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5 Fora do Horário


Era sábado.

A cafeteria fechava às quatro nos sábados — decisão de Priya, que considerava sagrado ter pelo menos meio dia de fim de semana, e que Lara tinha adotado sem resistência porque sábado à tarde em Edmonton tinha uma qualidade específica de luz que ela ainda estava aprendendo a aproveitar. Dourada e baixa mesmo ao meio-dia, o sol canadense de outubro que não aquecia mas iluminava tudo de um ângulo que fazia as coisas parecerem mais antigas do que eram.

Elas estavam fechando — Priya varrendo, Lara recolhendo as cadeiras — quando a campainha soou.

— Fechado — Priya falou sem virar, no tom automático de quem já disse isso duzentas vezes.

— Eu sei.

Lara virou.

Nolan estava na porta com as mãos no bolso do casaco, sem o gorro dessa vez, o cabelo levemente bagunçado pelo vento lá fora. Não tinha o ar de quem entrou sem querer — tinha o ar de quem chegou com intenção e estava confortável com isso.

Priya virou devagar. Olhou pra ele. Olhou pra Lara. Voltou pra ele.

— Acabamos de fechar — disse ela.

— Eu sei — ele repetiu. — Não vim pelo café.

Silêncio.

Priya encostou a vassoura na parede com uma calma que era completamente calculada.

— Que coincidência — ela disse. — Eu preciso buscar o fornecimento de amanhã. Agora. — Pegou o casaco do gancho com uma eficiência suspeita. — Vai demorar. Não esperem por mim. — E saiu pela porta dos fundos antes que Lara conseguisse formular qualquer objeção.

A porta dos fundos fechou.

Silêncio diferente agora.

Lara tinha uma cadeira na mão. Continuou colocando a cadeira em cima da mesa porque precisava fazer alguma coisa com as mãos.

— Ela faz isso — disse ela. — Some quando quer.

— Parece útil às vezes.

— Às vezes é conveniente demais. — Ela pegou outra cadeira. — Você disse que não veio pelo café.

— Não vim.

— Então veio por quê?

Ele entrou mais dois passos. Não chegou perto — ficou do lado de cá das mesas, com espaço suficiente pra não ser invasivo, como alguém que calibrou a distância com cuidado.

— Você mencionou que não tinha visto a cidade ainda. Além do trajeto pro trabalho.

Ela parou.

— Mencionei isso?

— Na semana passada. Falei que ia nevar e você disse que ainda não tinha saído muito pra explorar.

Ela tinha dito isso. Numa daquelas conversas de balcão que ela estava começando a perceber que ele guardava com mais atenção do que ela supunha.

— Tenho folga amanhã — ele continuou, com aquela voz que não subia nem descia, que ficava no mesmo tom independente do que estava dizendo. — Posso te mostrar Edmonton. Se você quiser.

Lara ficou com a cadeira suspensa por um segundo.

A gaveta, ela pensou. A gaveta que você fechou três vezes.

— Nolan.

— Lara.

— Você tem vinte anos.

Ele não piscou.

— Tenho.

— E eu tenho trinta e quatro.

— Eu sei.

— Você sabe e está aqui mesmo assim.

— Estou aqui por causa disso, não apesar disso. — Ele disse isso sem drama, sem o peso de uma declaração, como alguém enunciando um fato que considera simples. — Não estou pedindo nada complicado. Estou pedindo pra te mostrar a cidade onde eu cresci pra alguém que acabou de chegar.

Ela o olhou.

Ele a olhou de volta com aquela paciência que ela estava começando a entender que não era passividade — era uma escolha ativa, a decisão de não pressionar, de deixar o espaço e esperar que ela preenchesse.

Era mais difícil de recusar do que teria sido uma insistência.

— Por que você quer fazer isso? — ela perguntou.

Ele considerou a pergunta com seriedade real antes de responder.

— Porque você disse que pulou no jogo sem ter decidido pular. — Uma pausa. — E porque você lê Clarice Lispector no intervalo do trabalho e ficou brava com ela por ter te feito sentir algo. — Outra pausa, menor. — E porque você chegou em Edmonton em outubro, que é a pior época possível pra chegar, e ainda assim parece que você está tentando gostar daqui.

Lara não disse nada.

— Isso é suficiente — ele completou, simplesmente.

Ela disse sim.

Não imediatamente — ficou mais dois minutos terminando de empilhar as cadeiras com uma aplicação que não era necessária, e ele esperou sem parecer que estava esperando, olhando pra janela e pra neve lá fora com aquela calma toda. E então ela disse tudo bem, que horas? e ele disse dez da manhã, eu passo aqui e foi embora.

A campainha da porta soou.

Trinta segundos depois a porta dos fundos abriu e Priya entrou sem o fornecimento que tinha ido buscar.

Lara não virou.

— Você não foi a lugar nenhum — disse ela.

