Ode ao Futuro
1 Felizes Para Sempre?
Notas iniciais
Eduardo. Cara sério, meio frio com as respostas e atitudes mas um coração tão quente quanto o inferno. Alguém, de fato, dificil de lidar, porém, alguém por quem me apaixonei. (...)
Berno — 31 de Dezembro de 2019
Na gelada cidade de Berno, em pleno ano novo, — restando apenas 10 minutos para a contagem regressiva — enquanto todos da cidade estavam no centro e nos pontos turísticos, eu [Lucas] e o Eduardo estavamos sentados num banco de madeira, com os braços entrelaçados por trás dos ombros e pescoços, em frente à um lago congelado, esperançosos de um novo começo, uma nova vida.
— Acha que vai dar certo? — perguntei.
— Hm?
— Quero dizer, acabamos de nos mudar para essa cidade, Dudu.
Era inverno, a camada de quarenta e dois centímetros dificultou bastante a preparação do ano novo na cidade, mas tudo correu bem. Mais uma vez o perturbei com minhas preocupações e incertezas sobre o nosso relacionamento. Ele deve estar acostumado, é o que eu acho, mas tenho muito medo de parecer chato e/ou estragar tudo, tenho vontade de implorar desculpas de joelhos por cada vez que lhe fiz perguntas do tipo. Pelo menos ele não parece se importar.
— Relaxa, não se preocupe, Lucas, eu tô aqui contigo, cara! — respondeu levantando a caneca de chocolate quente vazia como quem esperava um brinde. Eu também levantei a minha, brindando.
— Desculpa, eu sei que não devia me preocupar, é coisa da minha cabeça.
— Não, em parte tu tem razão, nós não temos emprego e nossa poupança logo vai acabar. Aliás, minha poupança, tu é um quebrado — deu ênfase no "minha poupança".
— Ei!... — chamei timidamente, para sair do assunto.
— O quê?
— Eu te amo.
— Que gay! — disse suspirando com uma risada.
— Sim, seu gay! — respondi. — Sabe, agora que moramos juntos, depois de todos esses anos, não acha que temos algo pendente?
— Temos? Tipo o quê?
— Ué! Não acredito que esqueceu algo tão importante, Eduardo! — bravejei.
— Sabe que não ligo para muita coisa.
Em meio a meu descontentamento, uma rajada de vento que começou como brisa chamou minha atenção. Eduardo abraçou a si próprio com frio, enquanto eu levantei olhando para o céu um pouco preocupado.
— Tá com raiva? — perguntou.
— Não é isso, é o vento.
— Esse gelado de agora?
— É, pode ser uma nevasca vindo.
— Então vamos para casa, né? — perguntou com aquele tom irônico de quando a pessoa fala algo óbvio. Não me contive e continuei com o assunto anterior.
— Se eu fosse você, me trataria com mais amor e carinho.
— Isso é uma ameaça?
— Não, é só um aviso, a gente dá mais valor as coisas quando perde.
— O que é isso agora? Está me dando sermão com frase de orkut? Sério? Assim eu vou fazer questão de perder — gargalhei timidamente e o segurei pela mão, dando corridinhas e puxando-o.
— Vamos, Dudu.
Enquanto corríamos pela rua, não pude deixar de notar na beleza da cidade — que foi escolha dele. Os postes de iluminação e seus contornos europeus, sua iluminação suave como quem massageava os olhos.
[cinco!]
As casas com a mesma arquitetura, todas de madeira, estreitas porém altas com dois andares cada uma, sem falar numa chaminé clássica que me traz uma nostalgia da infância que nunca tive.
[quatro!]
Os flocos de neve que caíam vagarosos sendo agitados pelas rajadas de vento, como vários insetos nas lâmpadas.
[três!]
E o céu. Completamente branco, com tons mais escuros pincelados de forma inexplicável, que davam uma sensação de solidão. Uma cidade completamente sedutora e misteriosa.
[dois!]
E então, senti o calor de sua mão, mesmo através das luvas, como o toque final para tornar a cidade perfeita.
[um!]
— Feliz ano novo, Lucas.
Sem entender, olhei para o Eduardo — que estava atrás de mim — e fui surpreendido com vários estouros no céu, seguidos por:
— Feliz ano novo, Lucas!
— ...Quê?! — nesse momento, parei de correr, estava completamente avoado, nem prestei atenção que a contagem havia começado. O céu branco, agora estava colorido e iluminado. O silêncio das ruas desapareceu completamente. A cidade ganhou uma alegria que não tinha, fiquei fascinado. Então é por isso que todos sairam de casa com tanto frio...
