Odd Symmetry
7 Delírios
Notas iniciais
Chegou no seu quarto, se jogou na cama e começou a sentir lágrimas quentes escorrerem de seus olhos, não sabia o que estava acontecendo com ela, só queria que aquelas coisas parassem, estava com medo e assustada com tudo. Daquela vez não tinha mais sua mãe para apara-la, estava sozinha e as coisas estranhas tinham começado a voltar, não podia nem contar para seu pai que ele não acreditava nela.
Ouviu alguém batendo na porta do seu quarto e logo depois a voz de seu pai pedindo para ela abrir a porta. Mas não fez questão de responder, só queria descansar, talvez só precisasse disso mesmo e quem sabe depois não acordasse e tudo não tivesse passado de um sonho?
Jogo as sapatilhas douradas longe, arrancou aquele vestido colocando uma camisola e se deitou na cama cobrindo-se com seu grosso cobertor que tinha desde que era criança e torcendo mentalmente para que ela despertasse e acordasse na sua antiga casa, sentando-se na mesa da varanda para tomar café da manhã com sua mãe sempre empolgada cozinhando e fazendo carinhas felizes em tudo quanto era comida, do seu pai sempre tendo tempo para ela e trabalhando menos, até de seu ursinho Billy sentia saudades. Avaline só queria que tudo voltasse ao normal e que sua mãe estivesse com ela de novo.
Acordou de madrugada com o quarto num breu e se sentindo mal, um enjoo repentino e um medo descontrolado do escuro, coisa que não costumava sentir. Tateou a cabeceira da cama em busca do abajur, mas ao tentar acende-lo nada aconteceu. Resmungou por ter que levantar e foi em direção ao interruptor, mas a luz também não acendeu. Abriu a porta de seu quarto e notou que a luz do corredor estava acesa, então era só as luzes de seu quarto que não estavam funcionando.
Fechou a porta e já ia voltar para sua cama quando uma ânsia de vômito a obrigou a correr para o banheiro, mas foi só um alarme falso. Foi até a pia, molhou o rosto com a água fria e começou a se sentir estranha, uma moleza no corpo que ela não sabia o que era.
Ao levantar a cabeça levou um susto ao perceber pelo espelho um silhueta negra atrás de si, não dava para ver como que era, era como uma sombra. Avaline se sentiu congelar, não conseguia ser mexer e nem gritar, algo a fazia ficar parada.
A silhueta segurou seu pescoço e a virou para si, Avaline estava sentindo o ar faltar nos pulmões, queria se libertar daquela coisa, mas não conseguia se movimentar.
– Você não é ela — aquela sombra disse com uma voz que parecia murmúrios.
A garota estava desesperada, não tinha rosto aquela silhueta, era só uma sombra de uma pessoa. Ela também não entendia o que ele queria dizer com "você não é ela".
– Cadê a outra garota? Cadê?! — a voz tinha adquirido um tom mais feroz e agudo.
Avaline queria tentar falar mas não estava conseguindo, só saíam ruídos de sua garganta.
– Você é uma imprestável, sua impostora!
Olhos vermelhos surgiram naquela sombra e logo depois Avaline se viu sendo lançada para fora do banheiro e batendo com as costas na parede e machucando seu braço no pé da cama.
Sua visão escureceu por uns segundos e depois quando se ajustaram notou que a lâmpada de seu quarto tinha se acendido e seu abajur também. Levantou-se se segurando na parede ainda sentindo sua cabeça girar e uma forte dor nas costas e reparou que tudo estava normal. Foi para o banheiro, olhou o espelho e não tinha mais nada ali.
Sentiu vontade de correr para o quarto de seu pai e ir dormir com ele, mas não queria perturba-lo, sabia que ele iria dizer que as coisas que tinha visto era da cabeça dela e naquele momento Avaline começou a duvidar também de sua própria sanidade, achou que estivesse ficando maluca.
Deixou as luzes acesas e foi para sua cama se escondendo embaixo das cobertas e achando que precisasse de um boa noite de sono, ou o que restava dela.
*****
Seu despertador tocou de manhã, mas a disposição de Avaline para se levantar era nenhuma, estava se sentindo dolorida e com dor de cabeça. Ao se movimentar sentiu dores por toda parte do corpo.
