Odisséia Grega

29 Capítulo 29


Notas iniciais
O aniversário é meu, mas o presente é de vocês. Boa leitura.

Aquele momento de conforto durou o suficiente para que eu me questionasse sobre como as coisas teriam sido diferentes para todos nós, caso Edward não tivesse ido embora. Se eu tivesse lhe dado uma oportunidade melhor para explicar a confusão em que nos meteu. Caso os motivos que o levou a mentir para mim fossem no mínimo razoáveis, talvez eu tivesse perdoado em algum momento. Se ele prometesse nunca mais fazer algo do tipo, obviamente.

Talvez até a descoberta da gravidez teria sido diferente. Porque sim, ele me enfiaria em um carro e me levaria ao hospital no momento em que percebesse que os sintomas não cessaram. Edward era esse tipo de cara. Talvez eu lhe preparasse um jantar romântico no dia seguinte. Faria sua comida favorita e depois contaria sobre o bebê. Nos beijaríamos, talvez choraríamos enquanto ele acariciava a minha barriga e então faríamos amor lentamente, trocando juras e declarações.

Eram muitos talvez, mas eu adoraria ter tido algo como isso.

— Isabella?

— Sim?

— Estou te chamando há um tempo.

— Desculpa, eu estava meio longe. Já está tudo bem... a gente pode... se soltar. — Falei meio constrangida por estar agarrada a sua camisa daquele jeito, então colocamos uma distância segura entre os corpos, mesmo que o meu reclamasse disso o tempo todo.

Balancei discretamente a minha cabeça para os lados, afinal de contas, eu precisava manter a minha postura. Ele nunca esteve casado, mas as coisas também não eram tão simples. Tinha muito a ser esclarecido ainda e eu também não sabia se ele tinha qualquer interesse em mim.

— Eu sinto muito por ter ficado até tão tarde, Bella. Realmente não olhei as horas antes de decidir vir. Amanhã você tem trabalho cedo e... — Ele parou de se desculpar quando eu sorri. Edward ficava malditamente fofo quando estava nervoso com algo — Eu gostaria de ver o Heitor antes de ir. Tem problema? — Perguntou meio hesitante, quase tímido. Arregalei os olhos de surpresa e imediatamente lhe puxei pela mão.

— É claro que não. Vem, vou te mostrar o quarto dele.

Edward na minha casa. No quarto do meu filho! Quando no mundo pensei que isso aconteceria?

Logo estávamos entrando no cômodo pouco iluminado. Apenas a luz fraca do abajur estava acesa, mas dava perfeitamente para ver tudo. O guiei até o berço, onde Heitor ressonava baixinho, dormindo de lado com o braço em volta de um cachorro de pelúcia quase do seu tamanho. Presente do Jake no natal passado.

Edward não conseguiu se conter e tocou a pele macia do seu bracinho.

Foi lindo ver Heitor ao sentir o contato do pai, virar-se para nós, nos mostrando seu rosto tão semelhante ao dele, tranquilo ao dormir. Eu não pude desviar os olhos da mão de Edward por um longo tempo. Não havia mesmo qualquer marca em seu dedo anelar. Por que Tanya ainda procurava por ele, afinal? Ela bem parecia fazer o tipo de mulher que não se conformava em perder. Minha nossa, Elizabeth deve ter ficado furiosa quando o casamento foi cancelado!

Eu gostaria de ter visto isso.

— Eu trouxe algo — Pisquei surpresa ao ouvir a voz de Edward tão baixa, porém próxima. Procurei seu rosto e ele estava concentrado em tirar algo do bolso da calça. Então um saquinho azul marinho parecendo de veludo surgiu — É um presente para ele. Você estaria de acordo que ele usasse? — Perguntou enquanto abria e de dentro, retirou uma delicada pulseira prateada.

— Ela é muito bonita — Respondi tocando a peça. Passei meus dedos com cuidado pela corrente e eu tive quase certeza de que aquilo era platina. No centro, havia uma delicada placa com o nome Heitor escrito, no meio uma coroa e então o sobrenome Cullen — Ele ainda não tinha nenhuma. Aposto que vai adorar. Vou coloca-la amanhã, tudo bem?

Minha voz estava meio grossa pela vontade de chorar. Era apenas outra prova que Edward aceitava o nosso filho em sua família tão bem quanto Emmett fez parecer que ele o faria. Era um gesto realmente muito amável e de quem se importa.

Antes de sairmos, ele abaixou-se e beijou testa do nosso menino demoradamente. Edward estava sorrindo enquanto passava o nariz pelos fios de cabelo cobre bem demoradamente e cheirava-os.

— O papai ama muito você. — Ele sussurrou e eu prendi um soluço. Era uma cena simplesmente adorável que derreteu o meu coração a ponto de não sobrar quase nada.

Deus, eu precisava me recompor e ele precisava ir embora o quanto antes.

A despedida em si foi desconcertante. Não sabíamos se beijávamos o rosto, abraçávamos ou se um aperto de mão bastava, então optamos por acenos educados e ele combinou de me ligar no dia seguinte quando fosse conveniente. Me encostei na porta no segundo em que a fechei e suspirei satisfeita.

Não era assim que eu estava que encerrássemos a noite quando ele entrou no apartamento. Estava certa de que ele brigaria e exigiria seus direitos sobre o Heitor, se vangloriando sobre os inúmeros advogados caros que poderia pagar para fazer com que eu me arrependesse de cada dia em que ele ficou longe da criança, mas muito pelo o contrário. Ele veio pra me ouvir! Eu justifiquei as minhas ações e aquele peso tinha finalmente saído das minhas costas. Edward optando por não me odiar por tudo foi um tremendo bônus. Agora precisávamos de um tempo para ver as possibilidades, testa-las e entrar em um acordo sobre o que funcionaria para todos nós.

A manhã de segunda-feira foi um verdadeiro desastre. Tivemos um acidente com um dos caminhões que levava alguns dos materiais necessários para a mansão da Sra. Johnson, uma das sobrinhas do prefeito de Chicago. Ela havia ficado viúva há cerca de três meses e decidiu gastar toda a sua herança em coisas que quis possuir, mas o marido não permitia. Não houve feridos, no entanto. Apenas danos no veículo e com o carregamento, o que era de menos, mas seria um dia de trabalho atrasado. Do outro lado da cidade, algo semelhante aconteceu também e eu encarei aquilo como um mau sinal. Talvez eu devesse ter simplesmente ficado em casa.

