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9 A Distância Certa
Novembro chegou sem pedir licença.
Lara acordou numa segunda-feira e a temperatura tinha caído mais seis graus do dia anterior, como se o inverno tivesse decidido parar de ser gradual e simplesmente assumir o controle. Priya tinha avisado que novembro era assim — não uma transição, uma declaração. Ela não tinha entendido completamente até sair pela primeira vez naquela manhã e sentir o frio entrar pela gola do casaco com uma convicção que não admitia negociação.
Comprou o casaco melhor na semana seguinte.
Era cinza escuro, longo até o meio da coxa, com aquele forro que fazia diferença real e não só estética. Priya aprovou com um entusiasmo desproporcional. Lara não mencionou que tinha ficado parada na loja por vinte minutos antes de comprar, não por indecisão sobre o casaco, mas porque comprar casaco de inverno canadense de verdade era o tipo de coisa que tornava Edmonton permanente de um jeito que ela ainda estava calibrando.
Não era mais parêntese.
Ainda não sabia o que era.
Nolan continuava vindo.
Todo dia entre sete e quinze e sete e vinte e cinco, americano sem açúcar, banco do balcão, conversas que eram pequenas na superfície e maiores embaixo. Ela tinha parado de se surpreender com a regularidade — o que era, ela percebeu num momento de honestidade involuntária, uma forma de ter começado a contar com ela.
Não disse isso em voz alta.
Na terça ele chegou com um livro na mão.
Ela notou antes de ele chegar no balcão — um livro de bolso com a lombada dobrada de quem leu apertando com os dedos, com aquele aspecto de coisa que foi pra dentro da mochila e saiu várias vezes. Ele colocou em cima do balcão enquanto tirava o gorro com a outra mão.
Ela olhou.
Perto do Coração Selvagem. Clarice Lispector. Edição em inglês, tradução antiga, com a capa desbotada de livraria de segunda mão.
Ela ergueu os olhos pra ele.
— Encontrei na livraria do Walter — disse ele, com aquela voz que não subia nem descia. — Na semana passada. Achei que devia ler antes de opinar sobre Clarice.
— Você terminou?
— Ontem à noite.
Ela ficou olhando pro livro por um momento.
— E?
Ele considerou a pergunta com a seriedade que dava pra coisas que outras pessoas responderiam rápido.
— É difícil — disse ele. — É o tipo de livro que você precisa parar no meio pra entender o que está sentindo antes de continuar.
— Você parou?
— Três vezes.
Lara ficou olhando pra ele.
Havia algo acontecendo no peito que ela reconhecia agora — não tentava mais identificar com precisão, só deixava existir com a desconfiança cautelosa de quem ainda não confia no próprio termômetro.
— O que achou da Joana? — ela perguntou. Joana era a protagonista — instável, intensa, impossível de segurar.
Ele pegou o livro, folheou até uma página com o canto dobrado.
Ela notou os cantos dobrados — vários, distribuídos pelo livro inteiro.
— Tem uma parte — ele disse — onde ela pensa que a única forma de ser livre é não pertencer a nada. — Ele pausou. — Fiquei com isso. Porque eu entendo o impulso mas acho que ela está errada.
— Por quê?
— Porque pertencer a algo não tira a liberdade. — Ele fechou o livro, devagar. — Depende do que você escolhe e de como você escolhe. Pertencer por medo é prisão. Pertencer por querer é outra coisa.
O salão estava quieto.
Lara ficou com aquilo — não como metáfora, não como mensagem endereçada, mas como pensamento genuíno de alguém que tinha lido um livro difícil três vezes e parado em três momentos e dobrado vários cantos e chegado numa conclusão própria.
— Você devia fazer faculdade de letras — disse ela.
— Faço administração. — O traço de humor. — Mas posso fazer as duas coisas.
Ela sorriu.
Ele ficou olhando pro sorriso por um segundo com aquela expressão quieta que ela ainda não tinha nome completo.
Deixou o livro em cima do balcão quando foi embora.
