Ode ao Futuro
2 Olha O Que Você Me Fez Fazer.
Notas iniciais
Berno — 1 de Janeiro de 2020
Começava então o ano novo, a vida nova. Enquantos o sol iluminava a cidade pela primeira vez do ano, eu e o Eduardo estávamos agarradinhos, ainda dormindo, debaixo dos edredons, a cama estava completamente bagunçada, tinha até travesseiro no chão. Foi quando o meu celular tocou. Na verdade ainda estava vibrando, rapidamente estiquei o braço e peguei-o no criado mudo ao meu lado da cama, na tela tinha o nome de Frederich. Atendi antes que fizesse muito barulho e acordasse o Dudu, saí de fininho dos braços dele e pus o celular no ouvido:
— Alô? Oooi! Lucas?
— Fred? O quê que você quer? — perguntei abafando a voz.
— Bom dia, gazelinha! Por que está falando assim?
— Não importa, fala logo...
— Adivinha onde eu tô?
— Ai, como que eu vou saber onde você tá? Não te vejo tem um tempo.
— Estação Ferroviária de Berno! E carregado de malas!
— Quê?! — supreso, acabei falando mais alto, olhei para o Eduardo, que continuava dormindo, e voltei a falar, com a voz novamente abafada. — Que cê ta fazendo aqui?
Frederich e Eduardo tiveram uma relação complicada, por isso, quando começamos a ficar, decidimos que seria melhor manter isso em segredo de todos — ou melhor, ele [Eduardo] me pediu para isso. Como o Fred era na época o meu melhor amigo, talvez ainda seja, eu o avisei que estava saindo em viagem para Berno com o meu novo namorado. Mas, caramba! Eu nunca imaginei uma situação assim, ele sequer avisou! Os dois ficarão furiosos comigo... Mas agora é tarde, só preciso explicar as coisas e resolver isso da melhor forma possível.
— Vim passar umas temporadas aqui contigo, tive uma briga com o meu tio, pra variar.
— Ele parece que continua o de sempre depois desses anos. Mas ao ponto de te fazer fugir de casa?
— Não... Ele tá pior, outra hora eu explico. Tá tudo bem pra você? E eu estou sem dinheiro até para táxi, pode vir aqui me buscar?
— Não, não! Tá tudo bem sim! Fica perto da entrada que eu tô indo aí, chegarei logo — disse segurando o celular entre o ombro e a orelha e procurando um casaco grosso em uma das caixas espalhadas pelo chão. — Mas tem algo que preciso te falar no caminho e preciso que me prometa que vai manter em segredo, ok?
— Certo, prometo, palavra de escoteiro.
— Ok, então... — naquele instante, dei mais uma conferida no Eduardo. Ao olhar para trás, lá estava ele, sentado na cama encarando-me com uma cara de quem não estava nem um pouco feliz com o que tinha ouvido. — Tenho que desligar, já já chego... — disse lançando o aparelho no colo do Eduardo, que desviando o olhar para ele, perguntou:
— Ele está aqui? — perguntou descontente e furioso. Eu, me sentindo um lixo, respondi como se estivesse sendo repreendido.
— Sim, está...
— E tu está indo buscá-lo. Onde pretende deixar ele? Num hotel?
— Ele vai ficar aqui, com a gente — cada resposta era como dar minha cara a tapa.
— Tudo bem, vá.
— É só isso? — perguntei surpreso com a reação, antes dele ter se levantado e começado a procurar botas e casacos.
— É.
— Ei, vai sair? — mas ele não respondeu. Rapidamente vestiu-se, em silêncio, e desceu até a sala, no térreo, ignorando todas as minhas perguntas. Eu fui atrás dele, apenas de calça de moleton, insistindo, quando ele abriu a porta e disse antes de sair:
— Um dos nossos planos, Lucas, se não me engano, era de adotar dois huskys. Pois bem.
— Eu te amo!
— Também — fechando a porta brucamente na minha cara.
