Odisséia Grega
38 Capítulo 38
Notas iniciais
Por um longo minuto, apenas ouvi a sua risada divertida sobre a minha expressão atordoada enquanto eu encarava o retrovisor que agora mostrava meio rosto do homem concentrado na estrada. Estávamos indo para algum lugar em velocidade há pouquíssimo tempo e o sujeito ao meu lado, me apertou contra Jane quando eu tentei fazer um pequeno movimento para me inclinar para frente. Os meus olhos piscavam como quisessem ter certeza de que eu não estava alucinado ou algo assim. Por que no mundo esse cara está me sequestrando?
— Você está realmente tão surpresa? — Ouvi ele dizer novamente e detestei como sua voz soava falsa e desdenhosa — Eu realmente devo ter feito um bom trabalho com aquele imbecil. Eu estava bem longe do país quando soube que estavam me procurando, mas ainda não era o seu principal suspeito. — Se vangloriou, parecendo tentar arrancar alguma ração dos nossos caras.
Era quase como se quisesse obter alguma parabenização, mas eles seguiram sérios, sem expressar qualquer sentimento, focando apenas no caminho que estávamos percorrendo.
— Para onde você está nos levando? — Jane se manifestou pela primeira vez, parecendo tímida, quase medrosa. Mas era um truque. Eu podia ver suas mãos fechadas em punho sobre o colo.
Ela deveria estar furiosa por ter sido pega de guarda baixa, assim como eu estava por não ter percebido sequer que essa gente estava por perto, me observando, mas não podíamos reagir. O instinto de sobrevivência falava mais alto. Apesar da descontração de Jorge, eles não pareciam querer ter suas paciências testadas.
— Ah, você está aí — Ele respondeu erguendo as sobrancelhas como se por um momento tivesse esquecido da sua presença — Você é realmente uma coisinha lisa, hein? O seu pai vai ficar tão feliz em revê-la.
Ele riu pelo nariz quando ambas enrijecemos.
Caius estava aqui. Por alguma razão, depois de descobrir que o desgraçado estava vivo por todo esse tempo, imaginei que ele comandasse o seu pessoal direto do Chile e não ousava dar as caras aqui, mas se ele fez todo o caminho de volta para Atenas, era porque estava confiante em algo e o meu estômago resfriou drasticamente imaginando o que.
Fui tirada dos meus pensamentos quando ouvimos não muito distante, os sons de pneus cantando. Eu teria deixado passar, diante do meu estado de choque, se não fosse pelo xingamento de Jorge e a movimentação intensa dos caras ao nosso lado.
Virei o rosto, tentando ver alguma coisa através do vidro de trás quando uma bala veio exatamente na minha direção. Eu gritei e abaixei a cabeça para o colo de Jane, que me segurou, abaixando-se também, mas não houve barulho de vidro quebrando. Os homens começaram a falar em grego, alto e a sacarem mais armas, apontando-as para todo lugar, me fazendo tremer de medo de um disparo acidental ou algo assim.
Enquanto isso, Jorge conduzia feito um louco por ruas pelas quais eu nunca passei antes. Me atrevi a levantar a cabeça e reconheci o carro atrás de nós. Eu o tinha visto mais cedo, pouco depois de sair de casa. O homem no banco do passageiro, colocou a cabeça para fora da janela e nos mostrou a sua pistola, começando a atirar em nossa direção sem hesitar. Uma bala atingiu o porta-malas e outra no mesmo vidro, mas para a minha direta, mas não houve qualquer dano.
É claro que os carros de Edward estavam blindados.
— Eu acho que é aquele cara... — Jane sussurrou perto de mim e eu assenti em reconhecimento.
Sim. Era Jenks. Ele cumpriu com o que prometeu e manteve-se por perto.
Eu só esperava que isso fosse o suficiente para me tirar daqui.
Jorge fez uma curva perigosa que jogou os nossos corpos para um lado só e os barulhos dos tiros foram ficando cada vez mais altos e mais próximos. Tanto quanto eu gostaria que nos alcançassem, também estava morrendo de medo que causassem um acidente, por isso rezei.
Agradeci por Alice não ter vindo comigo como se ofereceu para fazer, pois não sei o que fariam para descarta-la e principalmente por Heitor ter ficado em segurança em casa. O meu pânico estaria em um nível descomunal com ele por perto no meio dessa confusão.
Jorge ignorou dois sinais vermelhos e Jenks também, causando uma desordem no transito que costumava ser tranquilo. Eles continuavam nos perseguindo e atirando, parecendo querer atingir os pneus, mas não houve sucesso. O negro à minha direta, abaixou o vidro do carro e colocou-se rapidamente do lado de fora, começando a atirar de volta contra eles e por pouco não foi acertado no pulso. Antes disso, ele enfiou-se de volta no carro tão bruscamente que me empurrou com o cotovelo, atingindo a lateral da minha barriga.
Jane me abraçou quando gemi de dor. Ele voltou a atirar contra o veículo de trás e eu assisti com total horror quando o peito do homem que estava para fora da janela, foi atingido. Ele simplesmente caiu na pista e Jenks prosseguiu agindo como se nada tivesse acontecendo, porque não havia tempo para qualquer outra coisa. Outro vindo do banco de trás, tomou o lugar do homem caído, apontando para nós com uma arma mais assustadora.
O que estava ao lado de Jane, imitou o negro perfeitamente e juntou-se à troca de tiros. Não parecia sequer que o balanço do veículo ou as lombadas os atrapalhavam em nada. Os carros ziguezagueavam em torno de nós, alguns buzinando, outros gritando, mas a grande maioria freava para nós deixar passar, para evitar acidentes, mas isso era o que atrapalhava a passagem do carro de Jenks para nos seguir.
Gemi de desgosto quando um ciclista perdeu o controle da sua bicicleta quando passamos por ele e foi ao chão, fazendo com que as motos que vinham atrás freassem inesperadamente a poucos centímetros do rapaz para evitar um atropelamento e usando aquilo como vantagem, Jorge acelerou em direção a um túnel onde um ônibus de turismo estava estacionando, provavelmente com algum problema, uma vez que aquele não era local para aquilo.
— Segurem-se firme, porra! — Ele gritou e mal tive tempo de trocar um olhar confuso com Jane antes de acontecer.
Todos sentimos o impacto e precisamos nos segurar firmes no que nossas mãos puderam alcançar no momento, para não voar até o para-brisa quando o homem se jogou na traseira do ônibus, mas nada foi capaz de me impedir de bater com a testa no banco que uma vez pareceu tão macio, mas foi capaz de cortar a minha pele.
Graças a zelo excessivo de Edward e seus carros competentes, a batida não afetou tanto o veículo, mas fez com o que o ônibus se movesse contra a vontade de motorista e posição mudasse.
Ele agora estava torto e tomando quase todo o espaço de passagem. Jorge deu ré, fez uma curva e então acelerou, saindo rapidamente pela pequena brecha que restou, ignorando uma batida alta atrás de nós que não fomos capaz de ver, porque o ônibus bloqueava a visão do que acontecia no túnel e quanto mais acelerávamos e não havia sinal do Jenks, mais desesperada eu ficava.
O bastardo tinha conseguido se livrar deles.
— Você sabe que o Edward gostava de você, certo? — Perguntei testando a minha voz. Jorge estava concentrado, entrando em ruas estreitas, saindo através de becos até encontrar a pista onde ele realmente queria estar — Tenho certeza que eu o convenceria a não fazer nada contra você, se nos deixasse ir agora.
— Sério, Isabella? Depois de tudo o que eu fiz, você acha que eu estou preocupado com o que o seu noivo pretende fazer comigo? — Perguntou revirando os olhos castanhos — Caius nunca deixaria que nada acontecesse comigo. Eu fiz tudo por ele e fui valorizado — Seu peito quase estufou de orgulho e Jane bufou baixinho do meu lado — Muito diferente de trabalhar para aquele filhinho de papai, receber uma mixaria e ainda ter que me mudar a cada duas semanas, porque o babaquinha estava sempre em um lugar diferente, comendo uma puta diferente.
— Idiota — A loira disse se inclinando para mim — Quando não tiver mais utilidade, vai acabar com um buraco na cabeça descansando em uma vala qualquer. Caius não se importa com ninguém.
— Eu estou preocupada por você — Sussurrei e vi um lampejo de medo em seus olhos, mas ela logo se recuperou — O que acha que vai acontecer quando chegarmos?
— Isso não vai ser bom, Isabella — Ela disse após engolir seco e eu não pude fazer o mesmo, porque de repente estava com a garganta muito seca — O meu pai jamais armaria todo esse circo apenas para assusta-la ou fazê-la se afastar do Edward. Eu realmente temo por nós.
Eu realmente não ousei perguntar a opinião dela mais sobre absolutamente nada. Queria evitar qualquer tipo de resposta como aquela que fazia o meu coração parar e então voltar a bater tão rápido que sufocava. Eu entendi que o homem era perigoso e sem escrúpulos, mas era a primeira vez que temia verdadeiramente por minha vida, principalmente agora que não via mais chances de Jenks no alcançar.
A viagem teria sido silenciosa, se não fosse pelos gemidos irritados que o homem ao lado de Jane soltava enquanto segurava o braço. Eu não tinha percebido que ele havia sido atingido no ombro, exceto quando a dor deve ter ficado realmente insuportável e ele começou a se manifestar sobre isso. Jorge fez alguns comentários em grego, provavelmente depreciativos, pois causaram tensão em ambos os homens.
Ele não parecia preocupado que os dois carregassem armas ainda carregadas e isso me fez questionar se Jane não estava enganada dessa vez. Jorge podia ser mesmo um protegido de Caius? Se aquele homem era cruel o suficiente para atentar contra a vida de uma pequena criança, sangue do seu sangue, eu não gostaria de imaginar o que ele autorizaria que fosse feito comigo. Uma estranha que ignorou sua ameaça e encorajou Edward a não ceder.
Nos próximos vinte minutos, fomos capazes de ver casas mais modestas e diversas lojinhas que indicavam comercio, mas tudo parecia muito precário. Bem diferente dos lugares por onde andei aqui até hoje. Jorge buzinou para algumas crianças que brincavam de bola no meio da rua e todas se afastaram para que pudéssemos passar. A rua era estreita ao ponto de todos terem que subir para as calçadas se um automóvel estivesse passando e bem esburacada.
