Off Script
1 Chegada

O voo de conexão em Toronto tinha atrasado quarenta minutos, a fila da imigração levou mais cinquenta, e Lara Monteiro chegou em Edmonton com a mala no limite de peso, os cabelos amassados pelo travesseiro de avião e a certeza crescente de que tinha cometido um erro monumental.
Não que ela fosse admitir isso pra ninguém.
Puxou a mala pelo corredor do aeroporto com aquela postura de quem sabe exatamente o que está fazendo — cabeça erguida, passo firme — enquanto por dentro ensaiava mentalmente como explicaria o retorno precoce pro Brasil. Não me adaptei ao clima. Oportunidade de emprego surgiu. A Priya era diferente do que parecia online. Tinha opções. Sempre tinha um plano B.
O problema era que dessa vez os planos B tinham sido sabotados pelos próprios pais.
Ela ainda ouvia a voz da mãe, três semanas atrás, na cozinha de Belo Horizonte.
"Vai, Lara."
Simples assim. Sem hesitação. Sem o "mas você tem certeza?" que ela estava esperando, precisando, usando mentalmente como válvula de escape. Sua mãe tinha segurado as mãos dela por cima da mesa da cozinha — a mesma mesa de sempre, com a mesma toalha de crochê desbotada — e dito aquelas duas palavras com um sorriso que doía de tão gentil.
"A gente precisava que você fosse feliz há muito tempo. Vai."
O pai tinha completado, sem tirar os olhos do jornal: "Manda foto quando nevar."
E assim Lara Monteiro, trinta e quatro anos, formada, estável, responsável, que jamais tinha feito nada fora do roteiro, tinha pedido demissão de um emprego seguro, esvaziado metade da poupança e comprado uma passagem pra uma cidade que ela mal sabia localizar no mapa sem pesquisar.
Edmonton, Alberta, Canadá.
Outubro.
Menos seis graus do lado de fora.
Priya Sharma a esperava do outro lado das portas automáticas segurando um cartaz escrito à mão com letras enormes e um entusiasmo que parecia improvável para as seis da manhã. O cartaz dizia: BEM-VINDA AO CANADÁ, LARA e abaixo, em letras menores: (o inverno vai te matar mas a gente sobrevive)
Lara riu antes de conseguir se controlar.
Tinham se encontrado num grupo do Facebook — Brasileiros no Canadá, Alberta — quando Priya postou procurando alguém pra dividir apartamento perto do bairro de Glenora. Tinham conversado por dois meses antes de Lara comprar a passagem. Mesmo assim, encontrar uma pessoa real do outro lado daquelas portas era diferente de trocar mensagens.
Priya era pequena, de cabelos pretos até a cintura, com um casaco vermelho que parecia quente o suficiente pra sobreviver ao ártico e uma energia que irradiava antes mesmo de abrir a boca.
— Você está horrível — disse ela, em inglês, com um sorriso enorme. — Ótimo sinal. Significa que você realmente veio.
— Obrigada — Lara respondeu, no mesmo idioma. — Você também.
Priya gargalhou e pegou a mochila das mãos dela sem pedir permissão.
— Vem. O carro está estacionado ilegalmente faz vinte minutos.
O apartamento ficava num segundo andar de um prédio velho e charmoso, com janelas largas que davam pra uma rua arborizada — as árvores já nuas de outubro, os galhos nus contra um céu que era de um cinza muito diferente do cinza de BH. Mais frio. Mais limpo. Mais sério, de alguma forma, como se o céu daqui não tivesse tempo pra ser dramático.
O quarto dela era pequeno, com uma cama de solteiro, uma cômoda e exatamente espaço suficiente pra não se sentir sufocada. Priya tinha colocado uma planta pequena em cima da cômoda e um bilhete embaixo do vaso: Ela se chama Alberta. Não deixa morrer.
Lara ficou parada na porta do quarto por um momento.
Tinha feito isso. Tinha realmente feito isso.