O meu medo era que as coisas ficassem ainda piores quando eu me encontrasse com a Esme. Era provável que ela já soubesse da coisa toda e estivesse furiosa comigo ou apenas decepcionada. De alguma forma, a segunda opção conseguia ser pior que a primeira. Nesse pouco tempo de convivência, eu já a adorava tanto! Me partia o coração imaginar que ela estava pensando coisas ruins sobre mim. Não queria que ela se sentisse enganada pelo o que fiz.

— Esme, posso falar com você um minuto? — Perguntei mordendo o lábio. Ela estava em seu notebook parecendo concentrada, mas eu não podia mais esperar.

— Claro, querida. Vamos até a cozinha por um momento.

Quando ela chegou, seu comportamento não havia mudado em nada. Estava alegre e gentil como sempre e com todo mundo, incluindo a mim, mas eu apenas não conseguia manter aquilo entalado em minha garganta por mais tempo. Eu precisava lhe dar algumas explicações e torcer para que ela me perdoasse.

— Eu não sei sobre como começar, mas eu gostaria de pedir desculpas por entrar na sua casa de maneira sorrateira justo no aniversário do seu marido. A ideia foi de Emmett, mas ninguém me forçou a ir. Por favor, deixe-me terminar — Pedi quando a vi abrir a boca para falar e então ela sorriu concordando — Você já deve saber que eu sou a culpada pelo transtorno do Edward no sábado. Eu sinto tanto por não ter contado que nós já nos conhecíamos e tínhamos um passado! Passei dias chateada com a minha amiga por ter me escondido que Emm estava de volta à cidade, mas estive fazendo o mesmo com você e eu sinto muito, Esme, apenas foi assustador demais.

— Eu posso entender. Pelo o que me foi dito, fomos apresentadas e no mesmo dia, vocês dois se encontraram no apartamento dessa moça, não foi isso?

— Exatamente — Suspirei — Eu tive medo. Estive presa por tempo demais nessa zona de conforto onde não há surpresas e imprevistos. É tudo planejado e seguro, entende? Então de repente, todos vocês estavam aqui — Foi o inferno de uma surpresa. Pigarreei e segui — O que o Edward te contou?

— Que eu sou avó a mais tempo do que eu imaginava — Respondeu em meio a uma risada e eu sorri por perceber que ela estava feliz com o fato — Eu pensei que ele estivesse bêbado ou com doente, mas quando vi o seu estado... não pude duvidar e então eu lembrei do seu garoto lá fora e tudo se encaixou. Não me restava dúvidas de que você era a Isabella dele. Tinha que ser.

— Sou quem?

— Aqui está a coisa, querida, eu já sabia sobre vocês desde que ele estava por algumas semanas em Atlanta. Eu não posso, é claro, justificar o comportamento do meu filho lá. Sempre tentei abrir seus olhos e fazê-lo entender que ser honesto com você era a chave para tudo, mas sua teimosia vem de Carlisle — Afirmou revirando os olhos claros e eu estava momentaneamente incapaz de falar ao entender que ela sabia sobre mim o tempo todo — Mas eu posso afirmar que o modo como ele agiu não foi para machuca-la. Usa-la e depois ir embora. Eu não criei aquele garoto para isso! Edward estava sendo muito pressionado por Carlisle e Elizabeth. Sem contar Tanya. Ele estava buscando um meio de livrar das duas, cuidar de mim, da empresa e ainda dar conta do relacionamento de vocês. Era muita coisa sobre os seus ombros.

— Mas Esme! Você precisava ter acabado com aquilo, porque a Tanya...

— Não gaste o seu tempo se preocupando com essa mulher, Isabella. Vá por mim, ela não merece estar em seus pensamentos.

Wow. Então... tudo bem.

— Certo — Limpei a garganta meio sem graça com o jeito ríspido em que ela falou — O seu marido era a favor do compromisso deles, então?

— Claro que sim. Era a única coisa em que Carlisle e Elizabeth concordavam, mas não se preocupe com isso, ele não pensa mais dessa forma há um bom tempo. Desde que Edward retornou à Grécia e conversou com ele sobre como se sentia por você, Carl desistiu daquela história ridícula e o incentivou a voltar para tentar esclarecer as coisas e pega-la de volta, mas houveram imprevistos... Ah, querida! O seu êxtase em ter um neto homem foi tão grande que ele não deu a mínima atenção para todo esse drama que estamos criando.

Esme riu e eu quis beija-la. Sua energia era incrível. Ela podia falar de assuntos sérios, tristes ou trágicos e simplesmente confortar com um sorriso. Pela primeira vez não estava chateada por alguém saber do que estava se passando com nós dois enquanto eu era “enganada”. Aquilo parecia tão distante agora. E ela foi a única que me fez ter vontade de ver as coisas na perspectiva dele. Se Edward contou a mãe sobre mim antes e abriu-se com o pai, para livrar-se daquele compromisso, ele não poderia estar apenas se divertindo comigo. Com certeza não.

Três funcionárias risonhas entraram na cozinha, interrompendo o nosso momento. Fiquei aborrecida por querer continuar questionando-a sobre as coisas e não poder, mas estávamos em um local nada apropriado para aquilo. Acho que era o suficiente por hora.

— Eu sei que é muito para administrar. Você sempre teve esse lindo garotinho só para você durante esse tempo e de repente estamos todos envolta, mas não se assuste. Não somos os vilões aqui, Isabella. Queremos o bem de vocês dois. Três, porque Edward está tendo um tempo difícil para se adaptar também. Apenas nos dê uma chance.

Ela sorriu daquele jeito de mãe outra vez e me desarmou. Como eu posso negar algo a essa mulher? Esme me puxou para um abraço e eu senti meus olhos pinicarem. Eu queria chorar porque ela era incrível e eu já a amava. Esse era o efeito dos Cullen em sua vida.

Chegavam, se instalavam e te marcavam de forma rápida e eficiente.