Ela ficou olhando pra ele por um tempo depois que a campainha parou de soar.
Na quinta o time tinha folga.
Ela soube porque ele ficou mais tempo — não saiu às oito menos cinco com aquela pontualidade de quem tem treino, ficou até quase nove, com o copo vazio na frente e aquela qualidade diferente de presença de quem não está contando o tempo.
A cafeteria tinha esvaziado no intervalo entre o rush da manhã e o movimento do meio-dia, e Priya tinha ido ao banco com uma lista de coisas administrativas e a instrução de não incendeie nada, e Lara estava reorganizando o estoque debaixo do balcão quando ele disse:
— Você já foi ao vale do Rio North Saskatchewan?
Ela se endireitou.
— Não sei o que é isso.
— É o parque. — Ele olhou pela janela. — Atravessa a cidade inteira. No verão tem trilha, no inverno tem... — ele pausou — inverno. Mas é bonito do mesmo jeito.
— Você está me convidando pra ver inverno num parque.
— Estou te convidando pra ver a cidade de dentro pra fora. — Ele disse isso sem pressa, com aquele jeito de apresentar as coisas como se fossem simples porque pra ele eram. — Tem uma parte perto da ponte que no fim de tarde a luz fica de um jeito que não parece real.
Ela ficou em silêncio por um momento.
Verifique a saída antes de entrar, disse a parte dela que sabia fazer isso.
Quando o que está dentro vale mais, disse a voz de Priya em algum lugar.
— Que horas? — ela perguntou.
…
Foram a pé.
Ele conhecia o caminho de cor — crescera nessa cidade, conhecia cada variação de luz em cada estação, e havia algo específico em ser guiada por alguém que tem memória de infância num lugar, que sabe que aquela árvore ficava menor, que aquela curva do rio era onde os pais paravam no verão.
— Meu irmão caiu aqui uma vez — ele disse, numa descida de pedras cobertas de neve, com aquele tom factual de sempre. — Tentando mostrar que conseguia descer sem segurar em nada. Tinha oito anos. Eu tinha seis e copiei e caí também.
— E?
— E nenhum dos dois contou pra ninguém porque seria admitir que foi burrice coletiva.
Ela riu.
— Você tem um irmão.
— Tyler. Vinte e três anos. Estuda engenharia em Calgary. — Uma pausa. — É mais inteligente do que eu na maioria das coisas. Só não patina.
— Isso importa aqui.
— Importa muito. Ele nunca vai deixar de ouvir sobre isso.
Caminharam pelo vale com a neve fina e compactada embaixo e o rio parcialmente congelado à esquerda, com aquela cor específica da água fria que é quase verde. Havia poucas pessoas — um casal com cachorro, uma mulher correndo com aquelas roupas de corrida de frio que Lara ainda achava impossíveis — e o silêncio do parque era diferente do silêncio da cidade, mais largo, mais fundo.
Ela respirou.
— É bonito — disse ela, sem elaborar, porque às vezes a palavra simples é a certa.
— É — ele concordou. — No verão é diferente. Mais barulhento, mais gente. Mas no inverno parece que é só da cidade. Um segredo que todo mundo conhece mas não conta.
Ela ficou com a imagem.
Chegaram à parte perto da ponte que ele tinha mencionado.
A luz era exatamente o que ele tinha dito — aquele dourado baixo de fim de tarde de novembro que durava pouco e por isso doía um pouco, com as sombras longas sobre a neve e o rio com aquele verde-cinza embaixo do gelo parcial e a ponte acima com as estruturas de metal que ficavam cor de ferrugem naquela luz específica.
Ela parou.
Ficou olhando por um tempo sem falar.
Ele ficou do lado, também em silêncio, e havia algo nesse silêncio compartilhado que era diferente dos anteriores — mais quieto, mais inteiro, sem a textura de coisa não dita que os outros silêncios tinham às vezes.
— Obrigada por me trazer aqui — ela disse.
— Obrigado por vir.
Ela virou pra ele.
