Odisseia do Zodíaco
7 Encurralados
Bruna, depois de todo o esforço, sentiu fortes dores na cabeça, desmaiou e foi levada por virginianos, chamados por Amara, ao laboratório no porão do dormitório da Terra. Sem compreender o perigo que assolava a paz dentro da montanha, os veteranos rodeavam Amara, que não conseguia pensar em uma solução. Fez-se um breve silêncio, que foi quebrado logo em seguida:
— Vou até lá.
— O que? – Todos se espantaram, mas Americo quem tomou a palavra. – Como assim, você vai deixar a montanha?
Um fato muito raro de se acontecer. Amara só deixava a montanha em período de treinamento para missões excepcionalmente importantes. Parece que esse caso, definitivamente, era uma exceção.
— Preciso ir até lá ver de perto o que houve.
— Mas é muito perigoso – retruca May.
— Eu sei disso.
— Vamos com você – informou Babi.
— De jeito nenhum, vocês mesmo disseram que era perigoso, não posso permitir que vocês me acompanhem numa missão dessas.
— Amara, você não vai conseguir nada sozinha – disse Lucas, o Conselheiro de Aquário. – Deixe a gente ajudar.
Pensativa, ela se calou por um segundo. Não demorou muito até se pronunciar novamente:
— Tudo bem, vocês podem vir.
— É isso aí, então – disse Felipe, agitado. – Bora fazendo.
— Americo, Babi e Lucas. Ninguém mais. May ficará responsável pela montanha. Não quero comprometer a segurança de ninguém.
Felipe, inquieto, implorou:
— Deixa eu ir também, eu posso ajudar.
Depois de muito insistir, ele se conteve com um:
— Você fica montando guarda aqui, preciso de você protegendo nossa casa – disse Amara, segurando em seu queixo.
Amara saiu com os três veteranos. Os que restaram se dispersaram pela montanha aos burburinhos, criando teorias malucas sobre o que está acontecendo.
Felipe chutava uma pequena pedra a caminho do Cafofo quando encontrou Jay e André pelos corredores.
— Tem certeza que quer mesmo ir? – pergunta o garoto de Peixes. – Não sei nem como sair dessa montanha direito.
— A gente se vira – responde Jay que, assim como André, não pareceu notar a presença de Felipe. – Pega um ônibus, sei lá. Ninguém vai notar nossa falta.
— Não mesmo, vocês são insignificantes – ironiza Felipe, dando um susto nos dois. – O que pretendem e aonde pretendem?
Jay olhou para André, assustada. Demorou alguns segundos até se decidir se falaria pra ele ou não, mas, por fim, cedeu:
— Vamos sair da montanha, pra algo muito importante. Não tenho recebido correspondência dos meus pais há dias. André também não. Queremos saber pessoalmente se eles estão bem. Moramos no litoral de São Paulo e se você tentar nos impedir vai ser um idiota sem coração.
A garota nem precisou usar seus atributos para fazer chantagem emocional. Empolgado com a ideia de sair da montanha, o capricorniano não fez objeções.
— Tudo bem, desde que eu vá com vocês.
André e Jay concordaram de imediato. Com um sorriso no rosto, Felipe continuou a chutar a pedra, agora na direção dos dormitórios, seguido pelos dois.
— E então, você sabe como sair desse local e pegar um ônibus? – pergunta André.
— Sei sim, mas relaxem, não vamos de ônibus. Tenho uma ideia melhor e vou precisar de você, Jay.
— Ok.
Os três seguiram até o dormitório do Ar, sendo barrados na porta por ninguém mais que Ana.
— Com licença, preciso falar com Paulo – diz André.
— E o que você quer? – pergunta ela.
— Não interessa pra você, apenas saia da frente – responde ele.
Ana muda de tamanho, ficando um pouco mais alta e mais magra. Seus cabelos passam a ficar cacheados e seus olhos assumem a cor castanha. Até sua pele fica mais bronzeada.
— “Não interessa pra você, apenas saia da frente” – retruca Ana, que se transformara no clone de André.
Felipe e Jay tiram sarro enquanto André fecha a cara.
— Nem é assim que eu falo – responde André.
— É sim – diz Ana-André.
— Você está fazendo um jogo comigo, garota?
— Se não aguenta, não desce pro play!
— Chega! – Jay, por fim, interrompe os dois. – Ana, se não for pedir muito...
A libriana volta à sua figura normal.
— Tudo bem, foi apenas brincadeira, podem entrar.
