Odd Symmetry
6 Passado
Notas iniciais
Elise tentou conter as lágrimas. O que ela sentia era uma mistura de sensações. Estava feliz por ver seu pai novamente, após mais de dois meses separados, mas também, não entendia ainda porque ele invadiu sua casa desse jeito.
– Pa-pai? — gagueja, não acreditada. Seu pai estava no mais galanteador de seus trajes, com um terno preto e uma gravata vinho. Seu traje de trabalho.
– Olá, meu amor, está bem? — questiona ele, estendendo uma mão para ela. Desnorteada, nega o auxílio de seu pai e leva uma das mãos a cabeça. Assim que tira, vê sua mão vermelha de sangue. Bateu com a cabeça na pilastra. Não sabia ainda como explicaria aquilo para sua mãe. A sala estava um caos e ela ainda tinha muitas perguntas em mente.
– Pai, o que você está fazendo aqui...? Por que você... — Elise aumentou o tom de voz. — Por que você nos deixou?
Novamente, Elise segurou o choro. Não aguentava mais se sentir tão frágil.
– Elise, há muitas coisas que eu devo te explicar... Pequena, senti sua falta — Elise viu mentira nos olhos do pai.
– Isso que você fez... Esse jeito que você chegou... Pai, você está maluco? Você poderia ter me matado! Co-como você fez aquilo? Eu voei uns três metros...
– Eu não tenho muito o que te explicar agora, pois daqui a pouco você será capaz de fazer isso, mas eu estou aqui a procura da sua mãe, onde ela está? — Ao mesmo tempo que seu pai parecia calmo, parecia nervoso e ansioso. Imediatamente, Elise tentou inventar e se lembrou de algo que poderia enganar seu pai. Tudo que ela queria era que aquilo não passasse de um sonho.
– Eu ia levar aqueles livros para a biblioteca e a encontraria lá... — diz Elise, apontando para uma caixa de papelão ao lado de onde a porta de vidro da entrada deveria estar.
– Interessante... — Seu pai não conteve um sorriso magano no rosto. Na mesma hora, seu pai pega a caixa de papelão e sai pelo vão que deixou entre a sala e a varanda.
Elise, sentindo uma forte dor de cabeça, começou a se arrastar, na tentativa falha de sair do meio dos cacos de vidro. Enquanto tentava sair dali, feriu sua perna — rasgando sua calça jeans — e, para estancar o sangue, tirou sua blusa branca que, imediatamente após ela deter o ferimento, manchou-se de vermelho.
Elise nem percebeu quando Anthony entrou pelo buraco da porta. Com os olhos esbugalhados, não conseguia parar de olhar para ela, que estava apenas de sutiã.
– O-o que a-aconteceu? — perguntou, muito assustado, Anthony. Ele estava ali, pois ouviu o estrondo pela ligação que Elise deixou em aberto.
– A-a-ajuda... — consegue dizer Elise, segundos antes de desmaiar.
*****
No corredor do hospital, Anthony estava aflito a espera de alguma notícia. Tentou ligar para a mãe de Elise diversas vezes, porém seu celular só dava ocupado, mas, pela hora, ela já deveria estar em casa. Preocupado com o que ela pensaria do estrondo e também sem saber muito o que aconteceu, Anthony não sabe se deixa Elise sozinha e vai até sua casa ou se, então, continua apenas tentando ligar para a senhora de Paula.
Minutos depois, o médico aparece e diz que Elise está bem e que, para estancar o sangue, tiveram que fazer uma pequena suturação. Menos preocupado, Anthony segue até a casa de Elise, a procura de Cate. Ao chegar lá, percebe que a casa está vazia. Ascende a luz da sala, sobe as escadas e ascende a luz do corredor. Ao chegar no quarto de Elise, percebe que todos seus pertences estão completamente bagunçados, como se tivesse passado um furacão por ali. Isso desperta seu interesse. Sua mãe não está lá, não atende o telefone, a casa foi invadida e Elise foi atacada...
A única coisa que Anthony pensava era no quanto ele fez sua amiga sofrer. Não bastasse tudo isso pelo o que ela estava passando. Sua casa ser invadida, ter sentido alguém na sua casa ontem... Ele se sentiu terrivelmente péssimo.
Ao sair do quarto de Elise, segue até o quarto da senhora de Paula e também encontra o quarto todo revirado. Imediatamente, desceu correndo as escadas e verificou novamente se tudo da sala estava em seu devido lugar. Não dava para ter uma perfeita conclusão, pois a sala estava um caos, mas percebeu que os sofás estavam em posições diferentes. Desesperado, Anthony volta para seu carro e corre para o hospital, preocupado com a vida da amiga.