Nós paramos em frente ao que parecia ser uma barbearia que estava às moscas. Ambas as portas foram abertas e Jane foi puxada para fora primeiro. Eu saí a tempo de ver Jorge tirar o boné ao olhar-se no espelho e pentear as grossas sobrancelhas com ambos os dedos mindinhos. Babaca do caralho.
— Anda logo, não te trouxe aqui para apreciar a paisagem. — Ele rosnou quando me viu olhando em volta, vendo pessoas nos encarando descaradamente, mas sem interesse algum. Meio que existia um tédio em suas expressões como se duas mulheres sendo arrastadas de um carro por três homens fosse algo comum e corriqueiro.
O cara branco segurou Jane para que o negro me empurrasse primeiro em direção a um estabelecimento. Eu subi os três degraus sentindo as minhas pernas rígidas ainda da batida no ônibus e então o meu estômago embrulhou com o cheiro horrível. Estávamos no que parecia ser um açougue antigo. Um homem grisalho no auge dos seus cinquenta anos estava atrás do balcão, amolando um facão que serviria perfeitamente para decepar a cabeça desses caras.
Ou de eles fazerem o mesmo comigo.
Ele deu apenas um aceno e seguimos todos para os fundos, tendo que passar por uma cortina de plástico, toda repicada e manchada, que ao tocar a minha pele, fez com que eu me sentisse nojenta. O lugar todo estava em péssimas condições e imundo, mas era grande. Eu estava com sérias dificuldades para respirar e quase, quase agradeci quando nos fizeram descer uma pequena escada e entrar em uma espécie de porão, mas que cheirava consideravelmente melhor, apesar da sujeira.
— Bem, aqui estamos. Sintam-se em casa, meninas! — Jorge comemorou me fazendo querer soca-lo no nariz.
O lugar estaria no mais completo escuro se não fosse pela janela no alto da parede à minha esquerda. Achei inútil o gradeado do lado de fora, pois ela era pequena o suficiente para que apenas um animal de pequeno porte conseguisse passar ali. Acenderam então uma luz amarelada, pendurada por um fio descascado no centro do sótão. Percebi que o teto não era muito alto, o que fazia com que um dos homens quase se curvasse, mas era surpreendentemente espaçoso.
Havia caixas empilhadas atrás de nós parecendo ignoradas há bastante tempo. As paredes eram lisas e tinham sua pintura gasta. Jane deu um passo para frente em direção a uma cama de casal que ficava encostada na parede de frente para nós. Ela era toda de ferro e a tinta branca estava descascando. Havia um colchão sem lençol ou qualquer travesseiro. Uma cadeira de balanço não muito distante, também com aparência duvidosa, uma cômoda de quatro gavetas que não aguentaria em pé se levasse um pequeno chute e uma prateleira de aço enferrujada com alguns potes e frascos empoeirados.
— Estão atrasados — Uma voz rouca repreendeu e a minha impressão dela foi tão terrível que todos os pelos dos meus braços se arrepiaram ao mesmo tempo. Eu me assustei, dando um pulo e saltando uns 70 centímetros à frente — Desculpe, jovem. Eu gosto dessas entradas sorrateiras — O homem disse com humor e quando Jane enrijeceu, eu apenas soube — Mas estou esperando nessa espelunca por quase 40 minutos, Jorge.
— Eu sinto muito, Caius, mas foi difícil despistar os homens do Cullen.
— Sim, claro. Eu imaginei que eles não desistiram fácil da adorável Isabella — A essa altura, eu já tinha virado lentamente em direção da voz, mas a tempo de ver cinco figuras surgindo do breu atrás de Jorge — Agora eu entendo o pequeno Edward. Que mulher! Sempre com as melhores...
Todos riram do comentário infeliz de Caius e quando a luz finalmente o atingiu, eu pude dar uma boa olhada nele. A minha primeira impressão foi de que ele é velho. Bastante. Poderia se passar pelo o avô de Jane e não pai. Vestia-se muito elegante, apesar do seu peso ligeiramente exagerado, como aqueles mafiosos de filme italiano. Usava um chapéu estilo Fedora na cor preta. Um bigode grosso e grisalho, enfeitava o seu lábio superior e ele apertava a ponta dourada de uma bengala longa. Tinha um charuto preso aos dedos da mesma mão e sua voz soava rouca devido à idade e o fumo em excesso, imaginei.
Mas de tudo, era os seus olhos escuros que me aterrorizavam. Lembrava do olhar dele retratado naquele quadro, mas ao que parece, o pintor não conseguiu passar realidade o suficiente. Só havia maldade ali e a cada vez que ele sorria me olhando daquela forma, eu só conseguia imaginar as coisas horríveis que ele estava planejando para mim e foi quando comecei a rezar pela segunda vez.
O meu celular tinha ficado no carro, dentro da bolsa. Havia como localizar uma pessoa através do aparelho, certo?
Tinha que haver.
— Eu estava ingenuamente esperançoso de não te ver por aqui, Jane, mas você realmente insiste em desperdiçar as suas qualidades com as pessoas erradas — Ele repreendeu parecendo lamentar de verdade e eu a ouvi bufar uma risada. Corajosa ou muito idiota — Sua mãe sequer serve para abrir seus olhos e mantê-la na cidade, huh? Vadias estúpidas. Será que você entende agora por que eu detesto mulheres no meio do meu negócio? Por que você nunca serviu pra mim? Todas são impulsivas. Fracas. Idiotas. Sempre caem.
— Agora sobre isso, eu preciso discordar. — Uma nova voz, dessa vez familiar, cantou.
Aquela voz.
Que porra. Está acontecendo. Aqui.
Meus olhos correram em direção a pequena escada e pouco a pouco uma figura feminina e elegante foi se revelando. Primeiro os pés cobertos por uma sandália Jimmy Choo de salto grosso com estampa de leopardo, então as pernas pálidas e o vestido amarelo que ia até os joelhos, apertado na cintura evidenciando os seus peitos avantajados e mais largo embaixo dali.
Tanya abriu um sorriso vitorioso quando seus olhos caíram em mim e ela desceu graciosamente os últimos degraus apesar da má iluminação, como se estivesse familiarizada com o lugar.
Ele estava compactuando com essa víbora?
Caius deu uma gargalhada alta, jogando a cabeça para trás. A mulher ao seu lado transformou seus lábios cobertos por um gloss rosa, em uma linha fina e eu percebi que eu tinha pensado alto.
— Jorge? — Ele chamou após pigarrear ao se recuperar do seu momento de diversão e o homem correu para o seu lado, como um cachorrinho — Pegue dois dos homens que estão lá fora e livre-se do carro onde combinamos e se tiverem em mãos qualquer coisa que se encontravam com as moças, destrua também — Ordenou e ele assentiu pronto para sair — Rapaz, epitheoríste ta roúcha.
O mal-encarado à sua esquerda veio na nossa direção e não pude evitar estremecer de medo quando senti suas mãos em mim. Era externamente desnecessário que eu fosse revistada, uma vez que o meu vestido era justo e curto o suficiente para que eu não conseguisse esconder nada ali. Ele pareceu perceber isso e partiu para Jane, demorando um pouco demais nos bolsos traseiros de sua calça jeans. Ela estava rígida, provavelmente se controlando para não dar-lhe uma cabeçada ou algo assim enquanto o sujeito claramente tirava proveito da situação.
— Típota den vréthike, kýrie.
— Excelente! — Caius comemorou o que quer que o homem tenha dito. Ele continuou atrás de Jane dando uma boa conferida na garota e foi a minha vez de bufar — Aqui está a sua resposta, querida Isabella, a Srta. Denali aqui simplesmente não conseguiu dizer não para ficar do meu lado quando soube dos meus planos para você. Na verdade, ela ficou empolgadíssima. Sabem o que dizem, o que mais aproxima duas pessoas, é um inimigo em comum.
— Mas você quer machucar o Edward e ela o ama! Isso não faz sentido. — Protestei.
— E como eu poderia machuca-lo mais do que ao tirar-lhe para sempre as suas preciosidades? Acha que mata-lo simplesmente causaria um dano maior do que tê-la indo no lugar dele? Eu bem que planejava dar um jeito no garoto também, mas Tanya insistiu em ficar com ele.
— O que?! Não!
— Sim! — Ela gritou colocando aquele sorriso vitorioso de volta ao rosto — É claro que Edward não vai me deixar entrar de volta na sua vida assim que você aparecer morta, mas eu sou paciente. Esperei aquele homem por anos — Suspirou irritadíssima, mas logo recuperou-se — Heitor vai ter finalmente a mãe que deveria ter sido dele desde o começo.
— Você mantenha as suas mãos imundas longe do meu filho — Rosnei um aviso e me virei para o velho — Vai deixa-la ter o Edward? O que diabos você tem na cabeça?
— Isabella, Isabella — Ele cantarolou o meu nome e movimentou sua bengala para esquerda e direita, como se brincasse — Ela não está interessada no rapaz romanticamente, relaxe! Isso é horas para ciúme? Ela quer o garoto e nós fizemos um acordo. Uma vez que Tanya estiver entre a família como o previsto, eu vou poder agir de dentro e o meu sobrinho terá um fim muito semelhante ao que você terá em breve. Eu finalmente terei o controle da Cullen Enterprises e ela terá o filho que sempre desejou. Os dois saem ganhando — Explicou e eu apenas pisquei. Essas pessoas só podiam ser doentes — E não é como se ele fosse ser feliz enquanto casado com ela. — Gargalhou.
— Seu velho caquético! — Tanya grunhiu o olhando furiosa.
— Olhe a língua, cadela. — Caius a advertiu com raiva, seu rosto perdendo rapidamente qualquer traço de humor e quando o seu olhar a atingiu, ela ficou pálida.
— Você realmente é muito podre, não é? — Jane perguntou chamando a atenção para si e eu tive impressão de vê-la estremecer de nojo — Por que diabos ter a presidência dessa empresa é tão importante? Mais dia, menos dia, você vai cair morto e tudo isso ficará para trás. Cada esforço seu terá sido em vão.
— Bem, sim. Você está correta. Eu não devo durar muitos anos — Ele assentiu nenhum pouco abalado com as palavras da filha — Mas antes de partir, eu ainda posso fazer bastante estrago e acredite em mim quando eu digo que vale totalmente a pena.
Eu estava atordoada demais com as últimas informações para retrucar ou esboçar qualquer reação. O meu corpo parecia esgotado e eu quase podia sentir as esperanças esvaindo-se através dos meus poros. O que eu poderia fazer para evitar que o Edward caísse na armadilha desses dois? Para que Heitor nunca precisasse estar sobre as mãos daquela mulher?