De tarde, Rosalie me liga para contar que sairia em um encontro com Emmett depois do expediente e me pede um vestido emprestado, que dificilmente caberia. Não que eu seja magrela, muito pelo contrário. A gravidez me ajudou a ganhar certas curvas e a academia apesar de frequentada por um pequeno período, me modelou bem, mas Rose tinha um corpo bem mais cheio que o meu, tanto em quadril como em busto, mas lhe dei carta branca quando vi sua animação. Aqueles dois só ficariam mais sérios e não ia demorar nada.

Tive um momento difícil em ignorar os flertes que um colega de trabalho, Joe, me mandava sempre que tinha chance. Tínhamos outras sete pessoas em volta, mas isso não parecia um empecilho para que ele se vangloriasse sobre certas habilidades ao conversar com outro cara, alto o suficiente para que eu pudesse ouvir. Ele achava que isso era sexy de alguma forma? Francamente! A empresa era tolerante sobre relacionamentos entre seus funcionários, mas eu continuava não gostando de misturar as duas situações.

A não ser que eu encontrasse o amor da minha vida no local de trabalho. Mas eu estava certa sobre duas coisas: a vaga já havia sido preenchida e mesmo que não, Joe não seria esse cara.

Edward me ligou quando eu estava preparando a comida do Heitor. Nós conversamos por pouco tempo, ele parecia tão esgotado. Disse que adoraria passar aqui de novo e pegar o nosso filho acordado – nosso filho, era tão legal dizer isso – mas estava com enxaqueca e eu entendia perfeitamente, porque além de ter sido privado do seu sono, houve o stress da segunda-feira.

Ainda durante a ligação, eu o coloquei no viva-voz e lhe pedi que trocasse algumas palavras com Heitor. Foi muito divertido. Edward perguntava coisas, se apresentava e o garoto parecia realmente entender, porque enquanto batia seus brinquedos um no outro, balbuciava sem parar naquela língua de bebês com alguns acréscimos. Quase todas as palavras novas que ele aprendera nos últimos tempos foram despejadas em cima do pai, mesmo que não tivessem lógica no momento.

Eu podia imaginar a cara de bobão do Edward.

Desligamos ambos satisfeitos por não termos discordado nos assuntos discutidos e muito menos termos encontrado motivos para xingarmos um ao outro. Combinamos um encontro a três no Píer Naval para quinta após o meu expediente. Daríamos um passeio e então jantaríamos onde ele achasse apropriado.

Meu bebê e eu fomos para minha cama mais tarde da noite. Respondi alguns e-mails e mensagens de texto atrasadas, liguei a TV do quarto e acabei pegando no sono sentindo Heitor segurar meu nariz, mexer no meu cabelo... era tão gostosinho. Não demorou muito tempo e ele estava dormindo também.

O cheiro de temperos era ligeiramente forte nesta seção, porém delicioso e quanto mais eu avançava, mais conseguia identificar diferentes tipos. Parei em frente a prateleira onde as maioneses e ketchups estavam organizadas em potes bonitos e sachês. Verifiquei a edição limitada da HELLMANN'S e após alguns minutos, optei por duas tradicionais e outra de cebola dourada, riscando da lista em seguida.

— Tudo bem, Bree, agora não falta quase nada. Você pode pegar as carnes? Estão separadas e eu as deixei para pesar. A fila estava enorme, mas acho que já devem estar prontas. Eu te espero aqui.

— Claro, volto dentro de um minuto. — Concordou ao girar os calcanhares e seguiu pelo corredor, fazendo um barulho irritante com os seus tênis novos no piso.

Heitor e nós duas estávamos no supermercado fazendo as compras do mês. O carrinho já estava cheio e o papel da lista quase todo rabiscado. Ele esteve animado desde que o pusemos no carrinho, porque simplesmente adorava ser levado de um lado para outro naquilo e as cores dos produtos o deixavam excitado demais. Essa era uma de suas atividades favoritas, o que me leva a pensar que talvez o amor pela culinária esteja mesmo no sangue dos Swan.

Suas mãozinhas tentavam alcançar tudo que era bonito para ele, tive até que devolver certas coisas para as prateleiras porque não me dei conta que ele estava jogando tudo que alcançava dentro do carrinho. Já estava muito familiarizado com o protocolo.

— Gosta de comida italiana, Isabella? — Ouvi uma voz próxima demais de mim e pulei, derrubando os pacotes de azeitona que tinha em mãos. Ainda bem que não estavam no vidro — Ora, desculpe! Não queria assusta-la. Está com tudo aqui para um belo Espaguete a Siracusa, hein? Meu prato favorito. Vai fazer um almoço especial? — Thomas riu olhando os itens em evidencia carrinho.

Que infeliz coincidência.

Thomas era um pediatra de 37 anos que cuidou do meu filho duas vezes quando necessário, recomendado por uma de minhas vizinhas, uma senhora que costumava levar a sua neta até ele. Eu me arrependia de ter dado ouvidos a ela, uma vez que o homem me secava descaradamente desde o primeiro minuto dentro do consultório até o momento em que eu saia. Era constrangedor e esquisito pra caramba.

— Dr. Wright! — Pigarreei — Tudo bem, estava distraída finalizando a minha lista. Como vai? — Pus um sorriso falso e agi da forma mais educada possível, quando desejava me livrar dele o quanto antes. Esse homem me causava arrepios e eu nunca voltei após a segunda consulta.

Mas poderia ter sido pior, certo? Se ele fosse ginecologista nós teríamos um grande problema.

Estremeci com a ideia.

— É Thomas para você, Isabella. Estou ótimo, principalmente por revê-la. Será que podemos finalmente marcar aquele jantar? — Perguntou arqueando a sobrancelha e eu engoli seco.

Sim, ele ainda era duro na queda e muito cara de pau. Não me vê há meses e em menos de cinco minutos já está me chamando para sair outra vez? Eu quase me sinto segura para apostar que era assim com todas.

Veja, Thomas não era de todo ruim. O seu cabelo preto estava sempre cortado com perfeição, mas eu preferia fios mais claros. A pele era branca, porém não alva o suficiente e os olhos castanhos não tinham aquele brilho que fazia com que eu me perdesse neles. Além de sua idade que apesar de não ser um grande incomodo, também não me atraia.

