Odisséia Grega

23 Capítulo 23


Notas iniciais
Olá, gente! Tiveram uma boa páscoa? Espero que tenha sido em paz e tenham comido muito chocolate. Eu não ganhei ovo, mas comi doces para não passar em branco. E por favor, leiam as notas finais. Tem coisa importante.

Pela manhã, eu voltei para o trabalho muito desanimada. A leve ressaca também não ajudava, então além de estar com um humor do cão, não consegui ser produtiva em nada do que fui obrigada a fazer. Quando meu expediente acabou, entrei no meu carro – que ele me deu de presente –, respirei fundo e tomei o rumo da casa dos meus pais. Charlie não deveria estar em casa ainda, mas sabia que Renée me receberia de braços abertos e eu precisava urgentemente do colo de mãe.

Ela estava com visitas quando cheguei, mas graças a Deus já estavam de saída. Mamãe apressou-se em se despedir quando viu o meu estado deplorável. Eu não conseguia me lembrar se estava usando peças que combinassem ou se minhas sapatilhas eram de um mesmo par. Renée me deu um abraço forte que me proporcionou segurança no mesmo instante. Sempre fomos unidas, ela era quem mais conhecia os meus sinais – e então vinha Rosalie em seguida. Fomos para o meu antigo quarto, a cama de casal mais estreita do que a minha atual, continuava coberta pela minha colcha vermelha favorita na adolescência. Nós deitamos ali e eu lhe disse o básico, que Edward e eu tínhamos rompido.

Não entrei em detalhes por vergonha. O que minha mãe pensaria de mim se soubesse que esse tempo todo, fui amante dele sem ter tido escolha? Talvez ela tivesse pena. Talvez ficasse com raiva de nós dois. E na pior das hipóteses, se culparia por não ter estado mais presente quando percebeu que as coisas entre nós estavam sérias e isso eu não admitiria. Suspirei aliviada quando ela não me forçou com perguntas, apenas cuidou de mim, me alimentou e mimou.

No dia seguinte eu fiz a mesma coisa e nos três seguintes também. Passar aquele tempo com os meus pais estava me causando um bem que eu nunca imaginaria. Parecia que eles traziam a velha Bella de volta, aquela garota tímida que ainda era caloura na faculdade. Foi quase terapêutico passar noites e madrugadas na cozinha deles assando bolos e fazendo sobremesas que nós mal conseguíamos dar conta de comer, apenas para ter com o que me distrair.

Os vizinhos com certeza estavam apreciando as doações ricas em açúcar.

Nesse meio tempo, eu saí poucas vezes. Rosalie insistia para que eu fosse tomar um ar fora de casa e do escritório, então sempre parávamos em uma lanchonete ou sorveteria. Nada que exigisse muito da minha aparência. Naquele dia em especial, o seu pai fazia aniversário e ela pediu a minha ajuda para comprar um presente. Eu obviamente não estava com ânimo para aquilo, mas sabia que essas coisas de família eram complicadas para ela – que mesmo sendo uma mulher de quase 26 anos, ainda tinha problemas paternos e buscava agradar ao máximo o seu pai –, então fomos ao shopping de sempre. O que ela já conhecia de cor cada andar.

Meu coração estava na mão durante todo o percurso. A minha impressão era que se eu olhasse do lado, encontraria algum deles e o sentimento me apavorava. Não estava pronta para ouvir mais mentiras ou justificativas baratas que não esclareceriam nada. Eu estava bem sendo covarde e vivendo sob as asas dos meus pais.

Andei timidamente pelos grandes corredores, olhando as vitrines onde moças bem vestidas e com cara de tédio me olhavam de volta. Mas a surpresa da tarde fora encontrar Eric e Irina saindo de uma loja de lingeries. Acho que arfei de surpresa e isso atraiu a atenção dos dois no mesmo instante. Ela me olhou com desdém e nojo, o de sempre. Tão previsível! Mas ele parecia empolgadíssimo em me ver.

O que estavam fazendo ali? Será que os dois...?