Não.
Era tudo muito ridículo.
Edward jamais permitiria isso.
Eu o conheço e conheço também a mente lunática da Denali. Ela era boa em passar a perna nos outros e talvez, por um acaso do destino, Caius não tenha sido esperto o suficiente para descobrir a tempo o quanto ela podia ser traiçoeira e comprou essa besteira que se eu magicamente sumisse do mapa, ela teria carta branca para esgueirar-se de volta à família e lhe daria a única chance de sentar-se na cadeira do CEO quando Edward não estivesse aqui para impedi-lo. Não havia uma chance no inferno de que isso acontecesse, por isso a minha principal preocupação agora, era sobre o que fazer para sair desse lugar viva.
Eu confiei à Jenks o meu bem-estar e as coisas ficaram bem fora de controle em uma tarde que tinha tudo para ser normal como todas ultimas, mas algo me impedia de sentir-me desapontada. Talvez por ele ter perdido um homem, que apesar de receber para isso, perdeu a sua vida tentando me defender e levar-me de volta. A verdade é Jenks tentou tanto quanto pode naquele momento, ele apenas não sabia com quem estava lidando. É claro que um homem que veio escapando durante todo esse tempo, como o Jorge, saberia livrar-se deles, mesmo que por pouco.
E foi realmente por pouco.
Edward ficará possesso quando descobrir – se já não tiver descoberto – o que aconteceu. Ele está desembolsando uma quantia grande de dinheiro para nos manter seguros, então restava alguma fé de que ele daria um jeito de me achar. Eu só esperava que fossem rápidos, pois não tinha ideia do quanto aguentaria nesse lugar ou do quanto eles querem que eu permaneça.
A discussão ainda rolava ao meu redor e eu não estava desatenta o suficiente para não notar que Tanya me encarava friamente e intensamente. As minhas mãos quase tremiam de vontade de agarra-la pelo cabelo e saltar em cima do seu corpo magro mais uma vez, mas não podia negar que naquele momento ela realmente me assustava. Eu jamais imaginei que de todas as burrices que essa mulher era capaz de fazer para obter o controle sobre o Edward de novo, ela seria capaz de apelar para algo tão violento e definitivo. Envolver-se com assassinato? Com criminosos? Ser eu não a considerasse totalmente desequilibrada antes, agora não me restaria quaisquer dúvidas e eu simplesmente não podia competir com alguém que era aliada a um sujeito que tinha, apenas aqui nesse momento, meia dúzia de homens armados que não hesitariam em treinar tiro ao alvo em mim.
Um celular tocou me tirando daqueles pensamentos e os meus olhos focalizaram a silhueta de Tanya sumindo pelas escadas enquanto os capangas a seguiam. Caius também havia sumido. Estavam nos deixando aqui? Sozinhas? A porta bateu respondendo a minha pergunta e Jane correu diretamente para lá. Seus tênis quase não faziam barulho enquanto pisava, mas ela foi cautelosa mesmo assim. Imaginei que ela estivesse tentando ouvir alguma coisa do lado de fora ou verificando se haviam nos trancando – mesmo que realmente não houvesse dúvidas.
Jane ficou sentada ali até que não se ouvisse mais passos ou sussurros. Ela procurou por rachaduras na estrutura e defeitos na própria porta, mas descobriu que apesar de aparentar ser feita de uma madeira fraca, as dobradiças estavam firmes e não havia como abri-la por dentro, o que apenas contribuiu para a nossa agonia.
Nós sentamos na cama e o colchão, apesar de muito fino e desgastado, foi um conforto bem-vindo. Percebi que se eu ficasse parada, o cansaço se mostrava cada vez mais presente, mas a minha cabeça estava agitada demais para que eu sequer cogitasse a possibilidade de fechar os meus olhos. Eu ainda estava em choque por Tanya estar envolvida no meu sequestro por um motivo tão ridículo e causava um frio terrível na minha espinha quando pensava que eu poderia, literalmente, morrer em vão, uma vez que eu tinha certeza de ela nunca seria recebida naquela família outra vez. O meu único consolo era acreditar que mais cedo ou mais tarde, ela seria punida.
Se Elizabeth foi sincera no nosso encontro mais cedo, ela ficaria profundamente decepcionada se descobrisse a que ponto a sobrinha chegou para alcançar o seu objetivo. Talvez até culpada por ter alimentado as obsessões da Denali por tantos anos até que isso chegasse a um caminho sem volta. Eu pedia com todo o meu coração para que suas palavras mais cedo fossem verdadeiras, porque Edward precisaria de todo o apoio e cuidado possível. E Heitor também.
Os meus neurônios pareciam que pegariam fogo a qualquer instante, quanto mais eu pensava sobre como cheguei nessa situação, mas tudo parecia surreal. Como um sonho esquisito daqueles que você torce para acordar, mas não consegue. Eu ouvi muitas notícias absurdas e li ficções que contavam situações absurdas como a minha, mas nem se vivesse mil anos, imaginaria que algo assim fosse acontecer comigo.
O que eu havia feito para acabar aqui? Para ser sentenciada à morte para o divertimento de um monstro impiedoso e uma desequilibrada que não sabe o que é limites? Eu só me apaixonei, permaneci fiel ao homem que eu amo e aos seus desejos.
Oh, Edward.
Meu coração apertou-se ao pensar sobre como ele estaria nesse momento. Alguém deve ter sido demitido outra vez, mas eu esperava sinceramente que tenham evitado que ele surrasse o Jenks. E sua mãe! Pobre Esme, conhecendo-a bem, deve estar se culpando por tudo, quando a última coisa que alguém poderia imaginar era que a ida a uma gráfica poderia terminar em sequestro.
Eu adormeci em meio a um monologo de Jane. O esgotamento desligando a minha mente. Acordei assustada após um sonho em que Heitor estava sendo tomado dos meus braços e enfiado em um carro exatamente como eu fui. Notei a minha nuca coberta de suor quando levantei. Olhei para o lado e vi que a loira estava deitada de bruços, mas movia-se constantemente em um sono agitado. Eu me levantei em um salto, chutei os meus sapatos para fora dos pés e corri para os degraus, alcançando a porta e batendo nela até que as palmas das minhas mãos ardessem. Eu pedi. Eu implorei para que me deixassem voltar para o meu filho. Tentei barganhar e propus coisas que não poderia cumprir, apenas na esperança de que alguém surgisse para negociar comigo, mas fui ignorada até que a minha garganta doesse.
— ... podia ter acontecido, áchristos! — Estávamos tentando enfraquecer os pregos presos à madeira de uma das caixas para descobrir o que havia dentro e se viria a ser útil, quando ouvimos a voz feminina furiosa gritar — Aquela desgraçada. Eu tenho certeza que foi ela! — A mulher continuou e Jane me olhou, movimentando os lábios para formar o nome de Tanya e eu assenti — Aquele velho pançudo não consegue cala-la? Mas que merda.
— Cuidado com a boca, fofinha — Ouvimos a voz de Jorge mais alta e repleta de sarcasmo — Caius detesta esses erros de principiantes e não vai ficar limpando a sua sujeira. Ela é sua responsabilidade!
— ... alguma coisa. Eles têm um fodido mandado de busca! Eu não consigo lembrar se deixei algo que pudesse... — A voz de Tanya oscilava entre o sussurro e a histeria, nos impossibilitando de entender exatamente do que se tratava a conversa, mas de toda forma, eu ficava feliz de vê-la tão furiosa. Alguma coisa parece estar dando errado e isso poderia ser vantagem para nós.
Mais gritos em grego, batidas e passos foram ouvidos pelos próximos dez minutos e pelas pouquíssimas informações, Jane e eu acreditamos que alguém tinha ligado o meu sumiço à Tanya, que a polícia também estava envolvida e comprometida ao ponto de conseguirem uma ordem do juiz para, provavelmente, revistar a sua casa e se por sorte, encontrassem algo que a incrimine ou sequer dê a entender o que ela pretendia fazer, ela seria acusada e caçada.
— O seu noivo não está de brincadeira — Jane sorriu docemente pela primeira vez e eu franzi sem entender — Temos que esperar 24 horas antes de registrar o desaparecimento de alguém, mas é lógico que ele colaria a polícia nas ruas assim que fosse avisado e eles revistariam pedra sobre pedra até te encontrem.
— Eu posso estar sendo injusta, mas fico feliz que o dinheiro possa ter voz, quando situações como essa acontecem — Disse com um pequeno sorriso sobre a sua observação — Só espero que não levem tempo demais para chegarem até nós.
Um homem desceu uma hora depois para nos checar. Tivemos que parar o que fazíamos e simplesmente correr para a cama. Ficamos juntas pois não tínhamos ideia do que ele pretendia exatamente e eu fiquei nervosa quando percebi que era aquele mesmo que esteve secando a Jane mais cedo, mas para a nossa sorte, ele nos observou, deu uma olhada ao redor de si mesmo e foi chamado para cima logo em seguida, não tendo tempo suficiente para ver algumas tábuas arrancadas atrás das caixas.
Observamos através da minúscula janela, as mudanças no sol, até que ele deixou tudo ligeiramente alaranjado e então desapareceu nos deixando saber que já estávamos ali há mais horas do que sequer percebemos. Jane reclamou por estar com fome e verificou cada um dos frascos velhos na prateleira em busca de alguma sobra, e ela até encontrou, metade de um cookie de chocolate duro o suficiente para perfurar o crânio de alguém, então desistiu de tentar ingeri-lo e jogou-se na cama, bufando como uma adolescente entediada.
Eu realmente não conseguia entender como ela ainda seguia mantendo aquela pose. Eu também acreditava – e esperava – que Caius não iria chegar ao ponto de livrar-se da própria filha, mas não acho que ele apenas a enviaria de volta para casa, quando a moça claramente o enfrentou e tentou como pode atrapalhar os seus planos. Temia sobre os métodos de corretivo que esse homem costumava usar para disciplinar alguém, mas apesar de ter aprendido a ter certa simpatia por Jane, eu estava mais preocupada comigo mesma.
Não havia argumento com aqueles lunáticos. Caius era cruel o suficiente para me deixar ali apodrecendo mesmo com a polícia vasculhando a cidade por dele. Aqueles dois queriam que eu sofresse antes que a hora chegasse, que eu imaginasse as possibilidades, que minhas pernas perdessem as forças sempre que ouvisse alguém se aproximando da porta. Queriam me deixar louca, me punir por não terem sido capazes de chegar até Edward e eu, quando parava para pensar sobre isso, tinha uma sensação parecida com satisfação esquentando o meu peito.