— Desculpe, mas não vai acontecer. Eu não estou em busca de quaisquer aventuras no momento. Estou muito envolvida com o trabalho e com a minha família. — Justifiquei e olhei para o meu filho que se deliciava com um cookie de chocolate.

— Ah, claro. Olha ele aí! Tudo certo, colega? — Ele cumprimentou Heitor que não lhe deu a menor atenção. Foi quase engraçado o seu constrangimento. Suspirei ao perceber que ele iria insistir outra vez e jogar seu discurso barato sobre mim, tendo inclusive a ousadia de segurar uma mecha do meu cabelo e quando estava prestes a repreende-lo, outra voz se fez presente naquele corredor.

— Será que está tudo bem aqui, Isabella? — Me arrepiei com a voz fria e dura de Edward bem ao meu lado. Cacete, ele não podia chegar em uma hora mais oportuna? Eu não sabia se ficava aliviada ou temerosa por tê-lo ali presenciando aquilo.

— Sim, tudo. Deixe-me apresenta-los — Disse sob o olhar de gelo — Este é...

— Ei, filhão! Pronto para passar o dia só com o papai? — Edward me interrompeu, ignorando completamente o que eu dizia e deixando claro que era pai do meu filho.

Notei que Thomas moveu-se desconfortável e assentiu parecendo desconcertado com a situação. Eu passei tempo demais lidando com artimanhas de Eric para saber que o Cullen estava marcando o seu território e a situação só favorecia para que qualquer um por perto pensasse que estávamos juntos fazendo um programa de família.

— Eu preciso ir, Isabella. Mas pense a respeito. Quem sabe em uma próxima possa funcionar? — Deu um sorriso contido e saiu nos deixando a sós, mas não sem antes encarar Edward e ser encarado de volta. Bufei para mim mesma. Eu quase esperei que os dois tirassem os paus das calças e disputassem sobre qual era o maior. Homens eram tão, argh!

— Posso saber o que pode funcionar entre vocês dois?

— Não seja inconveniente, Edward. Não é educado perguntar essas coisas. — Repreendi e abaixei para apanhar os pacotes que tinha deixado cair, mas podia jurar que ele estava checando a minha bunda enquanto isso.

Sorte minha que aquele jeans a deixava malditamente boa.

— Por que você não quer me contar? Se não fosse importante, não teria que esconder. Você sabe que eu não gosto quando caras aleatórios se aproximam e então....

— Jesus, cara! Era só um jantar. O que você esperava? Algo sujo e depravado? — Respondi revirando os olhos para ele e notei o seu maxilar endurecer. Ele estava tão protetor nos últimos tempos. Já esperava que ele se preocupasse com a nossa segurança após saber sobre Diego, mas às vezes seu exagero podia ser muito irritante.

Nós não voltamos a esse assunto e eu deixei que ele ficasse mal-humorado por um tempo. Suas palavras doces e sorrisos eram direcionados apenas para Heitor, até Bree – que ele adorou logo de cara –, mal foi cumprimentada ao retornar. Quando ele ficou tão controlador? Tudo tinha que ser do jeito dele. Até parece.

Eu estava longe de manter-me enrolada em seu dedo mindinho.

Na hora de passar tudo no caixa, eu tive que segurar o riso diversas vezes. Era simplesmente hilário o quão constrangida Bree ficava perto dele. Acho que ela não se acostumaria tão cedo com a beleza do homem. Quem diabos podia julgá-la? Não havia uma só mulher naquele supermercado que não tenha dado uma segunda olhada para o belo exemplar de grego ali.

E eu as entendia perfeitamente. Já estive na mesma posição.

Almoçamos os quatro na rua em um clima até descontraído. Nós duas conversamos bastante e eu mostrei para ela no celular toda orgulhosa algumas das fotos da finalização de um SPA que a minha equipe esteve responsável, antes mesmo de pegar o projeto de Esme. Bree ficou maravilhada e disse que se não fosse apaixonada por pedagogia, tentaria arquitetura.

— Eu acho que estamos prontos. Vamos ter um monte de diversão com o apartamento da mamãe só pra gente, certo, Heitor? — Edward perguntou ao garoto que bateu palmas e sacudiu as pernas tão empolgado quanto ele – Isso aí, lindo do papai. – O babão enfiou o rosto no vão do pescoço dele e assoprou, fazendo um barulho constrangedor, mas que lhe causou muitas cócegas.

Dei instruções severas para Bree que não deixasse Edward sair sozinho com Heitor para lugar algum e também não permitisse que estranhos entrassem em casa, mesmo que fossem conhecidos dele. Eu confiava no Cullen, pois sabia que ele nunca deixa a desejar com segurança do nosso menino, mas essa era a primeira vez dos dois tendo um momento a sós de pai e filho em semanas. Eu não queria estragar isso, mas não poderia deixar de ser superprotetora. Seria assim e ponto.

— Obrigada por isso, Bella. — Edward agradeceu me olhando daquele jeito amável e eu sorri para disfarçar as bochechas coradas. Aquele era um grande passo para mim e ele sabia disso.

Poucos dias após o nosso primeiro encontro à três, que foi divertido e muito doce, ele levou os pais para conhecer oficialmente o nosso filho. Não foi surpresa para ninguém quando o casal virou massa de modelar nas mãos de Heitor e quiseram sempre mais.

Tão mais que eu comecei a sentir ciúmes.

Admito que não tinha fundamento, mas era estranho tê-los em cima de nós e então ter que dividir o meu tempo e espaço com o Heitor. Foi um período de adaptação difícil, mas quando Edward entendeu que aquele era o motivo de eu estar ranzinza, controlou-se e a eles também.

E foi quando eu comecei a discutir sobre ele estar sendo compreensível demais. Edward ficou realmente confuso comigo estando aborrecida por tê-lo sempre por perto em um dia e no outro, falando sobre como ele já tinha sido privado de tempo demais com o Heitor e que não deveria me dar ouvidos sempre.

