Off Script
11 Sem Armadura
Era terça à noite.
Priya tinha saído cedo — aniversário de uma amiga, jantar do outro lado da cidade, com aquela energia de quem se arruma com alegria e sai deixando o apartamento cheirando ao perfume que usou. Lara tinha ficado com o plano vago de ler, talvez dormir cedo, talvez não fazer nada de forma produtiva e não se culpar por isso.
Tinha conseguido as três coisas por aproximadamente quarenta minutos.
Depois ficou inquieta.
Era o tipo de inquietação sem objeto específico — não havia nada errado, não havia nada pendente, era só aquela energia que às vezes aparecia sem avisar e que ela normalmente resolvia trabalhando ou organizando alguma coisa ou lendo com mais afinco. Mas o livro não estava segurando, a cozinha já estava organizada, e trabalho não havia.
Colocou o casaco.
Saiu.
Edmonton à noite em novembro era uma cidade diferente da Edmonton de dia.
Mais quieta, mais funda, com aquela luz laranja dos postes sobre a neve que criava uma atmosfera que ela tinha tentado descrever pra mãe no telefone e não tinha conseguido completamente — era o tipo de coisa que precisava ser vista, que pertencia ao lugar de uma forma que palavras não transportavam.
Caminhou sem destino específico.
Tinha aprendido a fazer isso — havia chegado no Canadá sendo o tipo de pessoa que não saía sem saber onde ia e por quanto tempo e qual era o plano de volta, e Edmonton tinha ido desgastando isso aos poucos, com a paciência de cidade fria que não se importa com o seu cronograma.
Passou pela cafeteria fechada — as luzes apagadas, a placa no vidro virada pro closed, e havia algo estranho em ver o lugar sem movimento, como encontrar uma pessoa que você conhece dormindo.
Continuou.
Chegou sem perceber completamente na direção do parque.
Ele estava na ponte.
Ela o viu antes de ele vê-la — estava apoiado no parapeito, de costas pra ela, olhando pro rio com aquela postura de sempre, só que diferente porque era noite e ele estava sozinho e não havia balcão nem cafeteria nem contexto nenhum, só um rapaz de vinte anos numa ponte de Edmonton às dez da noite olhando pra água parcialmente congelada.
Ela parou.
Tinha duas opções — continuar e ser vista, ou virar e ir embora sem que ele soubesse que esteve ali.
Ficou parada por um segundo que foi honesto consigo mesmo.
Continuou.
Os passos na neve compactada faziam barulho suficiente — ele virou antes que ela chegasse, e quando viu quem era ficou parado por um momento com uma expressão que ela não tinha visto antes. Não era surpresa exatamente. Era a expressão de alguém que estava em algum lugar muito dentro de si mesmo e de repente se vê menos sozinho do que esperava.
— Lara.
— Nolan.
Chegou do lado dele, apoiou os cotovelos no parapeito, olhou pro rio.
Não disse o que você está fazendo aqui nem que coincidência nem nenhuma das frases que preenchiam espaços. Ficou ali, com o frio sério de novembro e a luz laranja dos postes e o rio lá embaixo com aquele verde-cinza escuro de água fria à noite.
Ele ficou em silêncio por um momento.
— Jogo amanhã — disse ele. — Não consigo dormir antes de jogo.
— Eu sei.
— Venho aqui às vezes. — Ele olhou pro rio. — Fica quieto. A cabeça para um pouco.
Ela olhou pra ele de lado.
Havia algo diferente nele aqui — não a rachadura da derrota, não o cansaço das cinco horas de sono. Era mais como a versão dele sem as camadas que o contexto colocava. Sem o time, sem o número 29, sem o empresário e o relatório de alcance e as dezoito mil pessoas. Só ele, numa ponte, tentando fazer a cabeça parar um pouco antes de um jogo.
Vinte anos, ela pensou.
Não como distância. Como fato simples e real — vinte anos, e já sabia encontrar o lugar onde ficava quieto. Ela tinha levado muito mais tempo pra aprender isso, e ainda estava aprendendo.
— Sobre o outro dia — ela disse.
— Não precisa.
— Preciso. — Ela ficou olhando pro rio. — Não fugi de você. Quero que você saiba isso.
Ele ficou em silêncio.