— Ei, Isabella. Está bonita — Elogiou, provavelmente por educação, porque eu estava uma merda por dentro e por fora. Usava um moletom 2 números maior que o meu, jeans surrados e tênis. Então apenas sorri pequeno em resposta — Veio fazer compras? Estou acompanhando a minha irmã e o meu cunhado nas deles e acabo de encontrar Irina. — Ah... certo. Estranho, mas ok.

Irina tentou leva-lo para longe de mim, parecia interessada em prolongar aquele encontro, mas Eric soube recusar sua companhia com muita educação e ambos nos despedimos dela. Eu teria revirado os olhos para o seu rebolado exagerado ao nos deixar, mas não tinha força ou vontade suficiente. Rose passou por nós para avisar que não havia encontrado o que tinha em mente ainda e lógico que aproveitou para dar uma boa olhada no cara. Por fim, após uma breve apresentação, ela deixou claro que eu podia permanecer no banco de madeira com Eric, o que foi bem suspeito, uma vez que ela insistiu tanto por minha ajuda.

Francamente, ela achava que eu iria curar o meu “mal de amor” com outro homem?

— Você está calada hoje. Está tudo bem? — Assenti, ainda muda sem prestar muita atenção — Estou te incomodando, não é? Desculpe, eu apenas não tinha previsão para revê-la fiquei realmente contente em encontrá-la fora do trabalho, mas eu posso sair e...

— Não, Eric. Perdão — Me movi no banco desconfortável, pois era eu que estava sendo uma péssima companhia — Eu só estou tendo que lidar com algumas coisas e... enfim, perdão. Sério. Estou contente em revê-lo também, cowboy. — Brinquei e ele soltou uma gargalhada.

Conversamos por quase uma hora sobre as mais diversas coisas e foi bom passar um tempo com alguém que não conheço e que não me conhece. Ouvir novas histórias, lidar com outra personalidade... foi proveitoso. Ele me convidou para comer algo, mas recusei vendo Rosalie finalmente se aproximar com uns embrulhos e um grande sorriso no rosto, parecendo satisfeita com ambas as situações ali.

Foi naquele final de semana que eu comecei a ficar nervosa. Notei que estava incomodando os meus pais quando Charlie começou a fingir que dormia sempre que eu chegava na sala com um filme diferente escrito pelo Nicholas Sparks para assistirmos. Percebi que estava tão confortável com aquela situação que estava... regredindo. Agindo como uma adolescente que tomou bolo no baile de formatura quando eu tinha problemas de verdade para resolver.

Tive tempo de sobra para pensar e refleti. Pessoas para ouvir, conselhos para receber e decidi que estava na hora de agir com maturidade. Apenas não parecia certo cortar alguém da minha vida de forma tão brusca sem ao menos dar uma chance para ela se justificar, certo?

Eu iria colocar os pingos nos is de uma vez por todas.

Eu iria atrás do Cullen.

O prédio da Cullen Enterprises Holding, Inc estava igualzinho a como eu havia visto há algum tempo, apenas com a diferença de ter mais gente trabalhando e circulando por lá do que eu me lembrava. Na recepção, eu perguntei para a mocinha de cabelo chanel se existia a possibilidade de ela anunciar para o Edward que eu precisava vê-lo. Pensei em ligar para o próprio, mas não havia decorado nenhum dos seus números e os mesmos estavam no meu outro aparelho celular que eu não usava desde o fatídico dia.

— Eu sinto muito, senhorita. Ele não se encontra. — Desculpou-se com gentileza, porém parecia querer se livrar de mim o quanto antes. Suspirei aborrecida. Achei que isso seria mais fácil.

— Certo. Tudo bem. Mas e o Emmett McCarty, ele estaria? Pode ser o Jasper também. — A moça arqueou as sobrancelhas, provavelmente impressionada por eu estar tão familiarizada com toda aquela gente e mordeu o lábio inferior, pensando.

— Eles também não estão — Deu um sorriso amarelo que eu não retribuí. Por que parecia que ela estava mentindo pra mim? Edward estava me evitando assim como eu fiz com ele? Ou algo importante precisou da atenção dos três ao mesmo tempo? — Mas se for algo urgente, acho que posso arranjar que você fale com o Sr. Legrand. Ele chegou há pouco tempo. O que acha?

