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21 De Volta à Realidade


O carro estava ligado, o aquecimento já trabalhando contra o frio de fora, mas nenhum dos dois tinha colocado o cinto ainda.


A cabana atrás deles, já fechada, a chave do avô já de volta no bolso dele, e havia algo nesse momento específico, parados ali, no meio do caminho entre o que tinha acontecido e o que vinha depois, que parecia pedir uma pausa antes da estrada.


— Posso falar uma coisa? — disse Lara, olhando pro painel em vez de pra ele.


— Sempre.


Ela respirou.


— Eu não quero pressionar você com rótulo, nem cobrar nada que você não esteja pronto pra dar. — As palavras saíam cuidadosas, escolhidas com aquele cuidado que ela tinha. — Mas eu preciso de um pouco mais de tempo antes de voltarmos pra vida real. Pra processar o que isso é, sem pressa, sem precisar anunciar nada pra ninguém ainda.


Ele ficou em silêncio, ouvindo.


— Ao mesmo tempo — ela continuou — eu preciso entender, mesmo que seja só entre nós dois, sem rótulo nenhum se você não quiser. Porque eu não vou conseguir lidar bem se um dia aparecer uma foto sua com outra pessoa e eu não souber se tenho direito de sentir alguma coisa com isso.


Ele ficou olhando pra ela por um momento longo.



— Eu mostraria você pro mundo amanhã, se fosse só por mim — disse ele, finalmente. — Sem hesitar. Não tenho vergonha nenhuma de nós, Lara. Nunca tive.


— Eu sei.


— Mas eu entendo que você precisa de tempo. — Ele pausou. — E vou ser sincero com uma coisa que talvez seja egoísta da minha parte.


— Diz.


— Desde que fui draftado, não existe parte da minha vida que seja só minha. — Ele olhava pra frente agora, pro para-brisa, como se fosse mais fácil dizer aquilo sem encarar ela direto. — Sabem o que eu como, onde moro, com quem converso, como jogo em cada segundo de cada partida.


Ele pausou.


— E eu sei que já vazou foto sua, já saiu artigo, já teve gente comentando — ele continuou, a voz mais baixa agora. — Isso eu não consigo mais evitar completamente, e queria poder. Mas o que ainda não aconteceu é o resto. Ninguém sabe o tamanho disso de verdade. Ninguém sabe da cabana, do que você significa, do que isso é quando a porta fecha. Isso ainda é só nosso.


Ela ficou ouvindo, sentindo o peso de cada palavra.


— E uma parte de mim — ele continuou, mais baixo ainda — quer guardar esse tamanho só mais um pouco. Deixar que vejam fotos, que façam especulação, mas sem saber a verdade completa ainda. Antes que o mundo tenha opinião formada sobre algo que nem é dele pra opinar.


— Não é egoísmo — ela disse, baixinho. — É proteção.

Ele virou pra ela.


— Então estamos os dois querendo a mesma coisa — disse ela. — Por motivos diferentes, mas a mesma coisa.


— Tempo.


— Tempo — ela confirmou. — Sem rótulo pressionado, sem anúncio, só nós dois entendendo o que isso é no nosso ritmo.


Ele esticou a mão e segurou a dela, sobre o câmbio, entrelaçando os dedos.


— Mas se alguma foto nova aparecer — disse ele — com qualquer pessoa, em qualquer contexto — você tem direito de perguntar. Sempre. Não precisa ter medo de cobrar isso de mim.


— Eu não quero ser chata pedindo isso.


— Você não vai ser nada chata perguntando o que é nosso. — Ele apertou a mão dela. — Isso é cuidado, não cobrança.


Ela ficou olhando pra ele, sentindo aquele nó que sempre se formava no peito quando ele dizia as coisas certas sem nenhum esforço aparente.


— Então o que a gente é? — ela perguntou, baixinho, a mesma pergunta de antes, mas agora com menos medo dentro dela.


— O que você quiser que a gente seja. — Ele levou a mão dela até a boca, beijando os dedos. — Eu só sei que é real. O resto a gente define no nosso tempo.