Tudo era motivo pra discussões bobas e nós estávamos sobre uma grande tensão sexual, de acordo com Rose. Ela já presenciou uma dessas situações e disse com todas as elas letras que não se surpreenderia se mais cedo ou mais tarde pulássemos em cima um do outro.

No sentido pervertido da coisa.

O meu lado paranoico impediu-me de ser produtiva durante a tarde. Ligações foram feitas e mensagens de texto foram trocadas até que me dei por satisfeita. Quase derreti na cadeira quando Bree me enviou uma foto de Edward no chão do quarto de Heitor, com o filho entre as pernas montando um enorme castelo de lego e um sorriso maior ainda no rosto. Me permiti imaginar o quão bom seria chegar em casa todos os dias e me deparar com uma imagem daquela. A ideia começou a parecer atraente. Muito atraente.

Quando voltei para o apartamento, ele já tinha saído há algum tempo. O bebê estava dormindo e Bree veio me ajudar a preparar as comidas. Hoje eu precisaria de reforços, uma vez que todos eles estariam aqui para jantar. Eu sempre ficava nervosa na presença de Carlisle. Ele foi um amor ao nos enviar uma cesta com doces dos mais gostosos aos mais caros no domingo de páscoa, mas ainda o achava meio intimidador. Tinha impressão que ele estava constantemente me avaliando e comparando-me com a outra.

Já receber Esme era sempre uma maravilha. Sentia como se minha própria mãe estivesse por perto, se preocupando e cuidando da gente. Não me surpreendi com Heitor amando-a tão rápido quanto ela o amou, mas quase caí para trás quando me revelou que de fato ela era parente do meu filho.

Quem no mundo imaginaria que Esme era meia irmã de Elizabeth?

Eu tive que fazê-la repetir isso algumas vezes até cair a ficha de que não era piada. Os Cullen não eram para brincadeira! Esme é fruto de um romance fora do casamento do pai da Cascavel-E, mas todos só souberam da sua existência quando ela já estava na faculdade.

— É daí que vem a minha semelhança com o Edward. Foi um escândalo na época em que Carlisle me pediu em casamento. Elizabeth tentou literalmente pôr as mãos em volta do meu pescoço, mas não porque se importava com ele ou com o filho, apenas por ser uma vadia mimada.

Eu podia facilmente imaginar isso.

Ela questionou-me sobre como nós estávamos. Se já tínhamos esclarecido mais alguma coisa e eu suspirei me lembrando última quinta-feira chuvosa. Edward apareceu na minha porta após o seu expediente, meio molhado e carregando sacolas com comida pronta. O cheiro de sopa atingiu o meu nariz e mais do que feliz, o convidei para entrar.

Pus tudo para esquentar enquanto ele fazia o seu caminho para dar banho no Heitor. Ouvi Edward reclamando um monte, minutos após chegar no quarto e não consegui me conter, comecei a rir imaginando a surpresinha que o bebê tinha deixado na fralda apenas para o papai. Adorável.

Depois de cheiroso e alimentado, o coloquei no tapete da sala para assistir desenho. Servi a sopa em dois pratos fundos, peguei colheres, um prato com algumas torradas crocantes e voltei para a sala. Nós sentamos também no tapete e comemos conversando sobre uma consulta medica onde ele precisou levar a Alice e a filha mais cedo, uma vez que Jasper tinha feito uma curta viagem de dois dias. Ele falava sobre a criança quase tão apaixonado quanto o fazia com Heitor. Ele definitivamente era apaixonado por bebês.

— Você acha que Heitor ficará empolgado com ela?

— Empolgado é pouco. Ele adora crianças — Respondi colocando o prato vazio em cima da mesinha de centro — Isso de namorar primos ainda é considerado incesto? – Perguntei rindo e esperando que ele entendesse a piada.

— Você está mesmo falando sério? — Edward franziu a testa após colocar a chupeta na boca do filho e quem ficou confusa fui eu.

— Do que você... oh! — Entendi. Que estupidez a minha. Ele esteve prestes a casar com a Tanya e eu pergunto uma besteira dessa? — Não há problema em se relacionar com primas, desde que elas sejam absurdamente bonitas.

— Certo — Ele respirou fundo com o tom que eu usei, parecendo irritado, mas eu não me arrependi nem por um segundo — Nós já adiamos essa conversa por tempo demais, agora chega. Me ouça, está bem? — Edward aproximou-se mais um pouco e segurou o meu rosto trancando os seus olhos nos meus, mais determinado do que nunca — Bella, o motivo de eu ir embora do país nunca foi a Tanya ou o meu estúpido casamento. Eu havia terminado com ela meses antes de vir para os Estados Unidos, mas ela nunca me deixou em paz e nós reatamos uma semana antes de eu te conhecer. Ela estava perfeitamente bem com o meu estilo de vida aqui, desde que eu a assumisse publicamente em algum momento — Isso me chocou totalmente. Então ela aceitava ser traída desde que ele casasse com ela no final das contas? Que diabos ela tinha na cabeça? — Não gostávamos um do outro dessa forma que você está pensando. Ao menos eu não. Era um compromisso arranjado. Um acordo entre Elizabeth, Carlisle e o pai dela desde que eu ainda estava na barriga de Elizabeth.

— Isso é tão arcaico! — Franzi com a imagem em minha cabeça. As pessoas não podiam fazer mais essas coisas. Era ridículo traçar o destino de alguém assim — Por que o seu pai concordou com isso?

— É complicado, ridículo e muito confuso — Fez uma careta antes de explicar — A verdade é que estamos todos amarrados pelo sangue. Elizabeth é irmã de Eleazar, que vem a ser o pai de Tanya. A garota tinha dois meses ou algo do tipo quando ela se descobriu gravida e achou conveniente unir as famílias ainda mais. Meu pai não achou errado na época, estava acostumado com esses tipos de acordos. Ele mesmo já teve um. — Que obviamente não deu certo. Interessante.

— Então Elizabeth é tia da sua noiva? Caramba. Alice não estava brincando — Ele assentiu mesmo sem entender o que eu quis dizer. Então estava mais do que explicado a urgência da cascavel em casa-lo com a loira. Me destratou daquela forma porque sentiu-se ameaçada por mim — Você afirma que o seu casamento não tem nada a ver com a volta para Grécia, então, foi por causa da criança? Por isso ela ainda te procura...