— Fui até a esquina. — Priya pendurou o casaco de volta. — E?

— Ele vai me mostrar a cidade amanhã.

O silêncio de Priya era diferente do silêncio normal. Era um silêncio com textura de sorriso contido.

— Bem — disse ela, pegando a vassoura de volta. — Edmonton é bonita no inverno. Com a pessoa certa, mais ainda.

— Priya.

— Varrendo. Não disse nada.

Lara passou a noite convencendo a si mesma de que era simples.

Era uma cidade nova, ela não conhecia ninguém além de Priya, e um morador local que se oferecia pra mostrar os lugares bons era uma coisa razoável de aceitar. Acontecia. Era o tipo de coisa que acontecia com pessoas que se mudavam pra lugares novos e tentavam se integrar.

O fato de que o morador local tinha vinte anos e olhos verde-acinzentados que mudavam com a luz e tinha dito estou aqui por causa disso, não apesar disso sem pestanejar era um detalhe. Periférico. Não determinante.

Ela dormiu razoavelmente bem.

Acordou às sete e meia, que era tarde pra ela, e ficou dez minutos mais na cama olhando pro teto pensando em coisas que não queria pensar, e então se levantou e foi fazer café porque era isso que se fazia.

Às nove e cinquenta estava pronta — jeans, o casaco verde que o pai tinha mandado ela trocar por um melhor e ela ainda não tinha trocado, cachecol que Priya tinha emprestado porque o dela era fino demais. Ficou parada no espelho do banheiro mais tempo do que o necessário, não por vaidade, mas por aquele hábito de verificar se estava apresentável que vinha de anos de ser a pessoa que não causava problemas.

Você está bem, ela disse mentalmente pra própria imagem. É só a cidade. É só Edmonton.

Alberta, vista pelo reflexo do espelho, ficou em cima da cômoda sem comentar.

Ele apareceu às dez em ponto.

Isso, ela notou, era o tipo de coisa que dizia algo sobre uma pessoa. Não cinco minutos antes, não dois atrasado — dez em ponto, como alguém que respeita o horário que propôs.

Estava diferente fora do contexto do balcão. Jeans escuro, casaco cinza pesado, aquela facilidade de postura que ela já conhecia mas que na rua, sem o balcão entre os dois, ficava mais evidente. Mais alto do que ela lembrava, sempre. Ou ela sempre esquecia entre um dia e outro.

— Pronta? — ele perguntou.

— Pronta.

Caminharam.

Ele não tinha planejado um roteiro — ela percebeu isso cedo, e era diferente do que esperava. Não havia lista de pontos turísticos, não havia eficiência. Era mais como alguém que conhece um lugar de dentro pra fora e vai mostrando o que vai lembrando, sem ordem, sem estrutura.

— Essa rua aqui — ele disse, numa paralela à principal — tem uma livraria no fim que está lá desde antes de eu nascer. O dono conheceu meu pai no hockey mirim. Nunca comprei nada lá mas entro toda vez que passo porque o cheiro é bom.

— Que cheiro?

— Papel velho. Café de manhã. Alguma coisa com madeira.

Ela sorriu sem querer.

— Toda livraria boa tem esse cheiro.

— Você é de livraria?

— Sou de biblioteca, na verdade. Mas o cheiro é parente.

Ele virou pra ela enquanto caminhavam, só um pouco, como se quisesse ver a expressão enquanto ela falava.

— Você trabalhou com o quê no Brasil?

— Gestão em uma empresa de logística. — Ela deixou a frase cair como era, sem enfeite. — Doze anos.

— Doze anos — ele repetiu. Não era julgamento, era dimensionamento. — E você saiu.

— E eu saí.

— Por quê?

Era a pergunta direta que a maioria das pessoas não fazia. Perguntavam como foi a decisão ou você não tinha medo — perguntavam pela borda. Ele perguntou pelo centro.

Ela ficou em silêncio por um momento, com o frio entrando pelo cachecol do Priya que era bom mas não era suficiente.

— Porque eu fiz tudo certo durante tempo demais — disse ela. — E um dia acordei e percebi que fazer tudo certo não tinha me deixado com nada que fosse meu de verdade.

Ele não respondeu imediatamente.

Caminharam meio quarteirão em silêncio, a neve compactada crocando levemente embaixo dos pés, e ela esperou o comentário motivacional ou a pergunta de acompanhamento ou qualquer uma das respostas que as pessoas davam quando ela contava isso.

— Faz sentido — ele disse.

Só isso.

E por alguma razão que ela não conseguiu articular, faz sentido disse mais do que qualquer outra coisa que alguém poderia ter dito.

Foram à livraria.

O dono era um homem de uns setenta anos com um suéter de lã e a expressão de alguém que leu o suficiente pra não se impressionar com muita coisa. Reconheceu Nolan com um aceno de cabeça que era afeto sem cerimônia.

