Odd Symmetry
2 Relíquias
Notas iniciais
O sol do fim da tarde estava abrasador. Elise voltava de sua aula de violoncelo, cansada, depositando todos seus esforços em suas pernas que resistiam em fraquejar. Já que resolveu passar pela praia para ver seu melhor amigo, andava descalça pela calçada quente por ter ficado exposta ao sol durante todo o dia e segurava em sua mão direita suas sapatilhas favoritas, já surradas e soltando a sola gasta. No outro braço carregava seu violoncelo enquanto tentava — com a mão esquerda — tirar alguns fios rebeldes que ousavam atrapalhar-lhe a visão.
Elise pegou em seu bolso e pôs seu fone de ouvido, logo depois colocou uma música agradável para tocar em seu celular. Parou embaixo da sombra de um coqueiro e esfriou os pés. Depositou suas sapatilhas no chão e começou a limpar seus calçantes com a mão livre. Ao começar a calçar seus calçados, ouve alguém a chamar por trás da música animada que agora tocava. Assustada, retira rapidamente o fone dos ouvidos e olha para trás, com apenas um pé na sapatilha, pega rapidamente a que ainda estava no chão e começa a correr.
As ruas vazias pela qual passou a amedrontaram ainda mais. Não sabia quem havia a chamado ou se fora apenas suas imaginação. Não vira ninguém não importava para qual lado olhasse. Ao chegar em casa, correu para o segundo andar e largou as sapatilhas no chão da entrada, próximas ao tapete oriental que sua mãe herdara de seus bisavós japoneses.
Ao chegar em seu quarto, largou o celular em cima da bancada e nem percebeu que ele ainda estava reproduzindo as músicas de sua playlist favorita. Elise só percebeu que estava sozinha em casa quando olhou para seu relógio na parede, em cima de sua cama, e viu que não passava nem das cinco horas da tarde. Ainda assustada, caminhou vagarosamente até o espelho e encarou sua face. Seus olhos aparentavam cansaço e as olheiras estavam ainda mais arroxeadas do que quando ela se olhou no espelho antes de sair da sala onde fazia as aulas de violoncelo.
Antes de seguir para o banho, largou seu instrumento em cima da cama e pegou, sem escolher muito, um vestido que estava pendurado em seu cabideiro.
Durante o banho morno, tentou relaxar. Ao lavar seus cabelos encaracolados, o som do chuveiro abafou novamente o que ela pensou ser alguém a chamando. Preocupada e novamente muito assustada, desligou rapidamente o chuveiro, esticou a mão para pegar sua toalha e ao, sair do banheiro, olhou para os dois lados do corredor antes de perguntar:
– Tem alguém aqui?
Sem respostas, voltou para o banho.
*****
Desesperada, Elise acordou em sua cama, com o cabelo ainda molhado e vestindo o vestido que não se lembra de ter colocado em si mesma. Meio tonta, levanta da cama e segue até a porta. Ao abri-la percebe que a escuridão de seu quarto não era só de lá. Antes de sair, acende a luz deste e olha para o relógio. Passavam-se das oito, mas não havia sinal algum de sua mãe em casa. Preocupada, resolve descer. Enquanto caminhava no breu até o interruptor das luzes do corredor, podia ouvir o barulho da chuva caindo lá fora. Ao tentar ascender a luz do corredor, acaba percebendo que teve novamente uma falha no disjuntor. Indignada, volta para o quarto e tateando tudo por onde passava, procura pela gaveta em que estaria sua lanterna. Ao achar seu telefone, Elise o usa para procurar mais rapidamente a lanterna, percebendo então que ele ainda estava reproduzindo as músicas com a qual planejava voltar para casa escutando.
Esse dia estava arrancando-lhe a sanidade. Além de escutar sempre alguém a chamando, não percebera que esqueceu o celular ligado e também nem notara que trocara de roupa e dormira esperando sua mãe chegar do trabalho.
Assim que achou a lanterna, Elise desceu com cuidado os degraus que ligavam o segundo ao primeiro andar. Ao chegar na sala de estar e encarar a enorme janela sente um calafrio ao sentir alguém a observando. Amedrontada, aponta a lanterna para a janela e consegue ver um vulto esgueirar-se em fuga para seu quintal, seguindo por detrás dos arbustos que haviam em volta de toda a casa.
Após subir, agarra rapidamente seu celular e disca apressadamente o número de seu melhor amigo. Aterrorizada, Elise não espera Anthony dizer alô e já começa a despejar tudo que estava acontecendo:
– Tem alguém aqui em casa, eu vi alguém indo em direção ao quintal, está chovendo cada vez mais forte, não acho a mamãe em lugar nenhum, nem sei se ela veio pra casa. Estou sozinha e não tem luz aqui em casa.