— Fugi de mim — ela continuou. — É diferente mas eu sei que do lado de fora não parece. — Uma pausa. — Passei a vida inteira fazendo isso. É o único jeito que sei. — Ela respirou o ar frio. — Estou tentando aprender outro.
O silêncio que se seguiu era diferente dos anteriores todos.
Era o silêncio de depois de uma coisa verdadeira dita em voz alta — mais pesado e mais leve ao mesmo tempo, com aquela qualidade específica de quando você coloca no mundo algo que estava guardado e o mundo não acaba.
— Eu sei — disse ele.
— Você não pode saber, você tem—
— Vinte anos, eu sei. — Ele disse isso sem defesa, só reconhecimento. — Mas eu te vejo faz semanas, Lara. Não preciso de décadas pra ver como você funciona.
Ela ficou em silêncio.
— Você verifica a saída antes de entrar em qualquer lugar — ele disse, devagar, como alguém que está colocando em palavras algo que observou em silêncio por tempo suficiente. — Você ri e depois contém, como se tivesse ultrapassado um limite que você mesma colocou. Você faz perguntas sobre os outros porque é mais seguro do que ser perguntada. — Uma pausa. — E quando algo te assusta de verdade você não some de forma dramática. Você só fica menor. Discretamente. Sem ninguém notar.
Ela estava olhando pra ele.
Ele estava olhando pro rio.
— Eu noto — disse ele. Simples.
Ela ficou com aquilo — com cada palavra, com o peso específico de ser visto de uma forma que não havia pedido e que mesmo assim não doía, que era diferente de ser exposta, que era mais como alguém acendendo uma luz num cômodo que você conhece de cor no escuro e perceber que não havia nada assustador lá dentro.
— Como você faz isso? — ela perguntou.
— O quê?
— Falar as coisas assim. Direto. Sem — ela procurou a palavra — sem precisar de armadura.
Ele ficou em silêncio por um momento.
— Não sei fazer diferente — disse ele. — Tentei quando era mais novo. Fingir que não queria o que queria, não falar o que pensava, ser o que as pessoas esperavam no vestiário, na escola. — Uma pausa. — Durava pouco. É cansativo demais ser outra coisa.
— E nunca deu errado?
— Dá sempre. — Ele virou pra ela finalmente, com aqueles olhos que à noite eram mais escuros, mais indefinidos. — Mas dá errado sendo eu. Prefiro assim.
Lara ficou olhando pra ele.
Havia algo que ela queria dizer e não estava encontrando a forma — não era declaração, não era promessa, era algo menor e mais honesto que os dois, alguma coisa do tipo estou aqui e não estou verificando a saída agora mesmo mas sem essas palavras porque essas palavras eram grandes demais pro frio de novembro numa ponte.
— Você vai ganhar amanhã — disse ela.
Ele ficou olhando pra ela por um segundo.
O traço de humor apareceu.
— Você não sabe nada de hockey.
— Não sei. Mas sei de você um pouco. — Ela olhou pro rio. — Você não dorme antes de jogo, vem pra ponte, fica quieto, e depois vai e converte. — Uma pausa. — É o que você faz.
Ele ficou em silêncio.
Quando ela virou ele estava olhando pra ela com aquela expressão quieta que ela tinha tentado nomear por semanas e que agora, na luz laranja dos postes com o rio embaixo e Edmonton quieta ao redor, ela finalmente tinha nome.
Era cuidado.
Não o cuidado de quem quer proteger. O cuidado de quem presta atenção — de verdade, completamente, sem dividir com mais nada.
Ela não recuou.
Ficaram parados lado a lado por um tempo que ela não mediu, com o frio e o rio e o silêncio que era agora completamente diferente de todos os anteriores — não tinha peso de coisa não dita, não tinha tensão de coisa prestes a acontecer. Era só dois pessoas numa ponte, quietas, sem precisar ser mais do que isso naquele momento.
Quando o frio ficou sério demais ela disse:
— Vai dormir.
— Vou tentar.
— Tenta de verdade.
— Vou tentar de verdade. — O traço de humor de novo. — Você vai assistir amanhã?
Ela pensou.
— Vou checar o placar — disse ela.
— Progresso.
Ela caminhou de volta pela neve compactada com as mãos nos bolsos e aquela leveza estranha de quem deixou algo pesado em algum lugar e só percebeu depois de afastar.
Não olhou pra trás.
Mas dessa vez não olhar pra trás não foi fuga.
Foi escolha.
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