Eles adentram o dormitório do Ar, encontrando-o quase vazio. No canto da espaçosa sala, via-se a figura de um garoto com uma barba enorme e cabelo roxo penteado.
— Paulo, sua hora de brilhar chegou – diz Felipe, aproximando-se do garoto.
— Como me reconheceu, menino? – questiona o libriano.
— A barba é irreconhecível.
— Ah, verdade.
Paulo fecha os olhos e sua barba diminui ao mesmo tempo em que óculos escuros materializam-se em sua cara. Depois, pergunta:
— O que você quer mesmo?
— Preciso que nos acompanhe em uma pequena aventura.
Com um dedo, Paulo abaixou seus óculos e os encarou.
— Que tipo de aventura? – perguntou, interessado.
— Te explico no caminho, você topa?
— Tenho nada pra fazer mesmo, então, bora, né?
O trio transformou-se em quarteto e prosseguiram até a área externa da montanha. Era um lugar silencioso e pouco frequentado e não havia nenhuma saída ali, apenas o túnel por onde haviam entrado. Felipe aproxima-se de uma parede plana ao lado de Paulo.
— Preciso que se transforme em um dos conselheiros – diz Felipe. – Só eles podem fazer o que preciso.
A figura de Paulo transforma-se rapidamente na figura de Americo, deixando até mesmo Jay e André assustados.
— Nossa, está idêntico! – comenta a garota.
— Não é à toa que o vejo quase todos os dias – responde Paulo.
Felipe começa a deslizar as pedras da parede com a mão como se fossem um quebra cabeça. Não demorou muito até o capricorniano usar as pedras para formar um relevo retangular, que se abriu, revelando uma tela e uma espécie de código de barras ocular.
— Já sabe o que fazer – diz ele, enquanto Paulo-Americo aproximava-se do leitor.
De início, as luzes do leitor ficaram vermelhas e a tela anunciou um “código inválido”.
— Acho que não acertou bem a cor dos olhos – comenta André.
Paulo pisca, deixando a tonalidade da cor um pouco mais escura. Depois, aproxima-se mais uma vez do leitor e fica feliz ao saber que o resultado deu positivo.
— YES! – comemora Felipe. – Agora, se afastem, por favor.
O chão começou a tremer levemente, até ficar plano e deslizar para os lados. Um buraco abriu-se no chão, fazendo uma enorme máquina subir devagar sobre um chão de concreto retangular. Duas áreas estavam marcadas de linhas pontilhadas, na qual uma estava vazia e a outra continha um pequeno helicóptero de cor vermelha.
— WOW! – exclama Jay.
— Amara deve ter pegado o outro – comenta Felipe, entrando no helicóptero e assumindo o controle.
— Ai, meu cosmos! – diz Paulo, sentando-se ao lado do capricorniano. – Nem sabia que isso existia.
André e Jay sentam-se nos bancos traseiros e colocam os cintos.
— Você sabe pilotar isso, menino? – pergunta André.
— Talvez sim, talvez não. Vou descobrir isso agora. Colocaram os cintos?
Os três passageiros assentem enquanto as hélices começam a girar. Sem pensar duas vezes, Felipe coloca o helicóptero no ar e, através do radar, seguem na direção do estado de São Paulo.
***
Vittoria andava de um lado a outro no dormitório de Sagitário. Sentia-se culpada, sem saber pelo quê.
— Vai abrir um buraco no chão – disse Jhordan, engolindo, em seguida, um Fandangos.
Ela se sentia incomodada com o fato da irmã que não sabia que tinha estar sob o mesmo teto que ela e não conseguir ter uma conversa decente. Decidiu sair do quarto para procurar um lugar para ficar sozinha e pensar. Abriu a maçaneta da porta e topou com Giu. Sua boca se abriu para dizer algo, mas Giu se adiantou e desviou da irmã, entrando no quarto, rumando para a parede oposta onde uma rede estava pendurada. Jhordan olhava de uma para outra com um olhar interessado, mas desapontou-se ao ver que isso não ia muito longe por hoje.
Gorran surgiu na porta chamando por Vittoria:
— O que você quer? – perguntou ela virando-se para ele.
— Vem comigo, eu encontrei uma coisa que você vai adorar.
Contra sua vontade, ela seguiu o amigo, que a puxou pela mão, deixando para trás o dormitório do Fogo.
