Era sábado à noite.

Priya tinha saído de novo — ela tinha uma vida social que Lara admirava com a distância de quem ainda estava construindo a própria — e o apartamento estava com aquele silêncio específico de lugar que normalmente tem mais gente.

Lara estava no sofá com o livro que tinha comprado na livraria do Walter, o que ela não tinha reconhecido na capa e que tinha resultado ser um romance de um autor canadense dos anos setenta que escrevia sobre inverno com uma intimidade que ela estava entendendo só agora que entendia o inverno.

Estava no meio de um parágrafo quando o celular vibrou.

"Estou na sua rua. Tudo bem?"

Ela ficou olhando pra mensagem.

"Tudo bem", ela digitou.

Três minutos depois bateram na porta.

Ela abriu sem pensar muito — estava de meias, calça de moletom cinza, aquela blusa velha de faculdade que tinha trazido do Brasil porque era a mais confortável que possuía e que nunca usaria na frente de ninguém que quisesse impressionar.

Esse pensamento chegou meio segundo depois de abrir a porta.

Ele estava no corredor com o casaco ainda fechado, o cabelo levemente bagunçado pelo vento, e aquela expressão de sempre — quieta, presente, sem pedir desculpa por estar ali.

— Oi — disse ela.

— Oi.

Ficaram parados por um segundo.

— Você pode entrar — disse ela.

— Posso? — Não era ironia. Era a pergunta real, com o peso real que ele sempre colocava nas coisas que perguntava de verdade.

— Pode.

Ele entrou.

O apartamento era pequeno e ele era grande e havia uma diferença específica entre imaginar alguém num espaço e tê-lo de fato nele. Ela tinha pensado nele aqui antes — de forma involuntária, da forma que o cérebro faz coisas que você não pediu — mas era diferente agora com o casaco no gancho da entrada e os pés grandes no chão de madeira e a presença dele reorganizando o ar do lugar.

— Priya não está — disse ela, porque precisava dizer alguma coisa.

— Não precisa de explicação.

— Não era explicação. Era informação.

O traço de humor.

Ela foi pra cozinha sem um plano específico — aquele instinto de ter algo pra fazer com as mãos — e ele ficou na sala, não sentou, ficou parado olhando as coisas com aquela atenção quieta que ela conhecia do balcão.

— Pode sentar — ela disse da cozinha.

— Estou vendo suas coisas.

— Minhas coisas não são interessantes.

— São. — Uma pausa. — Você tem muitos livros pra alguém que trouxe só uma mochila.

— Fui comprando.

— O da livraria do Walter está aqui.

— Está. — Ela saiu da cozinha com dois copos de água porque era o que tinha na cabeça. — Você foi lá essa semana?

— Fui. — Ele pegou o copo. — O Walter perguntou de você.

— Sério?

— Disse que você tem bom gosto. — O traço de humor ficou um segundo. — Pra ele isso é equivalente a uma declaração de amor.

Ela riu.

Ele ficou com o riso por um segundo com aquela expressão que ela já tinha nome agora — cuidado, atenção completa, sem dividir com mais nada.

Sentaram no sofá — ela de um lado, ele do outro, com o espaço de uma pessoa entre os dois que era espaço de escolha, não de distância.

— Por que você veio? — ela perguntou.

Ele ficou com a pergunta.

— Tinha um jogo cancelado — disse ele. — Treino terminou cedo. Fiquei no apartamento por duas horas tentando fazer alguma coisa útil e não consegui. — Uma pausa. — Pensei em você.

— E veio.

— E vim.

Ela ficou olhando pra ele.

Havia algo nessa simplicidade que ela ainda estava aprendendo a receber — a ausência de camadas, de estratégia, de cálculo. Ele tinha pensado nela e vindo. Sem mais.

— Você faz isso — disse ela.

— O quê?

— Age. — Ela olhou pro copo nas mãos. — Pensa e age. Sem ficar verificando se é o momento certo ou se faz sentido ou se a outra pessoa vai achar estranho.

— Você acha estranho?

— Não. — Ela pausou. — Acho diferente de tudo que conheço.

Ele ficou em silêncio por um momento.

— Como era? — ele perguntou. — Antes do Canadá. A vida dentro do roteiro.