Tanto quanto eu sabia que ele estava sofrendo, preocupado e sentindo-se impotente, me dava alivio que estivesse assim, mas fora de perigo, pois aquele desgraçado finalmente tinha algo em suas mãos e isso o impediria de tentar tocar nos meus rapazes por um bom tempo. Deus sabe que eu já teria perdido a minha mente se fosse Edward a estar desaparecido com essa gente.
— Acorda! Isso aqui não é hotel, garota — Ouvi alguém gritar perto de mim, mas os meus olhos pesados me deixaram confusa. Era um sonho? A minha pergunta foi respondida quando uma pancada de água congelante atingiu o meu rosto, me despertando completamente — Aposto que está sentindo falta da mordomia que o Edward te deu. Estava convencida de que esse pedaço de vidro no dedo seria o seu passaporte para a vagabundagem, não era, filha do cozinheiro?
Eu quis responder que o meu anel tinha mais diamantes que a porra do colar que ela ostentava no pescoço, mas não estava disposta a discutir esses detalhes fúteis, principalmente quando estava tossindo bastante desconfortável com a água que entrou pelo o meu nariz. A cadela tinha o balde vazio pendurado no antebraço como uma bolsa e sorria debochadamente para mim.
Olhei para a janela e percebi que ainda estava escuro. Deveria ser madrugada, perto de amanhecer. Tanya ainda estava vestindo a mesma roupa do nosso primeiro encontro e estava com o cabelo fora de ordem. Aquilo me fez abrir um pequeno sorriso, tão irônico quanto o dela e então jogar os meus fios molhados para trás. Ela definitivamente não podia voltar para casa, eles realmente estavam atrás dela e isso me trazia um pouco de esperança de ser encontrada ou que pelos menos eles seriam pegos quando tudo isso acabasse.
— Eu tive alguns assim antes. Isso não quer dizer nada.
— Quer dizer que Edward os deu com pena. Aposto que sequer foi ele mesmo quem os escolheu. A vendedora da Tiffany deve ter tido uma tarde ocupada tentando descobrir o que se encaixaria com alguém tão fria e desprovida de interesse — Me atrevi a responder e seu olhar endureceu na hora — Você pode ter uma coleção de anéis de noivado, Tanya, isso só representa o seu fracasso em ser levada para o altar e a diferença crucial entre as nossas situações, é que se eu não chegar a carregar o sobrenome Cullen será porque alguém interferiu e não porque o noivo preferiu ficar fodido e sozinho do que quer levar isso adiante.
Bastou a minha boca pronunciar a última palavra para Tanya gritar de raiva e descer com a mão no meu rosto, fazendo a minha cabeça virar para a esquerda. O som foi ouvido primeiro e então a ardência se espalhou pela minha pele, no mesmo instante que as lágrimas de humilhação brotaram nos meus olhos. Eu não podia fazer nada contra ela nesse momento.
Aparentemente Jane não pensava da mesma forma que eu e se fazendo presente pela primeira vez desde que acordou, ela saltou no colchão e avançou na outra loira gritando de volta para ela fodidamente não tocar em mim outra vez, mas antes que suas mãos alcançassem a mulher, dois capangas surgiram ao lado dela apontando armas para nós duas, nos fazendo travar no lugar.
— Você sabe, Isabella, eu nunca fui uma pessoa muito violenta — Ela disse, sorrindo para a mão que ainda afagada a minha bochecha — Caius falou que uma única bala resolveria toda a questão, mas eu lhe disse para mantê-la durante um tempo, porque precisava pensar. Uma garota pode mudar muito de ideia, certo? — Jane mexeu-se inquieta ao meu lado e os homens focaram sua atenção nela — Agora eu estou totalmente a favor de liberar a minha criatividade e tornar isso tão doloroso e lento quanto possível para você.
Ela bateu palmas para os homens e deu as costas para nós. Eles ficaram momentaneamente sem ação, até que um deles revirou os olhos e a seguiu. O outro fez a mesma coisa. Ficamos no mais repleto silencio até que não podíamos mais vê-los e a porta fosse batida após o último sair.
— Sério. Nós precisamos dar um jeito de escapar daqui — Jane disse levantando-se e eu fiz o mesmo, mais devagar porque a água escorrendo por mim ainda estava incomodando. Inspirei fundo quando percebi que boa parte do colchão estava mais arruinado — Eu não acho que passemos de amanhã. Caius sabe o que faz, por isso quando ele perceber que o cerco está se fechando, não vai hesitar de cair fora da cidade e deixar Tanya por conta própria, mas com certeza dará um jeito em nós duas antes disso.
— Eu não vejo como, Jane — Quase gemi de desanimo enquanto apertava o meu cabelo, ouvindo a água cair no chão. O meu vestido estava ensopado e grudando em mim, mas não pretendia tira-lo. De jeito nenhum ficaria só de calcinha sabendo que esses caras entravam aqui quando bem queriam — Dois à três brutamontes ficam do lado de fora dessa porta que não tem sequer uma maldita maçaneta para que possamos tentar forçar, eu teria que voltar aos meus 7 anos e ser anorexa para cogitar passar por essa janela se não existisse a grade. O que você quer? Jogar essas caixas contra a porta e tentar quebra-la? Sim, porque isso seria muito silencioso. — Ironizei.
— As caixas! Não terminamos de verifica-las — Ela chamou, mas eu apenas grunhi de frustração e soltei o ar com força sem me mexer do lugar — Vamos, Isabella, você não vai querer morrer sem ter tentado.
Então nós tentamos.
As minhas unhas foram severamente danificadas, assim como as pontas dos meus dedos. Eu precisei tirar algumas farpas doloridas de entre eles quando terminamos. Se sabia que teria problemas para abrir qualquer uma delas com um martelo, deveria ter ficado quieta ao invés de usar as minhas mãos para resgatar um conteúdo tão insignificante quanto aquele.
Tratava-se de alguns produtos de limpeza, para roupas e cozinha. Também haviam panos de pratos embrulhados em um saco plástico, que serviram para que eu pelo menos, me secasse um pouco. Jane ficou desapontada que não tivesse nada como talheres ou outros utensílios pontiagudos, mas seria o cumulo da estupidez se o proprietário deixasse coisas assim aqui embaixo quando sabia que éramos prisioneiras.
Nós empurramos as caixas mais para o fundo do sótão, os produtos não estavam todos guardados, porque ela recusou-se a perder tempo organizando-os de volta, então tivemos que mantê-los na parte mais mal iluminada para que passasse despercebido na próxima visita.
Voltamos a ouvir barulhos fortes vindos de cima um tempo depois. Gritos alterados, mas abafados pelas paredes e não conseguíamos entender o que era dito. Estávamos assustadas o suficiente depois da passada de Tanya algumas horas antes para irmos até lá e corrermos o risco de sermos pegas. De repente, ouvimos uma forte batida na porta. Algo como um chute e pulamos para trás com os olhos presos nela.
— Abre essa porra! — Alguém gritou. Era a voz de um homem.
— Já falei para não se meter nos meus assuntos — Tanya gritou, histérica — Eu te chamei para me ajudar e não fazer cena. Maldição, pare!
O barulho continuou e o que parecia ser o punho do homem, batia tão forte contra a madeira que eu achei que a atravessaria no meio se ele continuasse a insistir. A mão de Jane agarrou o lado do meu vestido e eu a olhei estreitando os olhos. Ela estava tão confusa quanto eu, mas tudo se esclareceu quando o dialogo alterado continuou.
— Eu não vou parar. Essa brincadeira precisa acabar, Tanya, você ultrapassou todos os limites. Será que não enxerga o quanto isso é fodido? — Ele rosnou para ela que gritou irritada de volta — Isabella? Tire as mãos de mim, porra. Isabella, você pode me ouvir?
Você tem que estar brincando comigo. Isso é sério?
Bastou ouvir o meu nome e o meu cérebro reconheceu imediatamente de quem era aquela voz. Eu pensei que os meus olhos saltariam do rosto e o meu coração acelerou como em uma corrida.
— James? — Chamei timidamente, mas o homem emudeceu — James, é você aí? — Fiz Jane me soltar e aproximei-me dos degraus, chamando-o com mais força.
— Sim, sou eu — Nós suspiramos ao mesmo tempo. Era surreal. Eu não imaginava que ficaria tão aliviada em ouvir sobre esse cara novamente — Fique calma. Vou tira-la daí.
— James, não seja ridículo. Vá embora antes que faça alguma besteira. Maldita hora em que eu... argh! — Tanya respondeu e eu ouvi alguns sons abafados. Pariam tapas. Ela estava batendo nele ou algo assim? — Não se atreva a me atrapalhar. Não é porque dormimos juntos algumas vezes que você tem o direito de se meter na minha vida dessa forma.
— E muito menos você tem de manter alguém aqui contra a sua vontade. Ainda mais sendo cúmplices desses marginais. Isso vai mantê-la presa por mais tempo que esse cérebro minúsculo consiga contar. Sério, o quão louca você está? — Aquela deveria ser uma pergunta retórica, pois ele não esperou por resposta — Cacete... Isabella, e-eu vou dar um jeito, ok? Fique firme.
— Eu estou te avisando, Gigandet... — Tanya ameaçou.
As minhas mãos estavam tremendo quando eu encostei na madeira. A minha situação não era tão grave para achar que estava alucinando e se eu estivesse, não seria James a estar ali. Por um segundo, toda a dor de cabeça que ele me causou veio em minha mente, me fazendo questionar de que lado ele estava. Se ele era um cachorrinho da Denali como Elizabeth foi por tanto tempo, mas todas as suas reações demonstravam o horror que sentiu ao ver no que ela estava envolvida e o que planejava fazer comigo. Nada parecia fingimento e tanto quanto eu esperava que o meu noivo e Jenks invadissem aquele lugar para me resgatar, estava profundamente agradecida pela presença de um homem, que mesmo com o nosso envolvimento problemático, estava mais do que disposto a me ajudar.
— Você precisa se apressar. Tem mais alguém aqui comigo — Expliquei rapidamente e quase o ouvi bufar irritado do lado de fora — Tente me deixar sair, James, por favor.
— Tenha calma, Isabella, eu vou ajuda-la. Enquanto eles... — Sua frase foi interrompida e então algo pesado foi ao chão.