Isso! Lembrei do gentil Adrien. Ele provavelmente saberia por onde Edward andava e eu poderia até espera-lo em sua companhia. Dei graças a Deus por não ter vindo à toa e concordei.

Alguns minutos depois a minha entrada foi liberada. O elevador era elegante, ágil e o mais importante – estava vazio. Meu nervosismo era palpável. A ideia de rever aquele homem fazia o meu estômago dar voltas. Ajeitei a gola da minha blusa no espelho e em pouco tempo eu estava no andar certo sendo levada até a sala dele, que ficava bem próxima a de Edward.

— Isabella Swan! Você não imagina a surpresa de ser informado da sua presença. Ainda mais que queira me ver. Ao que devo a honra, jovem? — Ele cantou o meu nome parecendo de bom humor e aproximou-se para me receber carinhosamente. Lhe dei um abraço educado ignorando o perfume estupidamente doce que ele usava. Merda, aquele cheiro ficaria em mim? Deus, eu espero que não ou não conseguiria manter o café da manhã na barriga.

Sentei na poltrona marrom que me indicou e então notei que a decoração da sua sala era mais pessoal que a do Cullen, até mais aconchegante, eu diria.

— É um prazer vê-lo outra vez, Adrien. Mas de verdade, eu vim em busca de uma informação. Eu preciso falar com Edward e me disseram que nem ele, nem o cunhado estão. Você sabe me dizer para onde foram ou se vão demorar?

— Onde eles estão, eu não saberia dizer, querida, mas que vão demorar... isso irão. Todos eles voltaram para a Grécia. Eu pensei que você soubesse — Disse me dando um sorriso extremamente sem graça.

Eu já ia retrucar quando entendi que Edward não estava mais ali. Em Atlanta. Em Geórgia. Nos Estados Unidos. Ele não estava e não voltaria.

— Você está meio pálida, está tudo bem?

— Quando? — Ignorei a pergunta, já sentindo um bolo na garganta se formar. Merda, a viagem. É claro! Ele deveria ter ido muito antes disso. Por que ficou? Ele fitou meus olhos úmidos de lágrimas e suspirou tristemente passando a mão em cima das coxas, parecendo envergonhado.

— Há uns 2 dias, eu acho. Nós conversamos muito pouco, na verdade. Disse-me que adiou o quanto pode, mas precisava retornar. Algo aconteceu, acredito eu. Conheço Edward há anos e ele estava... acabado.

Aquilo me entristeceu mais. Ele havia adiado a viagem. Por minha causa? Será que ele tinha esperanças que o procurasse? E estava mal... não era só eu que estava sofrendo. Ele não estava bem e saiu do país acabado.

Será que estaria sofrendo por mim ou por ela?

Eu deveria me sentir aliviada agora que ele partiu? Vingada porque ele se machucou? Perguntei-me enquanto dirigia pelas ruas do centro da cidade. Não, respondeu meu coração dando um forte solavanco. Isso não aliviava nenhum pouco. Na verdade, eu estava começando a ficar desesperada enquanto a ficha caía. Eu provavelmente nunca mais verei Edward de novo.

Puta merda.

Meu celular – o antigo – estava com a bateria descarregada quando o achei dentro de uma bolsa qualquer. Coloquei-o na tomada e liguei. Não demorou até surgir os avisos de mensagens de voz, de texto e ligações perdidas. Algumas do pessoal do trabalho, mas a maioria era de Alice. Isso foi uma surpresa. Ela me implorava para que eu lhe desse uma chance de pedir desculpas. De se explicar e que se depois disso eu não quisesse mais saber, ela me deixaria em paz.

Com o coração na mão, ouvi duas das 5 mensagens de voz. A voz dele fez meu coração latejar e lágrimas começaram a arder nos meus olhos.

