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6 O Mundo de Fora


A foto apareceu numa segunda-feira.

Lara estava no intervalo, com o livro embaixo do balcão e o café esfriando do lado, quando Priya saiu da cozinha com o celular na mão e uma expressão que ela não tinha visto antes — não era alarme exatamente, era a expressão de alguém calibrando como entregar uma informação.

Isso, vindo de Priya, que entregava todas as informações com a sutileza de um megafone, era suficiente pra Lara fechar o livro.

— O quê?

Priya pousou o celular na bancada com a tela virada pra cima.

Era uma foto.

Tirada de longe, levemente granulada, com aquela qualidade de câmera de celular sem zoom suficiente mas resolução suficiente pra identificar rostos. A rua em frente à livraria do velho de suéter. Dois pessoas caminhando lado a lado — uma pequena com casaco verde, uma grande com casaco cinza, os dois levemente virados um pro outro como pessoas que estão no meio de uma conversa.

A legenda dizia: Carter com quem???? com três pontos de interrogação e um emoji de olho.

Tinha sido postada num perfil de fãs do Wildfire com cento e quarenta mil seguidores.

Tinha duzentos e oitenta e sete comentários.

Lara olhou pra foto por um tempo.

— Quantas pessoas viram? — ela perguntou, com uma voz que ficou mais calma do que esperava.

— O post tem quase doze horas. — Priya pegou o celular de volta, hesitou. — Uns setenta mil alcance, pelos números do perfil.

Setenta mil.

Ela tinha saído pra caminhar com alguém numa tarde de sábado e setenta mil pessoas tinham visto.

Ficou em silêncio processando isso com aquela parte da cabeça que processava informações de forma sistemática — a mesma parte que tinha gerenciado logística por doze anos, que sabia separar dado de emoção quando precisava.

— Os comentários — ela disse.

— Lara—

— Me mostra.

Priya ficou parada um segundo. Depois virou o celular.

A maioria era curiosidade.

"Quem é essa?"

"Alguém sabe o nome?"

"Meninas, investigação obrigatória."

Havia outros que eram neutros — "deixa o cara viver e não é namorada, provavelmente amiga e vocês dramatizam tudo."

E havia os outros.

Ela leu devagar, com aquela atenção sistemática que estava começando a trabalhar contra ela, porque o cérebro estava registrando cada palavra com uma clareza que ela não tinha pedido.

"Quem é essa mulher velha?"

"Gente a diferença de idade kkkkk ele tem 20."

"Mãe dele não né porque a mãe dele eu conheço."

"Que vergonha alheia."

"Ele pode ter qualquer garota e escolhe isso?"

"Olha o casaco dela meu deus."

Esse último tinha quarenta e três curtidas.

Priya tirou o celular da mão dela com suavidade.

— Não lê mais.

— Já li.

— Então para de ler de memória, que eu consigo ver você fazendo isso.

Lara ficou olhando pro balcão. A superfície de granito cinza que ela tinha limpado essa manhã, que estava limpa, que não precisava de atenção nenhuma.

A coisa que ela não estava dizendo em voz alta era que os comentários não tinham dito nada que ela já não tivesse dito pra si mesma. Em versões mais gentis, com palavras mais cuidadosas, mas a substância era a mesma. Não faz sentido. A diferença é grande. Você não é o tipo de pessoa que acontece pra alguém como ele.

Ver isso escrito por estranhos era diferente.

Era como ouvir o próprio pensamento numa voz que você não escolheu e num volume que você não controlava.

— Eu sabia que isso ia acontecer — ela disse, mais pra si mesma do que pra Priya.

— Você não sabia nada. Você foi caminhar com alguém numa tarde de sábado.

— Em Edmonton. Onde ele é — ela fez um gesto vago que tentava abranger tudo aquilo, a arena, as dezoito mil pessoas, os jerseys de Natal — isso.

— Lara.

— Priya, não preciso de—

— Eu não ia te consolar. — Priya cruzou os braços. — Ia te perguntar uma coisa.

Lara esperou.

— Antes de você ver o celular esta manhã, como você estava?

Ela abriu a boca. Fechou.