Eu bati na porta para chamar a sua atenção enquanto gritava o seu nome, mas tudo que ouvi foram vozes masculinas e desconhecidas falando em espanhol. Eu já não sentia a sua presença ou a da Denali e quando me silenciei, consegui ouvir o som de algo sendo arrastado pelo piso até não haver mais nenhum ruído.
Era isso. Não havia mais chance para nós.
Eles os pegaram.
Voltei para baixo soluçando e Jane me abraçou, sussurrando que ficaríamos bem e que diríamos um jeito. A sua mentira me deixou pior, ao invés de me reconfortar e eu apenas me deixei chorar de frustração e desespero. Eu estava tão esperançosa. Realmente achei que fôssemos conseguir dessa vez. Se James veio a pedido de Tanya, imaginei que ele seria capaz de dribla-la mesmo que fosse só o suficiente para que pudéssemos lutar nós mesmas por liberdade contra aqueles caras, porque trancafiadas aqui... estávamos a mercê desses bandidos.
Era tão amarga a sensação de ter algo que desejava imensamente bem nas minhas mãos e então alguém o tomar cruelmente de mim. No fundo do meu coração, eu pedia para que nada de mal tivesse acontecido com James e sorri assim que completei o pensamento. Quem diria?
O homem irritou a merda para fora de mim em cada um dos nossos poucos encontros. O jeito lascivo que ele olhava para mim toda vez, me deixava enjoada e atordoada de um jeito ruim, mas aparentemente, o seu mal jeito com mulheres não o fazia realmente alguém de coração ruim.
James Gigandet era um grande babaca, mas tentou me salvar.
Eu esperava que pudéssemos viver o suficiente para que um agradecimento fosse feito.
Já era dia quando Jane encontrou uma área pequena e seca no colchão para dormir, mas antes perguntou se estava tudo bem fazê-lo ou se eu precisaria dele. Acredito que a minha aparência de quem mal podia ficar de pé a assustou um pouco, mas eu dei de ombros e sentei-me por um longo tempo na velha cadeira de balanço, que por algum milagre, ficou silenciosa enquanto eu movia-me para frente e para trás.
Enquanto as primeiras horas da manhã passavam, eu pensei e circulei pelo sótão procurando por algum milagre. Qualquer coisa que pudesse me ajudar quando eles viessem. Eu sentia em meu coração que não iria demorar. Eles se livrariam de nós o quanto antes, principalmente depois da visita inesperada do James. Talvez esse lugar não fosse mais seguro para nos manter ou até mesmo para eles frequentarem.
Uma dormência espalhou-se sobre mim e eu me movi no piloto automático. Encarei a prateleira empoeirada e quase ri. O que eu podia fazer com isso? Jogar-lhes um frasco no rosto para levar um tiro em seguida? Muito inteligente. Segui para a cômoda e abri as gavetas, todas estavam vazias. Segurei a primeira com firmeza, puxei-a para fora e me surpreendi que apesar do material dela estar firme, era leve. Mas também não é como se eu tivesse tempo de tirar do lugar e me defender com ela, se tentassem me agredir. Um suspiro involuntário escapou de mim e eu fui em direção às caixas abertas. Todos os sabões e inseticidas eram inúteis para o meu propósito.
Mas se eu tivesse a oportunidade de envenená-los, serviriam bem.
Abri alguns detergentes e desinfetantes apenas para sentir o cheiro de limpeza. A fragrância de flores de lavanda lembrava a Renée e a quase obsessiva mania de limpeza que adquiriu durante um período da minha adolescência, onde um experimento de química saiu terrivelmente errado, deixando a casa com mau cheiro, bem como manchas na parede e nos móveis próximos.
Deus, eu sentiria falta deles. Gostaria de ser capaz de dizer adeus, de pedir para que não culpem o Edward por ter me trazido. Por não ter me protegido o suficiente, porque não foi culpa de ninguém, exceto Caius e seus homens. Sei que ele irá sofrer muito e se culpar, sem precisar da opinião dos meus pais sobre seus atos. Esperava que mamãe o ajudasse com a criação do Heitor para que ele seja tão feliz quanto fui todos esses anos.
— Você está se drogando?
Se tivesse forças, eu teria pulado de susto quando ouvi Jane tão próxima, mas apenas levantei a cabeça e a olhei confusa sobre a pergunta. Ela apontou com o queixo na direção do lustra móveis aberto que eu segurava e não contive o pequeno sorriso, mas apenas dei de ombros e o fechei, jogando-o de volta para a caixa.
— As coisas estão agitadas lá em cima — Murmurou levantando os braços e os alongando. Eu franzi porque não tinha percebido nada. Estava tão entorpecida que além de perder a noção do tempo, estava ignorando o que acontecia ao redor? — Puta merda, eu estou morrendo de fome.
Sua barriga rugiu naquele momento como se para enfatizar o fato e a minha própria doeu levemente, lembrando-me do pouco que comi no dia anterior, mas nesse momento, eu tinha sede. Me sentia desidratada há horas, por isso me surpreendia a capacidade de chorar. Em algum momento daquela manhã, arrisquei-me colocando a cadeira de balanço encostada na parede, abaixo da janela e subi nela para ter alguma ideia do que havia lá fora.
Nada, exceto um gramado malcuidado e seco, um pneu de bicicleta infantil vazio e o muro.
— Isso mesmo. Quebre a perna e facilite tudo para eles — Jane resmungou. Ela estava incrivelmente mal-humorada desde que acordou e eu não sabia o porquê, talvez fosse a fome ou a ansiedade. Seja o que for, não a julgava — Eu não sei você, mas não vou entregar o jogo sem o inferno de uma briga. Nós deveríamos pegar algumas...
Ouvimos a porta ranger, indicando que estava aberta e eu me atrapalhei para descer da cadeira enquanto ela balançava com o meu nervosismo. Por pouco não caí de mau jeito e realmente machuquei a perna. Reconheci a bengala de Caius que se aproximava jogando-a de uma mão para a outra, como sempre, como se brincasse. Ele sorriu para nós, mas pareceu falso. Ele não estava satisfeito e eu quis que aqueles óculos escuros sumissem para que eu pudesse ver a verdade em seus olhos. Três homens estavam atrás dele, com as expressões tão fechadas quanto antes, mas esses eram novos.
— Faça-me a gentileza de me acompanhar, querida — Caius se dirigiu a Jane que enrijeceu como nunca e o meu corpo a imitou em reflexo — Nós precisamos ter uma conversa em privado.
— Eu não quero.
— Acho que ficou muito claro que você não tem nenhum querer aqui, jovem. Agora vamos! — Ele gritou a última parte, assustando a nós duas e vi que ela hesitou entre dar um passo para frente ou para trás — Pegue-a. — Ele ordenou a um dos caras e ele veio colocar as mãos em Jane.
Meu instinto era de empurra-lo e salva-la, mas onde isso nos deixaria? Havia outros dois assistindo a cena, segurando uma arma cada um. Eles me pagariam – e muito provavelmente machucariam – em um piscar de olhos. Me senti uma infeliz assistindo Jane ser levada até o pai, se debatendo e gritando nos braços do homem grande enquanto Caius a observava com canto do lábio erguido. Ele se divertida vendo o desespero da garota, mas o seu corpo emanava impaciência.
— Caius, por favor — Eu pedi atraindo a sua atenção, mas o homem não parou e empurrou-a escada acima — Ela é sua filha. Não seja severo com ela. Não a machuque.
— Isabella, Isabella — Eu realmente detestava a forma como ele repetia o meu nome duas vezes como se estivesse repreendendo uma criança — A garota invadiu a minha casa, roubou documentos importantes enquanto armava um teatro para mim e fugiu do país. Envolveu-se nos meus negócios e tentou me colocar atrás das grades. Você realmente acha que o fato de compartilhamos laços sanguíneos me impediria de lhe punir adequadamente? — Sua sobrancelha esquerda arqueou-se como se a pergunta fosse muito estúpida e eu apenas pisquei em silencio — Você deveria saber melhor do que isso. Lembre-se do pequeno Heitor.
Heitor.
O meu lindo menininho, que por pouco não...
— Você é uma desculpa de ser humano, Caius. Está fazendo tudo errado. Edward não tem nada a ver com o seu passado. Ele não estava aqui quando os problemas com os seus irmãos começaram — Murmurei com o resto de coragem que me sobrava — Eu quase sinto pena de quando ele colocar as mãos em você. Vai se arrepender de ter saído do buraco onde esteve escondido por todos esses anos.
— Wow! A gatinha ficou irritada? — Perguntou debochando de mim, enquanto acotovelava o outro sujeito ao seu lado, que abriu um sorriso malicioso para mim — Victor sabia que isso aconteceria. Enquanto eu estiver nessa terra, todos os seus herdeiros serão punidos eventualmente. Pode me chamar de louco, eu não me importo — Ele deu de ombros — Papai e mamãe devem estar se contorcendo no caixão, arrependidos por não terem me dado ouvidos. Aqueles bastardos egoístas tiveram o que mereceram.
— Você é mesmo um infeliz — Rosnei enojada com a forma que ele falava dos próprios pais falecidos — Um sujo e amador! Realmente? Um homem que deveria ser temido, de repente se torna comparsa de uma riquinha mimada que ficou doida depois de ser rejeitada uma e outra vez? Isso é ser profissional para você? Ora, mas que patético, Caius — Provoquei e assisti com prazer o seu rosto ficar vermelho. Jane estava certa, eu não morreria sem ao menos dizer tudo que estava entalado na minha garganta — Eu ouvi que a polícia esteve na casa da Denali com um mandato de busca. Se a mulher foi estúpida o suficiente para ser pega tão rápido, não tenha dúvidas de que ela vai te afundar. O plano de vocês já era.
— Eu vou me livrar dela — Ele sentenciou, sua voz dura e tensa — Jane foi a última fêmea que me passou para trás, acredite em mim. Tanya não vai proceder como o planejado e sinta-se grata por isso, porque o que ela tinha planejado para você... — Ele riu como se lembrasse se algo que lhe foi dito — Espero que não pense que isso mudará o seu destino, Isabella. Você está aqui para quebrar o coração do pobre garoto Cullen.
— Edward...
