O som das hélices quase impedia o diálogo entre os quatro eremitas. Mas não era preciso dizer muito, apenas uma boa sorte do piloto.

— Obrigada – responde Jay, após pular do helicóptero pra areia, de uma praia localizada na cidade de Guarujá. – Não sabe o quanto isso significa pra mim.

— Vou cobrar depois – brinca Felipe, mas Paulo o encara com desgosto. – Mentira, estou zoando. Vou voltar antes que Amara e cia notem a ausência do helicóptero.

Com um único gesto, o garoto ganha altitude com o veículo e voa na direção da cidade ao lado para fazer uma curva. Admira as milhares de luzes que iluminavam o município de Santos, deixando a cidade quase toda exposta. A única parte escura era a saída da cidade, perto de Cubatão, onde o único foco de luz parecia ser um incêndio.

— Vamos chegar mais perto pra ver, fiquei curioso – comenta Paulo.

Felipe sobrevoa o canal do estuário, passando ao lado dos enormes navios. Encontra uma parte pouco iluminada, onde uma estrada vazia se estendia próxima a barracos na beira da água. Passou por uma enorme área preservada, até que foi capaz de distinguir as coisas que aconteciam ali.

— PERA, FOI AQUI O ACIDENTE COM AQUELES GAROTOS? – comenta Paulo, quando é capaz de distinguir um ônibus destroçado.

— Sim, mas cadê o helicóptero? – pergunta Felipe.

Cem metros mais pra frente, um enorme objeto produzia chamas enormes.

— Acho que é aquilo ali! – diz Paulo, apontando pra fogueira. – MEU ZODÍACO, O QUE É AQUILO?

Paulo aponta para a figura de um enorme “S” que serpenteava perto das chamas. O helicóptero se aproxima e ambos são capazes de distinguir uma cobra negra gigantesca sendo atacada por três pessoas que a rodeavam.

— São eles – diz Felipe, tranquilamente. – Vamos manter o foco e atacar.

O garoto pressiona um botão, aproximando-se da criatura. São capazes de ver Americo acertá-la com uma flecha, mas nada acontece além da serpente ficar mais furiosa. Suas escamas negras quase desapareciam na escuridão.

— Está sem munição – anuncia Felipe, quando estavam prestes a atirar na serpente. – Vamos pousar entre as árvores e ir ajudá-los.

— Esquece, vou ajudá-los agora! – respondeu Paulo.

A criatura tentou atacar o helicóptero e, se não fosse uma manobra bem feita, teria abocanhado a traseira da máquina.

— Não consigo me aproximar do chão pra você pular sem sermos atacados por aquilo.

— Pularei daqui mesmo – diz Paulo, confiante. – Não se preocupe.

— E o que você vai fazer? Se transformar no Bruce Lee?

— Quem disse que nos transformamos apenas em pessoas?

Paulo abre a porta e pula do helicóptero. No meio da descida, Felipe vê o garoto encolher, sua roupa desaparecer e seus braços se transformarem em asas. Pelos são substituídos por penas e Paulo sente-se agora no corpo de uma poderosa águia.

Enquanto Felipe pousa o helicóptero num campo ao lado, a batalha prosseguia cada vez pior – para os eremitas.

— O que diabos está acontecendo? – pergunta Americo, usando mais uma flecha pra distrair a criatura, enquanto Lucas joga um destroço de ônibus em uma falha tentativa de tentar feri-la.

— Lucas, me lance contra a cobra! – diz Babi, com garras em punhos.

— Está doida garota, quer morrer?

— Apenas faça.

Com um movimento e muita concentração o aquariano lança a garota no ar, que mergulha na direção da serpente, passando por sua cabeça e parando em suas costas. Rapidamente, Babi afunda suas garras contra o couro negro, fazendo a criatura grunhir de dor e balançar o rabo.

Agora, Babi encontrava-se instável, sendo girada de um lado para o outro pelo rabo da serpente, até que foi arremessada para muito longe. Enquanto isso, Paulo, a águia, mergulha na direção da serpente e tenta arranhar suas costas, mas sem sucesso.

— De onde vem essa águia? – pergunta Lucas.