Trinta e quatro anos, uma planta chamada Alberta e nenhum plano concreto além de trabalhar na cafeteria da Priya e — o que? Descobrir quem era quando ninguém precisava que ela fosse a filha responsável, a funcionária confiável, a amiga disponível?
Sentou na borda da cama, que rangeu.
"Vai", a mãe tinha dito.
Então estava indo. Só precisava descobrir pra onde.
A cafeteria se chamava Ember e ficava a oito minutos de caminhada do apartamento — Lara tinha cronometrado no primeiro dia, porque era o tipo de coisa que ela fazia, e Priya tinha dado uma risada que soou como você é um caso sério sem precisar falar.
Era pequena, quente, com aquele cheiro que Lara decidiu nos primeiros cinco minutos que queria acordar todo dia pelo resto da vida. Madeira, café, algo com canela. As paredes eram de tijolos aparentes e as mesas eram irregulares, diferentes entre si, como se tivessem sido compradas em lugares diferentes ao longo dos anos sem ninguém se importar com a combinação — e funcionava, de alguma forma inexplicável.
Priya tinha montado o lugar com a avó, três anos atrás. A avó tinha voltado pra Mumbai o ano anterior. Priya tinha ficado.
— É mais trabalho do que parece — ela disse, na manhã do segundo dia, mostrando o caixa pra Lara. — Mas você aprende rápido. E as pessoas aqui são gentis, na maioria. Hockey town. Todo mundo de bom humor quando o time ganha.
— E quando perde?
— Muito café. — Priya sorriu. — Mais gorjeta, curiosamente.
Foi na quarta manhã.
Lara estava atrás do balcão sozinha pela primeira vez — Priya tinha ido buscar fornecimento e deixado ela com instruções escritas num bloco amarelo e a frase "você consegue, eu acredito em você, não incendeie nada" — quando a campainha da porta soou.
Ela não olhou de imediato. Estava concentrada na máquina de espresso, que tinha uma personalidade própria e exigia ser tratada com respeito.
— Bom dia.
A voz era jovem. Despreocupada. Com aquele sotaque canadense que ainda soava um pouco estrangeiro pra ela.
Lara ergueu os olhos.
O rapaz do outro lado do balcão tinha o tipo de presença que ocupava espaço sem tentar. Alto — bem alto, ela notou de forma automática, mais de um metro e noventa — com os ombros largos de quem passou a vida inteira num esporte que exigia isso. Cabelo castanho claro, ainda úmido, como se tivesse saído do treino. Olhos que eram de um verde-acinzentado indeciso, o tipo de cor que muda dependendo da luz.
Vinte anos? Ela não saberia dizer como, mas sabia. Tinha aquela coisa específica da juventude que não é ingenuidade — é só ausência de cansaço acumulado.
— Bom dia — ela respondeu, em inglês, com o sorriso profissional que tinha passado os últimos dias praticando. — O que posso trazer pra você?
Ele olhou o quadro no alto da parede por exatamente dois segundos.
— Americano. Grande. Sem açúcar.
— Pode ser.
Ela virou pra máquina. Ouvia ele se instalar no banco alto do balcão — não numa mesa, no balcão, o que significava que ia ficar ali enquanto ela preparava.
— Você é nova — ele disse. Não era pergunta.
— Terceiro dia. — Ela não virou. — Tão óbvio assim?
— Você olhou o quadro quando eu pedi. A Priya não olha faz dois anos.
Lara riu antes de conseguir segurar — e daí virou, porque tinha ficado sem escolha, e ele estava apoiado no balcão com um meio sorriso que parecia não ter consciência do próprio efeito.
— Lara — ela disse, sem saber bem por quê.
— Nolan — ele respondeu, com simplicidade.
A máquina fez o som que significava pronto e ela se virou de novo, grata pela distração.
Ele deixou gorjeta em dinheiro, coisa que ninguém mais fazia, e foi embora sem pressa.
Lara ficou olhando pro copo vazio que ele tinha deixado por um segundo a mais do que precisava.
Quarto dia em Edmonton, ela pensou. Ainda não incendiou nada.
Guardou o pensamento e foi lavar o balcão.
Fale com o autor