— Oh, sim, Edward. Ele está desesperado para encontrá-la. A polícia o convenceu a fazer uma declaração na impressa. O coitado estava acabado e com os olhos vermelhos quando o vi na TV, oferecendo dinheiro por qualquer informação a seu respeito, falando sobre resgate e um monte de baboseira. Ele sabe que eu não te peguei para devolver, mas está apelando de todas as formas — Caius riu outra vez e o meu coração apertou de dor e saudade. Isso era tão injusto conosco. Comigo. Eu nunca pensei que as coisas chegariam a esse ponto — Eu não quero dinheiro, quero vingança. Mas sabe, se você fosse uma boa garota, talvez eu a deixasse se despedir dele de alguma forma. Que tal? — Eu não entendi o que ele quis dizer, porque não prestava mais atenção, mas um movimento me alertou do que ele planejava.
Ele estava com a mão sobre o cinco, brincando com os dedos na fivela como se avaliasse se valia a pena tira-lo ou não. Precisei fechar os olhos por um segundo para amenizar a vontade de vomitar só de pensar no que ele estava insinuando.
— Você não ouse! — Ameacei, movendo-me para trás tentando esconder a forma violenta que o meu corpo estremeceu de nojo e medo. Ele não me tocaria dessa forma. Nunca.
— Bem, foi só uma sugestão — Defendeu-se levando as mãos em sinal de rendição, mas o estúpido sorriso continuava em seus lábios nojentos — Você não é muito divertida. Aposto que a Denali me faria um boquete memorável para tentar salvar a sua pele, mas já que isso não é uma opção, você receberá uma visita muito em breve — Piscou para mim — Adeus, Isabella — Despediu-se com uma simpatia fingida — Vamos lá, eu ainda tenho que lidar com aquele palhaço.
Observei em silêncio quando eles subiram de volta até que a porta batesse e eu só fosse capaz de ouvir a minha respiração ruidosa. Eu deveria estar aliviada que Caius foi embora e não cuidou de mim ali quando facilmente poderia? Claro que não. Aquele sádico estava me assustando de propósito. Ele queria que eu esperasse pelo o que quer que estivesse vindo para mim. E sobre quem ele estava falando? James? Merda. Como se eu já não tivesse preocupações o suficiente.
Eu não lembro de como cheguei até o colchão, mas acordei do pequeno cochilo sentindo o meu estômago doer. Estava quente aqui embaixo e eu não conseguia distinguir as horas pela pouca luminosidade que entrava no quarto, porque apesar de um pouco de calor, o céu estava nublado. Eu imaginei que deveria passar das 15h. Acariciei a minha barriga tentando acalma-la e aplacar o incomodo que estava ao ponto de me fazer gemer e aos poucos o cansaço amoleceu o meu corpo por completo. Não conseguia manter os meus olhos abertos e a inconsciência veio me levar.
Lembro que acordei diversas vezes. Sempre com algum barulho estranho vindo lá de cima, ou após ter algum sonho perturbador com Heitor. Assim, eu despertava com o rosto manchado de lágrimas que só aumentavam quando a dor crescia enquanto eu tentava me movimentar. Dei-me por vencida de que era melhor ficar ali. Eu me sentia tão fraca a cada minuto que se passava. Eles definitivamente não precisavam tentar me matar de fome para que eu não revidasse quando viessem. Não era como se eu pudesse passar sobre uma dezena ou mais homens, armados e experientes em atrocidades como essas.
Volta e meia, eu me pegava pensando em Tanya e em que fim ela teria levado. Eu realmente não duvidava que ela seria capaz de presentear Caius com um boquete ou o que mais ele exigisse, para obter alguma misericórdia por ter fodido a coisa toda, mas o homem era traiçoeiro o suficiente para simplesmente tomar o que ela lhe desse e então manda-la se foder. Isso me deixava feliz. Eu queria que ela pagasse. Que todos eles tivessem a sua cota generosa de sofrimento.
Jane, pobrezinha, queria ter sido capaz de fazer mais por ela. Só de pensar que ela saiu de seu país, da segurança da sua casa apenas para alertar ao Edward do que estavam fazendo com ele, que foi pega enquanto me ajudava a enxergar o que esteve debaixo do nosso nariz o tempo todo e só recebeu a fúria do pai em troca, me deixava pior ainda. Era realmente tudo muito injusto, começando por mim, que não tinha absolutamente nada a ver com esse homem cruel e mesmo assim...
Ouvi dois barulhos seguidos. A porta sendo aberta e um forte trovão. Gostaria de ter tido um pouco mais de dignidade, mas o meu corpo agiu por conta própria e fugiu em direção a cabeceira em ferro da cama e meus braços seguraram as minhas pernas. Eu estava tremendo quando um homem surgiu trazendo uma bandeja para perto de mim. Ele não me olhou, apenas colocou-a em cima do colchão, próximo o suficiente e deu as costas. A porta deveria ter ficado aberta, pois eu conseguia ouvir vozes irritadas falando alto. Estavam falando em grego, mas era algo relacionado a carros. E também havia um freezer.
A bandeja era de aço, retangular e sem alças. Estava bastante arranhada, mas limpa e continha uma fatia de pão e uma garrafa pequena de água mineral. A minha boca salivou e eu peguei o pedaço, notando então que havia uma fina camada de manteiga. A pequena fatia desapareceu em questão de segundos e fez a minha barriga doer quando desceu. Eu queria mais. Precisava de mais. Agarrei a garrafa de água como se tivesse passado noites intermináveis em um deserto e a bebi com desespero. A sensação do liquido na minha garganta era a coisa mais deliciosa que eu tinha experimentando nos últimos dias e eu só parei, realmente, para respirar, quando a garrafa estava completamente vazia.
Minutos depois, quando o cheiro de chuva atingiu o meu nariz, eu levantei devagar e me coloquei sobre a cadeira novamente, respirando aquele aroma gostoso através da janelinha. Observei por um longo tempo a grama amarelada ficando molhada aos poucos e quando a porta foi aberta novamente, ela já estava encharcada. Dessa vez, não tivesse pressa de descer. O fiz com calma e alcancei o chão no exato momento que Jorge desceu o último degrau.
Desde que ele partiu para se livrar do carro, não nos vimos outra vez e agora ele estava diferente. Vestido casualmente, com um óculos de sol pendurado no pequeno V da camisa, sem o boné e estava mais calvo do que quando o vi anos atrás. Agora quase já não lhe restava cabelos, só havia um pouco e era ralo, nas laterais e atrás da cabeça. A aparência denunciava que havia passado dos 40, mas ele não era de todo ruim, por isso não imaginava qual a sua dificuldade em viver como uma pessoa normal. Casar-se, ter seus filhos, formar uma família... ao invés torna-se um traidor, ladrão de merda.
— Você se alimentou? — Ele perguntou e eu assenti em dúvida de que aquilo poderia ser chamado de alimentação — Eu comprei algumas coisas para vocês ontem, mas Tanya não permitiu que trouxessem aqui para baixo. Ela estava certa de que dar comida para alguém que não viveria para outro pôr do sol, era um desperdício, mas aquela boquinha venenosa foi colocada em seu lugar mais cedo. — Ele riu.
Aquilo me agradou, mesmo que eu não soubesse exatamente o que significava.
— No seu país, até prisioneiros perigosos no corredor da morte tem direito a uma boa refeição, então achei que seria justo. Sinto muito não poder oferecer mais. — Ele não parecia que sentia muito, mas fiquei em silencio e o observei ir até a cômoda.
— Jorge, você não precisa fazer isso.
Ele tinha tirado do bolso algo muito parecido com uma faca, mas estava mais para um punhal. Jorge olhou para mim e sorriu sem qualquer humor no rosto, voltou os seus olhos para a lamina prateada e jogou-a sobre a madeira para procurar algo mais.
— Você é uma mulher de clichês, Isabella? Que decepcionante — Murmurou baixinho e tirou do bolso de trás um frasco minúsculo de vidro — Caius me disse que matar pela primeira vez, é a parte mais difícil. Ele disse que eu deveria continuar até que ficasse mais fácil, menos importante e eu continuei — Ele me olhou quase com pesar — Mas não ficou. Eu não consigo sentir prazer em assistir a vida esvaindo-se do corpo de alguém como ele, mas preciso fazer o que tem que ser feito.
— O que é isso? — Perguntei a respeito do frasco cheio de pó branco que ele destampava e ameaçava jogar sobre a cômoda.
— Isso? É essa belezinha que faz todo o esforço por mim. — Respondeu sorrindo para o pó branco espalhado e um arrepio estranho atravessou a minha nuca quando o vi junta-lo em uma pequena linha. Ele tinha algo como uma nota de euro enrolada em formato de canudo e usou para ligar o seu nariz ao pó.
Merda.
É cocaína.
Sua cabeça balançou bruscamente para os lados quando inspirou o pó branco. Desviei o olhar da cena por um instante, assimilando o que aquilo significava. Ele estava de drogando para ser capaz de me matar sem chance de se acovardar ou ter pena de mim.
— Jorge, antes podemos conversar sobre isso?
— Conversar é a última coisa que faremos, porra – Foi ríspido e eu estremeci — Você está tentando ganhar tempo para que eu não acabe com você?
— Sim.
— Bem, obrigada pela franqueza — Ele gargalhou, agora, dando-me toda a sua atenção — Eu realmente não estou feliz com isso, Isabella. Se ele estivesse em seu lugar agora, faria muito mais sentido, mas Edward vai pagar através de você. Você imagina quantos anos eu desperdicei sendo capacho daquele sujeito? O seguindo para todo lugar, abdicando de ter uma vida pessoal e de qualidade para cuidar dele, dos interesses e do bem-estar dele. Perdi a mulher da minha vida por preferir a minha carreira. Que carreira?! — Ele perguntou, mais para si mesmo do que pra mim e bufou — Eu continuei sendo tratado como um pobre coitado. Um zé ninguém pela família Cullen.
— Mas o que você esperava? Você era pago para fazer essas coisas. O que achou que aconteceria?
— São todos uns desgraçados! — Ele gritou me assustando, mas então seus lábios se ergueram em um sorriso. Eu juro que parecia que eu estava vendo a face do próprio demônio ali — Todos vão sofrer por você. Vão chorar sabendo que fui eu. Vão ter que se lembrar de mim pelo resto de suas vidas miseráveis, pensando que tudo poderia ter sido evitado se eu tivesse sido um pouco, só mais um pouco valorizado. Se Caius tivesse o que é dele por direito. Se eles fossem justos! — Ele agarrou o punhal com a mão e eu soube. Eu simplesmente soube que era a hora.
— Jorge, por favor, você não tem que fazer isso! — Alertei tentando fazer os meus pés desgrudarem do chão. Para onde eu correria?
