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7 O Peso Dele


Ela soube pelo placar.

Não estava acompanhando o jogo — nunca acompanhava ativamente, mas desde a noite no Rogers Place tinha desenvolvido o hábito inconsciente de checar o aplicativo do time antes de dormir, da mesma forma que se checa o clima, sem admitir exatamente por que. Quarta à noite, Wildfire fora de casa contra os Canucks, e o placar final era dois a quatro.

Derrota.

Ela ficou olhando pro número por um segundo, guardou o celular e dormiu.

Na manhã seguinte chegou na cafeteria no horário normal.

Às sete e vinte e dois — ela não estava contando, só notou — a campainha soou.

Ele estava diferente.

Não de forma óbvia. Quem não prestasse atenção não veria nada — a postura era a mesma, o passo era o mesmo, o casaco cinza que tinha virado presença familiar na entrada da cafeteria estava no lugar de sempre. Mas havia alguma coisa nos olhos que estava mais funda do que de costume, como uma luz que foi regulada pra baixo sem apagar.

Ela preparou o americano sem precisar de pedido.

Ele sentou no banco do balcão.

Ficaram em silêncio por um momento que era diferente dos silêncios anteriores — menos espaço compartilhado, mais peso específico de um lado só.

— Você viu — ele disse. Não era pergunta.

— Vi o placar.

Ele envolvia o copo com as duas mãos. Ela notou os dedos — grandes, com aquele calejado específico de quem passa a vida segurando um taco — e notou que havia um roxo no indicador direito que não estava lá da última vez.

— Como foi? — ela perguntou.

Ele ficou em silêncio por um segundo que ela aprendeu a não preencher.

— Ruim — disse ele. Simples assim. — Tive duas oportunidades claras no terceiro período e não converti nenhuma. — Uma pausa. — Não é a derrota. A derrota a gente absorve. É saber que tinha como e não foi.

Ela ficou com isso.

Tinha algo específico naquele tipo de dor — a dor de não ter sido o suficiente num momento que era seu. Ela conhecia uma versão menor e cotidiana disso. Mas a versão dele acontecia na frente de dezoito mil pessoas e era analisada por especialistas no dia seguinte e virava estatística permanente em algum banco de dados de hockey.

— Você dormiu? — ela perguntou.

— Pouco.

— Viagem de volta foi quando?

— Aterrissei às duas da manhã.

Eram sete e vinte. Ele estava aqui com cinco horas de sono depois de uma derrota e uma viagem, com o indicador roxo e os olhos mais fundos, e tinha vindo porque era o horário dele, porque era o que ele fazia, e ela sentiu alguma coisa se mover dentro do peito com uma clareza que seria mais fácil ignorar se ele não estivesse bem ali do outro lado do balcão.

— Você devia estar dormindo — disse ela.

— Não consigo depois de jogo. — Ele olhou pro copo. — Fico com as jogadas rodando. Fico refazendo cada decisão errada até não aguentar mais. — Uma pausa curta. — Treino começa ao meio-dia. Durmo depois.

— Isso é sustentável?

Ele ergueu os olhos pra ela.

— É o que tem.

Priya estava na cozinha fazendo barulho suficiente pra deixar claro que estava dando espaço sem precisar anunciar.

Lara pegou a própria xícara de café — ainda quente, primeiro da manhã — e apoiou os cotovelos no balcão do lado de cá. Não disse nada imediatamente. Ficou ali, com o café nas mãos, do mesmo lado horizontal que ele, e o gesto não era grande coisa mas era diferente de ficar de pé atrás do balcão no modo profissional.

Ele notou. Ela viu ele notar.

— Me conta uma coisa — ela disse.

— O quê?

— Quando você era criança. O hockey. Como começou?

Ele ficou olhando pra ela com aquela expressão de recalibração.

— Por quê?

— Porque você está refazendo as jogadas na cabeça faz cinco horas e isso não está ajudando. — Ela tomou um gole do café. — Então me conta o começo, quando ainda era só diversão.

Ele ficou em silêncio por um momento.

Depois:

— Quatro anos. — A voz mudou levemente, ficou menos contida. — Meu pai me colocou no gelo pela primeira vez com quatro anos porque o filho do vizinho tinha começado e ele não queria que eu ficasse pra trás. Não era planejado. Foi competição de pai. — Um traço de algo que era quase humor. — Eu cai umas doze vezes na primeira hora. Chorei na décima primeira e na décima segunda não chorei mais.

— Por quê parou de chorar na décima segunda?

— Porque na décima segunda eu entendi que ia cair de novo e chorar não ia mudar isso. — Ele olhou pro copo. — Tinha quatro anos. Demorou um pouco mais do que devia pra aprender isso, em retrospecto.