A manhã tinha começado com ela acordando no horário certo, fazendo o café com calma, caminhando pro trabalho com as mãos no bolso e aquela sensação quieta de quem passou um dia bom e ainda está com o reflexo disso no corpo. Tinha entrado na cafeteria, ligado a máquina, organizado as xícaras, e havia alguma coisa diferente na forma que fez tudo isso — mais leve, talvez. Menos verificando se estava fazendo certo.

— Bem — ela disse.

— Então — Priya descruzou os braços. — Os comentários são de pessoas que não te conhecem, não o conhecem, e não estavam lá.

— Mas eles vão continuar existindo.

— Sim. Vão. — Ela foi pra cozinha. — A questão é se você vai deixar que existam dentro de você ou só lá fora.

Lara ficou sozinha no balcão.

Do lado de fora a rua estava com a neve da véspera já cinzenta nas bordas e o céu do tipo branco que prometia mais neve, e ela ficou olhando por um tempo sem focar em nada específico.

O celular vibrou.

Era um número que ela não tinha salvo, mas o código de área era de Edmonton.

Ficou olhando por dois ciclos de vibração.

Atendeu.

— Vi — disse ela, antes que ele falasse.

Uma pausa curta.

— Queria saber se você estava bem — disse Nolan.

A voz era a mesma de sempre. Aquela voz que não subia nem descia.

— Estou bem.

— Lara.

— Estou processando. — Ela virou de costas pro balcão, olhou pra parede de tijolos. — Como você ficou sabendo?

— Meu empresário me mandou às sete da manhã. — Uma pausa. — Com um relatório de alcance.

— Um relatório de alcance. — Ela repetiu as palavras como se precisasse ouvi-las de novo pra acreditar. — Existe isso.

— No meu mundo, sim.

No meu mundo. Ela notou a escolha.

— E o que o relatório recomendava?

— Que eu ficasse quieto e deixasse passar.

— Parece razoável.

— Parece — ele concordou. — Não é o que eu vou fazer, mas parece.

Ela fechou os olhos por um segundo.

— Nolan.

— Eu sei o que você vai dizer.

— Então poupa meu trabalho e diz você.

Uma pausa maior dessa vez. Ela conseguia imaginar ele — encostado em alguma superfície, com aquela postura calma, os olhos naquela cor que mudava com a luz.

— Você vai dizer que foi bom mas que é complicado demais. Que a diferença de idade já era uma coisa e agora tem isso por cima. Que você não veio pro Canadá pra ser assunto de fãs de hockey. — Ele pausou. — Que talvez seja melhor parar antes de ficar maior.

Ela não disse nada por um momento.

— Você esqueceu a parte onde eu digo que você tem vinte anos e eu tenho trinta e quatro e que isso sozinho já seria suficiente.

— Não esqueci. Deixei por último porque é a mais fraca.

Ela abriu os olhos.

— É a mais fraca?

— É a que você usa como âncora mas não é o motivo real. O motivo real é que você está com medo. — Ele disse isso sem acusação, sem o peso de quem está desafiando. — E tudo bem ter medo. Mas eu prefiro que você seja honesta sobre o que é.

Lara ficou em silêncio por um tempo que foi longo o suficiente pra ser uma resposta em si.

— Não é simples — disse ela.

— Nunca disse que era.

— Você tem vinte anos — ela disse de novo, porque precisava dizer de novo. — Você não tem ideia do que—

— Eu fui draftado com dezoito anos — ele interrompeu, e era a primeira vez que ela ouvia ele mencionar isso, e o tom não era orgulho, era só fato. — Entrei num vestiário de homens adultos com dezoito anos. Aprendi a dar entrevista, a lidar com imprensa, a ter um empresário, a entender contrato, a jogar com dor, tudo com dezoito anos. — Uma pausa. — Não sou ingênuo, Lara. Só não aprendi a ter medo das coisas que quero.

Ela ficou com isso.

A campainha da porta da cafeteria soou — primeiro cliente da tarde.

— Preciso trabalhar — ela disse.

— Eu sei.

— Nolan. — Ela baixou a voz, mesmo sem necessidade. — Eu não sei o que estou fazendo.