Alguns corredores depois, ela já estava cansada de tanto andar e de tanto perceber que há lugares na Toca que ela jamais havia conhecido e o quanto aquele lugar era grande. Parando em frente a um corredor mal iluminado e minúsculo, Gorran fez sinal de que ia entrar, mas virou-se para ela e se pôs às suas costas.
— Fecha os olhos – pediu ele.
— Que? Pra que? – quis saber ela.
— Confia em mim.
Vittoria, sem paciência para questionar, cerrou minimamente os olhos. Para garantir que ela não visse nada, Gorran pousou a palma de suas mãos sobre os olhos dela.
— Pra que isso, Gorran? – perguntou ela, colocando a mão sobre a dele e sentindo a pele friam que gelava a região em volta de seus olhos.
— Já disse, confia em mim.
Depois de alguns tropeços e de andarem o que para Vittoria pareciam quilômetros, Gorran soltou-a e disse:
— Pode abrir os olhos.
Ela admirou o local que nunca havia visto antes. Uma gruta grande com uma pequena lagoa de água cristalina ao lado. Várias estacas da rocha desciam do teto.
— Como você encontrou esse lugar? – perguntou ela.
— Sou curioso – foi só o que ele disse.
Eles sentaram à beira da lagoa, com os pés dentro da água.
— Vou passar a vir aqui sempre – disse ela.
— Só não conta pra ninguém, vai ser o nosso segredo.
Ela sorri pra ele e ele pousa seu braço sobre o ombro dela. Conversaram sobre a dificuldade que ela tinha em se aproximar da irmã e o modo como os treinamentos, e o fato de dormirem no mesmo quarto, ser uma aproximação forçada das duas deixavam-na muito triste.
— Já disse que você não é culpada de nada.
— Eu sei – respondeu ela chateada –, mas é como se a montanha quisesse que nos aproximássemos e eu não conseguisse.
— Tudo no seu tempo, vai dar tudo certo. – Ela retribuiu se deixando envolver mais uma vez pelos braços dele.
— Vamos, quero explorar um pouco mais esse lugar! – disse ela, levantando-se. Puxado pela mão por ela, Gorran acompanhou-a. Chegaram a um grande muro com umas inscrições muito particulares.
— São nomes! – exclamou Gorran.
— Não são só nomes – exclamou Vittoria em resposta. – São os nossos nomes. Os eremitas. Todos eles.
— Todas as gerações de eremitas – respondeu ele tocando um nome no início da parede.
— "Amara" – leu Vittoria. – Qual será a história dela com o Pico do Cristal?
— Não sei, mas a julgar por isso, faz realmente muito tempo. – Gorran apontou os nomes ao redor do nome de Amara. Uma infinidade de nomes riscados. Acompanhando o muro, chegaram numa parte onde outros nomes não foram riscados. Encontraram os nomes de Lucas, Elli e Americo.
— "Max" — leu Vittoria. – Americo me falou desse cara. Ele foi antecessor da Luisa no Conselho. Morreu numa missão ano passado.
— Coitado.
— Americo disse que ele era um pé no saco e a única coisa de que se arrepende foi de não ter matado ele com as próprias mãos.
— Ele não faz o tipo brigão.
— Mas teve um fator muito importante que influenciou essa ira toda. – Vittoria apontou para o nome "Linna" também riscado. – Ela era uma grande amiga do Americo, não sei a história toda mas ele teve a ver com a morte dela.
— Então, é isso. Os nomes riscados são os que já morreram – concluiu Gorran. – Vamos procurar os nossos.
Mais à frente, eles encontraram os nomes de todos os novatos. Logo abaixo de Vittoria, o nome Giuliana destacava-se. Gorran percebeu que ela desviou o olhar da parede e pegou em sua mão.
— Vem, vamos sair daqui – chamou ele.
Quando caminhavam de volta, Gorran notou dois nomes próximos aos nomes de Ingrid e Natali. Ele tocou a parede procurando em volta outros nomes que pudessem explicar. Não era possível o que estava vendo.
— O que foi, Gorran? – quis saber Vittoria.
— Vamos embora. Precisamos encontrar a Amara.
Enquanto ele a puxava pela mão novamente para fora da gruta, dois nomes pulsavam sob riscos que pareciam ter sido feitos recentemente. Michael e Thomas, seu veterano de Leão.
***
Porém, a velha e poderosa pisciana não estava presente no Pico do Cristal naquele momento. Ao lado de Lucas, Babi e Americo, ela fora atrás de outros dois veteranos, que, possivelmente, estavam mortos.