Bella, sou eu, de novo. Eu estou quase desistindo... você tinha razão, é isso que eu sou, um covarde. Eu posso me esconder atrás de um terno e do meu dinheiro em reuniões de negócios e fingir em frente a homens poderosos. Mas com sentimentos românticos eu sou um desastre — Ele falava cansado, mas com rapidez, como em um desabafo — Eu não tenho o direito de te pedir mais nada, sei o quanto fui estúpido e imagino o quanto a magoei, porque dói em mim também, acredite. Eu só queria... você — ele falou baixinho — conversar, te fazer entender o que se passa, mas está tudo uma bagunça... o mais justo é deixa-la seguir sua vida sem os meus problemas e interferências. Você não merece essa merda toda. Eu quis protege-la, mas enquanto estivesse do meu lado, essas pessoas te achariam. Você viu como a minha mã-

A mensagem chegou ao fim e eu corri para ouvir a que veio depois dessa.

Enfim... me desculpe. Se eu pudesse evitar que você sentisse toda essa dor, eu evitaria, apenas não se isso significasse que nunca teríamos cruzado o caminho um do outro, porque mesmo que isso seja muito egoísta da minha parte, eu prefiro que soframos do que nunca ter visto o seu lindo rosto. Ouvido sua risada e tê-la feito minha tantas vezes. Fiz tudo do jeito errado, mas não me arrependo de ter feito — Sua voz agora era tremida, meus soluços eram tão altos que eu quase não entendia o que mais ele falava — Eu não vou mais interferir na sua vida. Não vou procura-la, até porque não mais estarei aqui. O céu está se abrindo sobre minha cabeça e ficar nessa cidade não está ajudando em nada, então... eu espero que siga com os planos que tinha antes de me conhecer. Espero do fundo do meu coração que você seja capaz de me perdoar por ter brincado de Deus e agido como se tivesse o controle de tudo. Eu nunca quis nada disso. Desejo principalmente que seja feliz, Bella, porque ninguém mais do que você merece tal coisa. Foi incrível cada segundo do seu lado. Adeus, ágape mou.” — Sussurrou e a ligação foi finalizada.

O barulho do aparelho celular chocando-se na parede só não foi mais alto que o grito estrangulado que saiu por minha garganta. Uma dor alucinante me cortava em pedaços. Maior ainda do que a que senti ao ouvir aquelas palavras horrorosas de Elizabeth. Para onde foi toda a minha tranquilidade e sabedoria? Por que ouvir a voz do homem que eu amava, sofrendo, me causava tanto dano mesmo quando ele merecia passar por aquilo?

Ele conseguiu de uma forma ou outra se despedir de mim, mas eu não pude. Eu fiquei com as palavras todas atoladas na garganta e no peito. Eu nunca teria a chance de pronuncia-las. Não mais teria a oportunidade de implorar para que ele ficasse comigo, se assim a minha falta de amor próprio permitisse. Ele se foi e me deixou danificada para trás para lidar com toda essa merda sozinha!

Descobri pelo porteiro que Edward havia me procurado duas vezes aqui no prédio, uma no dia do meu pedido e outra, dois dias depois, mas que foi impedido de subir. Alice e seu marido também vieram.

— Eu não entendo. Não era isso que você queria? Tira-lo da sua vida? — Rosalie questionou.

Para ela não foi uma surpresa que todos tivessem ido embora, Emmett lhe avisará no mesmo dia. Ela também parecia estar sofrendo por sua ausência, por não ter ideia de quando e se ele retornaria, mas nada comparava-se a minha dor e ela tinha consciência disso, mas também não me entendia. Todos os dias eu acordava de uma forma diferente. Em algumas manhãs ela me encontrava chorando a alma para fora do corpo em minha cama e em outras eu estava simplesmente furiosa. Com ele, com ela, comigo, meus colegas e até com o padeiro tarado que sempre colocava um pão a mais no saco para me agradar, quando eu odiava números ímpares!

As semanas que se seguiram foram ainda piores. Algo em saber que não existia mais nem a remota possibilidade de nos vermos sem querer, ao nos esbarrar em uma calçada, numa esquina qualquer, me deixava louca. Cheguei a um estado crítico onde eu cogitava a possibilidade de ser sua amante, ao menos por um tempo, até que ele se convencesse que deveria ficar comigo.

Deus, eu era tão patética.

No que inferno esse homem me transformou?