— Ok, tomara que meu ano seja horrível, só o teu vai ser bom graças a mim, exclusivo, diferentão.
— O que? Ah... — sempre acho estranhamente fofo e engraçado quando ele fala essas coisas a sério, é claramente um reclamão completamente infantil. Não consigo conter os risos. — Feliz ano novo pra você também, Dudu.
— Então... Vamos ficar...
— Ah, sim! Vamos!
Não demorou muito para chegarmos em casa, estava frio e a nevasca tinha começado de fato. Tinha muitas caixas espalhadas pois ainda não tinhamos arrumado a mudança por completo. O Dudu tinha acabado de por fogo na lenha da lareira, mas a casa ainda estava fria, e eu também estava com frio. Ele sabia disso.
— Vem comigo. — ele sussurrou isso no meu ouvido, arrepiei por inteiro. O segui pelas escadas até o ultimo quarto no ultimo andar. Ainda na entrada do quarto ele me pediu para fechar os olhos, continuei andando me guiando com as mãos até encontrar a cama... Foi quando ele me pediu para abrir os olhos.
Lá estava ele, alto, um pouco malhado, apenas de cueca. E meu coração parecia um leão selvagem furioso, tão furioso que eu podia escutar suas batidas. Estava de pé na cama, em minha frente, estendendo a mão para me puxar pra perto dele, e eu, sem conseguir resistir, a segurei. Num puxão fui para cima, na mesma hora fui virado de costas de forma abrupta e ele começou a tirar a minha roupa rapidamente, o frio parecia não incomodar mais. Ele começou a me beijar pelo pescoço, fiquei completamente vermelho, sem jeito, e a ereção já não dava para ser escondida, e [ele] conhecendo bem o meu corpo, levei uma mordida num ponto extremamente sensível e excitante do pescoço. Eu me virei, já despido, ajudei-o a tirar minhas calças e botas ainda sujas de neve, nos abraçamos e beijamos cada canto do corpo do outro, explorando cada relevo do corpo com os lábios e palmas das mãos. O que veio a acontecer em seguida não é difícil de se imaginar, duas horas depois estávamos ambos suados, eu, dolorido pois "ele" era realmente um titã, se é que me entende.
Ainda pelado, sentado no colo dele de frente para ele, com suas enormes mãos em minha cintura, fiz uma pergunta na qual eu era proibido de fazer, mas que ele parecia ter se esquecido de algo tão importante.
— Dudu...
— Hm? — ofegante.
— Quer namorar comigo?
Há cinco anos, eu e o Edu nos conhecemos através de um amigo que estudava comigo, seu nome era Frederich. Ambos namoravam na época, e eu era apenas um amigo dos dois. O tempo passou, o namoro terminou, eu me aproximei do Eduardo e começamos a nos envolver cada vez mais, até chegar no ponto de fazermos uma promessa: Nos mudarmos para longe, uma cidade fria e pequena no interior, ter dois cachorros [husky siberiano] e casar.
Só de estarmos aqui é um sonho realizado, mas acredito que o término com o Fred tenha sido muito forte pro Dudu, pois ele nunca se sentia bem ou sequer aceitava meus pedidos de namoro — que eram feitos diariamente. Certo dia, ele me pediu para que eu não o pedisse mais, que quando chegasse a hora certa ele mesmo pediria...
Mas eu não pude me conter.
— Lucas, eu...
— Desculpa, é que você demorou muito, e...
— ...Eu aceito namorar com você — ele respondeu, olho no olho. Quando eu achava que estávamos finalmente tendo um clima romântico de verdade juntos... — Mas precisamos focar em outras coisas, como.. conseguir um emprego.
— Você só está tentando fugir do assunto!
— Estou começando a ficar com frio, aceita um banho quente? — perguntou tirando-me do colo e indo ao banheiro.
Aceitei claro, estava ficando frio mesmo. Aliás, eu já não aguentava mais tanto frio desde que cheguei nessa cidade. É como ele, age friamente, mas quando mostra que pode ser quente nos faz aguentar toda essa frieza só para ter esse calor novamente. Como fogos de artifício iluminando o céu.
[7 da manhã — Estação ferroviária de Berno]
Um trem com muitos estrangeiros chega na cidade nos primeiros minutos de sol do dia e um certo par de botas vai de encontro a neve da cidade pela primeira vez. Não que essa presença me incomode, gosto desta pessoa, mas muitos segredos e problemas andam com ela, e são coisas que deveriam ficar longe do Eduardo.
— Passaporte, por favor — ao conferir o passaporte, confirmou o nome. — Frederich Laufer?
— Sim.
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