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20 A Cabana ( Final)


Ele a guiou pro quarto sem quebrar o beijo, os passos desajeitados e urgentes ao mesmo tempo, ela andando de costas, ele guiando com as mãos na cintura, até as costas dela encontrarem a porta e depois a cama, e ele a deitou com aquele cuidado que nunca esquecia de existir mesmo no meio da urgência.


Ficou parado olhando pra ela por um segundo.


— O que foi?— ela disse, sem fôlego.


— Quero guardar isso — ele disse, simples. — Antes de continuar.


E ela entendeu, porque ela também estava fazendo isso, gravando cada detalhe pra nunca esquecer: a luz baixa e vermelha da brasa que entrava pela porta aberta, a respiração dele ainda alterada, o peso do corpo dele sobre o dela sem esmagar, só presente.



Ele beijou o pescoço dela.


Devagar, descendo, cada ponto de contato uma demora deliberada, a curva onde o pescoço encontra o ombro, a clavícula, o espaço entre os seios onde o coração dela batia tão forte que ela achou que ele devia conseguir sentir só com os lábios.


E ele sentiu.


— Está acelerado — ele murmurou contra a pele dela.


— É culpa sua. — falou ofegante.


— Espero que continue sendo. — Havia um sorriso na voz dele, mas também algo mais fundo, mais sério.


As mãos dele aprenderam o corpo dela com aquela mesma atenção total que ele colocava em tudo, não apressadas, não hesitantes, mas deliberadas, como alguém memorizando um mapa que pretendia voltar a percorrer muitas vezes. Cada curva, cada reação dela registrada e respondida, um diálogo sem palavras que ela nunca tinha tido com ninguém antes.


Ela arqueou contra ele sem decidir arquear.



— Nolan…— ela disse, a voz quebrada de um jeito que ela nunca tinha ouvido na própria voz.


— Estou aqui — ele disse, de novo, e havia nessas duas palavras, repetidas tantas vezes naquela noite, um peso que crescia a cada repetição.


Ele estava.


Completamente e irrevogavelmente ali.


Quando finalmente se uniram, ela sentiu como se algo dentro dela, uma porta que ela tinha mantido fechada por tanto tempo que esquecera que existia, finalmente cedesse de vez.


Não houve pressa.


Ele se movia com a mesma perfeição que trazia pra tudo, presença total, atenção completa, lendo cada resposta dela com a mesma concentração que ela imaginava ele tendo no gelo, traduzida agora pra essa linguagem diferente.


Ela se agarrou aos ombros dele.



Não havia mais “ela” e “ele” separados em pensamento, havia só o presente compartilhado, o calor compartilhado, o ritmo que os dois corpos encontraram juntos sem que nenhum tivesse ditado, crescendo, intensificando, até que o mundo inteiro se reduziu àquele quarto pequeno e à brasa baixa e à neve do lado de fora e a um som baixo que escapou dela sem permissão e que ele recebeu como se fosse a coisa mais preciosa que já tinha ouvido.


— Lara — ele disse, a voz rouca contra o ouvido dela. — Olha pra mim.


Ela abriu os olhos.



— Não quero que reprima nada de mim, nem um gemido, nem seu olhar, eu quero tudo! — ele disse, enquanto a penetrava em uma vai e vem perfeito.


Lara sabia que seu prazer estava na borda, estava difícil segurar, e manter os olhos em Nolan, a deixava em uma espécie de frenesi. Sentia como se estivesse se desconectando totalmente do corpo. Nolan agarrou uma de suas coxas para cima, colando-a um sua costela, e Lara percebeu que as estocadas ficavam mais intensas, isso significava que ele também estava perto.


— Lara…eu…preciso — Nolan falou ofegando, enquanto uma mão permanecia fixa em sua coxa, a outra agarrava os cabelos de sua nuca, de forma firme.

— Por favor, Nolan…eu não aguento mais. — Lara já não conseguia manter a respiração, os gemidos saiam sem pudor, enquanto suas unhas apertavam suas costas.


Chegaram ao ápice juntos.


…



Depois, ficaram entrelaçados, as respirações desacelerando juntas, devagar, como duas marés que finalmente encontram o mesmo ritmo depois de uma tempestade.