— Trouxe visita — disse o velho, olhando pra Lara.

— Do Brasil — disse Nolan.

— Brasil. — O velho considerou. — Literatura boa.

— Muito boa — Lara concordou, e o velho fez um gesto que era quase um sorriso e voltou pro livro que estava lendo.

Ela ficou vinte minutos andando pelas prateleiras enquanto Nolan ficava parado em algum lugar atrás dela, sem pressa, sem checar o celular, simplesmente esperando. Ela tirou três livros, folheou, colocou de volta, tirou um quarto que era uma edição antiga de algo que não reconheceu e cheirou a página da forma que só se faz quando não tem ninguém olhando.

Tinha alguém olhando.

Ela percebeu quando ergueu os olhos.

Ele estava encostado na estante do lado oposto com os braços cruzados e aquela expressão que ela estava começando a mapear — não era o meio sorriso, era uma coisa mais quieta, mais interna, como alguém guardando algo que não vai transformar em palavra.

— O quê? — ela disse.

— Nada.

— Você está com uma expressão.

— Estou sempre com uma expressão. Tenho um rosto.

Ela riu. Involuntariamente, completamente, aquele tipo de riso que sai antes de ser filtrado.

Ele descruzou os braços.

Não disse nada, mas havia alguma coisa diferente agora no jeito que ele ficou parado — como se o riso dela tivesse mudado levemente a temperatura da sala.

Ela comprou o livro antigo que não reconheceu.

Almoçaram num lugar pequeno que ele conhecia — poutine, que ele insistiu que era obrigatório experimentar, e ela comeu com a desconfiança de alguém que foi apresentado a queijo derretido sobre batata frita com molho e não sabia como se sentir sobre isso, e depois comeu mais porque estava bom e não ia admitir imediatamente.

— Você vai fingir que não gostou — ele disse, observando.

— Estou avaliando.

— Você pegou a colher de volta três vezes.

— Avaliação cuidadosa exige repetição.

Ele estava sorrindo de verdade agora — não o meio sorriso, um sorriso inteiro, e ela ficou olhando por um segundo a mais que deveria antes de olhar pro prato.

Havia um problema.

Ela estava gostando demais.

Não do poutine — do poutine ela também estava gostando demais, mas esse era um problema menor. Do jeito que ele escutava, do jeito que ele não preencheu os silêncios que não precisavam ser preenchidos, do jeito que tinha dito faz sentido quando ela falou de doze anos de fazer tudo certo. Da livraria com cheiro de papel velho e do velho com o suéter de lã que era amigo do pai dele há anos.

Do fato de que Edmonton, que era uma cidade fria e séria e de um cinza muito honesto, estava ficando com cor.

Isso era um problema.

Ela sabia exatamente o que fazia com problemas assim.

Caminharam de volta no fim da tarde — o sol já baixo às três e meia, aquela luz dourada de inverno que durava pouco e por isso valia mais. As sombras eram longas e a neve nas calçadas tinha ficado compactada e cinzenta nas bordas mas ainda branca no meio, e Lara pensou que tinha chegado em Edmonton achando que ia ser temporário, uma experiência, um parêntese.

Os parênteses estavam ficando complicados.

Na frente do prédio ele parou.

— Obrigado por ter vindo — disse ela, porque era o que se dizia.

— Obrigado por ter deixado — ele respondeu, porque era o que ele dizia — as coisas certas no lugar certo, sem excesso.

Ficaram parados por um segundo que era um segundo a mais que despedida de conhecidos.

— Lara.

— Nolan.

Ele ficou olhando pra ela com aqueles olhos que eram verdes ou cinzas dependendo da luz, e a luz agora era a luz dourada das três e meia de outubro, e ela não soube o que eram.

— Eu sei o que você está pensando — ele disse.

— Não sabe.

— Você está tentando achar o motivo pelo qual isso não faz sentido.

Ela não respondeu.

— Pode continuar tentando — ele disse, sem ironia, sem desafio. — Mas eu vou continuar aparecendo. Se tudo bem pra você.

Não era uma pergunta e não era uma ameaça e não era uma promessa romântica de filme. Era só uma informação, entregue com aquela calma que ela estava começando a entender que era constitutiva dele, que não era uma pose.

Ela devia ter dito não está tudo bem ou não é uma boa ideia ou qualquer uma das frases que estavam disponíveis e eram verdadeiras e teriam encerrado a coisa ali.

— Tudo bem — ela disse.

Ele assentiu.

Foi embora sem pressa.

Ela subiu as escadas, entrou no apartamento, sentou na borda da cama que rangeu, e ficou olhando pra Alberta em cima da cômoda por um tempo considerável.

— Não diz nada — ela disse pra planta.

Alberta ficou em silêncio com a serenidade vegetal de quem não tem pressa.