Apesar de conhecer bem o jeitinho dele, me preocupei bastante com essa reação. Talvez ele só tivesse usado essa desculpa para pegar um pouco de ar e pensar, ou talvez não. Quando começamos nosso plano para o futuro, uns cinco ou seis anos atrás, decidimos que seria melhor manter nossa relação em segredo pois ele ainda gostava do Fred e sabia que, voltar para ele, seria algo impossível... Essa reação que ele teve foi realmente preocupante, se olhando por esse lado. Mas, agora não é hora de pensar tanto em coisas ruins, tenho de ir até o Fred, e a estação é um pouco longe.
[7:45 da manhã — Canil Público da Zona Oeste de Berno]
Eduardo olhava cachorro por cachorro no canil, em sua mente, certas palavras perturbadoras se repetiam como flashes de memória:
"Eu te odeio!"
"Olha o que você me fez fazer!"
"Você afasta todos ao seu redor!"
"Eu espero te esquecer completamente no ano que vem."
Fechava os olhos e tentava se acalmar, voltando seu olhar para os cães. Diferente dos canis que era acostumado a ver em sua cidade natal, este era enorme e tinha decoraçãoes na parede de cãezinhos brincando, o lugar completamente limpo e organizado, com aquecedor, em que os cachorros ficavam expostos em cercadinhos como os de criança, porém maiores, com comida e vários brinquedos. Haviam muitas pessoas, predominantemente crianças, pois o lugar possibilitava a interação e até a entrada das pessoas nos cercadinhos, entretanto, haviam poucos cachorros, o que deixava a sensação de que o local estava um pouco vazio. Cansado procurar pelos huskys e por alguém que trabalhasse no local, Eduardo chamou pela primeira pessoa que passou pela sua frente, era uma garota bem angelical, aparentava seus vinte anos.
— Oi, estou procurando huskys.
— Eu também — riu docilmente.
— Ah, então a gente pode procurar junto.
— Se estiver disposto a sair comigo por aí nesse frio procurando um cachorro rápido e forte desse jeito, tudo bem — ela sempre respondia tudo de uma maneira bastante simpática.
— Como assim? — questionou confuso.
— Eu trabalho aqui, não reparou o crachá? — disse mexendo o crachá no peito esquerdo.
— Desculpa — riu ao notar que não tinha percebido. — Estou preocupado com algumas coisas e não reparei. Mas tu está vestida normalmente...
— Você não é daqui, não é?
— Como sabe?
— Sua pele tem um certo bronze, você usa muito o "tu", você deve ser do sul.
— Mas o quê isso tem a ver?
— Nada, só queria ter certeza, te achei bem bonitinho.
— ...Obrigado... — Apesar do lado sério e frio do Dudu, ele tem um outro lado bastante meigo, que é o tímido. Ele nunca sabe como reagir quando alguém que ele não conhece fala com ele ou elogia.
— A propósito, o canil é meu, eu sou a dona.
— Como assim? Ele não é público?
— Meu pai fez um pacto com o governo de vários estados, ele tira os cachorros das ruas, alimenta, medica, e encontra donos, e os prefeitos pagam uma verba fixa para todas as filiais cumprirem esses serviços. É um projeto para tirar os cãezinhos das ruas — explicou pegando um filhote de dálmata em seus braços e acariciando. — Precisava ver como era antes disso, tempos difíceis. E... Eu fiquei de cuidar dessa filial com o meu irmão, mas agora estou sozinha, ele decidiu ser bombeiro, dá pra acreditar? Como se algo pegasse fogo aqui nesse freezer.
— Então... — olhou o crachá para conferir o nome e continuou. — Ellis. E os huskys?
— Tiramos cães das ruas, mas quem abandonaria um husky? Muita gente quer um, é difícil...
— Entendo... — conformou-se desapontado. Vendo a cara do Dudu, ela insistiu:
— Mas, olha, qual o teu nome?
— ...Eduardo.
— Dudu, se quiser, eu posso reservar algum pra você, caso apareça.
— Mesmo? Mas eu vou ter de pagar?
— Eu gostei de você, só por isso estou fazendo isso. Por ser público eu não posso reservar.
— Muito obrigado, de verdade, não sei como te agradecer — falou com o sorriso encantador que ele tem.