– Elise? Calma, estou indo para sua casa. — pronuncia preocupado, Anthony, enquanto ela se encolhia em cima da cama, não conseguindo enxergar nada ao seu redor, poupando um pouco as pilhas caso precisasse delas mais tarde.
– Estou com medo! Não sei se desço, se tranco a porta do meu quarto, se tento ligar para a polícia...
– Estou indo, fica calma. Tranca a porta do seu quarto, aqui também está chovendo, vou tentar ir de carro. Até daqui a pouco.
– Ok... — grunhe Elise, desconfiada de que Anthony vá demorar.
Levanta então, meio zonza, e caminha até a porta do quarto, sem conseguir respirar, sentindo no ar todo o desespero da situação em que estava.
Ao tentar trancar a porta é detida por alguém que a empurra contra ela. Para conter o grito e todo o pavor que estava a enlouquecendo, esconde-se na escuridão e tenta seguir para debaixo de sua cama até ouvir:
– Elise? Elise, está ai?
O som calmo da voz de sua mãe a faz despejar todo o temor em lágrimas.
– Mamãe? Mamãe? — gritou na escuridão, logo depois abriu os olhos quando viu a tela do celular de sua mãe iluminando seu rosto a fazendo suspirar, sentindo-se tranquila ao saber que não estava mais só.
– Levante-se, Elise, e diga-me o que aconteceu.
Ao levantar-se, com a ajuda da mãe, tenta manter-se em pé e bonança.
– Mamãe, havia alguém aqui em casa. E-eu estava tentando ir até o po-porão para ver se o problema era de novo no disjuntor, mas antes de chegar lá eu vi alguém na ja-janela e voltei correndo para o quarto. — diz Elise tentando recuperar o fôlego e gaguejando de nervoso.
– Nós precisamos de uma maior proteção aqui em casa... Eu preciso te manter protegida. — pensa alto, Cate.
Elise e a senhora de Paula seguem até o primeiro andar apenas com a iluminação do celular desta. Ao chegarem na sala, Elise abraça sua mãe, tentando se controlar e não olhar para a janela novamente. De repente, ouve novamente alguém a chamar, com o som abafado pela chuva e pelos trovões. Frustrada por nunca conseguir saber se isso era verdade ou algo que ela apenas imaginava, ignora e tenta mantar a sanidade.
O chamado continua e desta vez ela reconhece a voz. Era Anthony. Apreensiva, corre para a porta da frente sem perceber que sua mãe estava molhada e que, se ela tivesse vindo da garagem, não teria se molhado.
Ao abrir a porta, vê o carro do pai de Anthony estacionado ainda com os faróis acesos e corre para abraçá-lo. A chuva envolve os dois e Elise nem percebe que Anthony está tremendo de frio.
– Eu pedi pra você ficar trancada no quarto — sobrepõe-se Anthony, segurando firme nos braços de Elise e a encarando enquanto soluçava, devido ao excesso de tempo embaixo da chuva.
– Está tudo bem, minha mãe chegou em casa, muito atrasada, mas chegou. Agora entre, você precisa se aquecer. Estão tão molhado! Esqueceu de fechar o teto solar?
– Sim, na pressa. Eu vim o mais rápido que pude.
Eles entraram e perceberam que a mãe de Elise estava no porão, tentando religar o disjuntor.
– Fique aqui, vou pegar uma toalha para você lá em cima e pegar a lanterna.
*****
Percebendo que a mãe demorara demais tentando fazer o disjuntor voltar a funcionar, Elise resolve descer para ajudá-la. Anthony a seguiu.
Enquanto Elise tentava acertar o disjuntor, Anthony observava todas as caixas com as relíquias da família que a senhora de Paula não usava por serem muito preciosas.
– Estou ficando com fome, espero que conserte logo isso para podermos degustar o que sua mãe estiver preparando lá em cima... — diz Anthony enquanto Elise quase pode ouvir o estômago de seu amigo implorar por comida. — Posso abrir umas caixas?
– Acho que pode, mas tome muito cuidado com tudo que estiver dentro dessas caixas, são muito importantes para a minha mãe. — responde Elise tentando ajustar o disjuntor com apenas uma das mãos enquanto com a outro segurava a lanterna.
Anthony então começa a mexer em alguns livros antigos que estavam na caixa mais próxima de onde Elise estava tentando fazer a luz voltar, aproveitando um pouco da luz da lanterna.