Lara ficou olhando pra ele.

Quatro anos. Uma queda, duas, doze, e na décima segunda uma decisão silenciosa de parar de resistir ao inevitável e só continuar. Ela ficou pensando em quantas versões adultas e complicadas daquela mesma lição ele tinha repetido desde então — no gelo, no vestiário, na arena, em entrevistas depois de derrota, com cinco horas de sono e o indicador roxo e os olhos mais fundos.

— Você gosta ainda — ela disse. Não era pergunta.

— Mais do que qualquer outra coisa. — Sem hesitação. — Mesmo nas noites ruins. Talvez mais nas noites ruins, porque é quando eu me lembro por que escolhi isso e não o contrário.

— O que você quer dizer?

— Que o hockey me escolheu antes de eu ter idade pra escolher de volta. — Ele pausou, como se estivesse organizando algo que não costumava colocar em palavras. — Mas em algum momento, não sei quando exatamente, eu escolhi de volta. Com tudo. E essa escolha é minha independente do resto.

Lara ficou com aquilo.

Escolher de volta. Com tudo.

Ela tinha passado trinta e quatro anos esperando que a vida fizesse escolhas por ela — o emprego certo, o caminho certo, a hora certa — e quando finalmente tinha feito uma escolha própria, tinha sido pra um lugar onde nevava menos seis graus e ela não conhecia ninguém e havia um rapaz de vinte anos no banco do seu balcão falando de quedas no gelo com quatro anos como se fosse a coisa mais natural do mundo.

— O que foi? — ele perguntou.

Ela percebeu que estava olhando pra ele de um jeito diferente. Não tentou disfarçar a tempo.

— Nada. — Ela se endireitou, pegou a xícara. — Você devia comer alguma coisa antes do treino.

— Provavelmente.

— Priya faz um pão de queijo que não é exatamente pão de queijo porque ela é indiana-canadense e fez adaptações que eu prefiro não investigar, mas funciona.

Ele ficou olhando pra ela com aquele traço de humor que aparecia raramente e por isso valia mais.

— Pão de queijo — ele repetiu, com a pronúncia portuguesa ainda irregular mas presente — da Priya indiana-canadense com adaptações não investigadas.

— É o que tem.

— Então sim.

Priya trouxe o pão de queijo sem ser chamada, com a expressão neutra de quem não estava ouvindo nada e portanto não tinha nada a comentar, e voltou pra cozinha com aquela discrição que Lara estava começando a entender que era uma das formas de amor da Priya.

Ele comeu devagar.

A cafeteria foi enchendo com o horário da manhã — o homem do jornal físico, duas universitárias com laptops, um casal de idosos que vinha toda quinta — e Lara foi e voltou, serviu, trocou xícaras, fez o que tinha que fazer, e de vez em quando voltava ao balcão e ele ainda estava lá, sem pressa, como alguém que tinha encontrado um lugar onde o ritmo da cabeça ficava mais lento.

Na hora de ir — eram quase nove, ela viu no relógio — ele deixou o dinheiro de sempre e ficou parado um segundo antes de se levantar.

— Lara.

— Nolan.

— Obrigado. — Ele disse isso olhando pra ela de frente, sem o meio sorriso, sem a leveza de outras manhãs. — Por perguntar do começo.

Ela não sabia o que fazer com gratidão direta. Nunca tinha sabido.

— Você me contou sobre Edmonton — ela disse. — Era minha vez.

Ele ficou com isso por um segundo.

Assentiu.

Foi embora.

Priya saiu da cozinha trinta segundos depois com a expressão de quem esperou tempo educado.

— Ele ficou duas horas — disse ela.

— Eu sei.

— Ele nunca ficou duas horas.

— Eu sei, Priya.

— E você ficou apoiada no balcão conversando com ele em vez de atrás do balcão trabalhando.

— A cafeteria não pegou fogo.

— Não. — Priya pegou um pano e começou a limpar uma superfície que não precisava. — Como ele estava?

Lara pensou na luz regulada pra baixo. No indicador roxo. Nos quatro anos e a décima segunda queda.

— Cansado — disse ela. — Mas do jeito que pessoas fortes ficam cansadas. Por dentro, sem mostrar muito.

Priya parou de limpar.

Olhou pra ela com uma atenção diferente.

— O que foi? — Lara disse.

— Nada. — Priya voltou a limpar. — É que você acabou de descrevê-lo como se o conhecesse de verdade.

Lara abriu a boca.

Fechou.

Pegou o pano do ombro e foi limpar o outro lado do balcão sem responder, porque às vezes a única resposta honesta é não dar nenhuma.

E porque Priya estava certa, e as duas sabiam disso, e dizer em voz alta ia tornar real de um jeito que ela ainda não estava pronta.