Eu ouvi uma batida forte. Como algo pesado se chocando com uma parede e essa distração custou-me caro, porque segundos depois, eu estava jogada na cama com o homem alucinado em cima de mim, passando a mão por todo o meu corpo. Mas que porra?
— Pare, por favor. Saia de c-cima de m-mim. — Gaguejei e tentei empurrar o seu corpo de cima do meu, mas ele era grande demais. O peso dele era muito maior do que eu estava acostumada e me apavorou por completo.
Ele riu e enfiou o rosto no vão do meu pescoço, inspirando com força a pele.
— Oh, Rita... você cheira bem.
— O que? Não. Não, sou eu, Isabella. Olhe, Jorge... sou eu. — Tentei segurar sua cabeça para mostra-lo que ele estava alucinando. Que aquela porcaria estava corroendo o seu cérebro e eu não sou quem ele deixou para trás.
Jorge gemeu alto esfregando sua ereção em mim e ele continuava murmurando o nome da mulher em meu ouvido. Eu tremia de cima à baixo de medo. A situação era horrível. Os meus braços doíam de tentar lutar contra ele. Eu não estava no meu melhor estado para uma luta corporal contra um cara e pensar que ele poderia conseguir aquilo de mim, era desesperador.
Ele segurou a minha coxa com força e abriu as minhas pernas com seus joelhos. Eu gritei. Gritei muito. Maldito vestido. Por que as coisas estavam tão a favor desses crápulas? Os meus apelos eram ignorados por ele que lambia a pele do meu pescoço e puxava o meu cabelo quando eu pedia para parar. Senti uma ânsia horrorosa e questionei o quão eficiente o vomito poderia ser naquele momento. Ele ficaria muito puto?
— Hum... finalmente... juntos, Rita — Falou arrastando o nariz até os meus seios — Você sempre cheira tão bem, Rita. — Aquela frase me lembrou ao Edward e eu não controlei as lágrimas. Explodi em soluços e continuei lutando mesmo o que os meus músculos implorassem para eu parar, uma vez que ele parecia cada vez mais enérgico e louco.
Ele puxou o tecido perto do decote com uma força assustadora. O vestido cedeu e rasgou na altura do ombro até mais embaixo, expondo o começo do meu seio esquerdo e eu gritei novamente com ardência na minha pele. Ele ajustou-se para tentar abocanhar o meu peito e quando vi a minha chance, a peguei. Eu o chutei nas bolas com o joelho.
Jorge urrou de dor e caiu para o outro lado.
— Não, volte aqui! — O infeliz me alcançou quando tentei sair da cama. Ele me puxou pelo ombro e eu caí sentada no colchão. Em questão de segundos, eu olhei para o lado, alcancei a bandeja e simplesmente bati em seu rosto com ela, quando veio para cima de mim — Sua filha da puta, eu vou acabar com você! — Ele gritou me ameaçando e colocou a mão sobre a orelha machucada e eu não pensei duas vezes, bati novamente e de novo fazendo o seu corpo inclinar-se para a direta.
Larguei a bandeja do chão e tentei ir para as escadas, mas caí no primeiro degrau quando Jorge cravou o punhal na minha coxa quando corri. O meu grito soou estranho, quase gutural e a dor estava me rasgando. Olhei para ele, chorando, seus olhos escureceram de ódio pra mim. Ele puxou a lamina para tira-la da minha perna e eu não soube dizer qual dos dois movimentos doeu mais. Minha visão escureceu por 30 segundos tamanha dor.
O pé de Jorge veio em minha direção antes que eu pudesse fazer qualquer coisa para desviar e atingiu o lado do meu corpo, próximos das costelas e fui jogada para frente com o impacto doloroso. Chorei quando caí sobre a perna machucada, mas tentei não permanecer no chão por muito mais tempo. Levantei com dificuldade, me arrastando no chão sujo enquanto ouvia-o me seguindo. No segundo que fiquei de pé, ele atingiu o meu rosto com um tapa forte.
Eu estava surpresa com a força desse cara.
— ... desgraçada! Sempre ele... aquele maldito! Não... ficar... assim... — Ele falava coisas sem o menor sentindo, olhando de um lado para o outro. A minha perna estava vacilando e eu tropecei algumas vezes enquanto andava para trás.
Jorge continuou falando atrocidades, a maioria direcionada a Edward, as mãos ao lado da cabeça, com o punhal ensanguentado em uma delas. Minhas costas atingiram uma das caixas empilhadas e eu tentei passar por entre as outras do chão sem cair. Ele me seguia sem olhar para mim, como um animal selvagem que sentindo o cheiro de sangue fresco, persegue a sua presa.
As cenas seguintes aconteceram tão rápidas que o meu cérebro mal registrou. Jorge piscou algumas vezes até focalizar o seu olhar em mim e simplesmente correu em minha direção. O seu corpo se chocando com o meu, me roubou o ar quando atingi a parede. Ele atirou a lamina para longe e usou as mãos para apertar o meu pescoço. Eu tentei gritar e arranha-lo, mas seus olhos escuros e vazios me encarando, diziam que não pararia até que não restasse mais ar para mim.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Meus braços estavam sacudindo para ambos os lados, tentando alcançar qualquer coisa que pudesse me ajudar, mas não encontrava. Eu podia sentir o meu coração furioso dentro do meu peito, a minha boca estava meio escancarada e engasgava constantemente. Ele intensificou o aperto no instante que a minha mão alcançou algo.
Parecia um dos produtos que estavam antes na caixa e não pensei duas vezes, trouxe até mim, expulsei a tampa frouxa com o dedo enquanto a minha mão direita puxava o cabelo de Jorge, fazendo com que o seu rosto fosse para cima por um instante e eu joguei nele.
Ele soltou-me no mesmo segundo e eu agradeci que aquilo fosse o suficiente para distrai-lo e talvez correr dali. Estava tossindo feito uma louca, tentando buscar ar ao mesmo tempo e me surpreendi com os gritos horrorizados dele. Endireitei o meu corpo e assisti a Jorge cobrindo o rosto com as mãos, gritando até as veias saltarem do pescoço. Era horrível de se ouvir.
Seus dedos começaram a sangrar e eu fiquei abismada com a imagem que veio a seguir.
Ele chocou-se com uma das caixas, tropeçou e caiu para trás, descobrindo o rosto no susto e ele estava simplesmente... derretendo. Mas que porra é essa? Seus gritos e choro não cessaram e só o barulho de passos apressados vindo para nós, me fez tirar os olhos daquela imagem.
— Que merda aconteceu?
— James? — Perguntei boquiaberta. Ele estava com a camisa rasgada e ensanguentada, descalço, um olho roxo. Tinha diversos arranhões acima da bochecha e o lábio cortado, mas era ele — Você está vivo.
— Parece que sim. O que você fez com ele?
Eu não respondi, apenas apontei para onde estava a embalagem pequena no chão, de onde ainda escorria o liquido milagroso que salvou, literalmente, a minha vida. Enquanto Jorge gemia, chorando, xingando e se contorcendo no chão atrás das caixas, eu verifiquei a minha coxa. Havia listras assustadoras de sangue escorrendo por toda a minha perna e qualquer toque por mais leve que fosse na área do ferimento, me fazia ver estrelas – no mal sentido.
— Isso é um desentupidor de ralo. Tem ácido clorídrico — Ouvi James dizer após ler o rótulo de trás — Que filha da mãe de sorte — Eu sabia o que isso significava. Havia estudado na escola, mas nunca trabalhei com esse ácido antes. Nenhum dos estudantes poderia. Era tóxico. Altamente irritante para a pele e os olhos. Chegava a causar danos nos rins e no fígado, sem contar que era corrosivo. Era por isso que a cara do filho da puta estava derretendo — Vamos, Bella, temos que dar o fora. Aqueles caras não vão ficar derrubados por muito tempo.
— O que foi que você fez?
James se recusou a me contar e agarrou a minha mão, forçando-me a correr. Eu gritei e ele finalmente percebeu que eu tinha um corte severo na perna. Ele amaldiçoou algumas vezes, mas me ajudou a subir às escadas tão rápido quanto eu era capaz de conseguir. Ao saímos do sótão, encontramos três caras caídos, foi possível ver que um deles foi baleado. Foi ele quem fez isso?
Ouvimos movimento não muito distante e fomos para os fundos, atrás de algo semelhante a uma cozinha. Havia uma porta escancarada no final com jeito de que foi aberta a força, mas não foquei nisso e ignorei as dores por todo o meu corpo enquanto fugíamos. O meu coração quase parou no instante em que braços me agarraram, forçando-me a parar, mas a mão sobre os meus lábios me impediu de gritar. Ouvi um riso fraco e naquele breu, eu reconheci.
Jane estava viva.
— Eu sinto tanto por ter deixado eles te levarem — Murmurei tocando seus ombros e outras partes do seu corpo para verifica-la. Ela chupava a respiração entre os dentes quando tocava os seus machucados. Parecia estar pior do que James — O que aquele filho da puta fez com você?
— Bella, isso não é hora — James rosnou puxando o meu braço. Nós estávamos ensopados. A chuva caia pesada sobre nossas cabeças, deixando o céu escuro, quase como se já fosse noite — Quando Caius perceber que sumimos, ele vai colocar esse lugar abaixo. Vamos, vamos!
James tinha o seu carro – assim ele achava – na parte da frente, mas não podíamos chegar até ele sem sermos vistos, então nós corremos em direção ao portão de ferro, há uns 5 ou 6 metros de distância da porta dos fundos e todos suspiramos aliviados quando percebemos que não havia cadeado, apenas uma corrente envolta para parecer que estava trancado.
Dois passos e estávamos na rua atrás do açougue.
Eu sentia o meu corpo estremecendo com a adrenalina de escapar daquele lugar, enquanto corríamos na chuva. Não passou por nossa cabeça parar em qualquer casa por perto para pedir por ajuda, simplesmente queríamos nos afastar daquele lugar tão rápido quanto fosse possível e eu não conseguia parar de chorar – em parte, de alivio.
Precisamos nos esconder meia dúzia de vezes, porque carros semelhantes começaram a passar com frequência e não podíamos nos dar ao luxo de baixar a guarda novamente. Sempre íamos para lados diferentes, porque três pessoas mancando, sangrando e correndo, não era muito sutil.
Tínhamos acabado de sair daquele quarteirão quando eu me agarrei a um poste, esgotada demais para dar um passo adiante. Eu abaixei a cabeça e tentei buscar ar. Aquele diluvio caindo sobre nós dificultava a nossa locomoção, a minha perna estava constantemente latejando e como se não fosse o bastante, Jane simplesmente cuspiu duas pequenas poças de sangue na calçada que foram rapidamente lavadas pela água que escorria.