*****
Chegando no hospital, Anthony encontra com a senhora de Paula e um alívio preenche seu rosto e seu coração.
– Olá, senhora de Paula. Perdoe-me por não te avisar, eu não consegui falar com você, pois sempre que eu ligava para o seu celular dava ocupado...
– Tudo bem, só me preocupo com ela. Ela tem que estar sã e salva. — Anthony estranhou a resposta, mas entendeu, de certa forma, pois mães sempre são assim, sempre se preocupam mais com os filhos do que com si próprias.
– Ela... Ela está bem, o médico disse que ela só precisou de uma pequena suturação. E... senhora de Paula... Tem algo que eu preciso te confidenciar. Sua casa foi invadida. — Anthony engoliu em seco três vezes antes de conseguir dizer tais palavras, mas, por outro lado, Cate não demorou nem um minuto para digerir tal situação.
– Eu sabia que eles a achariam de novo um dia... — sussurra, Cate.
– O quê...? — pergunta confuso, Anthony. Tudo o que ele queria era pedir perdão a sua melhor amiga.
– Nada, o importante é que eles não a pegaram...
Anthony ignora e tenta entender que ela só está falando isso, pois está em transe.
– É... senhora de Paula, desculpe se estou sendo indiscreto, mas... Como a senhora soube que Elise estava no hospital? — pergunta Anthony cruzando os braços e sentando-se num dos bancos de espera.
– Elise não foi na biblioteca, como eu pedi, então a senhora Hill me avisou. — responde Cate, logo depois indo até um bebedouro e enchendo um copo com água.
– Que ela estava no hospital e em qual hospital ela estava? Mas... Como ela soube?
Com o silêncio da senhora de Paula como resposta, Anthony entende que deve parar de tentar roubar informações dela.
*****
Elise acorda apreensiva em um quarto todo branco e com a perna dolorida. Recorda-se, então, da invasão de seu pai a sua casa e do pavor que passara. Ainda atordoada, percebe que deve estar no hospital, lembrando de que pediu ajuda a Anthony antes de ter um apagão. A dor que sentia na cabeça era indescritível. Nas costas, um ardor passava por sua espinha. Não sabia que horas eram, o que sua mãe pensara da invasão e nem se tinha passado muito tempo desde o incidente.
Ao ver o botão ao lado da cama para chamar a enfermeira, o aperta imediatamente. Em poucos minutos, lá está uma, abrindo a porta e ascendendo a luz.
– Precisa de alguma coisa? — pergunta a enfermeira, após cruzar os braços.
– Água... — começa Elise, envergonhada. — E... saber que horas são e se tem alguém comigo. — continua após ver que a enfermeira já estava quase de saída.
Após o que pareceu uma eternidade, a mesma enfermeira volta com um copo d'água em cima de uma bandeja e Anthony e sua mãe atrás dela.
– A propósito, são sete horas da noite. — Enfim, ela sai do quarto e fecha a porta atrás de si.
– Oi... — diz Anthony, envergonhado. Ele não sabia como pediria desculpas a ela e não fazia ideia de como ela estaria psicologicamente após isto tudo. Ele sabia que ela já tinha feito terapia anos e anos seguidos e agora se arrependia de maneira brutal por ter contado isso a seus amigos que só o tinham como amigo para saber sobre Elise para poderem terem motivos para escarnecerem dela.
– Oi. — responde Elise, ríspida.
– Meu amor... Como você está? Você sabe quem fez aquilo? — questiona Cate, sentando-se na cama, ao lado da filha e, logo depois, segura a mão dela e acaricia seu rosto, descendo a mão pelos seus cabelos e fazendo um caracol no dedo indicador.
– Mãe, por incrível que pareça, foi o papai... — A senhora de Paula não pode conter e imediatamente sua boca formou um perfeito o, mas, no fundo, ela desconfiava de que ele voltaria e tramaria algo do tipo para amedrontar a filha.
– Como você conseguiu se livrar dele? — pergunta Cate, com os olhos arregalados.
– Eu disse que você estaria na biblioteca com a senhora Hill e que eu devia entregar aqueles livros para ela e te encontraria lá. — responde Elise, com dificuldade em respirar, devido a dor nas costas, que desconfiava estar sentindo devido ao choque contra a pilastra.
– Boa menina, eu sempre soube que você seria esperta e faria o certo... — responde Cate, logo depois dando um abraço na filha. — Sabe que eu te amo apesar de tudo, não é?
– Sim... Eu sei.
Assim que elas se soltam do abraço, a senhora de Paula levanta da cama e encara Anthony, percebendo que há um clima estranho no ar, volta a encarar a filha e pergunta sem fazer barulho, o motivo daqueles olhares de ódio que Elise estava lançando na direção de Anthony.
