Ode ao Futuro
2 Olha o que você me fez fazer!
Notas iniciais
"Você me enoja!
Olha o que você me fez dizer!
Olha o que você me fez abandonar!
Olha o que você me fez sentir!"
[...]
Um trem chegara na cidade trazendo turistas nos primeiros minutos de sol do dia, um par de botas negras descia do mesmo e ia de encontro à neve do chão de Böderwald pela primeira vez; não que me incomode essa presença, mas ela pode trazer consigo muitos problemas, principalmente para o Du.

7 de Outubro, 5h da manhã.
Eu e o Dudu estávamos enrolados nos edredons bagunçados, adormecidos, após uma noite de longa de amor, carinho, uma pitada de masoquismo e sexo, foi quando meu celular tocou. Rapidamente virei-me para pegá-lo; na tela tinha o nome de Frederich, olhei para o lado e vi que o Eduardo não havia acordado:
– Frederich? — estranhei, até porque não era hora para uma ligação tão inesperada como de alguém como ele. Curioso, atendi: — Alô?
– Bom dia, gazelinha!
– Fred, o que você quer? — perguntei aos cochichos.
– Por que está falando assim?
– Não importa, diz logo o que quer!
– Adivinha onde estou.
– Ah, eu não faço a mínima ideia, onde você está?
– Estação ferroviária de Böderwald, e carregado de malas.
– O quê?! Quê cê ta fazendo aqui? — perguntei num susto que elevou meu tom de voz, um susto de preocupação, Fred é o tão odiado ex-namorado do Du e sem aviso prévio ele surge na cidade com aparente intenção de hospedar-se em minha casa. Será que fiz errado em esconder de todos que estou noivo e que vim morar aqui com ele? Não, isso está certo, só precisava resolver as coisas com eles. A conversa continuou:
– Vim passar uma temporada aqui contigo, tive umas complicações com meu tio tudo bem? E, estou sem dinheiro nem para táxi, poderia vir me buscar?
– Não, não! Ta tudo bem, fica aí quietinho que estou indo te pegar, mas tenho algo que preciso te falar no caminho e que você vai manter em segredo, como meu amigo, ta bom? — Neste instante olhei para o lado e lá estava o Eduardo sentado a encarar-me, dava para sentir o rancor mesmo sem ter dito nenhuma palavra. — Er... Tenho de desligar me espera aí, por favor! — disse desligando. Joguei o celular no colo do Eduardo que desviou o olhar para o aparelho e perguntou:
– Ele está aqui?
– Sim, está. — respondi me sentindo um lixo, como se estivesse sendo repreendido.
– E tu está indo buscar ele. Pretende colocá-lo em algum hotel? Não temos dinheiro para isso e tu sabe.
– Eu vou trazê-lo para cá. — cada resposta era como enfrentar de cara uma fera sedenta por sangue.
– Tudo bem, vá. — permitiu-me levantando e vestindo uma cueca que estava no chão, em seguida caminhando até as gavetas e pegando botas e algumas roupas de frio, e isso me preocupou bastante:
– Ei, vai sair?
Mas ele não me respondia, vestiu-se rapidamente e foi até a porta; até tentei me segurar, porém inevitavelmente levantei, ainda pelado, e corri até a sala em sua direção:
– Onde vai?
– Um dos nossos planos envolvem adotar dois huskys, um macho e uma fêmea. Pois bem.
– Eu te amo.
– Eu também. — respondeu-me junto do bater da porta.
Eu também precisava me arrumar pois Frederich estava a minha espera no terminal e ainda não sabia como explicar o fato de que eu sou atualmente o noivo do seu ex. Quando começamos nossos planos para o futuro, cinco ou seis anos atrás, decidimos que seria melhor manter em segredo pois o Eduardo ainda gostava do Fred e sabia que era algo impossível, não esperávamos que esse segredo se mantivesse firme e forte por tanto tempo. Após me vestir, parti para o terminal.
Enquanto isso, num retiro de adoção de animais abandonados, em meio a uma multidão, Eduardo buscava informações com uma atendente:
– Olá, estou procurando um casal de huskys.
– Eu também estou. — riu docilmente.
– Ah, é cliente?
– Não, né? Olha, estou de crachá e uniforme, achou que fosse algum fetiche? — respondeu a atendente segurando o crachá.
– Desculpa! — riu o Eduardo. — Eu estava preocupado com uma coisa e acabei nem prestando atenção.