— Ninguém sabe — ele disse. — Isso não é exclusividade sua.

E desligou antes que ela precisasse responder.

O cliente da tarde era um homem de meia-idade que pediu chá e ficou lendo o jornal físico por quarenta minutos com a concentração de alguém que não sabia que o mundo tinha inventado outras formas de ler jornal, e Lara serviu o chá e limpou as mesas e ficou em modo automático por tempo suficiente pra a cabeça trabalhar sozinha em segundo plano.

Priya voltou da cozinha às três, ficou olhando pra ela por um momento.

— Ele ligou.

Não era pergunta.

— Ligou.

— E?

Lara empilhou duas xícaras.

— Ele disse que não vai ficar quieto.

Priya ficou em silêncio por um segundo. Depois:

— Claro que não.

À noite, sozinha no quarto, ela abriu o Instagram.

Não o post dos fãs — já tinha fechado aquilo e não ia abrir de novo. Abriu o perfil dele.

Verificado. Quase dois milhões de seguidores. As fotos eram de jogo, de treino, ocasionalmente alguma coisa pessoal — uma foto com quem ela assumiu serem os pais, uma paisagem de Edmonton no verão, uma vez um cachorro que não era dele mas que ele claramente tinha encontrado na rua e fotografado por baixo, com o focinho imenso preenchendo a tela.

Ela ficou na foto do cachorro por um segundo mais do que nas outras.

No story mais recente — postado duas horas atrás — era um vídeo curto do gelo vazio do Rogers Place às seis da manhã, antes de todo mundo chegar, aquela luz específica de lugar grande e vazio. Sem legenda.

Ela ficou olhando o vídeo de três segundos quatro vezes.

Fechou o aplicativo.

Abriu de novo.

Seguiu o perfil, com um movimento rápido e deliberado antes de ter tempo de pensar, e então largou o celular virado pra baixo sobre a cama e ficou olhando pro teto.

Alberta ficou em cima da cômoda.

— Eu sei — disse Lara.

A planta não disse que sabia.

Três dias depois, o post dos fãs tinha sido esquecido — substituído por um jogo, uma polêmica de arbitragem, a vida seguindo o ritmo acelerado de quem tem sempre a próxima coisa pra se ocupar.

Mas Lara tinha visto os comentários.

E o problema com ver as coisas é que não dá pra desver.

Ela estava varrendo a calçada em frente à cafeteria na manhã de quinta — tarefa que Priya tinha terceirizado pra ela com alegria porque odiava o frio antes das oito — quando uma mulher parou na calçada do outro lado.

Jovem. Vinte e poucos anos. Com um jersey preta com listras amarelo e vermelho.

Olhou pra Lara com aquela expressão específica de reconhecimento calculado — de alguém que viu uma foto e está conferindo se bate.

Lara a olhou de volta.

A moça tirou o celular.

Lara entrou na cafeteria, encostou a vassoura na parede, foi lavar as mãos na pia da cozinha com uma calma que foi a coisa mais difícil que fez naquela semana.

Priya estava cortando algo e não disse nada.

— Priya — disse Lara, com as mãos debaixo da água.

— Sim.

— Como é que as pessoas fazem isso? Viver assim. Sabendo que qualquer coisa pode virar foto.

Priya parou de cortar.

— Você se acostuma — disse ela, devagar. — Ou aprende a criar um espaço interno que não é de mais ninguém. — Uma pausa. — Ou as duas coisas.

Lara fechou a torneira.

Ficou olhando pras próprias mãos por um segundo.

Um espaço interno que não é de mais ninguém.

Ela tinha passado trinta e quatro anos construindo exatamente isso — e de alguma forma isso tinha virado uma prisão em vez de um santuário. Ela e sua gaveta fechada e sua vida dentro do roteiro.

E agora estava aqui, com uma vassoura e um casaco verde e setenta mil pessoas que tinham opinião sobre ela, e um rapaz de vinte anos que tinha dito não sou ingênuo, só não aprendi a ter medo das coisas que quero com uma calma que ela ainda estava tentando entender se invejava ou admirava.

As duas coisas, provavelmente.

Sempre as duas coisas.