Saiu numa quinta de manhã.

Não era um post de fã desta vez — era um site de esportes com credencial real, daqueles que tinham acesso ao vestiário e às coletivas e que os jogadores liam mesmo quando fingiam não ler. Tinha foto — não a mesma da primeira vez, uma nova, tirada na saída do café na quarta à noite, com uma qualidade de lente que não era celular sem zoom.

Alguém tinha esperado.

A manchete dizia: Carter e a mulher misteriosa — quem é a sortuda que frequenta os jogos do astro?

O texto era longo.

Lara leu duas vezes — a primeira rápido, de forma automática, o cérebro varrendo em busca de informação concreta. A segunda devagar, palavra por palavra, com aquela atenção sistemática que às vezes trabalhava contra ela.

A tinham descoberto. Inclusive que trabalhava na Ember. Havia uma foto da cafeteria — tirada de fora, pela vitrine, com ela visível atrás do balcão num momento que ela não soube identificar quando tinha sido.

O texto em si era cuidadoso da forma que textos calculados são cuidadosos — sem acusação direta, sem crueldade explícita, mas com aquele tom de apresentamos os fatos e deixamos você concluir que era mais difícil de nomear e igualmente eficaz.

“Carter, que sempre manteve a vida pessoal discreta, parece ter encontrado companhia fora dos círculos habituais do hockey. A fonte próxima ao jogador que preferiu não se identificar descreveu o relacionamento como ‘algo que o time está monitorando com atenção, dado o momento crítico da temporada.”

Fonte próxima ao jogador.

Ela ficou com essa frase.

Pousou o celular.

Priya tinha lido antes de Lara acordar — ela viu isso na expressão quando desceu pra cozinha, no café já pronto e na forma que Priya estava parada apoiada na bancada com os braços cruzados e aquela postura de quem está segurando várias coisas ao mesmo tempo.

— Eu vi — disse Lara.

— Eu sei.

Silêncio.

— Fonte próxima ao jogador — disse Lara.

— Pode ser qualquer pessoa. Assessoria do time, alguém do vestiário, alguém da organização. — Priya descruzou os braços. — Pode ser ninguém, pode ser invenção pra dar credibilidade ao texto.

— Ou pode ser alguém real.

Priya não respondeu.

Era a parte mais difícil — não os comentários de fãs, não a foto granulada, não a curiosidade anônima da internet. Era a possibilidade de que dentro do mundo dele houvesse pessoas olhando pra isso com a expressão de problema a ser gerenciado.

Dado o momento crítico da temporada.

Como se ela fosse uma variável de risco.

Lara pegou o café que Priya tinha feito e ficou olhando pela janela. A rua de novembro estava com aquela neve compactada nas bordas que ficava cinzenta com o tempo e o céu do tipo branco que não prometia nada específico.

— O que você vai fazer? — perguntou Priya.

— Trabalhar — disse Lara. — O que sempre faço.

…

Ele entrou na cafeteria às sete e dezoito.

Ela ouviu a campainha e não virou imediatamente — terminou o que estava fazendo, organizou a xícara com aquela calma que era real e construída ao mesmo tempo, e só então virou.

Ele estava diferente.

Não dos outros dias — não a diferença de derrota ou cansaço de viagem. Era outra coisa, mais acesa, mais próxima da superfície. A postura era a mesma mas havia uma tensão nos ombros que ela reconheceu como algo que ele normalmente não trazia pra cá.

Chegou no banco.

Ela preparou o americano sem falar.

Pousou na bancada.

Ele olhou pro copo por um segundo.

— Você leu — disse ele.

— Li.

— Lara—

— Não precisa se desculpar.

— Não estava me desculpando. — A voz estava diferente, controlada, mas com aquele esforço específico de controle que revela que há algo sendo controlado. — Estava com raiva.

Ela ficou em silêncio.

— Do artigo? — ela perguntou.

— Do artigo. Da fonte. Do fato de que alguém do meu mundo — ele pausou, e ela viu o esforço — achou que tinha o direito de transformar você em pauta.

Era a primeira vez que ela via raiva nele.

Não era explosiva — não havia nada quebrado, não havia voz levantada. Era aquela raiva funda de pessoa contida, que ficava no tom mas mudava a textura de cada palavra, que era de certa forma mais séria do que a versão gritada.

— Você sabe quem foi? — ela perguntou.

— Tenho ideia. — Ele pegou o copo, não bebeu. — Não tenho certeza.

— O que vai fazer?

— Conversar. — Uma pausa. — Do jeito certo, sem criar mais problema do que já existe.

Ela ficou olhando pra ele.

Havia algo nessa resposta que dizia mais do que as palavras — a consciência de que havia um jeito certo e um errado, a escolha pelo que era mais difícil, a raiva real sendo colocada dentro de um limite que ele mesmo colocava.