— É o Paulo, esse louco – Felipe anuncia sua presença, saindo do mato com uma barra de metal e aproximando-se de Lucas e Americo, que estavam escondidos atrás de um carro tombado. – A emergência chegou.

— Então era você no helicóptero? – questiona Americo. – Amara vai ficar furiosa.

A serpente ataca o carro com o rabo, fazendo os garotos correrem. Americo atira e Lucas ataca o carro destroçado contra a criatura.

— Nunca vamos derrotar ela assim – diz Felipe. – A visão de uma cobra é superpotente. Precisamos cegá-la.

— Já tentei acertar seus olhos – diz Americo. – Mas toda vez ela se defende, abrindo a boca e engolindo a flecha.

Falando em flecha, mais uma é atirada. Como se o sagitariano tivesse previsto, a cobra abriu a boca mostrando seus enormes dentes e a flecha passou pela garganta como se fosse batata frita. Porém, aproveitando a distração, Paulo atacara os olhos da criatura com as garras.

A águia levantou voo e sangue negro escorreu dos olhos da serpente. Antes de pousar no chão ao lado deles, Paulo fez a curva e transformou-se novamente na sua forma humana.

— Boa! – diz Felipe. – Agora, é só atacar com cautela, mas cuidado que ela pode...

Irritada, a serpente pulou para cima deles, farejando seus corpos. Seu enorme rabo bateu no rosto de Felipe, que tentou se defender com a barra, porém acabou ficando inconsciente. Depois, tentou abocanhar Lucas, que se jogou para cima pra escapar. Paulo e Americo desviaram-se do corpo da criatura e correram para dentro da floresta. Porém, não tiveram a mesma sorte e acabaram sendo engolidos.

— NÃO! – gritou Lucas, desesperado. Teve de arremessar o corpo do capricorniano inconsciente para não ser devorado, parando-o perto de uma árvore.

Agora, a fera aproximava-se de Lucas, que se suspendeu no ar para ficar mais protegido. Teve de se desviar várias vezes e sentia suas energias saindo do corpo. Estava cada vez mais próximo do chão, triste e desesperado.

Porém, algo atrás da cobra chamou sua atenção por um momento. Silenciosamente, Thomas correu e pegou uma barra de ferro pontiaguda que estava jogada no chão. Depois, andou pelas costas da serpente, pisando em seu pescoço. No final, deu impulso para cima e, no momento em que caia, golpeou a cabeça da fera com toda a força, fazendo-a cair no chão.

— Thomas? – Lucas se pergunta como isso é possível. O garoto se aproxima de Lucas com a barra enobrecida pelo sangue da cobra. – Achei que estivesse morto.

Antes de responder, Thomas simplesmente caiu e parou de respirar como se não estivesse vivo. De dentro dele, Amara surgiu.

— Desculpe a demora, não é fácil entrar no corpo de alguém morto, muito menos sair.

Lucas boquiabriu-se.

— Era você?

— Sim, só que no corpo de uma pessoa mais jovem. Tive de usar os atributos dele – Amara desamassou sua roupa. – E cadê Americo e Babi?

A nuca de Lucas gelou por um momento.

— Babi foi arremessada, deve estar por aí. Já Americo...

O barulho de algo vindo da cobra chamou a atenção dos dois. Nesse momento, algo se rompera pela barriga da cobra, criando uma abertura enorme. De repente, a cobra começou a se desintegrar, virando um líquido escuro, até que viram as figuras de dois garotos cobertos pelo mesmo.

— Estou todo melequento, mas pelo menos recuperei minhas flechas – diz Americo, numa tentativa de se limpar, enquanto Paulo apenas precisou trocar de pele e roupa. – Valeu a pena.

— O que está fazendo aqui? – Amara olha abismada para Paulo.

— Explicamos na volta – diz Lucas. – Precisamos achar Felipe, Babi e o helicóptero.

— Felipe? Que helicóptero? O nosso explodiu.

Sem dar nenhuma resposta, Lucas foi ao encontro de Babi, que se levantava meio tonta. A garota mencionou que sentia uma dor enorme em suas garras dentro de sua pele. Enquanto isso, Americo carregava Felipe e Paulo achara o helicóptero.

