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10 O Medo Bom
Ela esperou dois dias.
Não foi planejado — não havia um prazo, não havia uma decisão consciente de vou esperar dois dias antes de ligar. Foi só que na sexta ela acordou e não estava pronta, e no sábado acordou e ainda não estava, e no domingo de manhã acordou com o céu de Edmonton daquele branco específico que prometia neve e ficou olhando pro teto por vinte minutos e então pegou o celular.
A diferença de fuso era de quatro horas.
No Brasil eram quase onze da manhã — horário de domingo de mãe, que em casa significava a cozinha cheirando a almoço que começava cedo e o pai com o jornal e o som de alguma coisa no fogão que levava tempo.
Discou.
Dois toques.
— Minha filha.
A voz da mãe tinha aquela qualidade específica de vozes que você conhece antes de conhecer qualquer outra coisa — mais antiga que memória, mais funda que saudade. Lara fechou os olhos por um segundo.
— Oi, mãe.
— Estava pensando em você hoje cedo. Sonhei com neve.
— Está nevando aqui agora. — Ela olhou pela janela. Estava mesmo, levemente, aquela neve fina de domingo. — Como você está?
— Bem. Seu pai está tentando consertar a torneira do banheiro faz três semanas. — Uma pausa com sorriso embutido. — Vou chamar o encanador na segunda sem contar pra ele.
Lara riu.
Ficaram em silêncio por um momento do tipo bom — o silêncio de pessoas que não precisam preencher.
— Conta — disse a mãe.
— O quê?
— Você não liga no domingo de manhã pra falar de neve. — Simples, sem pressão. — Pode contar.
Lara ficou olhando pro teto.
Por onde começava.
Começou pelo começo — a cafeteria, o banco do balcão, o americano sem açúcar, a conversa sobre Edmonton que não era Rio e não era São Paulo. A mãe ouviu sem interromper, que era a forma dela ouvir quando sabia que havia mais por vir.
Contou o jogo. Contou a livraria e o poutine e o parque. Contou a foto e os comentários e ficou em silêncio por um segundo antes de contar o que os comentários diziam, e a mãe ficou em silêncio também, e esse silêncio tinha uma temperatura diferente — não raiva exatamente, mas algo que se contraiu.
Contou a Susan — a gentileza dela, os olhos verde-acinzentados, o cuidadosa com você mesma que tinha ficado rodando sem pedir.
Contou os três segundos.
Quando terminou o quarto estava mais claro — a neve lá fora tinha parado e aquela luz branca de domingo de novembro entrava pela janela com a honestidade típica do inverno canadense, sem filtro, sem dourado, só luz direta.
A mãe ficou em silêncio por um momento.
— Quantos anos você disse que ele tem?
— Vinte.
— E você trinta e quatro.
— Sim.
Outro silêncio.
— Lara.
— Mãe, eu sei o que você vai—
— Você não sabe. — A voz era calma, daquele jeito que a mãe ficava calma quando estava dizendo algo que considerava importante. — Deixa eu falar.
Ela ficou quieta.
— Você me ligou esperando que eu dissesse que é complicado demais. Que a diferença é grande. Que você deve ser cuidadosa. — Uma pausa. — Que volte pro roteiro.
Lara não respondeu.
— Eu não vou dizer isso.
— Mãe—
— Eu vou te contar uma coisa que nunca contei. — A voz da mãe mudou levemente — ficou mais funda, mais dentro. — Quando eu tinha vinte e dois anos, antes de conhecer seu pai, fiquei dois anos tentando convencer a mim mesma de que não gostava de um rapaz porque todo mundo ao redor tinha uma opinião sobre ele. Não era nada parecido com a sua situação — era só opinião de gente que achava que sabia o que era certo pra mim. E eu ouvi. — Uma pausa. — Casei com seu pai e sou feliz, não estou dizendo que foi errado. Mas aqueles dois anos em que fiquei me convencendo de que o que eu sentia estava errado — essa é a parte que eu não quero pra você.
Lara ficou parada.
— Você ficou me vendo fazer isso a vida inteira — disse a mãe. — Convencer a si mesma de que o que sentia estava errado. Que era cedo, que era tarde, que não era a hora, que não era o tipo certo de coisa pra sentir. — A voz ficou mais quieta. — Eu me culpei por isso durante anos. Achei que tinha ensinado isso sem querer.
— Mãe, você não—
— Deixa eu terminar. — Uma pausa pequena. — Quando você me contou do Canadá, do emprego, das economias, eu podia ter dito que era arriscado. Era arriscado. Mas eu vi nos seus olhos — mesmo pelo telefone, eu sei como sua voz fica quando você está viva de verdade — que era a primeira vez em muito tempo que você estava fazendo alguma coisa porque queria e não porque era o que se fazia.
Lara estava com a mão na testa sem ter percebido que tinha colocado.