Vinte anos, ela pensou.

Não como distância. Como assombro.

— Nolan.

Ele ergueu os olhos.

— A parte da fonte — ela disse, devagar. — O time está monitorando com atenção dado o momento crítico da temporada. — Ela pausou. — Isso é verdade?

Ele ficou em silêncio por um momento que foi honesto.

— Há pessoas na organização que preferiam que minha vida pessoal fosse mais simples agora. — Ele disse isso direto, sem enfeite. — Não é política oficial. É pressão informal. É o tipo de coisa que não é dita mas está no ar.

— E você?

— E eu não gerencio minha vida por pressão informal.

Ela ficou com aquilo.

— Mas tem custo — disse ela. Não era pergunta.

— Tem. — Ele não desviou. — Sempre tem custo. A questão é se vale.

O salão estava começando a encher — o homem do jornal, as universitárias com laptops, o casal de idosos de quinta. A cafeteria acordando com o ritmo de sempre, indiferente ao artigo e à fonte e à pressão informal e a tudo que existia do lado de fora daquelas paredes de tijolo.

— Vale? — ela perguntou.

Ele ficou olhando pra ela por um momento.

— Você foi ao jogo sozinha na quarta — disse ele. — Ficou uma hora e meia num café pequeno depois da meia-noite. Segurou minha mão no frio. — Uma pausa. — Você me pergunta se vale?

Ela abriu a boca.

Fechou.

Havia algo que ela queria dizer e que ficou parado no meio do caminho — não por medo desta vez, mas porque as palavras não eram suficientes pro tamanho da coisa, e ela estava aprendendo que algumas coisas vivem melhor antes de serem ditas.

— O artigo vai ficar no ar — disse ela, escolhendo o concreto.

— Vai.

— Vão escrever mais.

— Provavelmente.

— E a fonte — ela olhou pro balcão — pode ser alguém que você confia.

— Pode. — Ele disse isso com o peso de quem já ficou com essa possibilidade por tempo suficiente. — Não seria a primeira vez que o mundo de dentro complica mais do que o de fora.

Ela ficou em silêncio.

Priya saiu da cozinha com a expressão de quem tem algo legítimo pra fazer no salão e foi fazer com uma concentração que era generosidade disfarçada.

— Nolan — disse Lara, mais baixo.

— Sim.

— Você está bem?

A pergunta saiu antes de ser filtrada — simples, direta, sem as camadas que ela normalmente colocava em cima das coisas que queria saber de verdade.

Ele ficou com ela por um segundo.

E havia algo na forma que ele ficou — um segundo a mais, com aquela guarda que existia mesmo nele baixando levemente — que disse mais do que qualquer resposta.

— Fico melhor aqui — disse ele.

Simples assim.

Ela não disse nada.

Mas ficou do lado de cá do balcão em vez de ir pra longe, e continuou o trabalho com ele ali, e nenhum dos dois precisou transformar isso em mais do que era.

À tarde Priya fechou o laptop com a expressão de missão cumprida.

— Mandei uma solicitação de remoção pro site — disse ela. — Por uso de imagem comercial sem autorização. A foto da cafeteria viola a política deles.

Lara parou.

— Você fez isso?

— Alguém precisava fazer algo concreto e você estava lavando xícara com muita energia pra ser só limpeza. — Priya abriu o laptop de novo. — Não garanto que tirem. Mas custou dez minutos e pelo menos fizemos alguma coisa.

Lara ficou olhando pra ela.

— Priya…

— Não precisa.

— Preciso. — Ela foi até o balcão. — Obrigada.

Priya fez aquele gesto de dispensar com a mão que era afeto na linguagem dela.

— É o que se faz — disse ela. — Por pessoas que importam.

Lara ficou com aquilo.

Pessoas que importam.

Havia um inventário que ela estava fazendo sem querer — mentalmente, sem papel, sem ordem específica — de tudo que tinha chegado desde Edmonton. Priya e a planta chamada Alberta e o poutine, a neve, a livraria do Walter, a ponte e o café pequeno aberto até meia-noite, uma mão quente no frio e uma raiva funda e contida num banco de balcão e a pergunta, “você está bem?” que saiu sem ser filtrada.

Era muita coisa pra dois meses.

Era muita coisa pra uma vida inteira de roteiro.

Ela foi lavar as xícaras com energia normal desta vez.

E ficou com tudo aquilo sem fechar nenhuma gaveta — deixou aberto, deixou pesar, deixou ser real da forma que coisas reais pesam quando você para de fingir que não pesam.

Era desconfortável.

Era completamente diferente de estar dentro do roteiro.

Era, ela admitiu em silêncio pela primeira vez de forma clara e direta e sem qualificação nenhuma, exatamente onde ela queria estar.