Ela sorriu, pequeno, sentindo o peso da conversa se acomodar em algum lugar mais leve.


— Podemos ir agora — disse ela.


— Podemos.


Ele soltou a mão dela só pra colocar o carro em movimento, e a cabana foi ficando atrás, pequena no espelho retrovisor, enquanto a estrada os levava de volta pra Edmonton e pra tudo que esperava por eles lá.


…


Chegaram já com a cidade escura ao redor, as luzes de dezembro começando a aparecer nas janelas das casas.


Ele parou na frente do prédio dela, mas não desligou o carro.


— Não precisa descer — disse ela, olhando pra rua antes de olhar pra ele. — A rua está vazia agora, mas não quero arriscar.


— Eu sei. — Ele já tinha aprendido esse cálculo silencioso dela, a forma que avaliava cada esquina antes de relaxar. — Fico aqui.


Ficaram parados por um momento, o motor ligado, o aquecimento mantendo aquele calor pequeno dentro do carro enquanto fora a noite de Edmonton ia ficando mais fechada.


— Posso te perguntar uma coisa boba? — disse ela.


— Pode.


— Você acha arriscado continuar indo na cafeteria normalmente? — Ela olhou pra ele. — Tipo, fingindo que sou só a funcionária que serve seu café de manhã. As coisas estão crescendo, Nolan. Em algum momento as pessoas vão somar dois mais dois.


Ele ficou pensando por um segundo.


— Acho que sim, em algum momento — admitiu. — Mas não acho que isso devia mudar o que a gente faz agora. — Ele olhou pra ela de frente. — Eu não quero parar de te ver de manhã só porque alguém pode descobrir antes da hora.


— Mas e se descobrirem?


— Aí a gente vai lidar com isso quando acontecer. — Ele disse isso com toda calma. — Não vou viver com medo do que pode ser. Já decidimos isso, lembra? Tempo. No nosso ritmo.


Ela ficou olhando pra ele, sentindo aquela mistura de medo e conforto que parecia sempre acompanhar as coisas que ele dizia.


Foi ela quem se aproximou primeiro.


O beijo começou devagar, mas não ficou assim por muito tempo, havia ainda o resquício de tudo que tinha acontecido na cabana, a intimidade nova que não sabia ainda como se comportar em espaços pequenos como o banco de um carro, e a mão dele foi pro rosto dela enquanto a dela se fechava na gola do casaco dele, puxando mais perto.


A intensidade cresceu rápido.


Ele parou.


Afastou-se com um esforço visível, a respiração alterada, a testa encostando na dela por um segundo antes de conseguir falar.


— A gente devia parar — disse ele, a voz rouca.


— De novo? — Ela riu, baixinho, ainda sem fôlego.


— De novo. — Ele sorriu, mas havia seriedade por trás. — Porque você não merece que aconteça nada aqui dentro de um carro estacionado na rua, com qualquer um podendo passar e ver.


— Não tem ninguém na rua.


— Não é sobre ter alguém agora. — Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, com aquele cuidado de sempre. — É que eu gosto de ter você de outro jeito. Com tempo, com cuidado, sem pressa de carro estacionado. Você merece mais que isso, Lara.


Ela ficou olhando pra ele, sentindo aquele calor que vinha sempre que ele dizia coisas assim, tão simples e tão grandes ao mesmo tempo.


— Você é ridículo — disse ela, mas sem nenhuma irritação na voz.


— Sou cavalheiro. É diferente.


— As duas coisas podem coexistir.


Ele riu, baixo, e beijou a testa dela antes de se afastar de vez.


— Vai — disse ele. — Antes que eu mude de ideia sobre todo esse discurso bonito que acabei de fazer.


Ela saiu do carro com um sorriso que não conseguiu controlar, subindo as escadas do prédio enquanto ouvia o carro só sair do lugar depois que ela tinha destrancado a porta de entrada, ele esperando, como sempre, até ter certeza que ela estava segura.