Odd Symmetry
8 Intrigas
Notas iniciais
Elise acordou sozinha no sofá. Tentou procurar o relógio no canto da sala, mas já fazia tanto tempo que não frequentava aquela casa que nem percebeu que retiraram o relógio e puseram um cabideiro no lugar. Elise se lembra que o relógio também era herança da família de Anthony, os Cavalera. Se ela não estivesse se apaixonando por ele e também não soubesse que ele ainda gosta dela do mesmo jeito — mesmo que antes, quando crianças, também poderia ser verdadeiro o sentimento -, diria que ele estaria tentando fazer uma aproximação para manter os interesses da família, mas, a partir de agora, iria acreditar por inteiro no melhor amigo.
Já que estava desperta, caminha devagar para a cozinha, sendo seguida por Tobby. De repente, ouve alguém a chamando. A voz parecia conhecida, mas ela não sabia de onde. Tentou lembrar, mas a dor de cabeça a preencheu por completo, fazendo-a ficar meio zonza.
– Senhora Cavalera? — pergunta, apoiando-se em um gaveteiro próximo a cozinha. Chama novamente, mas logo desiste, voltando a caminhar em direção a cozinha.
Chegando lá, encontra-a vazia e suspira, não de alívio, mas de preocupação consigo mesma. Chega até a pensar em voltar de vez para a terapia. Ela estava tendo muitas alucinações desde o início da semana. Agora, só faltava um dia para o seu aniversário e Elise não conseguiu pensar muito sobre ele durante esses dias.
– Me chamou, querida? — pergunta a senhora Cavalera, chegando na cozinha e a fazendo dar um pulo. Sentiu uma dor nos pontos na perna direita, mas nada muito forte. — Desculpe-me, te assustei? — pergunta, preocupada, aproximando-se de Elise e dando uma fiscalizada nos pontos. Elise estava de short e com uma blusa regata que sua mãe conseguiu achar em meio a vasta confusão que estava seu quarto.
– Sim... A senhora estava me chamando? — Elise ultimamente estava se perdendo demais em pensamentos e, em suma, eram sempre sobre as vozes e sobre a sensação de se sentir acossada.
– Não... Mas então, vai querer comer o quê? — questiona, seguindo para a pia e lavando o que provavelmente Anthony deixou, após tomar seu café.
– Agora não quero nada, obrigada. — diz, mas logo se lembra de perguntar:
– Que horas são?
– Ainda são oito horas. Não vai querer dormir lá no quarto de Anthony? Deve ter sido desconfortável dormir sozinha no sofá, não sei porque Anthony não disse para você subir com ele, eu até preparei o lado de baixo da beliche para você, porque não pode subir as escadas por causa... — Senhora Cavalera iria continuar, mas Elise a interrompe:
– Eu dormi sozinha no sofá?
– Sim... — Marta estranha a pergunta, mas, mesmo assim, continua a explicação. — Eu acordei de madrugada para tomar água e a vi dormindo ao lado de Tobby. Eu até entendo, porque você teria que subir as escadas.
Elise sente uma mistura de sentimentos ruins. O que Anthony fez a destruiu por dentro e acabou com todos os sentimentos bons que estavam surgindo por ele. Tenta esconder o ódio que fez seu rosto ferver, virando-se para Tobby e o acariciando. Essa tentativa foi falha, pois tudo aquilo estava simplesmente a perturbando. A senhora Cavalera percebeu algo estranho quando olhou para ela e a viu quase arrancando os cabelos de Tobby.
– Elise... Está tudo bem? — pergunta, aproximando-se. Na mesma hora, Elise olha para ela e sorri, sentindo a raiva virar contentamento. Isso era estranho para ela, mas a sensação fora tão boa que ela queria sentir novamente.
– Vou tomar banho. — diz quase que roboticamente e segue até sua bolsa que estava largada sobre a mesa de jantar. Milimetricamente, em movimentos ágeis, pega uma blusa vermelha de mangas compridas e um short jeans. Não percebera que algo de errado estava acontecendo com ela e que isso estava acarretando em mudanças de seu comportamento.