— Lara — ele disse, baixinho, a boca contra o cabelo dela.


— Sim.


— Isso foi—


— Eu sei — ela disse, antes que ele terminasse, porque sabia exatamente o que ele ia dizer e não havia palavra que coubesse no tamanho daquilo.


Ele riu, baixo, o peito vibrando sob o ouvido dela.


— Você sempre faz isso.


— Faço o quê?


— Termina minhas frases antes que eu precise.


— Você devia se acostumar.


— Estou — ele disse, simples. — Pretendo me acostumar com muita coisa sua.


Ela fechou os olhos.



A brasa do outro cômodo crepitava baixa e vermelha, a neve continuava caindo quieta e paciente do lado de fora, e ela ficou ali, sem gaveta fechada, sem saída verificada, completamente entregue a um lugar que não estava em nenhum roteiro que ela já tivesse imaginado pra própria vida.


…


Ele estava olhando pra ela a um tempo, com uma atenção diferente agora, não o desejo de minutos atrás, algo mais quieto, mais observador.


— Sua cabeça está fervendo — ele disse, baixo.


Ela ergueu os olhos.


— Como você sabe disso?


— Porque dá pra ver. — Ele passou o polegar devagar pela testa dela, como quem tenta literalmente alisar o que está lá dentro. — Você tem essa expressão. Os olhos ficam mais fundos, a testa franze um pouquinho, e você fica olhando pra um ponto fixo como se estivesse lendo alguma coisa que só você consegue ver.


Ela ficou em silêncio por um momento, pega de surpresa por ter sido lida com tanta precisão.


— Pode perguntar — disse ele. — O que for.


Ela respirou.


— Você não acha estranho? — disse ela, por fim, a voz pequena. — Ter ficado comigo. Por eu ser mais velha.


Ele não respondeu imediatamente, não porque estivesse procurando a resposta certa, mas porque parecia genuinamente surpreso com a pergunta.


— Não — disse ele, simples.


— Nem um pouco?


— Nem um pouco.


— Você não tem vergonha— Não era bem pergunta. — De mim e de como isso parece de fora?


— Lara.


— Eu só preciso saber.


Ele se ergueu um pouco, apoiado no cotovelo, pra poder olhar pra ela de frente.



— Eu não tenho vergonha de você — disse ele, com aquela clareza direta que era só dele. — Tenho vergonha de coisas que fiz errado, de jogos que perdi por erro meu, de vezes que fui arrogante sem precisar. Você não está nessa lista. Você é a coisa que eu mais tive orgulho de escolher.


— Mas em algum momento…


— Em algum momento o quê?


— Em algum momento você vai ter vergonha. — Ela disse isso quase num sussurro, como se dizer mais alto tornasse mais verdade. — Quando a pressão aumentar, quando o time falar mais alto, quando alguém importante pra você disser que isso é errado. Vai vir um momento que você vai olhar pra mim e vai pensar que eu sou demais, ou velha demais, ou complicada demais, e…


— Não.


A palavra saiu sem hesitação, sem dureza, só certeza.


— Você não pode prometer isso — disse ela.


— Posso prometer o que eu sei sobre mim mesmo. — Ele segurou o rosto dela com as duas mãos agora, com aquele cuidado de sempre. — E eu sei que não funciono assim. Quando eu escolho algo, eu não saio procurando motivo pra duvidar depois. — Ele pausou. — Você não é diferente. Só é mais importante.



Ela ficou olhando pra ele, sentindo aquela mistura estranha de querer acreditar completamente e não saber como confiar tanto assim em alguém.


— E se um dia…


— Lara. — Ele disse o nome dela com uma firmeza gentil que cortou a frase pela metade. — Para de procurar o dia em que isso acaba antes mesmo de ter começado de verdade.


Ela fechou a boca.


— Eu sei que é difícil pra você confiar nisso — ele continuou, mais baixo agora. — Sei que você passou a vida inteira esperando o chão sumir. Mas eu não sou chão que some. Sou mais parecido com gelo — ele sorriu, um traço pequeno — que é mais resistente do que parece.