Ela ficou com a pergunta — não a defensiva de quem está sendo examinada, a receptiva de quem reconhece uma pergunta feita com cuidado.

— Previsível — disse ela. — No sentido bom e no sentido ruim. Eu sabia o que ia acontecer na segunda, na quinta, no próximo mês, no próximo ano. — Ela olhou pela janela. — Nunca pulava. Nunca perdia o chão. Mas também nunca — ela procurou a palavra — nunca ficava com aquela coisa que você sente quando está na beira de algo alto.

— O estômago que vai.

Ela virou.

Ele estava olhando pra ela com aquele olhar de noite, mais escuro, mais fundo.

— Você lembrou — disse ela.

— Lembro de tudo que você diz.

O apartamento estava quieto. Edmonton lá fora com o frio de sempre, o silêncio de sábado à noite de cidade que recolhe cedo no inverno.

— Nolan.

— Sim.

— Por que você — ela começou e parou, reorganizou — por que você continua aparecendo? Depois de tudo. A foto, o artigo, eu recuando, a pressão do time. — Ela olhou pra ele de frente. — Por que continua?

Ele ficou com a pergunta por um tempo real — não o silêncio de quem está formulando a resposta certa, o silêncio de quem está sendo honesto consigo mesmo antes de ser honesto em voz alta.

— Porque você é a única pessoa — disse ele, devagar — que me olha e vê o rapaz do americano sem açúcar. — Uma pausa. — Todo o resto do mundo tem uma versão de mim que precisam que eu seja. Você não precisou de nenhuma desde o primeiro dia.

Ela ficou completamente parada.

Havia algo naquilo que chegou de uma forma que ela não tinha armadura suficiente pra filtrar — porque era verdade, porque ela tinha de fato não sabido quem ele era por semanas, porque tinha visto o rapaz antes de ver o jogador, e porque isso que ela tinha achado que era ingenuidade sua tinha sido, sem saber, a coisa mais importante.

— Lara — disse ele.

A voz estava diferente. Mais quieta, mais perto.

Ela virou.

Ele estava olhando pra ela com aqueles olhos e havia alguma coisa que tinha mudado no espaço entre eles — não fisicamente, o espaço era o mesmo, mas havia uma qualidade diferente no ar, aquela qualidade específica de momento antes de algo que não tem nome até depois.

Ela não verificou a saída.

Não fechou a gaveta.

Ficou parada com o coração naquele ritmo que não era o dela normalmente e olhou pra ele de volta com tudo, sem diminuir, sem recuar, e então o espaço entre eles ficou menor sem que nenhum dos dois tivesse decidido — foi gradual, foi os dois ao mesmo tempo, foi nenhum dos dois decidindo e os dois chegando no mesmo lugar.

O beijo durou talvez três segundos.

Leve. Quieto. Sem pressa e sem peso excessivo — só o contato, só a temperatura, só o fato simples e enorme de estar ali.

Quando se separaram ficaram parados com as testas quase se tocando por um momento.

Ela estava com os olhos fechados.

Abriu.

Ele estava olhando pra ela de perto, daquele perto que muda a escala de tudo, e havia na expressão dele algo que ela não tinha visto antes — não o cuidado quieto de sempre, algo mais aberto, mais dentro, como alguém que também estava calibrando o tamanho do que tinha acabado de acontecer.

Nenhum dos dois disse nada.

Era o tipo de momento que palavras tornariam menor.

Ela respirou.

Ele respirou.

E então ela colocou a cabeça no ombro dele — um gesto pequeno, quase tímido, completamente diferente de tudo que ela tinha feito até agora — e ele ficou absolutamente parado, como alguém que não quer mover um milímetro com medo de acabar com alguma coisa frágil.

Ficaram assim por um tempo que ela não mediu.

Edmonton do lado de fora. O apartamento quieto. Alberta em cima da cômoda no quarto ao lado.

— Nolan — ela disse, muito baixo.

— Sim.

— Não fugi.

Ela sentiu mais do que viu — um movimento leve no ombro dele que era o traço de humor chegando numa versão que não precisava de rosto pra existir.

— Não fugiu — ele confirmou.

Ela fechou os olhos de novo.