– Filha, posso entrar? Você está começando a me preocupar... — Fabrizio disse, sua voz parecia preocupada.
– Entra, a porta está aberta.
Fabrizio adentrou ao quarto e se sentou na beirada da cama da filha e ao olhar o estado dela sua preocupação aumentou.
– Ava, o que aconteceu com você? Que mancha roxa é essa no braço e que marcas são essas no pescoço? Meu Deus, filha o que ouve?!
Avaline nem tinha reparado seu estado, foi até o espelho e ao se olhar se assustou com seu próprio estado, uma mancha roxa enorme se estendia pelo seu antebraço e no seu pescoço tinha uma leve marca vermelha de mão e sua pele estava mais pálida do que o normal.
– Ontem você saiu correndo do nada, foi o Theodor que fez isso com você? Se foi ele, eu vou lá naquele apartamento agora e não me responsabilizo pelos meus ato!
Fabrizio já tinha se levantado e ido marchando em direção a porta do quarto, quando Avaline o deteve segurando seu pulso. Não podia contar a verdade para ele, pois com certeza não acreditaria, então teve que inventar qualquer mentira.
– Não foi ele pai, ele é legal. É que eu fui no banheiro de madrugada e acabei escorregando e as marcas de mão fui eu própria que fiz, acabei tendo um pesadelo e acordei com a minha mão em volta do pescoço.
– Você tem certeza de que foi isso? Não está me escondendo nada?
– Por que esconderia? — tentou dar um sorriso convincente, mas saiu mais parecido com uma careta estranha.
Seu pai lhe lançou um olhar de dúvida, ainda estava estranhando aquelas marcas avermelhadas.
– Sério, pai, para quê o Theodor ia me agredir com os pais dele e você lá? Fora que ele foi super legal comigo — tentou fazer sua voz soar normal e acabou funcionando, pois a expressão de seu pai aliviou.
– Você está se sentindo bem? Quer ir ao médico?
– Não, eu estou bem, é só passar uma pomada que fica melhor e você sabe que odeio médicos e coisas relacionadas. Eu só quero ficar em casa hoje, posso?
Avaline não estava mesmo afim de ir para o colégio, estava se sentindo um pouco mal ainda e não queria pensar em encontrar o Lorenzo de novo, só de pensar se sentiu ficar em pânico, tentou pensar em tudo lógico para o que estava acontecendo, mas nada lhe vinha a mente, a não ser que a loucura que tinha quando era menor estivesse voltando de novo.
– Tem certeza de que está bem e não quer ir num médico? Não está doendo essa mancha? Você pode ter deslocado algum osso.
– Para de drama, pai, estou bem, só tive uma noite de sono péssima e queria descansar.
– Ok filha, passe aquela pomada que tem lá no banheiro. Qualquer coisa me ligue que venho correndo para casa — ele disse, deu um beijo no alto da cabeça da filha e depois deixou o quarto.
Assim que Frabizio saiu, Avaline se jogou na cama e se sentiu mais aliviada por seu pai ter acreditado na mentira, não queria que Theodor levasse a culpa por algo que não fez, ele tinha sido bem simpático com ela e estava longe de ser um agressor.
Fechou os olhos e se sentiu confusa, sabia que o sono não viria e não queria remoer os acontecimentos da madrugada, resolveu então pegar um livro e lê-lo. Ao abrir a gaveta a partitura da melodia que ela tinha guardado caiu. Avaline se abaixou para pega-la e o som da melodia soou na sua cabeça e a imagem do garoto de belos olhos surgiu na sua mente. Imediatamente a afastou, mas não pode evitar o aperto no peito que sentiu.
*****
Avaline despertou e ao olhar para o relógio viu que já eram meio-dia e quinze, tinha pegado no sono enquanto lia e nem tinha se dado conta disso, não tinha sonhado com nada, mas despertou mais leve, como se esse cochilo tivesse feito sentia-la melhor, levantou a cabeça e viu que a partitura estava sobre seu livro, ela achava que a tinha guardado, estranhou, mas deu de ombros e a guardou dentro da gaveta de novo, não queria se lembrar daquele pianista fantasma de novo.