— Eu n-não consigo m-mais, desculpe... — Ela sussurrou fraca e desabaria no chão se James não tivesse a segurado pela cintura — Apenas... me deixem aqui.
— Não seja absurda — Ralhei com impaciência — Ela precisa de atendimento médico. Urgente.
— Todos nós. Você também está machucada, essa sua perna me assusta pra caralho.
— Eu estou bem — Menti — Leve-a para um lugar seguro e... merda, James, segure ela! — Quase gritei quando a vi perdendo os sentidos. James segurou-a mais apertado, fez uma pequena manobra e de repente a loira estava em seu colo, com a cabeça tombada para o lado.
— Acho que enquanto dirigia, eu percebi um posto de gasolina não muito distante daqui. Você lembra de ter visto algo assim?
— Não — Respondi olhando para os lados. As casas, em sua maioria, estavam fechadas. O que era realmente bom, não queríamos pessoas vendo que direções tomávamos — Eles fizeram outro caminho, mas não temos tempo para ponderar, leve-a e peça ajuda — Me interrompi quando um furgão azul marinho passou bem devagar à nossa esquerda e eu reconheci o motorista. Corremos para a lateral de uma padaria fechada e ficamos até não ouvirmos mais o carro — Ligue para a polícia, faça eles mandarem uma ambulância com urgência. Eu vou distrair os outros, nós três fugindo assim, vamos ser encontrados mais cedo ou mais tarde.
— Mas nem fodendo! — Ele protestou arregalando os olhos.
— Eu vou atrasar vocês, porra, você quer que ela morra? — Exasperei, cada vez mais preocupada com a palidez de Jane — Estamos perdendo tempo aqui e isso é exatamente o que vai acontecer. Você vai leva-la a esse bendito posto e fazer o que eu disse. Vou tentar distrai-los, porque chamamos a atenção juntos e eu não estou em condições de correr, está doendo... muito. — Confessei sentindo uma pontada de medo em ficar sozinha, mas eu não ia deixar essa garota piorar por minha causa. Já bastava a situação em que ela se encontrava por tentar ajudar a todos nós.
— Merda, Isabella. O que vai acontecer com você? — Ele parecia em agonia por me deixar para trás e eu quase abri um pequeno sorriso.
— Ali — Apontei com o indicador para um terreno baldio entre um modesto primeiro andar e o que parecia ser um pequeno deposito — Se eu ficar nas ruas, eles vão me achar, então eu vou estar ali. Deve ter alguma arvore ou qualquer outra coisa que possa me proteger da chuva até a polícia me encontrar. Você vai manda-los exatamente pra cá, entendido?
— Isso é loucura, Isabella, se eles... — Um gemido fraco de Jane o silenciou — Está bem. Fique segura, pelo amor de Deus, eu prometo que os farei vir direto para cá.
James beijou a minha testa rapidamente e desapareceu pela rua, andando rápido, apesar do peso da garota em seus braços e eu voltei a chorar. Estava assustada feito o inferno e em dúvida sobre ter feito ou não a coisa certa. Eu também precisava de ajuda, mas não conseguiria isso passando por cima de pessoas como eles. Restava torcer para que eu passasse despercebida até que a polícia me localizasse e então estaríamos todos a salvo. Finalmente.
O terreno baldio era bem mais extenso do que parecia de longe e só foi preciso alguns minutos de caminhada para perceber que aquilo era, na verdade, uma mata fechada. Tropecei algumas vezes, porque estava escuro, algumas áreas escorregadias e andei por uns 15 minutos antes de encontrar uma arvore grande que se destacava pelo tronco grosso com uma pequena parte pintada de branco. Branco era uma boa cor para ser vista no escuro, certo? Eles me achariam quando chegasse a hora.
Sentei com dificuldade abaixo da arvore e minhas costas agradeceram quando me encostei. Tive a ideia de rasgar o outro ombro do vestido para usar na perna, mas foram preciso quatro tentativas duras, para que o tecido começasse a ceder. Eu o enrolei ao redor do ferimento, mordendo o lábio absurdamente forte pra não gritar, para evitar que sangrasse mais enquanto eu esperava.
A intensidade da chuva começou a diminuir até não ser nada além de uma fina garoa e as folhas extensas da arvore fizeram um bom trabalho em me proteger, mas então o frio veio com tudo. O meu corpo todo começou a estremecer sem parar e era inútil abraçar a mim mesma. Fechei os olhos e voltei a rezar para que aquilo tudo passasse rápido. Eu precisava de um sinal de que que tinha feito a escolha certa em ficar para trás.
Precisávamos ficar bem. Todos nós.
O frio intensificou o meu cansaço e em determinado momento, percebi que estava ficando inconsciente e voltando diversas vezes, sem que pudesse controlar. Toquei o meu próprio rosto e constatei uma febre. Abracei a minha barriga e fiquei aliviada por lembrar de quando verifiquei a minha cartela de anticoncepcionais três dias atrás. A ideia de carregar outro filho de Edward me deixava extasiada, mas não acho que outro bebê teria resistido a tudo isso e esse era um sofrimento que eu jamais queria experimentar.
O próximo Cullen viria em um momento melhor.
Alguns meses após o casamento, talvez um ano.
Fazendo planos, para me distrair, adormeci mais uma vez e acordei assustada com barulhos de passos e corridas. De repente, estava de pé e tão colada ao tronco da arvore como se fizesse parte da mesma. Eram eles? Os homens de Caius? Por favor, não. Por favor, por favor.
Voltei a tremer descontroladamente e deixando o medo tomar conta, corri pateticamente na direção oposta aos passos, mas não parecia estar tendo sucesso, porque além de arranhar os braços na tentativa de afastar os galhos do meu rosto, podia ouvi-los bem atrás de mim.
— EU ACHEI ELA! Por aqui! — Ouvi alguém gritar e parei no lugar, o meu corpo pendeu para frente com um soluço de desespero. Eu não queria voltar para aquele lugar. Eu não queria morrer...
Gritei desesperadamente quando senti mãos grandes segurarem os meus braços e tentei lutar contra, mas a pessoa era grande. Assustadoramente grande. Ele falou coisas em cima da minha cabeça, mas eu fazia muito barulho me contorcendo para ouvir e só parei quando fui virada de frente para ele, mas me recusei a encara-lo. Por que eu não parava de chorar?
— Ei, calma, sou eu. Abre os olhos para mim — O homem pediu, dessa vez com a voz mais baixa e eu temi obedecer. O que ele queria que eu visse? — Bella, olha pra mim, por favor.
Bella?
— Emmett? — Perguntei em um fio de voz quando encarei aqueles olhos tão familiares. Virei de lado e olhei para um cara igualzinho a Jenks com uma expressão de alivio enquanto se comunicava com alguém através de um rádio. Essa era uma alucinação de verdade? Olhei para o homem na minha frente e ele parecia com o Emmett. Mesma altura, mesmo porte físico, aquele toque cuidadoso... apenas não podia ser. Como diabos...
— Venham logo, caralho! — Ele gritou quando o meu corpo desabou de fraqueza. Seus braços me apararam e foi bom sentir o calor novamente — Aguenta, garota, o Edward está bem ali.
— Ed-Edw... — Eu não conseguia sequer mais pronunciar o seu nome, mas só de saber que havia a chance de ele estar ali, fez um pequeno sorriso brotar em meus lábios — Eu q-quero...
— Shh, eu sei.
— Isabella?! Onde vocês... Bella? Isabella! — Ouvi sua voz e chorei baixinho de alivio — Oh, meu amor... Bella, minha vida, querida... — Ouvi-o mais de perto e no mais breve piscar de olhos, estava em seus braços. Ele segurou o meu corpo, beijou todo o meu rosto de forma desesperada e pelo canto dos olhos, percebi outras pessoas nos rodeando, homens principalmente.
— Me tira daqui. Me... me leva... — Pedi, a minha voz quase inaudível. Inferno, por que falar era tão cansativo? Edward arregalou os olhos verdes repletos de lágrimas e assentiu se colocando em movimento comigo no colo. Uma mulher vestida de roupa escura correu em nossa direção e jogou um cobertor pesado sobre mim. Edward parou por um instante e deixou que ela me embrulhasse inteira antes de voltar a caminhar.
Tinha muita gente falando ao mesmo tempo. Eu conseguia ver as luzes das janelas, flashes de câmeras e latidos de cachorro. Aquilo não fazia sentido na minha cabeça ainda.
Cansada.
Abri os meus olhos e vi o meu noivo sentado ao meu lado, parecendo transtornado falando algo para Emmett que tinha o celular no ouvido e se esforçava para prestar atenção na chamada e no amigo. Olhei em volta e precisei de uns segundos para entender que estava no interior de uma ambulância. A moça de antes estava ali, me olhando com simpatia e o rapaz ao seu lado estava ocupado demais absorvendo uma substância com uma seringa assustadora.
Meu coração doeu e eu gemi quando ouvi Edward chorar e esconder o rosto com as mãos.
Está tudo bem. Você está comigo. Eu vou ficar bem, querido, olhe pra mim.
Ele virou-se pálido na minha direção ao ouvir o meu gemido e roubou uma das minhas mãos para levar aos seus lábios. Ele estava sujo de um pouco lama e havia folhas secas sobre o cabelo molhado, outras grudadas na camisa perto dos ombros. Onde está o seu casaco? Meus lábios tremiam para falar, mas eu só conseguia olha-lo de volta.
— Eu tenho você, baby. Eu tenho você — Murmurou contra os meus dedos e o seu hálito quente na minha pele fez coisas boas comigo. Fez com que eu me sentisse normal novamente — Oh, sinto tanto, amor. Tanto. Mais do que eu posso te dizer. Eu prometo que nunca mais vou deixa-la sozinha — Garantiu e eu captei a culpa no seu tom. Tudo faria bem, se ele estivesse comigo. Sempre seria assim — Se você ainda desejar me ter em sua vida depois de hoje, nunca mais vou deixa-la se machucar por minha causa. Nunca. Juro por Deus.
Você é um garoto bobo, Edward Cullen, mas eu te amo com toda a minha alma, pensei antes de torcer os meus lábios em um fraco sorriso e ceder a inconsciência mais uma vez, sem lutar.
epitheoríste ta roúcha: reviste as roupas
típota den vréthike, kýrie: nada encontrado, senhor
áchristos: inútil
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