Tirei aquelas ideias da cabeça tão rápido quanto pude e me fiz ficar racional outra vez. Era evidente que Edward não queria ir embora, mas ele foi e talvez por culpa minha. Por demorar demais a procura-lo, tentar ouvir o seu lado da história e tentar dar um jeito em tudo. Porque se ele quisesse, haveria algum jeito, não é? Não que ele não tivesse que pagar pela merda que fez, mas nós poderíamos superar aquilo. Mas agora não mais... ele voltou para ela e assim como sua mãe queria, os preparativos para o casamento deveriam estar a mil por hora.

Será que ela descobriu sobre mim? Ele estava feliz em rever a sua criança? Provavelmente percebeu que o que viveu aqui foi uma simples aventura como todas as outras e que a realidade dele é em Atenas. A família dele está lá. Ela e o filho também...

Eu deveria me conformar que aquela fase da minha vida estava encerrada.

Relacionamentos começam e terminam o tempo todo. Pare de drama, rosnei pela milésima vez para mim mesma. Eu aceitaria isso, era só questão de tempo.

Meu desempenho no trabalho melhorou. O quão irônico era isso? Eu chegava um trapo em casa, mas era a empregada mais dedicada que a North OKeefe Events tinha no momento. Depois de entender que ele não voltaria para minha vida, decidi usar cada hora do meu dia ao meu trabalho, que era o que eu fazia de melhor. Perdi até uns quilos, o que pra mim estava ótimo, mas Rosalie começou a se assustar e pegar constantemente no meu pé.

Algumas tonturas aqui e ali, já era motivo para escândalo. Meus pais foram informados de cada detalhe desnecessário sobre o meu mal-estar e em um final de semana, Charlie ficou paranoico quando viu um bolo de cabelo preso à minha escova. Ele chegou a cogitar leucemia, pelo amor de Deus! Foi divertido dar alguns cabelos brancos ao meu velho.

Mas então eu já não tinha mais motivos de rir. Eu adoeci com o excesso de serviço para fazer em casa e na empresa. Fiquei de cama, mal mesmo por dias. Acabei tendo que tirar semanas de férias adiantadas da North para cuidar da minha saúde por insistência da loira. Irina não quis me dar, dizia que estavam atolados de trabalho e que precisava de mim lá, então abusei um pouco da minha nova amizade com Eric e lhe pedi ajuda quanto a isso. Eu estava liberada meia hora depois. Ele ficou tão preocupado comigo que chegou a ser engraçado e eu lhe agradeci muito pelo favor, sabendo que estaria devendo essa.

Tenho que confessar que as crises no meio da noite me assustaram um pouco. Passava uma boa parte da manhã no banheiro e só saia de lá quando estava vazia, comecei a concordar que eu estava passando dos limites e me cuidando muito pouco, então liguei pra Renée e logo ela veio ao meu socorro, quase arrastando o papai junto. Agora eu sei de onde veio o meu drama.

Minha mãe me encheu de comida caseiras com pouca quantidade de sal, ricas em ferro e proteínas que eu nem lembrava que existiam e aquilo realmente ajudou. O meu apetite voltou igualzinho de quando eu estava saudável e algumas atividades físicas ajudaram a recuperar a disposição e as boas noites de sono.

— Tem certeza que está bem para ir? — Renée me perguntou enquanto eu me olhava no espelho pendurado em uma das paredes da sala. Apesar de ter emagrecido muito, o vestido novo parecia bem em mim e realçava as poucas curvas que eu ainda tinha — Por favor, não vá beber. Eu vi você hoje de manhã e...

— Tudo bem, mãe — Cortei me virando para olha-la com carinho. Ela tinha passado as duas ou três ultimas noites aqui no apartamento e por pouco não me arrastou para o hospital, até que eu a convenci que tudo isso era fruto do stress que passei de um tempo para cá, a comida de rua que estava comprando e outros fatores — Essa confraternização veio em boa hora, eu preciso me distrair um pouco, você precisa voltar para o seu trabalho...