Foi para o banheiro, encheu a banheira com uma água morna e enquanto deixava enchendo, foi em direção ao telefone que tocava insistentemente e ao atender ouviu a voz de sua amiga do outro lado da linha.
– Por que não foi para a escola hoje? Você está bem?
– Mais ou menos, é que estava um pouco mal.
– Ava, aconteceu uma coisa estranha lá no colégio hoje. Não tem aquele andar que você gosta de ficar? Então, eu fui lá para cima tentar ficar em paz e escutei som de passos vindo daquela sala 3, cheguei lá e não tinha nada, só senti um vento gelado passar por mim. Eu quase morri, amiga. Nunca mais subo lá, aquele andar é assombrado.
Se você soubesse as coisas que andam acontecendo comigo, Avaline pensou, mas não disse, apesar de não ser bom guardar as coisas para si mesma, ela não queria contar nada do que estava acontecendo na sua vida com ninguém.
– É, aquele lugar é meio estranho mesmo — disse — Bom, vou desligar, depois conversarmos.
– Ei, está fugindo de mim? Ontem queria te acompanhar até em casa e você não quis, agora não quer conversar comigo. Eu fiz alguma coisa?
– Não, não é nada com você. Mas é que deixei a banheira enchendo, então se quiser mais tarde conversarmos.
– Tudo bem então.
Avaline percebeu que a voz de Caterina parecia um pouco angustiada, e ela ficou com um pouco de pena da amiga, não queria que ela se sentisse culpada por nada, mas não estava afim de conversar, ainda mais sobre um assunto que ela não queria tocar.
Já ia colocar o telefone no gancho quando começou a ouvir uns ruídos do outro lado da linha, parecia alguém sussurrando alguma coisa.
– Caty, para com isso, está me assustando.
Esperou uma resposta, mas ninguém disse nada e logo depois o telefone ficou mudo. Avaline assustada colocou ele no gancho e saiu ali da sala.
Quando chegou no banheiro e passou pelo espelho, se lembrou da imagem medonha daquela sombra tentando sufoca-la e do que falou, sobre ela não ser alguma outra garota. Lembrou do que sua mãe falou para sua avó há alguns anos antes sobre "é melhor que eles não contem nada da outra". Estava estranhando esse quebra-cabeça sombrio que sua vida estava se transformando e sem saber que rumo seguir.
Entrou na banheira com água morna, prendeu a respiração e afundou a cabeça sentindo a água cobrir todo o seu corpo, gostava da sensação de se estar em contato com a água.
A garota já tinha se despedido de seus amigos e foi em direção a piscina, queria praticar mais uma vez seu nado de costas, a competição estava chegando e ela estava convicta a vencer. Entrou no espaço fechado que ficava a piscina, deixou suas coisas em cima de uma cadeira, ajeitou a touca na cabeça e se jogou na água.
Mesmo estando com frio, continuou nadando, sua mãe a tinha avisado para ir para casa mais cedo, mas não deu ouvidos, quis seguir suas próprias regras mesmo se pegasse um resfriado.
Enquanto se distraia nadando, nem se deu conta de que estava indo para a parte mais funda e quando seu pé entrou numa das cordas usadas para prender redes, não conseguiu puxar seu tornozelo.
A garota se desesperou, ainda mais ao perceber a sombra negra que pairava acima da água, tentava se erguer mas não conseguia, já estava lhe faltando o ar, água entrava pela sua boca e nariz e parecia queimas seus pulmões. Conseguiu o máximo de tempo que pode prender o ar, mas não adiantou, sua visão começou a escurecer...
Avaline abriu os olhos ainda embaixo da água e viu de relance uma garota em pé perto da banheira e que fazia lembrar a Haille. Levantou rapidamente a cabeça da banheira e olhou o banheiro em volta em busca de alguma pessoa, mas não viu ninguém.
Ficou com medo, um sentimento que já fazia parte dela de uns dias para cá, e as imagens que tinham surgido na sua mente de uma garota se afogando a deixou nervosa, ainda mais pela pessoa lembrar tanto a Haille e a piscina da escola.
Se enrolou na toalha, saiu da banheira e ao passar pelo espelho embaçado, viu escrito em letras tortas algo como "me ajude".
Saiu do banheiro, trocou de roupa e saiu do seu apartamento, não queria ficar sozinha.
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