*****
Ao sair do banho, enquanto trocava de roupa, ouve novamente alguém a chamando. Isso estava a enlouquecendo, mas, como estava mudada, ela parcialmente, soube reconhecer quem a chamara. Era inacreditável. Não era o tom da voz, lamurioso, calmo, sofredor. Não era a intensidade que a chamava, repetindo milhares de vezes, na mesma entonação, sem cessar. Não era nada relacionado a voz... Ela simplesmente conseguiu pensar em um rosto e, de repente, conheceu toda a vida de alguém que ela nunca vira na vida.
Desesperada, veste rapidamente o short e sai do banheiro. Pensando ter voltado a si mesma, já que não estava mais perdida em pensamentos ruins sobre Anthony e só pensava no rosto da pessoa e na vida miserável que esta tivera. Não sabia o nome... A coisa mais simples que deveria saber, se é que saber um rosto e a vida toda era normal, queria pelo menos saber o nome. Mal sabia ela que a resposta para isso viria rápido demais...
*****
Ela resolveu não comer nada. Seus pensamentos, sua mente, tudo cooperava para a sua insanidade. Perplexa ainda sobre o que lhe acometera anteriormente, espera calmamente a chegada de Anthony, sentada no mesmo sofá no qual dormira. Já havia telefonado para a mãe, soube que ela não foi trabalhar e que tudo já estava quase completamente pronto. Disse também que nada sumira, mas Elise ainda não acreditava que seu pai invadira sua casa, fora embora e voltara depois para... nada.
Anthony chega, fazendo Tobby animar-se, correndo para a porta e pulando nele. Elise vê que ele percebe que ela está diferente, mas nem ela sabia exatamente o que tinha acontecido direito.
– Sabe uma coisa que não falamos muito nos últimos dias? — pergunta retoricamente, Anthony, enquanto larga sua mochila pendurada no cabideiro ao lado da porta, no lugar do relógio da família.
– Meu aniversário... — responde Elise, ainda sentada no sofá, com o rancor novamente tomando conta de si. Ela nunca fora muito animada com seus aniversários, principalmente sua mãe. Era como um dia de velório.
– Isso mesmo! Tantas coisas aconteceram essa semana... Nós já brigamos, pessoas invadiram sua casa, você achou um livro do seu bisavô em inglês, mas olha, seu aniversário está chegando e eu sei que você não gosta muito de fazer aniversário mas dessa vez é especial pra você, poderíamos fazer algo diferente esse ano.
– Eu também ouvi alguém me chamando. Mas eu não quero falar sobre isso agora, muito menos sobre meu aniversário. Eu sei, Anthony, sei que não quis dormir ao meu lado. — Elise, enfurecida, levanta-se do sofá e começa a aumentar o timbre de sua voz. Tobby, assustado, começa a latir para ela. — Me diz, me diz o que tem de errado com você, o que tem de errado comigo. — Seu tom de voz aumentou ainda mais. Tobby também começou a latir ainda mais alto. — Me diz o que está acontecendo, porque não estamos mais tão ligados como antes, porque, quando eu me aproximo de você, sinto que está mentindo, sinto que está... se afastando... Por que, Anthony, por que nossa amizade está tão balançada? Por que continua mentindo para mim?
– Eu também não sei... Eu nem sei como você descobriu que... você sabe. É difícil pra mim também. Mudar minha vida drasticamente uma vez já foi desesperador, eu era uma criança e agora eu entendo que eu fiz uma idiotice, mas agora eu estou fazendo outra e, de novo, acho que estou fazendo algo certo. — explica Anthony, balançando as mãos no ar. — Eu não quero te deixar assim, eu não quero te deixar sem amigos... Você era tão infeliz sem amigos. Eu quero te ajudar, preciso entender o que está acontecendo comigo antes de te ajudar, mas eu mesmo também preciso de ajuda e não tenho a quem recorrer.