Não demoraram mais que cinco minutos para finalmente alguém do local aparecer. Depois, vieram os bombeiros para apagar as chamas. Porém, os eremitas já estavam muito longe dali, voando na direção do Pico do Cristal.

***

— Estou nervosa – diz Jay andando em direção à sua casa que fica a alguns quilômetros de distância da praia em que Felipe e Paulo deixaram-nos. – Por que estou nervosa, André?

— Não sei – responde ele ofegante tentando seguir a amiga que andava a passos largos. – Mas você está me deixando nervoso.

— Eu só me senti assim uma vez na vida – ela fala, sentindo seus pelos do braço arrepiarem. Ele compreende que ela se referia à vez em que quase morreu afogada. – Será que os cancerianos sentem as coisas?

— Não sei nem o que o meu signo faz, quem dirá o seu. – Uma tentativa frustrada de fazê-la rir. Sua amiga ainda estava nervosa e praticamente correndo.

— Mas os piscianos são intuitivos, você não está sentindo nada? – diz ela, olhando para trás e parando, porque o amigo estava distante.

— Sim, sede – responde André parando e colocando a mão no peito. – Não tem como a gente comprar uma água de coco, não?

— Depois que verificarmos se está tudo bem com meus pais, ok? – Ela o pega pela mão e o puxa em direção à rua em que morava.

O total silêncio que encontram causa-lhes calafrios e uma sensação estranha. Respirando rapidamente, Jay olha em direção à sua casa e seu coração dá um salto, a casa onde seus pais deveriam morar estava totalmente destruída, as paredes pareciam ter sido demolidas por um terremoto, as casas ao lado estavam com as janelas fechadas. Ninguém parecia estar vivendo nelas. Quando Jay se aproximou do portão de entrada, viu inúmeras fotos dela e de seus pais e muitos cartazes com os dizeres "Descansem em paz". A dor invadiu-a por completo, ela se ajoelhou diante dos destroços e das homenagens sem saber o que sentir ou falar, não conseguindo nem chorar. André, que ficou boquiaberto com a imagem à sua frente, não parava de se questionar sobre o que havia acontecido. Sem nenhuma possível explicação, ajoelhou ao lado da amiga e a abraçou para tentar consolá-la. Só então se lembrou de sua própria família. Com o coração apertado, se levantou correndo sem responder aos gritos de Jay e rumou para duas quadras adiante onde viveu boa parte de sua infância. Quando chegou perto do portão, a situação parecia uma cópia exata do que vira há poucos minutos. Tudo estava em ruínas. Na frente dos destroços vários cartazes e fotos confirmavam o que ele não queria acreditar, assim como os pais de Jay, os seus também haviam morrido. Não sabia como, mas ele sentia que aquilo não era coincidência.

— André... – Jay se aproximara dele e, ao ver a casa do amigo em ruínas, as lágrimas começaram a surgir inundando seu rosto. Ela sentia seu corpo tremer e sua cabeça rodar. Quando ela encontrou os olhos do amigo, sentiu o peso da dor compartilhada por ele. Não conseguia conter as lágrimas e tentava encontrar força junto ao abraço de André, que também precisava de apoio. Juntos, tentaram sobreviver ao choque.

Além da sua dor, Jay conseguia sentir com clareza a dor do amigo. Ambos se conheciam desde pequenos e tinham vivido muitos momentos naquele lugar, dividido muitas sensações boas e ruins. E aquela era, sem dúvida, a pior.

— Eu não consigo acreditar – diz Jay, com uma voz rouca como se estivesse há dias sem usá-la.

— Vamos sair daqui – diz ele ajudando-a a se levantar. – Vamos para a praia.

Caminharam em silêncio até a praia. Jay segurou a mão de seu amigo tentando usar, silenciosamente, os seus atributos para amenizar a sua dor, mas tudo parecia em vão. Sentados na areia que tanto pisaram, tentaram sobrepujar o luto para raciocinar e só pensaram em como aquilo poderia não ser uma coincidência.

— O que será que aconteceu? – pergunta André. — Parece que foi só a nossa casa.