– Tudo bem, é normal hoje em dia ficar preocupado, não é?
– Parece que sim, então quer dizer que não tem os huskys?
– Claro que não! Isso é um retiro de animais abandonados, quem abandonaria um husky? Se quiser algum, melhor comprar.
Desapontado, Eduardo disse:
– Ah, que pena, acho que vou indo... Obrigado por me atender.
– Não, espera, olha se quiser eu posso reservar algum para você caso apareça, que tal? — sugestionou puxando-o pelo casaco.
– De verdade? Nossa, nem sei como te agradecer! — respondeu grato e animado.
– Qual o seu número de celular, fofo?
– O quê?
– Teu telefone, como vou avisar se não por ele? E-mail?
– Ah, não não, telefone está bom... A propósito, qual o seu nome?
– Elior, mas pode me chamar de Ellis.
[...]
Chegara perdido no terminal em meio ao monte de gente enquanto procurava por Frederich, até que o mesmo me surge por trás, apertando meu ombro e chamando-me:
– Lucas!
Virei no mesmo instante com uma surpresa e tanto, ele estava incrivelmente lindo:
– Fred, uau!
– Então, o que tinha para me falar? — Fred perguntou.
– No caminho eu te digo! — disse puxando-o pelo braço. — Ou então quando chegarmos em casa...
O retorno de Frederich na vida do Eduardo representava perigo para mim também, eu sei muito bem o que alimentou e o que mantém esse ódio. Eu apenas queria acreditar que tudo fosse se resumir em brigas dos dois.
Seria bom demais pra ser verdade.
"Bom, já faz um longo tempo,
Um longo tempo agora
Desde que o vi sorrir.
E irei jogar fora o meu medo
E irei jogar fora meu tempo
E em um ano, um ano ou mais
Isto deslizará para o mar."
Chegamos em casa eu e o Fred e eu ainda não havia abrido o bico, ele aparentava estar realmente curioso mas não foi necessário ter de explicar, a primeira coisa ao abrir a porta foi o Eduardo sentado de pernas cruzadas numa poltrona enquanto vestia um roupão de banho com partes íntimas visíveis enquanto batia palmas dizendo: Surpresa!
E realmente surpreendeu Frederich, que furioso, indagou:
– O que esse doente mental faz aqui?
– Era isso que eu queria te falar... — respondi um pouco nervoso com medo do que poderia acontecer. Eduardo então interveio:
– Doente mental? Quem é o paranoico esquisito aqui? Não me faça ter de soletrar o nome "Frederich" para você entender.
– Argh! — Fred bravejou. — Eu vou embora.
Segurando-o pelo braço e fechando a porta, eu o impedi de sair, para vir até Böderwald ele gastou todo o dinheiro que possuía, não havia como deixar meu amigo simplesmente ir embora e ficar nas ruas geladas desta cidade sem rumo:
– E para onde pretende ir? — perguntei. — Você só tem suas roupas!
– Ficar na rua, congelando, é bem melhor. — respondeu. — Agora me solta, antes que meu dia fique um cu mais uma vez.
– Divirta-se morrendo! — zombou Eduardo.
– Pode deixar.
Aquilo me deixou muito irritado, tanto que não pude controlar minha mão que socou Fred no rosto seguido de um sermão de sangue quente:
– Para de ser tão orgulhoso, caramba! — gritei.
– Eita...! — Eduardo nunca havia me visto agir agressivamente com alguém, e principalmente com ele que eu tratava com tanto zelo, era normal ficar surpreso e ao mesmo tempo animado; entretanto, não o safei do sermão, e apontando em sua direção, disse:
– E você para de por lenha na fogueira! — retornando a palavra para Frederich que passava a mão no rosto por causa do soco eu continuei: — Você vai ficar aqui sim! Vai ficar até conseguir outro lugar para ficar ou conseguir dinheiro para voltar!
Os dois permaneceram em silêncio, e como diz o dito: "Quem cala, consente". Os dias com meu noivo e seu ex-namorado, que porventura é meu amigo de infância só estavam começando, eu sabia que tudo iria piorar entre eles dali em diante, principalmente quando um certo alguém se intrometer mais uma vez na nossa vida. Pelo resto do dia eu fui procurar emprego enquanto os dois se trancaram em seus quartos em silêncio.
The Dog Days are Over
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