– Anthony, não quero que você dê desculpas, finja sentimentos que não tem mais. Eu preciso de ajuda, eu preciso... e eu confio em você, só em você. Por favor, não me deixe, por favor, me ajude a entender o que está acontecendo comigo! Eu sinto que não sou mais a mesma, tem algo de errado comigo...
– Eu também preciso de ajuda, Elise! E eu não sou seu anjo da guarda, mas eu sei que você só tem a mim e eu só tenho a você também, mas, do jeito que estamos enganando um ao outro, está impossível de acreditarmos um no outro. Por favor, me ajude também, me ajude a entender o que está acontecendo comigo, para eu poder ajudar você...
Um silêncio amedrontador tomou conta do lugar. Elise sentiu vontade de chorar, a raiva não estava mais ali e Tobby pareceu perceber isso, parando imediatamente de latir. Ele só estava assustado, como ela também. Assustada com toda essa comuta que estava acontecendo com sua vida.
– O que tem de errado com você? Porque eu estou surtando sem saber o que está acontecendo com você! Você que começou a mentir, você que começou a mentir para mim, que começou a enganar a si próprio de que nossa amizade era boa pra você. Eu não aguento mais, não aguento mais.... Eu prefiro não ter nenhum amigo, prefiro me ajudar sozinha a ter que suportar ficar ouvindo mentiras!
Elise imediatamente arruma suas coisas dentro da bolsa que levara e bate a porta atrás de si após sair da casa.
*****
Durante o caminho, ouve novamente alguém a chamando e sente que está sendo observada, de longe. Olha então a sua volta e encontra, escondido em um beco, um par de olhos cor de mel. Reconhece os cabelos negros como os dela. Seiji...
Aproxima-se devagar enquanto ele sai do beco.
– Você... me chamou? — pergunta Elise, querendo fingir que sempre que ouvira seu nome, era realmente algo real e não da sua mente.
– Não. — responde Seiji, logo depois, cruza os braços e abaixa a cabeça antes de continuar. O que ele queria dizer ainda estava entalado em sua garganta, mas Elise fugira dele naquele dia, então ele não conseguiu dizê-la tudo que tinha para dizer. — Desculpe-me por ter te assustado naquela madrugada é que meu cachorro fugiu para o seu quintal e quando eu te reconheci do colégio, achei que seria certo avisar depois, mas o problema é que eu não queria que fosse a casa de um conhecido, porque, na verdade, eu nem queria ser encontrado, sabe. Meu cachorro se assustou com os trovões e os relâmpagos... Ele saiu que nem um louco pela rua, jamais imaginaria que ele entraria na casa de um estranho.
– Tudo bem. — escusa Elise, meio seca. Ela jamais imaginaria que ele seria tão... tão psicótico, pois, na verdade, ela nem o conhecia direito. — Como você sabe meu telefone celular?
– Eu sou bom em acessar programas protegidos, como o da escola. — Logo ele se lembra de algo e o tira do bolso de sua calça jeans. — Isso é seu.
Ao pegar a foto, Elise sente aquele sentimento de ódio. Ele pegou a foto da mulher parecida com ela.
– Então... — Elise começou a respirar compulsivamente, entretanto, tentou se controlar como possível. — Foi você que invadiu minha casa ontem de noite também? Por quê?
– Não, eu peguei isso na sua mochila, na hora que eu fui falar com você na escola. Ela estava aberta e... Eu achei que fosse você, eu um traje muito estranho e antigo.
– Você sempre faz isso? — Todas as tentativas de se manter calma não funcionaram, Elise começou a soltar todo seu rancor. — Invade a vida privada das pessoas? Rouba fotos delas só porque suas mochilas estão abertas? Descobre o telefone das pessoas só para ameaçá-las? Quem ou o que você é?
Seiji se aproxima de Elise, sorridente.
– Eu... só sou manipulador, gosto de brincar com as pessoas e achei que ameaçá-la com uma foto um tanto quanto engraçada seria divertido. Como você conseguiu deixar seu cabelo tão liso?