— Eu não sei – Jay responde com rancor em sua voz –, acho que a pergunta seria "O que faremos agora?".

— Acho que voltar pra montanha.

— Foi ela quem fez isso com os nossos pais, André – responde ela furiosa. – Nada disso teria acontecido – ela passa a alterar o tom de sua voz – se não tivéssemos saído daqui – as lágrimas retornam a brilhar em seu rosto – e ido para aquele lugar – ela já estava gritando. – Nossa vida era perfeita! Vivíamos em paz, vínhamos à praia, éramos felizes, não nos preocupávamos com nada e o mais importante: NOSSOS PAIS ESTAVAM VIVOS! – André compreende que este é um momento ideal para abraçá-la e deixar que as lágrimas dela saiam de seus olhos de forma a liberar a dor que ambos sentem. Ele sentia vontade de chorar, mas se segurava.

— O que quer que tenha acontecido, a montanha tem respostas. Tem que ter – concluiu ele. – Não vamos descobrir nada aqui. Lá é o único onde estaremos salvos.

Jay olhou-o chorosa e ele secou-lhe o rosto e tirou os cabelos de sua boca e olhos. Encostou sua testa na dela e com uma voz calma, olhou-a direto em seus olhos e disse:

— Vai ficar tudo bem. Eu estou com você. Sempre estarei.

O instinto levou-o a avançar. Seus lábios se tocaram e as últimas lágrimas que pendiam em suas pálpebras desceram por suas bochechas. A excitação do momento tornou o beijo quente e ao mesmo tempo confortador. Com a mesma calma que se aproximaram, eles se afastaram mantendo os olhares um no outro. Um breve silêncio se fez, até que foi quebrado.

— É, acho que não gosto mesmo da fruta – diz ele sem jeito, provocando risos na amiga.

Jay o encara e, por um segundo, tudo em sua mente some e ela só enxergou o amigo novamente como se fosse só mais uma tarde que passavam juntos.

— Eu sempre soube – responde ela, fazendo-o rir. Sentiam vontade de chorar, mas sabiam que um seria o porto seguro do outro. Enquanto isso existir, eles se sentiriam protegidos.

***

Luisa já não conseguia dar conta da quantidade de pessoas que eram encaminhadas ao laboratório, então Rodrigo e Jake se dispuseram a ajudá-la. Bruna, Babi e Felipe, além dos muitos eremitas que começavam a sofrer com as mudanças climáticas repentinas na Toca, estavam aos cuidados dos três veteranos. Luisa, a única formada, cuidava dos ferimentos de Felipe e Babi simultaneamente, enquanto Rodrigo e Jake revezavam entre verificar o estado de Bruna e medicar os eremitas que começavam a sofrer de hipotermia.

— Uma sopa quente deve amenizar – disse Rodrigo, um jovem, cujos olhos enormes tinham um tom de azul jamais visto, oferecendo uma tigela com um líquido fumegante a Auster, o novato ariano magro e baixo cujo nariz estava mais vermelho que a blusa que vestia.

— Gostaria de usar meus atributos para me aquecer, mas a temperatura não ajuda a me concentrar nas chamas – explicou ele.

— Você ainda é novato, vai conseguir ter total controle sobre seus poderes com tempo e treinamento, não se preocupe – consolou ele. Pousando a mão sobre seu ombro, concentrou-se e deu a ele um pouco de alívio do frio.

— Melhor? – Auster apenas sorriu e continuou a tomar sua sopa.

— Como ela está? – perguntou Rodrigo a Jake, analisando o monitor ao lado de sua cama.

— Seus batimentos estão estáveis, mas a temperatura voltou a subir – respondeu ele.

— Por que vocês não a curam como fazem com todos? – perguntou Auster aos dois virginianos.

— Não podemos curar algo que não sabemos do que se trata – respondeu Jake sem desviar o olhar do monitor.

— Precisamos descobrir o que ela tem – completou Rodrigo –, por isso existe o laboratório.

Depois de Jake pousar sua mão sobre a testa de Bruna e normalizar sua temperatura, ele e Rodrigo se dedicaram a ajudar Luisa a instalar os equipamentos em Babi, que parecia bem mais ferida que Felipe. Ela parecia ter quebrado uma de suas garras, mas, com toda a aparelhagem que possuíam, estarão bem até o fim da noite.

