrado um baralho numa gaveta e eles tinham tentado jogar algo que nenhum dos dois lembrava as regras direito e desistido depois de vinte minutos concordando que estavam inventando regras diferentes.
…
De noite, ela estava com o livro do autor canadense que tinha comprado na livraria do Walter. Ele tinha um livro também — ela notou com algo que era ternura involuntária — um de bolso com a lombada já dobrada.
— O que você está lendo? — ela perguntou.
Ele mostrou a capa. Era um livro sobre tomada de decisão em situações de pressão — o tipo de coisa que ela esperaria de alguém que jogava hockey profissional e ao mesmo tempo não esperaria, porque havia uma curiosidade nele que extrapolava o esporte.
— Útil? — ela perguntou.
— Às vezes. — Ele olhou pra capa. — Tem uma parte que fala sobre como o cérebro em situação de pressão tende a regredir pro mais familiar. Mesmo que o mais familiar seja o menos eficiente.
Ela ficou com isso por um segundo.
— Isso é sobre mim — disse ela.
— Eu li pensando em hockey.
— Mas parece comigo.
O traço de humor.
— Pode ser as duas coisas — disse ele.
Ela olhou pro livro dela sem ler por um momento.
— Nolan.
— Sim.
— Posso te perguntar uma coisa que é direta demais?
— Você sempre pergunta coisas diretas demais. — Ele fechou o livro. — Pode.
Ela ficou olhando pro fogo por um segundo.
— Você já ficou com alguém antes.
Não era uma pergunta mas ele entendeu o que era.
— Sim — disse ele, com aquela honestidade direta de sempre. — Nada longo. Nada que fosse — ele pausou, escolhendo — isso.
— O que é isso?
— O que estamos construindo. — Simples. — Coisa que tem camadas. Que tem tempo. Que eu penso quando acordo e quando durmo e nos intervalos de tudo.
Ela ficou em silêncio.
— Eu tenho trinta e quatro anos — disse ela, com aquela voz que ficava menor quando estava dizendo algo verdadeiro e pesado ao mesmo tempo.
— Eu sei quantos anos você tem.
— E nunca — ela parou, reorganizou — eu nunca me permiti de verdade. Sabe o que significa isso? Não é inexperiência no sentido técnico mas é — ela procurou a palavra — é ser nova em deixar alguém entrar de verdade.
Ele ficou completamente parado.
Havia uma energia específica na atenção dele agora — não a atenção de sempre, que já era total, mas algo além disso, algo que reconhecia o peso do que estava sendo dito e fazia espaço pra isso sem pressa.
— Você está me dizendo que tem medo — disse ele.
— Estou dizendo que tenho medo de que você olhe pra mim e veja — ela olhou pro fogo — tudo que não fiz. Tudo que me recusei a ser. Que você é novo e inteiro e eu chego com todo esse histórico e—
— Lara.
Ela parou.
Ele tinha se movido — ela não tinha notado quando, mas estava mais perto agora, com os cotovelos nos joelhos e o olhar direto nela.
— Você acha que eu não tenho histórico? — disse ele. — Que esses anos o hockey não deixou marcas? — Uma pausa. — Eu abri mão de coisas que não vou recuperar. Adolescência normal, amizades que ficaram pra trás, paqueras que desistiram porque o time sempre vinha primeiro. — Ele ficou em silêncio um segundo. — Não sou inteiro no sentido que você está usando. Sou inteiro de outra forma — sei o que quero. Mas faltam partes que você tem e eu não.
Ela ficou olhando pra ele.
— Que partes?
Ele disse isso com aquela voz quieta.
— Você olha pra uma cidade e entende ela antes de entender as pessoas. Você tem aquela coisa de pessoas que viveram dentro da própria cabeça por muito tempo — uma profundidade que não vem de outra forma.
— Isso não é virtude. É consequência de ter fugido.
— Pode ser as duas coisas — ele repetiu, com o mesmo traço de humor de antes.
Ela ficou em silêncio.
O fogo fez um som de madeira se reorganizando.
— Tenho medo de que você perca alguma coisa por estar aqui — disse ela, por fim, com a voz que foi mais baixa que queria. — Alguma coisa da sua idade, do seu tempo, que depois não volta.
Ele ficou com aquilo.
Por um tempo longo.
E então disse — com aquela voz que não subia nem descia, com aquela honestidade que ela tinha aprendido era constitutiva dele e não pose:
— Eu tenho vinte anos e já escolhi o hockey de volta com tudo sabendo o custo. — Uma pausa. — Você acha que não sei escolher?
Ela abriu a boca.
Fechou.
Havia algo naquela frase que chegou num lugar que não tinha armadura — não porque era bonita, porque era verdadeira, porque era ele dizendo confia na minha capacidade de saber o que quero com a mesma seriedade com que dizia qualquer outra coisa.
O fogo. A neve lá fora. O silêncio da cabana que era diferente de qualquer silêncio que ela conhecia.
— Nolan — disse ela.
— Sim.
— Estou aqui — disse ela. Simples. — Estou tentando estar aqui de verdade.
Ele ficou olhando pra ela.
— Eu sei — disse ele. — É o suficiente por hoje.
Ficaram acordados até tarde — não por tensão, mas por não querer que a noite acabasse, onde a conversa vai e vem sem esforço e o fogo vai baixando e nenhum dos dois se levanta pra dormir porque seria admitir que o dia acabou.
Quando ela finalmente foi — o fogo já era brasa, o frio do lado de fora pressionando as janelas — ele disse boa noite com aquela voz e ela foi pro quarto e ficou parada na escuridão por um momento.
Não havia gaveta fechada.
Havia só ela, parada no escuro de uma cabana no inverno canadense, com o coração num ritmo que não era o dela normalmente, completamente acordada de uma forma que não era sobre o sono.
Dormiu mesmo assim.
E o sono foi fundo e sem interrupção pela primeira vez em semanas.
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