– Finalmente, descobri o que aconteceu... — fala Elise, perdida em pensamentos distintos dos quais ela teve durante todos os momentos de desespero pelo qual passou.
Alguns segundos depois, os dois amigos puderam ouvir a senhora de Paula comemorando da cozinha a volta da energia.
Antes de voltarem para a sala, Anthony a chama para ver os livros que ele encontrou.
– Elise, olha só... Nunca ouvi falar desse livro do seu bisavô, será que ele nunca publicou? Que só existe esse? Deve valer muito...
Elise se aproxima — aponta a lanterna para o livro na mão de Anthony — e analisa a capa verde musgo com detalhes em dourado, uma borda também em dourado e o nome apagado.
– Estranho... O nome, está apagado. — Após voltar dos seus devaneios, Elise percebe que eles ainda estão no porão, com apenas a luz da lanterna iluminando o local. — Vamos subir que você está com fome, leva o livro que qualquer coisa nós perguntamos para minha mãe se ela sabe algo sobre esse livro misterioso do meu bisavô.
*****
A madrugada chegou lenta e silenciosa. Elise nem pensava mais nos acontecimentos anteriores. Após jantarem, Anthony teve que ir embora. A chuva já havia parado e Elise e Cate resolveram assistir televisão juntas. Não faziam mais nada juntas há tempos, desde que seu pai fora embora, há pouco menos de três meses. Estavam vendo um filme de terror, abraçadas. Elise encostava sua cabeça no ombro da mãe e não parava de pensar no quanto sentiu medo enquanto estava ali, sozinha. Resolveu, então, perguntar a mãe porque ela se atrasou. A resposta da mãe não veio, ela estava ocupada prestando atenção no filme. A senhora de Paula começou a acariciar os cabelos da filha que estavam com ondas leves devido ao cabelo pesado que não deixava os cachos ficarem definidos.
– O que fez no cabelo de diferente hoje? Está tão leve e bonito... — pergunta a mãe, sorrindo para a filha, durante o anúncio.
– Dormi com ele molhado. Devo sempre fazer isso? — responde a filha sorrindo.
– Deixa de ser boba... Por que dormiu com ele molhado, afinal?
– Cai no sono sem nem perceber...
Depois de alguns segundos em silêncio olhando para o nada, com os olhos arregalados e a boca entreaberta, Cate volta a olhar para a filha com a mesma expressão aterrorizada no rosto.
– Acho que você não vai há tempos no médico. Que tal marcamos uma sessão com a terapeuta? Preciso te proteger...
– Como assim me proteger, mãe? E... eu não gosto de fazer terapia, eu sempre saio das sessões nervosa e meio que alienada, não sei...
Quando Elise olhou para a mãe esperando a resposta, percebeu que ela já estava prestando atenção no filme que já voltara a passar na televisão.
Decepcionada, Elise também volta a assistir o filme, já sentindo o sono chegar.
*****
Antes de ir dormir, Elise resolveu tomar um copo de leite. Sua mãe já tinha dado boa noite e subido para seu quarto. Ao chegar na cozinha, Elise encontrou o livro desconhecido de seu bisavô em cima da bancada, onde tinha colocado quando ela e Anthony subiram do porão. Resolveu, então, pegar o livro e levá-lo para a sala, junto com o copo de leite quente. Sentou-se na mesa e começou a folheá-lo apenas com a luz dos abajures — também herdados de seus bisavós — que rondavam a sala.
Ao folhear, percebeu que o livro estava em inglês e seu bisavô era mais conhecido por seus livros em japonês, idioma natal deste. Coincidentemente, a história falava de uma garota que ouvira diversas vezes alguém a chamando. Fissurada pela história estranhamente parecida com a sua, Elise começa a subir para o seu quarto com o copo de leite e o livro ainda aberto em suas mãos, enquanto o devorava, nem olhara para o caminho. Depois de apagar as luzes do corredor e ascender a do seu quarto, Elise sentou-se na bancada da sua janela, apoiou o copo na bancada e pôs o livro em seu colo. Bateu palmas para as luzes de seu quarto apagarem e começou a leitura usando apenas as luzes da sua varanda e dos postes da rua. Já era quase de dia quando Elise chegou na página sessenta e quatro do livro e uma foto caiu em seu colo. Ao pegar e analisar a pessoa na foto, assustou-se com a aparência parecida com a sua, os olhos cinza e os cabelos negros, porém lisos, presos em um coque. Olhou para o relógio em cima de sua cama e percebeu que só tinha duas horas de sono. Sem dar muita atenção a foto que achou, usou-a para marcar a página em que havia parado a leitura e seguiu para sua cama.
Depois de alguns minutos, caiu no sono.

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