Apesar dos corredores estarem frios, a tensão na sala de reuniões fervia os nervos dos veteranos. Amara só pensava em uma coisa. O perigo estava próximo demais para esconder de todos. Ninguém poderia se arriscar mais sem estar preparado. Ela olhava para Paulo, que, por sorte, tinha sobrevivido ao ataque da cobra.

— O que diabos vocês foram fazer em Santos? – perguntou Amara para ele.

— Felipe me chamou, disse que queria ir para uma aventura, eu simplesmente fui. Deixamos Jay e André em Guarujá e seguimos para...

— Espera, deixaram quem? Onde?

— Jay e André, são dois novatos, um de Peixes e a outra...

— Eu sei quem são, quero saber o que eles foram fazer no Guarujá.

— Algo sobre os pais deles não mandarem notícias.

Amara se agitou, eles poderiam estar correndo perigo. Dois novatos, tão longe da montanha. O que eles pensam que estão fazendo?

— Enio, preciso de você – disse ela para o veterano de Gêmeos –, já que Bruna está impossibilitada e você é o único veterano formado disponível que temos pra agora.

O rapaz se levantou e prostrou-se diante dela. Ela apontou um enorme espelho.

— Eu sei que você vem treinando isso há tempos, sei que você é capaz, encontre-os, diga para tomarem cuidado. Vou mandar Lucas buscá-los.

O garoto se concentrou. No espelho à sua frente viu, com uma claridade opaca, o rosto de André.

***

— Já está ficando tarde. O que vamos fazer? – pergunta Jay olhando para André.

Ele se vira para ela na intenção de dizer "não sei", mas, projetado nas lentes dos óculos dela, ele viu Enio chamando seu nome.

— MAS QUE DIABOS É ISSO?

— O que foi? – pergunta ela.

— Seus óculos. – O instinto de Jay foi tirá-lo e atirá-lo na areia.
Ouvindo Enio chamando-os, eles se aproximaram dos óculos e conseguiram ver nitidamente o garoto chamá-los.

— Onde vocês estão? – perguntou ele na projeção da lente. – Vocês precisam voltar pra montanha, não é seguro aí.

— Enio, aconteceu algo terrível – interrompe Jay.

— Nossos pais foram mortos– completou André –, nossas casas estão destruídas, tudo aqui está muito estranho e temos dúvidas de que não foi apenas uma coincidência trágica.

— Todos estamos correndo perigo, se escondam. Lucas está indo buscá-los.

Enio sumiu na lente dos óculos de Jay e, ao invés de voltar para a montanha, dirigiu sua mente para um antigo espelho em sua casa, na cidade de Santa Rita, no Paraguai. Jay e André tinham razão. Não foi uma coincidência. Uma dor forte em sua cabeça o fez voltar à montanha. Seu corpo não se aguentou em pé e ele caiu. Amparado por Amara e Humberto, um dos veteranos de Peixes, ele engasgava-se para tentar falar:

— Algo terrível... está acontecendo. Os pais deles... estão mortos... e os meus também – dizendo isso, desmaiou.

Humberto compartilhou de sua dor nas têmporas e, usando seus atributos, concluiu:

— Ele está certo. Os pais de todos os eremitas estão mortos.

***

A noite ia se alastrando gelada e muitos eremitas rumaram para seus dormitórios. Tudo à sua volta parecia muito tranquilo, mas dentro de si, Vanessa sentia que coisas ruins, muito ruins, aconteciam.

— Tá tudo bem com você? — perguntou Susana, sentando-se em sua cama.

Ela não sabia como responder. Simplesmente, levantou resmungando um "Vou dar uma volta" e deixou a novata de cabelos escorridos e olhos expressivos sozinha pensando que ela poderia congelar lá fora. Andando pelos corredores, encontrou Clara e Tonioli.

— Eu sei que ele nunca vai olhar pra mim – dizia ele referindo-se a um garoto qualquer por quem tinha um crush.

— Será que ele sabe que você é meio homossexual? – pergunta Clara.

— Meio homossexual tua fuça, Clara Braga – responde ele.