— Não há uma criança — Respondeu com uma voz mais dura e sua expressão era igual. Ele parecia com raiva e foi a minha vez de fazer careta. Elizabeth foi clara quanto ao neto — Tanya mentiu para me manter no país, ela esteve gravida antes, mas perdeu o bebê e eu pensei que pudesse estar novamente quando recebi a ligação.

— Esteve? Oh. Então você tinha... relações com ela. — Constatei meio enciumada. Caramba, ela era muito bonita. E depois dela, ele teve a mim. Logo a mim! Mas eu sabia que tinha algo de podre nessa mulher. Que tipo de obcecada faz essas coisas? Brinca com os sentimentos de alguém assim?

— Depois eu te explico com mais detalhes essa história — Suspirou e guardou o seu prato ao lado do meu — Sim. Não era algo frequente, porém. Éramos jovens e apenas nos divertíamos quando era conveniente ou na falta de parceiros. Ela também era livre para ficar com quem quisesse, eu não me importava — Riu e deu de ombros — Alguns dias após deixar aquelas mensagens no seu celular, eu recebi inúmeras ligações dos meus funcionários me avisando sobre uma invasão à nossa rede. Sofremos um ataque cibernético ou alguma merda assim. Eles tomaram controle das câmeras de segurança, dos elevadores, telefones, mantiveram as pessoas presas em suas salas. Tudo estava um caos — Edward relatou aborrecido como se revivesse o momento. Mas não era pra menos! Quem faria algo assim? — Carlisle segurou as pontas para mim enquanto eu arranjava um avião de última hora. Tive que enfrentar uma verdadeira loucura quando pisei em Atenas, obviamente a polícia foi envolvida para tentar rastrear os criminosos e a quantia absurda de dinheiro que conseguiram transferir em uma única hora. Eu tive um prejuízo gigantesco com aqueles filhos da puta, Bella.

— Eu sinto muito, Edward. Seus funcionários ficaram bem ou alguém se machucou? — Questionei preocupada. Mordi o interior da boca, irritada por Adrien não ter me dito nada quando fui procurar por ele. Isso era comum? Eu não entendia nada sobre esse assunto. As pessoas podiam atacar empresas privadas e coisas assim? — De quanto estamos falando mais ou menos?

— Algumas centenas de milhões — Respondeu trincando os dentes. Cacete. Eu não acho que ele tenha conseguido recuperar o dinheiro por sua reação — Ficou todo mundo bem, sim.

— Nossa, isso é... enorme — Pigarreei tentando clarear a minha mente. O quão rico ele era para não ter quebrado após esse roubo? Puta merda. — Então foi por isso que permaneceu na Grécia.

— De início, sim, mas logo veio...

Edward interrompeu a sua frase de repente e ficou calado, olhando para o nada. Então o cheiro desagradável me atingiu. Meu nariz encolheu no mesmo instante e senti que estava ficando cada vez mais vermelha de vergonha. Ele abaixou a cabeça praguejando baixo e então virou para trás, onde Heitor estava nos olhando de volta, com cara de culpado, mas um sorriso travesso nos lábios.

— De novo, garoto? — Edward se queixou gemendo e eu caí na risada — Vamos lá, então. Eu vou te limpar e explicar pela última vez que não se faz o número 2 na frente das damas.

Heitor riu jogando sua cabeça para trás, o pai o pegou com cuidado para não espreme-lo e nada sair de dentro daquela fralda. Seria um desastre total. Ele ameaçou-me enquanto me via achar graça da situação, mas não demorou a sumir das minhas vistas e eu suspirei me sentindo mais leve. Até que não foi tão ruim. Estava feliz que ele tenha se aberto fácil comigo e ainda de ter a confirmação que ele não me deixou por outra. Por mais bonita que ela seja.

— Não voltamos a tocar no assunto. Estivemos muito ocupados com os nossos trabalhos, Esme. Pode até ser que ele esteja satisfeito com o que temos no momento...

— Como isso é possível se o que ele mais deseja é você? — Perguntou olhando-me incrédula e o meu estômago esfriou de nervoso — É sério, Bella. Isso tem que parar! Edward se afunda nos negócios evitando um contato mais íntimo com medo de outra rejeição e você aceita essas desculpas ridículas por estar assustada em tentar de novo. A vida está passando. Os últimos anos não foram o suficiente para vocês ficarem solitários e miseráveis? Vocês crianças de hoje em dia complicam tudo! — Bufou.

Essa mulher sabia como usar as palavras e Edward tendo ela a seu favor, me desarmando constantemente era um verdadeiro perigo.

— Ele tem sido bom para vocês dois?

— Edward é incrível, Esme. Nós fomos visitar o seu apartamento uma vez e eu vi a quantidade louca de livros e revistas sobre bebês e gravidez que ele comprou para entender o que passei e como lidar com cada fase do nosso filho. Se Heitor tem uma febre, uma dor de cabeça ou ao menos espirra, ele está do lado pronto para socorre-lo a qualquer instante. Sua proteção conosco é tocante. Ele mandou o meu carro para a revisão ao menos duas vezes no último mês para ter certeza que estaríamos seguros e vem todos os dias nos ver, às vezes trazendo presentes ou apenas o seu sorriso cansado. Eu preciso admitir, eu não esperava por tanto empenho e amor da parte dele.

— Eu sei o quanto ele pode ser obcecado e grudento, Bella — Começou rindo, mas então me deu um sorriso gentil — Mas acho que o meu filho está tentando recuperar o tempo perdido. Oh, não faça essa carinha... eu não digo isso para magoa-la, mas temos que ser honestas uma com a outra, certo? Edward sempre colocará o relacionamento com o Heitor em primeiro lugar.

Ela estava certa. E isso só fazia o meu coração inchar mais de amor. Pelos os dois. Como se não bastasse estar se saindo um pai melhor do que encomenda, Edward tem sido um bom amigo. Quando não estamos de cara feia, comemos algo que eu preparo e conversamos sobre o trabalho um do outro e frequentemente sobe a minha gravidez. Sempre havia algo para contar e por menor que fosse, o satisfazia muito.

