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15 Domingo de Manhã


Ela acordou antes dele.

Isso não foi surpresa — ela sempre acordava cedo, era constitutivo, o corpo tinha relógio interno que não negociava com fins de semana ou circunstâncias. O que foi surpresa foi o segundo entre acordar e lembrar, aquele segundo de consciência vazia antes de o contexto chegar.

O contexto chegou.

Ela ficou parada.

Ele estava dormindo do outro lado do sofá — tinham ficado ali, ela com a cabeça no ombro dele, e em algum momento o sono tinha chegado pra ela primeiro e ela tinha acordado depois com o apartamento escuro e ele ainda ali, acordado ou dormindo ela não tinha certeza, e tinham se reorganizado sem conversa pro sofá virar algo que cabia os dois de forma improvisada e completamente não planejada.

Não tinha acontecido nada além do beijo e do ombro e do sono.

Isso era importante de saber e ela sabia.

Mas o dia seguinte era o dia seguinte do mesmo jeito.

Ficou parada olhando pro teto por um tempo.

A luz de domingo de novembro entrava pela janela com aquela honestidade de sempre — branca, direta, sem filtro. Edmonton acordando com o ritmo lento de cidade que não tem pressa no fim de semana.

Ela se sentou devagar.

Ele estava dormindo de verdade agora — aquela respiração funda e regular de pessoa que dorme bem quando dorme, com o casaco dobrado embaixo da cabeça como travesseiro improvisado e aquela postura de abandono específica do sono que tornava as pessoas menores e mais reais ao mesmo tempo.

Vinte anos, ela pensou.

Não como distância. Como fato que ela estava aprendendo a olhar sem o peso que tinha colocado em cima desde o começo.

Ficou olhando pra ele por um segundo a mais do que pretendia.

Então foi fazer café.

A máquina fez os sons de sempre e ela ficou apoiada na bancada esperando com as mãos vazias — sem celular, sem livro, sem nada pra fazer com as mãos exceto ficar parada com o domingo e o silêncio e o fato novo e estranho de que havia alguém dormindo no sofá da sala.

Ouviu movimento.

Depois:

— Bom dia.

A voz de quem acabou de acordar — mais rouca, mais funda, diferente da voz do balcão das sete da manhã que ela conhecia de cor.

Ela virou.

Ele estava na entrada da cozinha com o cabelo completamente desorganizado e aquela expressão de quem está calibrando onde está antes de calibrar qualquer outra coisa. Havia algo desarmante em ver alguém assim — sem as camadas do contexto, sem o casaco, sem a postura construída. Só o rosto de domingo de manhã.

— Bom dia — ela disse. — Café?

— Sim.

Ela pegou outra xícara.

Ele encostou no batente da porta com os braços cruzados e ficou olhando em silêncio — não o silêncio de coisa não dita, o silêncio de quem está confortável o suficiente pra não precisar preencher.

Ela entregou a xícara.

Os dedos se tocaram na troca — brevemente, sem intenção, e nenhum dos dois afastou rápido demais.

— Você dormiu bem? — ela perguntou.

— Estranhamente bem. — O traço de humor. — O sofá é melhor do que parece.

—Priya o comprou numa liquidação e ficou orgulhosa por uma semana.

— Ela tem bom gosto acidental.

— É exatamente como ela descreveria.

Foram pra sala com os cafés — ele no sofá de onde tinha saído, ela na poltrona do lado, com a mesinha entre os dois e a luz de domingo entrando pelas janelas e Alberta visível lá no quarto pelo corredor.

Havia algo estranho e não estranho ao mesmo tempo.

Estranho porque era novo — essa versão das coisas, esse espaço sem balcão e sem contexto e sem estrutura nenhuma. Não estranho porque era ele, e ela tinha percebido em algum ponto das últimas semanas que ele era uma das poucas presenças que não exigiam dela um esforço de adaptação constante.

— Lara — ele disse.

— Nolan.

— Você está bem?

A mesma pergunta que ela tinha feito pra ele depois da derrota. Devolvida agora com o mesmo peso real, sem protocolo.

Ela ficou com ela por um momento honesto.

— Estou calibrando — disse ela.

— Tudo bem calibrar.

— É muita coisa nova ao mesmo tempo. — Ela olhou pro café. — Eu não sou boa com muito novo ao mesmo tempo.

— Eu sei.

— E mesmo assim—

— E mesmo assim você não fugiu ontem à noite. — Ele disse isso sem peso adicional, só como observação. — Isso é seu. Não meu.

Ela ficou olhando pra ele.

Havia algo nessa frase — isso é seu, não meu — que chegou num lugar específico. A tendência dela era diminuir os próprios passos, atribuir ao outro, ao momento, à circunstância. Ele estava recusando receber o crédito. Estava colocando de volta nos braços dela.

— Como você faz isso? — ela perguntou.

— O quê?

— Saber o que dizer.

— Não sei sempre. — Ele tomou um gole do café. — Erro bastante. Só que geralmente erro sendo honesto, então pelo menos sei onde errei.

Ela ficou em silêncio por um momento.

— Você tem treino hoje? — ela perguntou.

— Meio-dia.

Ela olhou o relógio na parede.

Eram oito e quarenta.

