Odisséia Grega
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Minha bolsa parecia pesar uma tonelada enquanto ficava pendurada no meu braço e eu tentava comer aquelas rosquinhas sem polvilhar o rosto todo de açúcar no meio da rua. O céu estava parcialmente nublado, o que era bom porque evitava que eu derretesse durante a espera de um taxi na frente de uma Starbucks quase vizinha de casa e por pouco eu não soltei um palavrão quando um deles finalmente resolveu me notar parada feito um dois de paus na calçada. Dei ao motorista o endereço da mamãe e suspirei encostando-me ao banco depois de colocar o cinto.
Lembrei-me do revirar de olhos de Rosalie enquanto bebia o meu frappuccino de doce de leite que estava dos deuses, eu havia mesmo tentado, mas realmente não consegui lidar com aqueles cafés da manhã cheios de frufru que ela preparava, com proteínas de alguma letra do alfabeto, semente de tal planta e ovas de algum animal. Simplesmente nojento. Se esse era o segredo daquela beleza estonteante, eu preferia continuar normal e bem alimentada, até porque hoje era sexta-feira e como combinado, dona Renée me espera em casa com sua comidinha caseira que eu tanto amo. Sexta-feira. Hoje fazia semana que eu havia conhecido e beijado aquele Adônis.
Por algumas noites eu sonhei com aquele beijo na frente do meu prédio, deixei que a cena se repetisse de novo e de novo – algumas vezes eu tive mais sorte e depois do beijo, ele vinha comigo para o apartamento e lá fazíamos amor até os primeiros raios da manhã surgirem – só pra acordar quente e incomodada entre as pernas e sentir falta do seu cheiro. Eu estupidamente havia acreditado que ele me procuraria de novo, mas até Rose concordou comigo, era Edward Cullen. O cara estava montando uma sede aqui em Atlanta há alguns meses e queria ela funcionando pra ontem, além do mais, o sujeito poderia ter a mulher que quisesse, quando e onde quisesse, por que diabos voltaria pra mim por causa de um beijo?
O rapaz do táxi buzinou quando eu sai sem pagar em meio as minhas divagações. Lhe pedi desculpas e paguei o valor certo.
— Bom dia, srta. Isabella. — Um dos seguranças me cumprimentou, abrindo o portão para mim. Respondi lhe dando um sorriso simpático e segui caminho admirando o jardim bem cuidado da mamãe o qual ela morria de ciúmes, apenas ela e o Sr. José chegavam perto dali, o resto só podia olhar de longe. Era engraçado. Abri a porta sem cerimônias e gritei um “tem alguém em casa?” enquanto colocava minha bolsa e o copo vazio na mesa do hall. Fui para sala encontrando Charlie concentrado em um jogo dos New York Jets, tanto que mal piscou quando me aproximei e lhe dei um beijo estalado na bochecha. Sai rindo dali e segui um som baixinho de música até a cozinha.
Mamãe estava com um vestido salmão que ia até seus joelhos, um avental branco bordado por cima e descalça picando alguns legumes para a carne de panela que já cheirava deliciosamente bem. Deus abençoe a genética dos Swan, porque só uma milagre pra permanecer magro naquela família. Abracei-a por trás que riu e encostou sua cabeça no meu ombro. Dei bom dia espalhando alguns beijos por sua bochecha e cabelos e depois fui pegar um pouco de água.
Resolvi ajudá-la a finalizar o almoço e comecei a preparar a salada. Mamãe perguntava por Rose e como andava minha busca por emprego. Contei para ela do meu fracasso nas últimas entrevistas e que suspeitava que tinha o dedo do Dempsey nisso. O cara nunca me ameaçou nem nada assim, foi frio e fez o que tinha que ser feito quando pagou os meus direitos, mas ele simplesmente não fazia o tipo que cedia à uma mulher. Imaginei na época que viria chumbo grosso pra cima de mim com o tempo, mas nada aconteceu... até que eu não conseguia ser contratada em lugar algum. Renée disse que mexeria alguns pauzinhos se eu quisesse – o que eu recusei na hora, não subiria na minha carreira por mérito de ninguém, além de mim mesma – e por fim apenas pediu que eu não desistisse ainda e curtisse o tempo livre.
— Caramba, vai ser muito bom ver todo mundo de novo! O Seth deve estar enorme. — Comentei durante o almoço me sentindo muito animada com a notícia de que alguns amigos de Forks viriam passar o natal conosco. Eu não convivi muito com nenhum deles a não ser nas poucas visitas que nos fizeram e nós a eles em algumas férias anos atrás, mas me dei bem com todo mundo e me senti parte da família. A nossa não era grande, infelizmente, então ter mais gente em casa nas festas de fim de ano era tipo ganhar na loteria pra mim. Rose sempre passa o Natal conosco porque os pais delas não ligam muito pra essas tradições e como ela quase foi adotada pela mamãe, é uma das primeiras a dar as caras por aqui.
Já no ano novo somos só nos duas em algum clube ou festa no centro da cidade depois de um bom jantar em um restaurante aleatório. Sendo duas solteironas por falta de opção, a gente completa o vazio uma da outra em momentos assim enchendo a cara de champanhe, comparando os fogos de artifício com as nebulosas e fazendo planos para o ano seguinte. E falando nela...
— Rosalie? Tá em casa? — Perguntei jogando as chaves no aparador. Eram 16:45 p.m. e eu acabara de chegar da casa dos meus pais me sentindo meio sonolenta, caminhei até o sofá e deitei lá chutando as botas para fora dos meus pés. Peguei uma almofada e deitei o rosto em cima enquanto suspirava e aos poucos meus olhos cansados foram se fechando.