— Então me conta uma coisa — disse a mãe. — Não o que faz sentido, não o que é razoável, não o que a mídia pensa ou o que a mãe dele disse ou o que você acha que deveria sentir. — Uma pausa. — Como você se sentiu nos três segundos?
Silêncio.
O quarto estava muito quieto.
Lá fora Edmonton existia com aquela seriedade toda, cinza e branca e honesta, sem pedir nada.
— Com medo — disse Lara. — Mas do tipo que é diferente. — Ela pausou, tentando encontrar a palavra certa. — Do tipo que você sente quando está na beira de algo alto e olha pra baixo e o estômago vai, mas você não quer sair da beira.
A mãe ficou em silêncio por um momento.
— Eu sei exatamente esse medo — disse ela. — Esse é o bom.
Lara fechou os olhos.
— E se eu me machucar?
— Vai se machucar. — Direta, sem crueldade. — Mas Lara — a voz ficou mais perto, como se a mãe tivesse se inclinado pra frente em alguma cadeira de BH a seis mil quilômetros de distância — você já se machuca. Você se machuca toda vez que fecha uma gaveta que devia estar aberta. A diferença é que esse machucado não aparece em foto e ninguém posta comentário sobre ele.
Lara ficou com isso.
O sol de domingo de Edmonton entrou pela janela num ângulo diferente de repente — nuvem que passou, luz que mudou — e o quarto ficou mais claro por um momento antes de voltar ao branco de sempre.
— Você e papai vão achar estranho — disse ela. — Quatorze anos de diferença.
— Seu avô era oito anos mais novo que sua avó — disse a mãe, com uma leveza que tinha timing. — Ninguém falava sobre isso porque ele era homem. — Uma pausa. — O mundo tem muitas regras que só existem porque ninguém parou pra perguntar por que existem.
Lara ficou em silêncio.
— E o pai? — ela perguntou.
Uma pausa curta.
— Seu pai vai querer saber se ele é bom pra você. — A mãe falou com aquele sorriso embutido de novo. — Não vai perguntar a idade. Vai perguntar se ele te olha direito.
— Como assim te olha direito?
— Você sabe o que significa.
Ela sabia.
Ficou em silêncio por um momento.
— Ele leu Clarice por causa de mim — disse ela, mais baixo, como se estivesse testando como soava em voz alta.
A mãe ficou quieta por um segundo.
— Conta mais sobre ele — disse ela.
E Lara contou.
Ficaram quarenta minutos no telefone.
A mãe fez perguntas — não as perguntas de mãe preocupada, as perguntas de pessoa curiosa, genuinamente curiosa, sobre o hockey e Edmonton e o Walter da livraria e o poutine que não era exatamente o que se esperava mas funcionava mesmo assim. Perguntou sobre a Priya com o carinho de quem adotou alguém à distância. Perguntou se o casaco novo era quente de verdade ou só bonito.
No final, quando a conversa estava se despedindo naturalmente, a mãe disse:
— Lara.
— Mãe.
— Para de fugir.
Simples assim. Sem peso adicional, sem alongamento. A frase caiu no silêncio e ficou lá, com aquela qualidade das coisas ditas por pessoas que te conhecem desde antes de você se conhecer.
— Estou tentando — disse Lara.
— Eu sei. — Uma pausa. — Três segundos já é diferente de zero.
Lara fechou os olhos por um momento.
— Você e o Nolan vão se dar bem — ela disse sem pensar.
A mãe riu — aquele riso dela, fundo e real.
— Manda foto quando tiver coragem. Não de vocês dois necessariamente. Só de Edmonton. Seu pai ainda está esperando nevar de verdade.
— Vou mandar.
— Te amo, minha filha.
— Te amo, mãe.
Desligou.
Ficou sentada na cama por um tempo sem fazer nada específico.
Alberta ficava em cima da cômoda com a serenidade vegetal de sempre, e Lara ficou olhando pra planta com aquela atenção vaga de quem está pensando em outra coisa mas precisa de um ponto de foco.
Para de fugir.
Dito pela mulher que a conhecia melhor do que qualquer pessoa. Que tinha visto cada gaveta fechada, cada saída verificada antes de entrar, cada escolha feita pelo roteiro em vez de pelo desejo. Que tinha dito vai com duas palavras e mudado tudo.
Pegou o celular.
Abriu a conversa com Nolan — as últimas mensagens, o boa noite trocado depois da visita da mãe dele, curtas e quietas como eram às vezes.
Ficou olhando por um momento.
Não digitou nada.
Mas não fechou a conversa.
Ficou com ela aberta, o nome dele no topo da tela, e foi fazer café com o celular pousado na bancada da cozinha com a tela ainda acesa, e quando voltou a tela tinha apagado mas a conversa continuava aberta por baixo.
Era pouco.
Era diferente de fechar.
Por hoje era o suficiente.
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