— Uai, gente. Tô mentindo? E não me chama de Clara Braga, seu projeto de Chanel.

— Adoro.

— Desculpa interromper a produtividade da conversa de vocês – disse Vanessa parando-os no meio do corredor. – Clara, você sabe do Gorran?

— O que ele fez agora? – perguntou ela.

— Que? Não. Seje menas sonsa. Quero saber se você sabe por onde ele anda.

— Ah, não.

— Obrigada. – Ela os deixou e seguiu caminho por aquele corredor. Uma agonia tomava conta de seu peito.

Virando um corredor mal iluminado à esquerda, ela viu, em sua mente, flashes de uma luta. Fogo crepitando a um lado, respirações ofegantes de outro. Visualizou-se no corpo de Mick sendo atacado por algo irreconhecível. Seu próprio corpo pesou e sentiu-se caindo. Mãos a agarraram e a puseram encostada-se à parede. Alguns tapas leves em sua bochecha despertaram-na para a realidade. Gorran estava à sua frente perguntando se ela estava bem. Visualizou Vittoria mais atrás.

— Eu tô bem – disse ela, levantando-se sendo ajudada pelos dois.

— O que aconteceu? – perguntou Vittoria. – O que faz aqui, de pijama?

Nem notou o modo como estava vestida. Com calma, contou aos dois o que viu e o que sabia. Desde ter saído do próprio corpo até o aviso do garoto azul, a preocupação de Amara e seu sexto sentido sobre o que poderia ter acontecido. Acrescentando, no final, o que acabara de ver e sentir. Tomados por uma preocupação enorme, Gorran e Vittoria contaram o que tinham descoberto acerca do muro dos nomes. Vanessa não conseguia conter o desespero. Já começava a chorar quando conseguiu falar novamente:

— Quer dizer que ele está morto?

— Não, não sabemos de nada ainda – Gorran ajoelhou-se, tentando acalmá-la. – Nós só vimos os nomes riscados, estamos indo até Amara descobrir do que se trata.

— Não pode ser coincidência, Gorran – diz ela fungando o nariz.

— Eu sei – diz ele, buscando em Vittoria algo que pudesse falar pra tranquilizá-la. – Se tudo for verdade, Thomas e Mick...

Ele não conseguiu completar, Vanessa se lançou em seus braços e chorou. Uma sensação de ciúmes perpassou por Vittoria, mas pensando ser um egoísmo de sua parte, deixou os sentimentos de lado para apoiar a amiga.

***

A neblina ocupava a metade da montanha e o relógio declarava quatro da manhã, uma madrugada fria e esquisita. Os ponteiros se mexiam com dificuldade e o vento soprava fazendo barulhos misteriosos.

O centro do Pico do Cristal só não estava mais movimentado que a Times Square, porque não havia tantas pessoas como lá, mas as pessoas não paravam quietas buscando uma explicação para a assembleia repentina em plena madrugada. Os cancerianos tentavam manter a ordem e os arianos procuravam por respostas. Alguns outros chegavam ao centro da Toca com o restante dos que estavam dormindo.

— Eu não sei o que está acontecendo – diz Gabriela, tremendo o queixo–,mas eu to morrendo de frio.

— Ninguém sabe o que aconteceu – diz Ana, misteriosa. – Mas algo aconteceu, os conselheiros não param quietos e a Amara não se pronuncia.

— Estamos aqui justamente para isso – Letícia aparece usando uma regata e Ana e Gabriela a encaram. – Justamente porque queremos um pronunciamento de qualquer responsável que queira se pronunciar.

— VAI VESTIR UM CASACO! – As duas falam ao mesmo tempo, de forma que Letícia se lembre de que está fazendo 5°.

— Eu peço que vocês tenham calma– Brenda fala. – Quanto mais eufóricos vocês ficarem, mais vai demorar para sabermos o que realmente aconteceu.

— O tempo está estranho – Vanessa fala.

— Tá tudo estranho – Gorran diz, tendo arrepios.

— Eu só quero entender o que está acontecendo – diz Vanessa. – Saber a verdade.

Gorran a abraça novamente sem notar o olhar de Vittoria que cruzara os braços para amenizar o frio.