– Para, você é muito estranho! — fala Elise, após empurrá-lo.
– Eu só... Gosto de viver do jeito que eu quiser. Fazer o que eu bem entender...
– Eu... eu também queria ser assim. — confidencia Elise, deixando-se levar pelo o que Seiji falava. — Não depender de ninguém, poder... — De repente, Seiji tira outra coisa do bolso e Elise presta muita atenção, com medo de ser mais alguma coisa dela. — Você fuma? Quantos anos você tem? — Surpresa, Elise se afasta dele enquanto o vê ascender o isqueiro e colocar o cigarro na boca. De alguma forma, Elise se sentiu atraída pelo jeito meio bad boy de Seiji.
– Tenho dezessete, repeti um ano, na verdade, fui expulso da outra escola e, nos mudamos para cá. — Seiji então encosta na parede e levanta uma perna, a apoiando também na parede. Tira o cigarro da boca algumas vezes para falar melhor e soltar fumaça. Elise tossiu algumas vezes e até chegou a colocar a mão sobre a boca e o nariz. — No Japão, era sempre assim... Qualquer coisa desregrada, qualquer nota baixa, era tudo motivo de problemas e mais problemas... Ainda bem que meu pai arranjou um emprego aqui.
Elise encara a foto apenas mais uma vez antes de enfiá-la no bolso lateral de sua bolsa.
– Eu... tenho que ir, te vejo segunda na escola. — despede-se Elise, querendo logo encontrar a mãe e saber que está tudo realmente bem com ela e sua casa.
*****
Ao chegar em casa, Elise encontra sua mãe na porta, acompanhada de dois homens que estão instalando um sistema de segurança. A porta não é mais de vidro, é de uma madeira escura e que parece bem resistente. As janelas de vidro que eram enormes, agora receberam grades por fora e sua mãe também trocou as cortinas, por umas mais escuras, num tom de um roxo meio vinho. Elise não gostava muito de mudanças. Desde que chegou nessa casa, apaixonou-se por ela, não só por ser próxima a praia, que é sua maior paixão, mas também por ser ampla e sem mistérios. Era como se ela estivesse numa casa completamente de vidro, na qual não tivesse nada a esconder. Ela gostava dessa sensação. Ser livre, sem segredos nem mistérios a esconder. Ela não sabia direito por que tinha tanto nervoso quando alguém escondia algo dela e era por isso que não queria mais olhar para a cara de Anthony, pois ele escondeu que não gostava mais dela.
Aproximou-se vagarosamente da mãe, que ao vê-la, sorriu, como se aliviada em a presenciar — de certa forma — normal. Elise a abraçou e foi correspondida. O que ela iria dizer a mãe iria agradá-la.
– Mãe, eu quero voltar a fazer terapia.
O que Elise viu nos olhos da mãe foi uma mistura de felicidade e alívio. No mesmo momento, senhora de Paula a abraçou novamente, até a apertou e quase que deu gritinhos de tanta tranquilidade.
– Estou tão feliz, tão feliz... Sinto que meu trabalho está se concretizando.
– Que trabalho? — Elise parecia confusa.
– De mãe! De te proteger, te aconselhar, te dar amor, carinho, abraços e novamente, mais e mais conselhos... — Cate começou a afagar a cabeça da filha. — Bom... Agora vamos falar sobre algo sério. Sei que não gostou dessa casa assim, mas precisamos te proteger, precisamos esconder algumas preciosidades, também. Não se esqueça que tudo do seu bisavô é muito importante para mim, são relíquias da família, além de você, é claro, meu bem mais precioso.
Elise sorri e abraça novamente a mãe. Ao olhar por cima do ombro de Cate, Elise percebe que também estão instalando câmeras. A menina, já farta de tudo aquilo, engole em seco e mal espera a hora de voltar para a terapia. Ela já estava sentindo falta da sensação de sossego e paz quando saía das sessões, mesmo que isso significasse ter que deixar algo para trás...
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