Ela riu, apesar de tudo, uma risada baixa e quebrada que aliviou algo no peito.


— Isso foi uma piada de hockey.


— Foi a melhor que eu tinha no momento.


Ela ficou olhando pra ele.


Uma lágrima escorreu antes que ela conseguisse evitar.


Ela enxugou rápido, quase com raiva de si mesma por deixar escapar.


— Odeio essa sensação — disse ela, a voz embargada. — De estar sendo irresponsável. Eu deveria agir diferente, ser a adulta nisso tudo, pensar com a cabeça e não com — ela fez um gesto vago pro próprio peito — com isso aqui. E eu estou me deixando levar pelos meus sentimentos e—


— E o que há de errado nisso?


— Tudo. — Ela disse rápido, quase desesperada pra fazer ele entender. — Eu tenho trinta e quatro anos, Nolan. Eu devia ser a pessoa com discernimento aqui. A que pensa nas consequências, que mede o risco, que protege os dois de decisões precipitadas. E em vez disso eu vim pra uma cabana e—


— E se permitiu sentir alguma coisa de verdade pela primeira vez em muito tempo.


— Isso não é desculpa.


— Não é desculpa — ele concordou. — É só verdade.


Ela ficou olhando pra ele, a respiração ainda instável.


— Lara, escuta. — Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, limpando com o polegar o resto da lágrima que tinha escapado. — Ser adulto não é virar de pedra. Não é vigiar cada sentimento como se ele fosse uma ameaça. Você passou a vida inteira fazendo isso — sendo responsável, sendo cuidadosa, medindo cada passo — e olha onde te deixou. Numa vida que você mesma disse que não sentia como sua.


— Mas agora eu fugi pro extremo oposto.


— Você não fugiu. — Ele disse isso com firmeza, mas sem dureza. — Você escolheu. É diferente.


— Parece a mesma coisa quando estou aqui chorando depois, achando que fiz besteira.


— Você não fez besteira. — Ele aproximou a testa da dela. — Fez algo que te assustou porque era importante de verdade. Essas duas coisas sempre vêm juntas, Lara. Coisa que não importa nada não dá medo nenhum depois.


Ela ficou em silêncio, deixando aquilo entrar.


— Eu também podia estar sendo irresponsável — ele continuou, mais baixo. — Time inteiro preferia que eu estivesse focado só em hockey, sem complicação, sem mídia comentando minha vida pessoal no meio da temporada. Eu sei o que seria mais fácil pra todo mundo ao meu redor.


— E você não se sente culpado por isso?


— Às vezes. — Ele foi honesto. — Mas culpa por sentir alguma coisa de verdade é diferente de culpa por ter feito errado. Eu não fiz nada errado escolhendo você. E você não fez nada errado me escolhendo de volta.


Ela respirou fundo, tentando se acalmar.


— Eu só não quero ser a mulher da história que arruinou tudo — disse ela, baixinho. — Sua carreira, sua reputação, sua juventude. Não quero ser o erro que você vai contar pra alguém no futuro.


— Você não é erro. — Ele disse isso olhando direto nos olhos dela, sem desviar nem por um segundo. — Você é a parte da história que eu escolhi com a cabeça mais limpa que já tive. Para de escrever finais tristes antes da história nem ter terminado o primeiro capítulo de verdade.


Ela riu, baixinho, mesmo com os olhos ainda molhados.


— Isso foi quase poético.


— Estou aprendendo com alguém que lê Clarice Lispector.


Ela se aproximou e escondeu o rosto no pescoço dele, deixando ele segurar o peso de tudo que ela ainda não sabia como carregar sozinha.


— Só me dá um tempo — disse ela, a voz amortecida contra a pele dele. — Pra aprender a sentir isso sem me sentir culpada por sentir.


— Temos tempo — ele disse, a mão subindo e descendo pelas costas dela, devagar. — É a única coisa que eu tenho garantida nessa história toda. Tempo pra você.


E ela ficou ali, finalmente permitindo que o peso saísse um pouco, sem pressa de se recompor, sem verificar se estava sendo razoável demais ou de menos.


Só sentindo.