— PARA DE PULAR! — Danilo berra para Daniela, que intercalava os pulinhos entre o pé esquerdo e direito.

— MEU FILHO, EU TO CONGELANDO.

— Frio é psicológico – ele rebate.

— O murro que eu vou te dar também vai ser psicológico.

Os cancerianos conseguiram fazer com que todos se sentassem e logo todos os conselheiros sumiram dali. As pessoas procuravam vestígios de Brenda, ou de Lucas, mas não encontravam nem Americo, que era notável por sua altura.

Lá de longe, uma silhueta diferente surge, Amara andava devagar, indo até o centro de tudo. Sua feição era de quem não dormia há dias, porém mantinha sua classe. O desespero ainda era notável porque a maioria não havia enxergado a figura com mechas roxas no meio do salão.

Barbara, uma veterana de Câncer, pousou o olhar sobre os eremitas eufóricos e persuadindo-os, bradou:

— Calem-se e prestem atenção.

Amara sorriu para ela em agradecimento e tomou a palavra:

— Bom, como a maioria de vocês sabem, as coisas não estão boas. Estamos sobre ataque externo. Em uma missão, dois de nossos eremitas lutaram bravamente, mas, infelizmente, nós os perdemos.

Um burburinho se iniciou até Amara anunciar os nomes de Michael e Thomas.

— NÃO – gritou Vanessa se levantando na multidão. – AMARA, NÃO. CADÊ O MICK, AMARA? GENTE, NÃO BRINQUEM COMIGO, CADÊ O MICK? – Ela já chorava junto com outros eremitas íntimos a Michael e Thomas. Gorran e Vittoria tentaram acalmá-la. Amara abaixou a cabeça e Vanessa entendeu tudo, sentando e abraçando suas pernas, chorando.

— Infelizmente, não pudemos salvá-los. Eles serão tidos como heróis dentro da Toca. Para piorar, isso é só o começo. Tenho uma notícia que talvez seja um choque para todos vocês. É um choque até pra mim, isso nunca havia acontecido em toda a história do Pico do Cristal. Muito me entristece em dizer que... – ela parou, sem saber como contar algo nesse nível – que os pais de vocês... eles estão mortos. – Quem ainda não havia se desesperado, agora se levantavam gritando. “Por quê?”, “Eu não acredito”, entre outras coisas que saíam da boca dos eremitas com essa notícia. – Eu sinto muito.

Alguns veteranos se mantiveram firmes para tentar acalmá-los, mas a maioria chorava as perdas que sofreram.

— Vanessa estava certa – diz Gorran, em meio ao soluço.

— Acreditamos que esses foram os primeiros ataques do nosso principal inimigo – Amara volta a falar, pausadamente. – Há uma antiga profecia, criada desde os tempos do apogeu do zodíaco, que diz que uma sombra irá tentar apagar o brilho das estrelas a qualquer momento. – Murmúrios ecoam por toda a caverna, alguns ficam assustados e, outros tantos (a maioria arianos) motivados por vingar a morte dos seus pais. – Ainda não compreendo o que as palavras dessa profecia dizem, mas sei e sinto que temos de ser fortes de agora em diante. Não poderemos ficar mais sozinhos, ou a escuridão poderá nos consumir. – Como se estivesse com algo preso na garganta, Amara começa a respirar ofegante. – Essa sombra é tão antiga quanto a profecia, se eu estiver certa. Já esteve perto de nos atacar centenas de vezes e temo ter sido responsável por essas mortes. Pode ser conhecida como várias figuras históricas, mas sua identidade é pertinente. Alguns a consideram como um simples demônio que tentou trazer a desarmonia ao zodíaco, mas há algumas semanas atrás, descobri que não é nada menos do que...

Amara faz uma pausa, como se estivesse vendo algo no fim da grande caverna. Na verdade, até mais longe – como se estivesse fitando o horizonte, vendo algo além da compreensão de todos.

Causou um susto enorme em todos os presentes, quando seus olhos fecharam – se por breves segundos – antes de seu corpo cair no chão com um baque, que quase não fora ouvido por causa da gritaria que se iniciou.