Ele estava olhando pro rio, de perfil, com aquela luz dourada no rosto, e havia algo nessa imagem que ela guardou sem querer — não fotografou, não precisou, o cérebro fez isso sozinho com aquela crueldade específica de guardar as coisas que você preferia poder esquecer mais tarde.
Ele virou.
Ficaram olhando um pro outro por um segundo que era um segundo a mais que casual.
Ele levantou a mão devagar — sem pressa, sem surpresa, dando tempo suficiente pra ela recuar se quisesse — e com o dorso dos dedos tocou levemente a bochecha dela. Só isso. O toque mais simples possível, quente contra o frio, por talvez três segundos.
Ela não recuou.
Por três segundos, não recuou.
E então alguma coisa dentro dela — aquele músculo de contenção que tinha anos de treino — contraiu de uma vez, e ela deu um passo atrás com um movimento pequeno mas claro, e o contato se desfez.
Ele abaixou a mão.
Não disse nada.
Não havia mágoa na expressão — havia reconhecimento, a expressão de alguém que sabia que isso podia acontecer e tinha chegado até aqui mesmo assim.
— Nolan — ela disse, com uma voz que ficou menor do que queria.
— Tudo bem — disse ele.
— Não é que—
— Lara. — Ele disse o nome com aquela calma. — Tudo bem.
Ela fechou a boca.
Ficaram em silêncio por um momento com o rio embaixo e a luz dourada ficando mais rasa, o sol canadense de novembro que não esperava por ninguém.
— Devíamos voltar — ela disse.
— Devíamos.
Caminharam de volta pelo mesmo caminho, com o silêncio diferente agora — não pesado, não ferido, mas com uma nova camada que não estava lá na ida. A camada de uma coisa que tinha acontecido e não podia não ter acontecido.
Na frente do prédio ela parou.
— Eu—
— Não precisa — ele disse.
— Preciso. — Ela respirou o ar frio. — Não é você. Você sabe que não é você.
— Eu sei.
— É que eu não sei fazer isso. — As palavras saíam com mais dificuldade do que queria, com aquela resistência de coisas que são verdadeiras e pesadas ao mesmo tempo. — Nunca soube. E tenho medo de começar e ser pela metade e—
— E me machucar — ele completou.
Ela ficou parada.
— A minha mãe disse isso — ele disse, sem acusação. — E você está usando como razão.
— Não é só isso.
— Eu sei que não é só isso. — Ele ficou olhando pra ela com aqueles olhos que eram verdes ou cinzas dependendo da luz e agora na luz quase apagada eram os dois ao mesmo tempo. — Mas Lara. — Uma pausa. — Você acabou de ficar parada três segundos.
Ela não disse nada.
— Três segundos é mais do que nada — ele disse. Simples. Sem peso excessivo, sem drama. — Não estou com pressa.
Ela ficou com aquilo.
Não estou com pressa.
Dito por alguém de vinte anos que tinha aprendido com quatro que a décima segunda queda não precisava de choro, que tinha escolhido o hockey de volta com tudo, que lia Clarice e dobrava cantos de página e chegava num lugar onde morava uma conclusão própria.
Ele se foi, desaparecendo no final da esquina. Foi embora sem olhar pra trás.
Ela ficou na calçada.
O frio de novembro era real e sério e ela estava com o casaco novo e mesmo assim sentia — não o frio, ou não só o frio, mas aquele toque de três segundos que já estava se tornando memória com aquela velocidade que as coisas importantes têm.
Subiu as escadas devagar.
Entrou no apartamento.
Sentou na borda da cama que rangeu.
Alberta ficou em cima da cômoda com a serenidade de sempre.
— Eu fugi de novo — disse Lara.
A planta ficou em silêncio.
— Mas fiquei três segundos — ela disse, mais baixo, mais pra si mesma do que pra qualquer coisa.
Ficou olhando pro teto por um tempo longo.
Três segundos.
Era pouco.
Era o mais que tinha conseguido.
Por enquanto era o que tinha.
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