— Passa o seu número, é por onde eu o avisarei que chegou.
— Tudo bem.
[8:13 da manhã — Estação Ferroviária de Berno]
Muitas pessoas saíam ou voltavam para Berno nesse ano novo, a estação estava bastante movimentada e eu não encontrava o Frederich onde pedi, comecei a xingá-lo mentalmente de coisas como "mongo" ou "jacú". Até que ele apareceu atrás de mim:
— Lucas?
Virei no mesmo instante, e para a minha surpresa, ele estava muito diferente daquela época: alto, atlético, com um pouco de barba, junto de todo aquele estilo "café e chuva" que ele tinha. Apesar que ele odeia café.
— Fred? Nossa, você tá tão... — disse olhando-o de cima pra baixo.
— Então, o que tinha para me falar?
— Er... No caminho eu te digo... Ou quando chegar em casa... — adiei puxando-o pelo braço.
A aparição do Frederich nesta cidade representava um enorme perigo para mim também, eu sei muito bem o que alimentou e ainda mantém o ódio que um tem pelo outro. Eu apenas queria acreditar que tudo se resumiria a briguinhas dos dois. Seria bom demais para ser verdade.
Chegando em casa, ainda do lado de fora, eu ainda não havia abrido o bico, Frederich estava morrendo de curiosidade. Mas não foi necessário falar nada, assim que abri a porta, lá estava o Eduardo sentado numa poltrona com as pernas cruzadas, usando um roupão marrom meio aberto com as partes íntimas visíveis, enquanto batia palmas:
— Surpresa! — ironizou ainda batendo palmas.
E realmente surpreendeu. Frederich, furioso, indagou:
— O quê esse doente mental faz aqui?
— Era isso que eu queria te falar... — respondi um pouco nervoso. Eduardo interveio:
— Doente mental? Quem é o paranóico esquisito aqui? Não me faça soletrar um certo nome com as letras F, R, E, D, E, R, I, C, H, para tu entender!
— Argh! — bravejou Fred, que não queria sequer estar perto do Dudu. — Eu vou embora. — Segurei-o pelo braço, impedindo de sair. Fred havia gastado todo o dinheiro que tinha para fugir para cá, e eu não podia simplesmente deixá-lo congelar lá fora.
— E para onde pretende ir? — perguntei.
— Ficar na rua, congelando, é bem melhor. Agora me solta antes que outro dia meu fique um cu.
— Você sempre gostou de ser chupado, finalmente tem sua chance de virar picolé! — zombou Eduardo.
— Será um prazer — virou-se prestes a sair.
— Divirta-se morrendo!
— Pode deixar.
Aquilo me irritou, não ia ficar contra meu namorado, mas também não ia ficar contra meu melhor amigo ou aceitar tudo isso calado. Meu sangue ferveu tanto, que dei um puxão no Frederich pelo braço e o soquei no rosto, seguido de um sermão:
— Para de ser criança! Para de brigar por besteira, caramba! Deixa esse orgulho de lado! Vocês se separaram faz quase sete anos, então aceitem isso e superem como homens!
— Eita... — Eduardo nunca havia me visto agir assim antes. Nunca fui agressivo com ninguém, tampouco ele, que eu sempre tratei com bastante zelo. Logo em seguida, dirigi o sermão totalmente a ele:
— E você, para de por lenha na fogueira! O Fred está com problemas e vai ficar aqui sim! Ou pelo menos até conseguir um emprego e ter dinheiro para ficar em outro canto ou ir embora, ok?
Os dois ficaram em silêncio. É aquele ditado: Quem cala, consente.
Pelo resto do dia, os dois se trancaram em seus quartos. Foi um dia de por a cabeça no lugar, super silencioso. Eu sabia que as coisas entre eles iriam piorar dali em diante, principalmente quando um certo alguém souber do que está havendo, e vai saber.
Enquanto os dois dormiam, manhã cedo do dia seguinte, eu fui buscar um emprego.
Meus dias com o meu noivo e o meu amigo de infância, que porventura é o ex-namorado dele, estão só começando.
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