— Você não consegue esconder a preocupação no seu rosto – diz Americo, ao lado de Amara. – Mas não há nada que possa ser feito. E você não teve culpa disso, eles foram por livre e espontânea vontade.
— Não importa, ainda me sentirei culpada. Essa é uma característica que não posso fugir.
— Sentir culpa?
Amara se aproxima da janela, onde as luzes da grande cidade ofuscavam o brilho das estrelas. Mesmo assim, conseguia ver cada constelação, assim como todos os eremitas.
— Sentir a dor que não me pertence – responde ela, por fim.
Lucas assumiu o controle do helicóptero porque era o único que possuía carta. Mesmo tendo feito um curso preparatório, não se sentia seguro pilotando uma máquina daquelas. Por isso, não arriscava voar a toda velocidade.
— Chegaremos em alguns minutos – anuncia Babi, que estava ao lado do garoto, olhando o GPS. Indicava que estavam na Represa Billings.
— Olha lá! – diz Lucas, apontando para a sua esquerda. Em uma distância significativa, um helicóptero voava rapidamente na mesma direção que eles. – Parece o nosso outro helicóptero.
— Verdade, tem até a mesma cor – comenta Babi. – Não tem como você ir na mesma velocidade que eles?
— Não possuo aptidão para aeronaves, melhor não arriscar.
Mal sabiam eles que o helicóptero que os despistava estava sendo controlado por Felipe. O garoto nem notara o helicóptero que havia deixado para trás, principalmente porque ligaram o rádio e estavam ouvindo hip-hop dos anos 90 para quebrar o clima de preocupação e amenizar o som das hélices. Ao seu lado, Paulo observava a paisagem, mudando de aparência a cada dois minutos.
— Você consegue se transformar em algum empresário? – pergunta Felipe.
— Sim – responde o libriano. – Mas gasto bastante energia se eu não tiver visto a pessoa.
— Então você roubaria facilmente uma conta e ficaria milionário?
— Garoto, você só pensa em dinheiro?
— Desculpa, não quero criar estereótipos. É pra fins acadêmicos, só isso.
Enquanto os dois falavam sobre possíveis interesses monetários através de seus atributos, Jay e André roíam as unhas de preocupação. Não conseguiam encontrar assunto pela primeira vez, então observavam o céu e todas as estrelas que eram capazes de ver, ao som de Run-DMC.
— Será que nos tornamos uma quando morremos? – questiona Jay.
— Uma o quê?
— Uma estrela.
— É uma ideia bem criativa. – André para de roer as unhas e começa a estalar os nós dos dedos. – Mas acho que não, Jay. Essas estrelas estão há milhões de anos-luz daqui. Talvez nem existam mais.
— Isso é o que a ciência diz, nem sempre está certa.
— E nem sempre erra, né?
Fez-se silêncio total, nos dois helicópteros. O hip-hop fora trocado por rock no helicóptero vermelho, enquanto no preto as hélices deixaram de ser o único som presente.
— Estamos nos aproximando da cidade de Cubatão, próxima a Santos – anuncia Lucas, em um alto falante. – Tem alguma indicação de onde podemos parar?
— Vamos parar perto do incêndio, pois de acordo com Bruna a pista está inativa – responde Americo.
— Ok.
Lucas aproxima o helicóptero da pista e, pela janela, já era possível ver os destroços, os incêndios e a fumaça do incidente. Havia acontecido há algumas horas, mas nenhum sinal da polícia nem dos bombeiros. Seja o que tiver acontecido, fugia um pouco do normal: primeiro, por estar em uma estrada abandonada; segundo, por não ter nenhum vestígio de vida ali.
Com um pequeno baque, o garoto pousa no chão e desliga os motores. As hélices param de girar e os eremitas deixam o veículo.
— Isso deve ser muito perigoso – diz Amara, enquanto caminham na direção dos destroços. – A qualquer sinal de ataque, vocês...
Mal terminara sua frase e um enorme objeto em chamas voara na direção deles. Porém, em vez de atingi-los, acabou atingindo a aeronave, que explodiu em chamas enormes, fazendo com que os quatro se abaixassem.
— DE ONDE VEIO ISSO? – pergunta Lucas.
Americo rapidamente segurou seu arco e armou uma flecha que tirara de sua aljava. Babi esticou os braços e duas enormes garras prateadas brotaram de seus punhos. Nesse momento, uma enorme serpente negra saiu de trás do ônibus tombado.
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