Renée voltou para faculdade quando eu tinha 15 ou 16 anos e formou-se em História, mas nunca trabalhou, a pedido de Charlie que precisou muito de sua ajuda por um período nos negócios. E agora ela encontrou uma criança a quem dar aulas particulares e estava divertindo-se com isso.

— Além do mais, o Eric estará lá e disse que tinha umas pessoas para me apresentar. Acho que vai ser divertido! — Falei colocando um pouco de entusiasmo na voz. Eric tem sido uma luz no final do túnel para mim. Eu nunca contei o que havia acontecido comigo e também não lhe dei abertura para qualquer outro tipo de envolvimento, mas mesmo assim ele permaneceu sem insistir ou me pressionar para nada.

Alguém escolheu ficar comigo, afinal. Sorri com amargura para o espelho.

— Tudo bem. Você está linda. Dirija com cuidado e não beba, mocinha.

Assenti revirando os olhos pela última vez e peguei o presente do amigo secreto, as chaves e saí. Riders On The Storm começou a tocar assim que entrei no carro. Não era bem uma música para o clima de festa, mas ignorei e acelerei, pegando à esquerda da rua. Eram 19h57. Eu estava um pouquinho atrasada e preferi não atender as ligações de Rachel para não me atrapalhar ainda mais.

Irina tornou-se mais simpática comigo nos últimos dias quando retornei ao trabalho e a causa de sua bondade repentina, aparentemente tinha 1,90 de altura, uma linda pele negra, era executivo conhecido no estado e esbanjava simpatia. Eu gargalhei quando os vi juntos pela primeira vez e depois ela me cumprimentou toda sorridente e amolecida. É um pensamento machista, mas o problema todo dela era falta de homem? Caramba.

Uma vez que o clima na empresa estava bem melhor, eu ouvi boatos de que alguém seria promovida e muita gente apostou em mim, pelo o meu desempenho e dedicação excessiva ao serviço. Fiquei animada com a possibilidade. Será que as coisas finalmente iam começar a dar certo para mim? Será que eu estava há poucos passos de me realizar profissionalmente?

Mas eu teria calma. Daria um passo de cada vez. Estava decidida a não me atropelar nunca mais.

— Ei, olha ela aí — O loiro charmoso veio em minha direção assim que virei a esquina do corredor. Nossa, quanta gente! Eu trabalhava com esse pessoal todo? — Já estávamos para começar, Isabella. Venha, quero te apresentar aos meus pais.

O que? Por que? Por que inferno ele quer me apresentar para os pais dele? Eu estremeci quando ele me puxou pela mão e levou-me até um casal elegante, ambos de cabelos branquinhos e peles claras. Olhos azuis cintilantes. Uau... eles eram bonitos. Não pareciam ser americanos.

Acontece que foi tudo um susto e ele fez de propósito. Eric era brincalhão demais para o seu próprio bem, mas isso realmente acendia uma pequena chama dentro de mim. Ver um cara solteiro aos 33 anos, tão bem e satisfeito consigo mesmo e agindo como se nunca houvesse tempo ruim para ele, me dava... esperança. De que logo o meu sofrimento ficaria para trás e eu seria outra vez a Bella, agora não tão ingênua, mas com a mesma vontade de viver e conhecer o mundo.

E porra, ele era solteiro! Enquanto muitos caras de sua idade estavam se amarrando e construindo famílias, Eric estava bem financeiramente, com duas empresas em estados diferentes e com o coração intacto. Tinha lá suas paixões de uma noite ou final de semana, porque tinha... necessidades... e era feliz assim.

Estava exatamente aonde eu desejava estar.

— Você está bem? Isabella, você está branca feito um giz. O que foi? — Eu estava encostada na parede inspirando fundo tentando não deixar as minhas pernas vacilarem quando Rachel chegou.

— Eu não deveria ter bebido aquele coquetel...

— Mas foi só um. Tenho certeza que você já bebeu mais do que isso — Respondeu colocando a mão na minha testa, checando a minha temperatura — Vamos sentar um pouquinho. Tenho certeza que foi a emoção de conhecer os sogros.