Eram nessas horas que eu me sentia terrível por ter feito o que fiz. Eu via em seus olhos a tristeza de só ser capaz de imaginar cada coisa e como se lesse minha mente, ele mudava de assunto e me fazia rir. Como se eu merecesse ser distraída. Edward nunca avança o sinal também. Já trocamos alguns abraços deliciosos e eu ganhei alguns beijos na testa, bochecha e pescoço, mas ele nunca foi menos que um cavalheiro.

Em programas de “família” onde os três saiamos para passear, ele me tratava como se eu fosse quebrável. Estava sempre atento aos carros, se o chão estava escorregadio ou apenas verificava meia dúzia de vezes se eu estava bem aquecida ou precisava de alimento. O seu jeito amável comigo triplicava quando ele retornava de alguma viagem.

Fazia parecer que ele sentia falta de cuidar de mim, mas talvez fosse apenas o meu coração estúpido e esperançoso vendo sinais onde não tinha. Eu era mãe do filho dele, nós estávamos nos dando muito bem, então era mais do que normal ele se preocupar comigo. Certo? Esperançosamente, errado. Esme deveria estar certa. Tinha que haver algo mais ali pra ele.

Assim como tinha pra mim.

Sorri ao lembrar que vez ou outra, em nossas conversas descontraídas, acabávamos sem querer comentando algo da época em que estávamos juntos, dos nossos momentos e experiências. Porém, nunca era realmente uma boa ideia. Sempre acabava da mesma forma.

Ficávamos quentes e incomodados ou irritados e chateados.

— Isso tudo está com um cara boa. — Bree analisou parecendo satisfeita.

De entrada nós fizemos vieiras grelhadas com pêssego em calda, risoto de limão siciliano e alecrim como acompanhamento. Palheta de porco desossado e recheado como prato principal e para finalizar, peras cozidas ao vinho tinto para sobremesa.

Minha nossa, fazia muito tempo que eu não cozinhava tanto assim. Talvez no nosso primeiro dia de Ação de Graças aqui em Chicago quando os meus pais e Eric vieram ficar conosco, mas foi tempo o suficiente para eu esquecer o quanto era cansativo.

Fui tomar banho quando a companhia tocou. Prendi o meu cabelo de modo em que ficasse todo para o lado direito. Rosalie queria que eu me vestisse para matar, usando um vestido vermelho com decote longo nas costas, mas não acho que isso causaria uma boa impressão, então optei por um vestidinho branco com detalhes em preto que marcava muito bem a minha cintura. Saltos, maquiagem feita, um bom perfume e voilá!

Os pais de Edward foram os primeiros a chegar. A minha barriga sempre ganhava vida quando os recebia em casa sem a presença dele por perto, mas soube disfarçar bem quando agradeci pelo vinho que Carlisle me ofereceu.

— Isso é muita gentileza, Sr. Cullen. Fique à vontade.

— Só Carlisle, por favor, querida. Obrigada por nos receber. Sua casa cheira encantadoramente bem hoje. — Sorri envergonhada e assenti.

Esme o puxou para o sofá de dois lugares, acalmando sua ansiedade de rever Heitor, que ainda dormia. Vê-lo de perto sempre me fez pensar no quão bonito Edward ficaria quando chegasse naquela idade. Caramba! O que há com essa família? Esme riu do modo como eu encarava o seu marido. Ela deveria estar acostumada com os olhares descarados das mulheres nele.

Poucos minutos depois, Edward chegou com Emmett no seu encalço. Estava lindo e extremamente cheiroso. Ele fez questão de dizer o quanto eu estava bonita bem próximo ao meu ouvido e de beijar a minha bochecha, deixando-me atordoada por alguns segundos. Emmett parecia um cão farejador tentando descobrir o que eu tinha feito para comer, sendo repreendido por Rosalie o tempo todo. Sentei próxima a Edward e ele estava sempre me tocando ou roçando o corpo no meu, mas ambos fingíamos não perceber aqueles movimentos. Nós conversávamos sobre todo tipo de assunto esperando a chegada de Alice e Jasper – que até então, não havia reencontrado ainda.

Estávamos morrendo de fome quando ela chegou 45 minutos atrasada. Seu estado era impecável, continuava linda como sempre, a diferença estava em seu cabelo um pouco maior e no corpo mais cheio, com curvas que lhe favoreceram e lógico, o embrulho rosa nos braços.

— Olá, Bella! Obrigada por nos receber em sua casa mesmo após aquela bagunça, sei que ainda está chateada comigo e preciso te pedir desculpas por não ter te dado uma luz em Atlanta. Eu apenas não podia trair a confiança do meu irmão, mas eu juro que estive fazendo o meu melhor para ajudá-lo a se livrar daquela coisa peçonhenta que era sua noiva — Ela liberou em um fôlego só, me deixando com os olhos arregalados. Eu não esperava o seu discurso aqui e agora. Não seria melhor fazer isso em outro momento? — Uma pena que a versão vintage dela atrapalhou tudo antes — Fez um biquinho e todos gritaram seu nome para repreende-la, o que fez nós duas rirmos — Eu acho incrível o fato de vocês terem se reencontrado após tanto tempo. E com uma criança! Você tá brincando comigo? Apenas confirma o que eu já sabia. É destino — Ela sorriu docemente para mim. A garotinha resmungou e Alice tirou a manta que lhe cobria — Oh, essa aqui é a Antonella.

— Seja bem-vinda, Alice. E olá, Antonella. Você é tão linda, querida — Passei as costas do dedo indicador na bochecha rosa da garotinha que aparentava ter 5 meses, toda gordinha — Oi, Jasper. Você está muito bem. — Cumprimentei o homem tímido atrás das duas que abriu um largo sorriso para mim.

