Off Script

2 O Rapaz do Americano


— Nolan Carter.

Priya disse o nome com o tipo de entonação que as pessoas usam quando esperam uma reação específica. Lara estava enxugando as xícaras e não parou.

— Ele deixou 10 dólares de gorjeta — disse ela. — Foi simpático.

O silêncio que se seguiu tinha textura.

Lara ergueu os olhos. Priya estava com a expressão de quem acabou de descobrir que a colega de apartamento não sabia que a água molha.

— Lara. — Ela apoiou as duas mãos no balcão. — Nolan Carter.

— Você já disse o nome.

— Ele joga no Alberta Wildfire.

— O time de hockey?.

— O time. — Priya abriu os braços como se estivesse apresentando uma catedral. — O time desta cidade. Desta província. Possivelmente desta nação. Em Edmonton, o Wildfire não é um time de hockey, é uma condição climática. As pessoas acordam de manhã e checam o placar antes de checar o clima.

Lara pousou a xícara.

— E ele vem aqui toda manhã?

— Faz seis semanas. Desde o início da temporada. — Priya inclinou a cabeça. — Você realmente não sabia quem era?

— Eu pedi o nome e ele disse Nolan. — Ela pegou outra xícara. — Não veio com currículo.

Priya ficou olhando pra ela por um momento com uma expressão que Lara ainda estava aprendendo a decifrar — era a expressão de quem está recalibrando uma situação inteira.

— Ele foi draftado com dezoito anos — disse Priya, mais devagar agora, como se estivesse traduzindo pra um idioma diferente. — Primeiro round. Sexta escolha geral. Sabe o que isso significa?

— Que ele é bom?

— Que times inteiros, com departamentos inteiros de pessoas cujo único trabalho é avaliar jogadores de hockey, colocaram ele como o sexto melhor jovem jogador do continente norte-americano. — Ela pausou. — Aos dezoito anos. E agora ele tem vinte e já é titular, já é a maior aposta ofensiva do time, já tem o nome nos jerseys que as crianças pedem de Natal.

Lara processou isso.

— Então ele é famoso.

— Famoso. — Priya repetiu a palavra com um ar de quem não sabe se ri ou chora. — Sim, Lara. Entre outras coisas menores, como importante e muito, muito observado, sim. Famoso também.

O problema era que essa informação não mudava nada de forma concreta.

Lara voltou pra casa naquela noite, aqueceu uma sopa que tinha feito no dia anterior e ficou sentada na janela olhando a rua lá embaixo — já escura às seis da tarde, coisa que ainda a desorientava — tentando reorganizar a imagem que tinha formado.

O rapaz do americano sem açúcar.

Alto. Ombros que ocupavam espaço. Cabelo úmido de treino. Aquele meio sorriso que parecia não ter se dado conta de que existia. Lara, ele tinha repetido o nome dela como se estivesse arquivando pra uso posterior.

Ela foi ao Google.

Nolan Carter NHL.

As imagens carregaram primeiro. Ele de uniforme — preto, com listras amarelo e vermelho, capacete, equipamento que o fazia parecer o dobro do tamanho — em posições de jogo que ela não sabia nomear. Depois uma foto de divulgação, terno escuro, sério, aquele mesmo olhar verde-acinzentado só que direcionado pra uma câmera profissional.

Depois as manchetes.

Carter, a maior aposta dos Alberta Wildfire desde uma geração.

Com 20 anos, Carter lidera em assistências na temporada.

O futuro do hockey canadense tem nome.

Lara ficou olhando por um tempo.

Ela tinha crescido num país onde futebol não era esporte, era linguagem. Sua família falava futebol na mesa do almoço, seu pai ficava de mau humor quando o Atlético perdia, sua mãe sabia o nome de jogadores que ela jamais teria conseguido identificar numa foto. Mas Lara tinha ficado de fora disso sempre — não por rejeição, simplesmente por desinteresse, pela mesma razão que algumas pessoas não sentem a frequência de um som que todos os outros ouvem.

Ela entendia intelectualmente que esporte importava pra muita gente.

Ela não tinha o sentimento.