— Ora, cale essa boca! — A repreendi, mas em seguida estava rindo também. Encontramos um sofá de dois lugares e sentamos as duas ali. A sensação horrível estava passando enquanto eu não precisava me sustentar naqueles saltos matadores — Quem é a vítima de hoje?

Ela sorriu e apontou para uma alta loira bronzeada que tirava uma foto com mais duas moças. Ei, aquela não é a Lauren da recepção? Franzi o cenho e ela riu dando de ombros. Essa mulher tinha terminado o namoro com um motoboy não tinha nem duas semanas! Rachel fazia mágica mesmo...

Recuperada do mal-estar, eu pudesse socializar com todos na festa. Ganhei um ótimo perfume de um rapaz com quem nunca falei nada além de bom dia, com licença e obrigado. Fiz amizade com Grace, a mãe de Eric e passamos horas conversando sobre a vida que ela levou no Alasca quando conheceu o marido. Era uma mulher incrível de tão simples e carinhosa. Tão diferente de Elizabeth. Eu não tinha nenhum envolvimento amoroso com o seu filho, mas foi impossível não comparar as duas. Será que eu seria feliz se tentasse algo com ele? Tentei nos imaginar como um casal, fazendo coisas que...

Não.

Ah, não. Mas que merda foi essa?

Ri só de pensar no absurdo. Eu não preciso de homem para me satisfazer. Eu posso dar a mim mesma exatamente tudo o que eu preciso e estava muito cedo para eu me envolver com quem quer que fosse, então se algo de romântico estava reservado pra mim, que fosse em um futuro muito, muito distante porque no momento eu não estava disposta.

Estremeci só de pensar na sobrecarga psíquica que era gostar tanto de alguém outra vez.

No dia seguinte, eu acordei com um sorriso no rosto. Na volta para casa, eu dei carona para Rachel e suas amigas e foi uma das mais divertidas experiências que eu tive. Ela era realmente uma ótima amiga, da qual Rosalie morria de ciúmes e não simpatizava nenhum pouco.

Acredito que ela teve seu ego ferido quando a conheceu e não notou nenhum interesse de Rachel. Alguém não se render aos charmes da Hale era uma tremenda novidade.

— Bom dia! — Gritou o vendaval loiro abrindo a porta do meu quarto. Me espreguicei toda, gemendo ao sentir meus ossos estalarem — Hoje a noite promete. Vamos, levante essa bunda branca da cama. Tio Charlie vai abrir outro restaurante, dá para acreditar? — Ela gritou de empolgação e deu tapas no colchão da cama me fazendo sorrir.

— Calma, ele ainda vai almoçar com o futuro sócio para ter certeza e então assinar os papeis. Tudo pode acontecer — Dei de ombros e sentei-me. Rose continuou tagarelando dentro do quarto, mexendo nas coisas que eu arrumei e tirando-as do lugar — Você está mesmo bem?

— Sim, estou ótima. Vou fazer um suco pra você.

E saiu. Era assim que ela andava essa semana. Por alguma razão que eu não entendia, Rose parecia abalada e eu achava que tinha o dedo de Emmett na história. Até onde fiquei sabendo, os dois estavam “perdendo” contato e ela pareceu lidar com isso com facilidade, mas na última quarta, eu a vi separando para jogar fora, todos os presentes que já recebeu dele.

Estranho, mas ela não quis me dar qualquer explicação sobre isso. O que será que estava havendo entre os dois? Eu procurava não perguntar, me manter o mais distante possível da relação deles para não cair em tentação e perguntar por ele. Não queria saber detalhes de sua vida em Atenas. Não era tão masoquista assim. Meu processo de supera-lo não envolvia obter qualquer noticia sobre o que ele estava fazendo ou com quem.

Minha rotina estava mesmo voltando ao normal. As noites continuavam difíceis, mas os dias estavam ficando cada vez mais fáceis de encarar com otimismo.

Eu já não estava tão depressiva assim. Até usava o meu tempo livre para ajudar o papai no Occhi nos meus dias de folga, encontrava diversas vezes com o arquiteto que estava encarregado das plantas do segundo que Charlie abriria com Logan na zona sul da cidade e continuava indo às compras com Rosalie quando ela exigia. Ajudava-a com os problemas que os pais estavam tendo – que envolviam uma outra mulher na jogada – e até lhe consolei quando Emmett e ela chegaram em um acordo de continuarem amigos, mas passarem a ver outras pessoas. Nenhum relacionamento, principalmente um formado tão rápido quanto o dos dois, sobreviveria a tanta distância.