Resmunguei ouvindo a TV ligada e luminosidade dela na minha cara. Virei para o outro lado colocando a bunda pra cima e tentei voltar ao meu cochilo gostoso. Alguma coisa puxava a perna da minha calça, como um cachorro querendo brincar e eu tentava empurrar aquilo com o pé, mas tão rápido quando cessava, começava de novo. Ouvi uma risada baixinha e sacudi as pernas feito criança mimada recusando-se a acordar para ir à escola. Minha calça foi puxada outra vez e eu estava a um segundo de chutar a cara de quem quer que fosse quando um tapa forte foi dado na minha bunda, me fazendo pular.
— Puta que pariu, Rose! Eu vou arrancar fio por fio dessa sua peruca loira. Que merda — Gritei acariciando a minha bunda enquanto virava e ficava de frente pra ela que apenas deu de ombros me dando aquele olharzinho de “eu sei algo que você não sabe”. Estreitei os olhos pra ela desafiando-a e a filha da puta apenas arqueou a sobrancelha de volta. — Ok! O que foi? — Me dei por vencida. Ela sorriu e saltitou pra fora da sala cantarolando.
Quando Rosalie retornou, eu já estava sentada no sofá enquanto puxava a maldita calça apertada das minhas pernas, mas parei quando elas chegaram aos tornozelos porque ela vinha carregando um enorme buquê de rosas cor de laranja em minha direção com um sorriso de orelha à orelha. Me entregou o buquê que praticamente cobriu a visão de tudo na sala e eu aproximei o rosto das pétalas inalando o cheirinho gostoso. Mas que surpresa linda!
— Veio com um cartão. E é malditamente bom que leia em voz alta. — Disse me mostrando um envelope branco também perfumado, coloquei as rosas no meu colo e abri, dentro havia um pequeno cartão que dizia em uma caligrafia elegante:
“Descobri esta manhã que rosas nesta cor simbolizam deslumbramento e encanto, sendo assim, perfeitas para você se são esses os sentimentos que desperta em mim.
Conceda-me mais um jantar, Isabella, desta vez em sua companhia.
Meu motorista irá lhe buscar às 20h.
Edward Cullen”
— Wow... — Rosalie soltou.
— Eu sei, certo? Ele nem me deu chance de recusar... quero dizer, e se eu tivesse um compromisso ou precisasse trabalhar? — Falei ainda em choque tentando disfarçar a surpresa e a emoção por ele ter pensando em mim de forma tão atenciosa.
— Hoje é sexta-feira, ele te chamou pra jantar às oito e muito provavelmente sabe que você é uma desempregada, Bella. Claro que o grego gostoso fez o dever de casa depois de lhe dar aquele beijão aqui na porta. — Rose falou astuta e piscou pra mim, pegou meu buquê e disse que ia providenciar um vaso e água para ele.
Rose provavelmente estava certa. Edward não parecia do tipo que gostava de surpresas, com certeza ele deve ter pesquisado sobre mim, não duvido nada que um homem com aquela quantidade de poder tenha até meu boletim da quinta série em casa. Se eu fosse bilionária também pesquisaria sobre os meus casinhos. Quem vê cara, não vê coração...
Meu estômago começou a revirar quando vi no relógio que já eram 18:50. Puta merda! Eu tinha tanto que fazer ainda! Eu iria, certo? Ou talvez, só talvez, eu devesse cancelar e não parecer muito interessada.
Isso, faça isso, dispense o magnata e perca uma noite com o homem para alguma loira peituda menos fresca que você, gritou minha consciência.
Oh, inferno. Eu já estava quase conformada que não ouviria mais falar do Cullen tão cedo e aí ele aparece uma semana depois todo galanteador como se isso fosse muito normal. Homens! Gritei por Rose enquanto corria para o quarto e tropeçava nas calças ainda presas nos meus tornozelos. Ela veio ao meu socorro e me ajudou a escolher uma roupa que não gritasse “eu senti tanto sua falta, esqueça o jantar e me leve para cama” e sim algo como “sou naturalmente bonita e você não vai se assustar na manhã seguinte após nossa linda noite de amor”, óbvio que eu não disse nada disso em voz alta porque corria o risco de sair do apartamento com a bunda roxa, mas ela entendeu o meu ponto e se fez muito eficiente. Optei por um vestido verde que me lembrava um pouco aos seus olhos e deixei que Rose cuidasse do meu cabelo, para que ficasse liso com ondulações do queixo para baixo e uma maquiagem simples.
O banho quente relaxou o meu corpo tenso de antecipação, mas o estômago embrulhado continuava lá me lembrando que a cada minuto que o relógio marcava, mais perto eu estava de encontrar com ele. Depois de vestida, soltei os cabelos e os arrumei me dando um ar sensual ao resto da obra. Calcei meus sapatos, pus as poucas joias que escolhi e passei perfume em pontos estratégicos do meu corpo. Às 19:55 o interfone tocou avisando que o motorista do Sr. Edward Cullen havia chegado. Rose me beijou a testa, desejou-me sorte e disse-me para fazer tudo que ela faria. O que eu provavelmente eu não conseguiria nem em outra reencarnação.
Havia um homem uniformizado que me esperava encostado a um carro diferente do da semana passada. Ele acenou em reconhecimento e abriu a porta para mim, fechou-a e foi para direção. Eu inspirava e expirava enquanto olhava as ruas em que passávamos, não fazendo ideia de qual o nosso destino. Ouvi um celular tocando e distraída, não percebi com quem ele falava até que depois de finalizar a ligação, soltou um risinho e disse:
— O patrão parece um pouco ansioso demais em encontra-la, senhorita. —
Algo esfriou na minha barriga ao mesmo tempo em que parávamos em frente ao restaurante.
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