— Então temos tempo — disse ela, e havia algo diferente em temos que ela notou depois de falar, a primeira pessoa do plural que saiu sem ser convocada.

Ele notou também. Ela viu.

Não disse nada sobre isso.

Mas o traço de humor ficou um segundo a mais que o normal.

...

Priya chegou às nove e meia.

Abriu a porta, viu os dois na sala com os cafés, fez uma pausa de talvez dois segundos que continha uma vida inteira de perguntas que ela teve a sabedoria de não fazer, e foi direto pra cozinha dizendo:

— Vou fazer ovos. Alguém quer ovos?

— Sim — disse Nolan.

— Sim — disse Lara.

Priya na cozinha começou a fazer barulho de quem está muito concentrada em ovos e em mais nada absolutamente.

Lara olhou pro teto por um segundo.

Nolan estava com aquela expressão de humor contido que ela estava aprendendo a identificar antes do traço aparecer.

— Ela vai explodir — disse Lara, baixo.

— Está se segurando bem até agora — ele respondeu, no mesmo tom.

— Dá dois minutos.

Exatamente um minuto e quarenta segundos depois Priya saiu da cozinha com a espátula na mão e a expressão de quem não aguenta mais.

— Não vou dizer nada — disse ela.

— Ótimo — disse Lara.

— Só vou observar que é domingo de manhã e vocês dois estão no meu sofá com café e aparência de pessoas que passaram a noite aqui e ninguém me contou nada.

— Os ovos — disse Lara.

— Os ovos estão bem. — Priya olhou pra Nolan. — Você gosta de queijo?

— Gosto.

— Ótimo. — Ela voltou pra cozinha. — Não vou dizer mais nada.

Disse mais três coisas nos vinte minutos seguintes.

Comeram na mesa pequena da cozinha — os três, com os ovos da Priya que eram bons de verdade e o café que Lara tinha feito e a conversa que foi encontrando o ritmo de coisas que acontecem quando pessoas diferentes se misturam e descobrem que misturam bem.

Priya perguntou sobre hockey com a curiosidade genuína de alguém que cresceu num país onde hockey era paisagem e nunca tinha parado pra entender de fato. Nolan explicou com aquela paciência de quem gosta do assunto e não precisa que o outro goste também pra continuar gostando.

Lara ficou olhando pra ele explicar várias vezes.

Havia algo específico em ver alguém num contexto diferente de todos os anteriores — não o balcão, não o parque, não a ponte, não o sofá de ontem. A mesa de cozinha pequena com ovos e café e a Priya fazendo perguntas com a espátula ainda na mão.

Era ordinário.

Era completamente ordinário e havia algo nessa ordinariedade que era mais assustador do que qualquer coisa extraordinária — porque extraordinário você pode conter, pode chamar de exceção, pode colocar numa gaveta separada da vida real.

Ordinário não cabe em gaveta.

Ordinário é a vida real.

Ela ficou com isso enquanto Priya perguntava sobre as regras do futebol do gelo e Nolan explicava com uma paciência de santo que não era futebol do gelo e Priya dizia que tudo bem, conceitualmente era futebol do gelo, e ele olhava pra Lara com aquele traço de humor pedindo socorro silencioso.

Ela riu.

Ele riu junto.

E havia nesse momento compartilhado — pequeno, sem peso, sem drama — algo que ela reconheceu como a coisa que tinha passado trinta e quatro anos sem saber que estava procurando.

Não o beijo, não a ponte, não os três segundos ou os dez ou a cabeça no ombro.

Isso. A mesa pequena. O café. O domingo de manhã ordinário com pessoas que importavam.

Isso.

Ele foi às onze e meia — tempo suficiente pra chegar no treino de meio-dia com margem, que era o tipo de pessoa que ele era.

Na porta do apartamento ele parou.

Ela estava no corredor.

— Obrigado pelo sofá — disse ele.


O traço de humor.

Ficaram parados por um segundo com a porta aberta e o frio do corredor entrando e aquela qualidade de momento que ela estava aprendendo a não tentar resolver antes de acontecer.

Ele se inclinou levemente — devagar, com aquele jeito de sempre, dando tempo — e beijou a testa dela.

Leve. Rápido. Completamente diferente do beijo de ontem e completamente parte da mesma coisa.

— Até amanhã — disse ele.

— Até amanhã.

Foi embora pelo corredor com aquele passo de sempre.

Ela fechou a porta.

Ficou parada no corredor do apartamento por um momento com as costas na porta e o coração naquele ritmo e aquela leveza que era diferente de todas as levezas anteriores.

Priya apareceu na entrada da cozinha com a xícara de café.

Ficou olhando pra Lara.

Lara ficou olhando pra Priya.

— Não — disse Lara.

— Não disse nada.

— Está pensando alto.

— Estou tomando café. — Priya tomou um gole com uma solenidade elaborada. — Só isso.

Lara saiu do corredor, passou por ela, foi pro quarto.

Sentou na borda da cama que rangeu.

Olhou pra Alberta.

— Tá bom — disse ela pra planta. — Eu sei.

Alberta ficou em silêncio com a serenidade de sempre.

Mas se plantas pudessem sorrir, Lara tinha a sensação de que essa estaria sorrindo.