Elise não vê problemas em responder a mãe em voz alta enquanto arrosta o amigo, que continua encostado no batente da porta, acanhado:
– Ele tem uma boca muito grande e não percebe os danos que causa com isso.
Na mesma hora, Cate o encara e lança um olhar de desaprovação. Anthony não perde tempo, engole em seco e entende o recado, pedindo desculpas a Elise imediatamente:
– Perdoa-me, Elise, eu, eu juro que não fiz por mal, eu apenas pensei que eles realmente fossem meus amigos e que, só estavam interessados em serem seus amigos também. Eu pensei que eles estavam procurando coisas em comum com você.
– Seu idiota... — murmura Elise, cruzando os braços.
– Elise... — agora Cate manda um olhar de desaprovação para a filha.
– Mãe... — reclama, Elise.
– Desculpe-se também pelo seu palavreado ruim. Já te falei que sentir raiva só irá fazer você ter que ter mais terapia. Você tem que controlar seus sentimentos, Elise, não quero que sofra tanto com eles.
Elise sempre achou que as terapias não a levariam a nada, pois sempre que saia de uma sessão, parecia que se esquecia de metade da sua vida, mas, mesmo assim, sua mãe a obrigou a fazer dos onze aos treze anos de idade e, mesmo depois que a deixou parar, continuava falando as mesmas coisas que a terapeuta falava, até chegar o momento da sessão em que ela não sabia o que acontecia...
– Desculpa... — Elise nem espera o amigo dizer a ela que a perdoa e logo continua a falar. — Agora, mãe não me obrigue a ir a terapeuta de novo, por favor... — implora Elise, com as mãos juntas, como se rezasse.
Depois de pensar por alguns minutos, de braços cruzados e cara carrancuda, finalmente a senhora de Paula sede aos desejos da filha.
– Tudo bem... Mas não se esqueça de controlar seus sentimentos! Rancor não a levará a nada. Agora eu vou deixá-los a sós para se reconciliarem.
Mesmo minutos após a senhora de Paula sair do quarto, os amigos não conseguiram se encarar nem por um instante e, os pensamentos dos dois eram de remorso, dor e tristeza.
– Eu... Eu juro que vou parar de falar com eles. — promete Anthony. Elise finge que não liga para a promessa do amigo, cruza os braços e encara a janela trancada.
– Por favor, Elise, me perdoa... — implora, o amigo, aproximando-se dela e tentando reconciliar-se da maneira mais singela e verdadeira possível.
– Eu preferia ser salva por outra pessoa. — desata Elise, trocando de assunto. — Preferia que o vizinho me achasse lá, não você.
– Mas eu sempre fui seu salva-vidas pessoal... — diz Anthony, de maneira triste, porém sem esconder um sorriso que brincava em seus lábios. A história que deu origem a esse desígnio de Anthony era cômica.
– Esse é o problema, eu só tenho você. — confessa Elise, ficando cabisbaixa.
– Esse era o ponto no qual eu queria chegar. Eu que sou seu melhor amigo, Elise. Eu que sempre estive e vou estar ao seu lado. Me perdoa?
– Ok... — responde a garota, sem muito ânimo.
No mesmo instante, Anthony aproximou-se ainda mais de Elise e a abraçou inesperadamente.
*****
Na mesma madrugada, Elise voltara para a casa. Com medo, senhora de Paula imediatamente falou para Anthony convidá-la para Elise dormir em sua casa e que resolveria o problema da invasão na manhã seguinte.
Elise, então, seguiu para a casa de Anthony. Ele estava novamente usando o carro do pai, mesmo tendo levado uma bronca por ter molhado o carro todo na noite anterior.
Fazia já algum tempo que ela não frequentava aquele local. Ao chegarem, na calada da noite, Tobby acorda os pais de Anthony com seus latidos de alegria por ver Elise novamente.
– Oi, Tobby, que saudade! — acaricia Tobby, Elise, o pastor alemão de Anthony. Aquela casa lhe trazia lembranças boas e ela sentia falta do tempo em que ela e Anthony eram realmente melhores amigos. Fazia alguns anos em que Elise passou a desconfiar da amizade com ele.
– Estou preocupada com minha mãe, com nossa casa... — desabafa Elise, enquanto desaba no sofá e apoia as pernas na mesa de centro. — Ela vai dormir lá sozinha? Você sabe?
– Não... Ela não falou muito, só aquilo que você também ouviu.
– Ela não deveria ter ficado lá sozinha... — sussurra Elise, acariciando Tobby que estava sentado no seu lado no sofá. Anthony está de braços cruzados, esperando Elise ter vontade de levantar e ir logo para o quarto, seus olhos estavam mareados, o sono lhes fizeram perder o brilho.