Nós jantamos em uma harmonia tão deliciosa que não imaginei ser possível. Carlisle ficava ainda mais solto e sociável quando estava sob o efeito do vinho e nos divertiu com histórias engraçadas do tempo em que ele estava convencendo Esme a lhe dar uma chance. Enquanto isso, Bree e Emmett disputavam pela atenção da garota de Alice, o que fazia Rosalie suspirar de amor. O cara em si já era uma criança em um corpo avantajado, mas eu sabia o quanto ela desejava profundamente ter seus próprios bebês no colo do homem que ela ama. Jasper só entrava nas conversas quando seu nome era chamado e eu percebia que ele me olhava com receio o tempo todo, como se eu fosse pular sobre a mesa e ataca-lo. Sua esposa ria e acariciava o seu ombro para distrai-lo. Foi quando recebi elogios sobre a refeição e durante a sobremesa que ouvimos o choro de Heitor através da babá eletrônica. Deixei a minha pera pela metade e fui busca-lo.

Ele parecia aliviado quando me viu e imaginei que havia tido um pesadelo. Nos meus braços, eu o beijei e acalmei até perceber a presença de Edward perigosamente atrás de mim, seus dedos moveram-se para cima e para baixo em meu braço, me deixando louca enquanto acariciava os fios acobreados do bebê e então quando Heitor ficou impaciente, pediu o colo do pai para sair do quarto.

— Olá! — Carlisle foi o primeiro a falar conosco sorrindo de orelha a orelha quando chegamos na sala. Todos estavam reunidos lá. Heitor gritou e agitou os braços para o avô que o mimava mais do que todos nós juntos — Vocês três ficam tão bonitos juntos assim. Não estou certo, Alice?

— Incríveis! Ai, meu Deus, ele é tão a sua cara — Alice pulou no lugar olhando de Heitor para Edward com os olhos pequenos, mas arregalados — Olhe, Jazz. Olhe aquelas bochechas deliciosas! Eu fui tia antes de ser mãe, dá pra acreditar nisso? Caramba, Bella. Eu adoraria ter preparado o seu enxoval. — Ela resmungou ao cruzar os braços embaixo do peito como uma adolescente emburrada e Edward bufou, me guiando para a poltrona à esquerda.

Sério?

Esme bateu palmas e Heitor escapou do meu colo para correr vacilante até ela. Ela e Carlisle riram e fizeram gracejos para o neto que não sabia a quem dar atenção no meio de toda aquela gente. Ele estranhou um pouco a tia, mas logo ela soube como conquista-lo e não demoraram a estar todos prestando atenção nele que contava uma história interessantíssima em sua linguagem de bebê, com alguns acréscimos e barulhos de efeito.

— Edward Cullen — Emmett começou ao colocar um prato sobre a pequena mesa de centro — Você comeu da mesma comida que eu? Inferno, por que você pediu a mão da mulher errada?

O silencio na sala foi absoluto, exceto pelo gemido que ele deu ao ser cotovelado por Rose. Todos estavam tensos e eu senti a mão de Edward agarrar a minha com força. Eu entendia o motivo de todos estarem preocupados com a minha reação sobre o assunto, mas aquilo já não me incomodava como antes. Esme confirmou que o noivado só foi reatado graças as artimanhas daquelas duas mulheres e eu fui a única no coração do filho.

Saber disso e de que ele não correu para Grécia e foi direto para os braços dela, acalmava o meu coração. Quando lembrava do quanto ele vinha se desculpando pelas atitudes que me magoaram, demonstrando em atitudes o quanto estava disposto a fazer por nós e o quão bem os Cullen nos aceitaram em suas vidas, perdoando o meu erro de priva-los do Heitor, que era a coisa mais importante que tínhamos em nossas vidas, eu só podia aceitar que era hora de deixar o passado no passado. Seria idiotice agir de outra maneira.

— Porque o seu estúpido melhor amigo não fez nada para impedi-lo — Respondi piscando para Emm e apertando a mão de Edward de volta, que suspirou e relaxou ao meu lado — É bom ele prestar mais atenção dessa vez, segundas chances são raras.

— Malditamente certa! — Emmett respondeu animado e levou outra cotovela por dizer palavras feias na frente de Heitor.

Edward escorregou do braço da poltrona, para sentar junto comigo. Ficamos um pouco espremidos, mas eu não me importei nenhum pouco. Ele passou seu braço atrás da minha cabeça e fez carinho no meu ombro, virei para olha-lo e ele estava mais perto do que eu esperava, me fazendo ofegar de surpresa. Edward abriu um largo e bonito sorriso vindo para mim e o meu coração deu um salto quando senti seus lábios cautelosos roçarem nos meus. Uma caricia mais leve era impossível. Ele deixou um beijo demorado no cantinho da minha boca e encostou nossas testas, suspirando satisfeito por não ter sido rejeitado e então nós ficamos ali conscientes de que as coisas estavam mudando para nós.

Tendo todas essas pessoas na minha sala, amando o meu filho da forma que ele merece e nos acolhendo entre eles de forma tão carinhosa, fazia com que eu sentisse que estava tomando as decisões certas para as nossas vidas. Como se eu tivesse me encaixado finalmente no lugar onde sempre pertenci.

Talvez Alice esteja certa, talvez seja mesmo destino.

(Roupas da Isabella)

Notas finais
Me façam parar com esses capítulos grandes! hahaha Pobre de mim. Então, vamos lá. Os Cullen e os Denali estão interligados por várias pontas, perceberam? Esme e Elizabeth. Elizabeth e Tanya (...) Por isso não é tão fácil se livrar dessas pragas. Eu, honestamente, estou encantada com o Edward na versão "papai do ano", sendo presente e um bom amigo para a Bella. Não se impôs ou exigiu coisas e muito menos caiu matando em cima dela. Eu sei que estamos ansiosas para tê-los juntos novamente, mas ela não iria simplesmente pra cama com ele com tanta coisa pendente para ser esclarecida. Mas agora que ele está demonstrando estar livre de amarras, sendo todo aberto e sincero com ela, quem sabe, hein? A Bella já está superando o passado aos pouquinhos e as novas informações ajudaram. Ela tinha uma grande insegurança por achar que o Edward estava feliz no casamento e que havia se conformado em ficar sem ela, porque estava com a grega arrebatadora. Agora vendo que não era nada disso, que ele a amava e "enfrentou" o pai para assumi-la em um relacionamento é um tremendo ponto para a sua autoestima. Espero que tenham gostado do capítulo e nos vemos nas reviews. Sejam todos caridosos com a moça no cômodo que está um ano mais idosa. Beijos! :)