Ela, ao contrário de mim, não demorou tanto a supera-lo – ao menos era o que demonstrava. No dia seguinte, a loira já estava pronta para outra. Rosalie nunca se prendeu a ninguém, o máximo que ela se permitia sentir pelos exs, era raiva. Pensei sobre isso e imaginei que odiar Edward tornaria as coisas mais fáceis, porém não seria totalmente justo.

Minha melhor amiga disse que não ia se abater por isso. Que tinha muito carinho por Emm, mas que sempre foi clara ao dizer que daria a ele exatamente o que recebesse e na mesma intensidade. Ou seja, se essa decisão partiu dele, ela não viveria em função de uma coisa que não deu certo e nem tinha o menor futuro da forma em que foi colocada. E eu senti falta do tempo em que era exatamente igual. Do tempo que não era uma presa fácil para o amor. Mas depois de alguns dias, refletindo comigo mesma, decidi que estava tudo bem ama-lo como eu amei.

Como amo. Eu não fiz nada de tão errado, foi ele que fez. Entrei de corpo e alma numa relação que tinha de tudo para dar certo e não me arrependeria mais por ter tentado. Virei massinha de modelar na mão de um homem que eu não conhecia e estou arcando com as consequências disso, doía, causava revolta e raiva, mas decidi guardar aquele ressentimento e magoa em algum lugar no fundo do meu coração para vive-los em outro momento. Agora eu iria seguir em frente e seguiria também o conselho que o Edward mesmo me deu. Iria concluir os meus planos como se ele nunca tivesse entrado na minha vida. Como se aquela noite no restaurante nunca tivesse acontecido.

Notas finais
E acabou que aquela briga foi mesmo o último contato do casal. As opiniões estavam muito divididas e por mais que eu queira, não posso agradar a todos vocês ao mesmo tempo. A maioria quer ver o Edward comendo o pão que o diabo amassou e eu entendo, a gente toma as dores da Isabella e quer que um cara desse sofra, mas vão por mim... não o julguem tão antecipadamente. Acreditem, HÁ vilões reais aqui e o Edward não é um deles! Mas agora falando sobre o futuro da história... eu não vou continuar essa fase de “sofrência” da Isabella, simplesmente porque eu não tive intenção de introduzir muito drama quando iniciei a fic, portanto daremos um pulo no tempo. Também não vou narrar detalhadamente esses anos de ausência, transformação, mudanças e etc, do contrário, a fic ia ficar bem maior do que eu planejei. E eu sou de carne e osso, não quero ficar sem o Edward por muito tempo, podem julgar! hahaha Ou seja, no próximo capitulo já veremos a Isabella com a sua vida nova e atual, personagens diferentes, antigos, problemas novos – e velhos também, enfim! Muitas meninas pediram para eu fazer POV do Edward, bônus e essas coisas e eu peço desculpas, mas isso não vai acontecer. Seria muito difícil manter certas coisas “por baixo do pano” se víssemos o ponto de vista dele, então para não acelerar as coisas demais, vamos esperar a personagem saber das coisas aos pouquinhos. O que acharam da atitude e reação da Bella quanto a tudo? Da “despedida” dele? Da recente amizade com o Eric? Da fic até agora? Contem-me tudo! Peço a vocês, leitores fantasmas – que eu também amo, apesar de nunca aparecerem –, que me deem suas opiniões, ora! Eu escrevo para mim, mas é principalmente para vocês. Quero todo mundo compartilhando comigo suas expectativas. Não posso prometer nada... mas estou curiosa. Se estiverem satisfeitos com tudo até agora, peço que favoritem, recomendem, comentem, essas coisas. Você sabem! Um agradinho pra deixar a autora no clima. Nos vemos em dois anos? :P Brincadeira. Ansiosa pelas próximas reviews. Beijos!