– Ela deve saber o que está fazendo.
Elise encara Anthony e, também com o olhar cansado, chega para o lado e desocupa o sofá, como se pedisse para ele sentar-se ao seu lado. Desanimado e letárgico, Anthony só consegue pensar em ir para a cama e não jogar uma noite de sono fora, mas ele conhece a amiga que tem e sabe que, mesmo com sono, só consegue dormir quando é estritamente necessário.
– Me abraça de novo? — pergunta Elise, assustando Anthony. Ele tenta lembrar a última vez que a abraçou sem ser horas atrás. Ele não conseguia pensar em nenhuma vez. Elise e Anthony sempre tiveram uma amizade fria, sem companheirismo, mas, forte e que parecia ser duradoura. Agora, quando eles começaram a se aproximar mais sentimentalmente — algo que Anthony sempre quis, como até já tinha a confidenciado que gostava dela — a amizade deles começou a enfraquecer.
Anthony envolveu Elise em seus braços e também apoiou os pés na mesa de centro. Elise nunca podia fazer isso em sua casa, pois a mesa de centro de sua casa era também herança da família, por isso, sua mãe zelava com todo o desempenho possível.
Elise olhou o amigo nos olhos e percebeu que ele estava quase os fechando. Sorridente, Beija seu nariz e se prepara para fazer um pedido:
– Me promete que nunca mais vai me enganar, mentir para mim, culpar-me por ter te afastado de todos os seus outros amigos?
– Eu nunca te culpei por ter me afastado dos meus amigos. Eu fiz isso por conta própria. — assume Anthony, encostando a cabeça no encosto do sofá e passando seu braço esquerdo pelos ombros de Elise novamente, após ter retirado por se sentir acanhado.
– Por estar apaixonado por mim. — continua a se culpar, Elise. Ela sempre fazia isso, era comum para ela achar que sempre fazia tudo dar errado. Desde pingar uma gota de tinta no tapete até seu pai ir embora.
– Então, você não tem nada a ver com isso... E começando a falar com você, eu me afastei deles sim, mas acabei descobrindo que eles não eram meus amigos de verdade.
– Sim... Eles foram tão maus...
– Agora eu posso ir dormir? — pergunta quase implorando, Anthony. Elise sorri e encosta a cabeça em seu ombro. Vagarosamente, dedilha seus dedos sobre a coxa esquerda de Anthony até chegar em sua mão. Impulsivamente, a agarra e Anthony corresponde.
– Deixa eu te perguntar uma última coisa? — pergunta, Elise, encarando as duas mãos entrelaçadas. Seu sorriso saíra de seu rosto.
– Ok... — resmunga Anthony, com seus olhos azuis fechados e a cabeça encostada sobre a cabeça de Elise. Seus longos cabelos loiros caíam sobre os olhos de Elise e faziam cócegas em sua testa.
– Você ainda gosta de mim... Como antes...? — envergonhada, Elise desfaz o nó nas mãos dos dois e cruza os braços, logo depois descruza novamente, não sabendo que posição fazia para receber qualquer que fosse a resposta.
– Acho que cada vez eu gosto mais. — confidenciou Anthony, mas, na verdade, ele estava era suplicando por uma noite de sono. Amanhã ele teria que acordar cedo para ir à escola, diferente de Elise, que ficaria descansando, na casa de Anthony, sendo bem cuidada pelos seus pais. — Agora vamos subir, escovar os dentes e ir dormir.
– Não. — diz Elise, convicta. A resposta da pergunta que Elise fez mudou tudo sobre o que ela pensava sobre Anthony. Antes, pensava que nunca iria gostar dele do mesmo jeito que ele gostava dela, até tentou, entretanto, não conseguiu, pois o achava bobo, mesmo sendo dois anos mais velho que ela e, agora, já estava no terceiro ano enquanto ela estava no segundo. — Vamos dormir aqui, juntos...
Anthony não queria decepcioná-la, porém, ele não sentia mais nada pela amiga, que, agora, era só isso mesmo para ele. Forçado a ficar, Anthony cai no sono ao lado dela, mas acorda no meio da noite, preocupado em como irá dizer a verdade para Elise. Antes, era bobo e se apaixonou por ela só porque fora seu par em um trabalho em grupo — escolhido pelo professor para feira da escola -, todavia, com o tempo, viu que ela tinha pensamentos diferentes do dele a cerca da vida, mas já tinham criado um vínculo e continuaram sendo amigos.
Agora que Anthony estava começando a refazer suas amizades antigas, se vê encurralado entre terminar um vínculo já balançado e reparar outro, despedaçado com o tempo e a rivalidade.
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