Então as manchetes falavam de números, de drafts, de temporadas, de algo chamado cap hit que ela não parou pra entender — e no final o que ficou foi a imagem dele de terno, sério, com vinte anos, e a sobreposição estranha com o rapaz que tinha apoiado os cotovelos no balcão dela naquela manhã com o copo nas mãos e zero consciência de que era considerado o futuro de alguma coisa.

Ela fechou o Google.

Não é relevante, ela decidiu, com aquela capacidade que tinha de organizar as coisas em gavetas e fechar a gaveta. Ele é cliente. Eu sou nova aqui. Não é relevante.

Alberta, a planta em cima da cômoda, não ofereceu opinião.

Ele voltou na manhã seguinte.

E na seguinte.

E na seguinte depois dessa.

Sempre no mesmo horário — entre sete e quinze e sete e vinte e cinco, ela foi percebendo sem querer perceber. Sempre o mesmo pedido. Sempre o banco alto do balcão, nunca uma mesa, o que significava que ficava do lado de cá do espaço dela enquanto o café ficava pronto.

As conversas eram pequenas. Fragmentos.

— Frio hoje — ele disse numa quinta-feira, tirando o gorro e jogando na bancada.

— Menos oito — ela respondeu. — Isso é frio ou normal?

Ele considerou com uma seriedade desproporcional à pergunta.

— Em outubro, normal. Em março, você vai olhar pra menos oito e sentir saudade.

— Isso é uma ameaça ou uma promessa?

O meio sorriso apareceu.

— As duas coisas.

Numa sexta: ela tinha deixado um livro embaixo do balcão — levava a leitura nos intervalos — e ele viu a capa quando ela se abaixou pra pegar o copo extra.

— Que livro é esse?

Ela mostrou. Era em português — Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H., que ela tinha trazido na mochila porque havia coisas que ela não conseguia ler em tradução.

— Não consigo ler — ele disse, sem constrangimento. — Mas a capa é séria.

— O livro inteiro é sério. — Ela pousou de volta embaixo do balcão. — É o tipo de livro que você lê e fica com raiva da autora por ter te feito sentir isso.

— E você lê isso no intervalo do trabalho.

— Justamente por isso. Pequenas doses.

Ele ficou olhando pra ela por um segundo com aquela expressão que ela ainda não tinha nome — não era surpresa exatamente, era mais como reconhecimento de algo inesperado.

— Legal — disse ele, simplesmente.

E foi embora.

Foi numa terça-feira, duas semanas depois da chegada de Lara, que Priya chegou na cafeteria com o celular na mão e uma expressão de missão cumprida.

— Consegui dois ingressos pra sexta. — Ela pousou o celular no balcão com a tela virada pra cima. — Wildfire

contra os Flames. Primeiro jogo em casa da temporada.

Lara olhou o celular. Olhou Priya.

— Eu não sei assistir hockey.

— Eu vou te ensinar.

— Eu não sei as regras.

— Ninguém sabe todas as regras. Nem os árbitros.

— Priya—

— Lara. — Ela cruzou os braços. — Você está no Canadá. Você precisa ver hockey ao vivo pelo menos uma vez. É parte do processo de integração cultural. É quase obrigatório.

— Você está inventando isso.

— Parcialmente. — Ela pegou o celular de volta. — Mas você vai gostar. Prometo. É barulhento e rápido e as pessoas ficam loucas e você vai entender essa cidade de um jeito diferente.

Lara ficou olhando pra ela.

Pensou na mãe. "Vai".

— Tudo bem — disse ela. — Mas se eu não entender nada—

— Eu explico tudo. — Priya já estava digitando alguma coisa no celular com um sorriso que Lara estava começando a reconhecer como já sabia que você ia ceder. — Ah, e uma coisa.

— O quê?

— Carter joga na sexta.

Lara abriu a boca.

Fechou.

— Isso é relevante por quê?

Priya levantou as sobrancelhas com uma inocência tão elaborada que era quase arte.

— Não é. Só achei que você ia querer saber. — Ela foi pra cozinha. — Americano pronto, tem cliente esperando.

Lara virou pra máquina e ficou de costas por tempo suficiente pra garantir que a expressão no rosto não fosse visível.

Não era relevante.

Ela repetiu isso três vezes, mentalmente, com convicção decrescente.