Notas iniciais
Olá, pessoal, tudo bem com vocês? O que são esses objetos pontiagudos em suas mãos?? Por que estão nos encarando com esses olhares ameaçadores?? Brincadeiras a parte, tudo sempre tem uma explicação, não é mesmo? Atrasamos porque a Odessa está com probleminhas com o notebook, então, por isso, ela não conseguiu ligá-lo e nem postar o capítulo a tempo. Ah, sim, não é ela que está aqui, sou eu, a Valquíria, pra vocês verem que ela não pode mesmo postar. É isso, boa leitura.

Não tinha muita opção de que lugar iria, só não queria ficar em casa sozinha. Estava com medo e assustada, jurava que tinha visto a Haille na beirada da sua banheira e a imagem de como ela morreu ainda permanecia na sua mente.

Parou no saguão do prédio e se sentou num dos sofás ali dispostos, estava perdida sem saber para onde ir, não tinha muitos amigos a quem pudesse recorrer, tinha Caterina, mas ela naquele horário estava ajudando sua mãe na livraria. Poderia ir na apartamento do Theodor, mas não sabia se ele estava em casa e ficaria com vergonha de pedi-lo para ficar com ela, pois estava com medo, achou que faria papel de boba. Poderia ir também no trabalho de seu pai, mas a funerária não a agradava muito, aquele cheiro de flores, caixões mórbidos, alguns cadáveres da parte de maquiagem... Tudo ali lembrava morte, ainda não sabia como seu pai conseguia trabalhar naquele ambiente, não queria mesmo gerenciar os negócios da família quando fosse mais velha mesmo o Fabrizio dizendo o contrário.

Se sentiu solitária e sozinha, as vezes sentia raiva de si mesma por ser tão antissocial e não conseguir fazer amigos, mas a culpa não era só dela, as pessoas sempre a achavam estranha, calada e até um pouco melancólica. Mas ela sabia aproveitar a solidão, gostava de ficar a sós com seus livros e seu gatinho Merlin, só que as vezes muita solidão acabava atrapalhando quando se precisava de alguém.

– Está se sentindo bem, menina? — uma voz perguntou fazendo Avaline levantar os olhos e ver o porteiro carrancudo ali parado na sua frente.

– Sim... estou — respondeu, mas sua voz dizia completamente o contrário.

– Bom, não parece.

O porteiro já era um homem de meia-idade, cabelos grisalhos e a pele com rugas de estresse, suas roupas sempre eram a mesma, já que era o uniforme que tinha que usar ali. Ele era um homem que sempre parecia estar de mau-humor e odiava responder perguntas feitas para ele.

– E o que você sabe de estar bem ou não, já que você nunca está bem?

O homem a olhou um pouco assustado, nem Avaline tinha se dado conta da grosseria que tinha falado para o porteiro, mas ela realmente não estava afim de conversar, ainda mais com ele que parecia não se importar com ninguém.

– Por isso mesmo, você é uma garota jovem e não deve ficar cabisbaixa com qualquer coisa, não queira ser uma pessoa mau-humorada como eu.

Depois o porteiro se virou e voltou para o seu lugar deixando Avaline sem entender nada do motivo dele ter ido dar palavras de apoio a ela se parecia que a odiava. Mas deu de ombros, pegou o elevador e voltou para seu apartamento tirando o medo de sua mente, não queria parecer fraca e deixar ele vencer.

Chegou na sua sala e pegou seu gato no colo enquanto acariciava o animal que parecia um pouco assustado, era bom se sentir menos sozinha, de alguma forma o Merlin fazia bem a ela como se ficasse mais tranquila.

*****

Nos dias que fazia aniversário desde o dia que sua mãe morreu, Avaline sentia vontade de ficar na cama o dia inteiro até aquele dia terminar, não tinha vontade de levantar e ouvir as pessoas lhe dando parabéns. Aqueles dias festivos não eram mais os mesmo, o que antes parecia alegre ficou cinza e triste e dificilmente algo a agradava.

Olhou o relógio que marcava dez horas da manhã, virou para o lado e colocou o travesseiro na cabeça, ainda tinha tempo para dormir antes que seu pai viesse acordá-la.

Enquanto tentava pegar no sono, uma lembrança de seu último aniversário com sua mãe viva veio-lhe a mente. Lembrou-se que ela tinha entrado no seu quarto segurando um bolo cor de rosa com oito velinhas e carregava um presente na outra mão que era uma boneca que Avaline tanto queria.

Sentiu as lágrimas quentes escorrerem pelo rosto e piscou para afasta-las quando ouviu a porta de seu quarto abrir e a voz de seu pai cantando parabéns ecoar no quarto. Ele tinha aparecido mais cedo do que ela esperava para um sábado ali no seu quarto.

Virou-se sem muito animo em direção a porta e torceu para seu pai acreditar que seus olhos inchados e vermelhos fossem só por causa de ter dormido muito.

Fabrizio se sentou na beirada da cama e abraçou a filha beijando suas bochechas.

– Feliz aniversário, querida. Não acredito que minha menininha está fazendo dezesseis anos. — disse — Então, hoje nós vamos na casa da sua avó, então arrume suas coisas que daqui a pouco estamos indo.

– O quê? Assim do nada você decidiu ir? Que eu saiba não gosta muito de lá.

– Não é que eu não goste, só acho que sua avó é um pouco estranha as vezes. Mas ela me ligou perguntando se não queríamos ir para lá já que faz tempo que não a vê, como não tínhamos nada para fazer mesmo resolvi que seria bom para você rever alguns de seus parentes maternos.

– Tudo bem, mas não tem nada de festa surpresa não, né?

– Não, filha, pode ficar tranquila — respondeu, sorrindo.

– Ok então, espero mesmo que não tenha festa.

Quando Fabrizio saiu do quarto, Avaline foi arrumar sua mochila colocando algumas coisas básicas e depois se vestiu com uma calça preta, uma blusa caída nos ombros que tinha o desenho de uma caveira sorrindo e tênis de cano alto. Não era uma roupa das mais alegres para um dia de aniversário, mas era o que ela gostava de vestir e aquele dia era só mais um como todos os outros.

Ao chegar na sala notou um embrulho em cima do sofá branco, se aproximou e viu que aquilo era coisa do seu pai que naquele momento estava no quarto se vestindo. Abriu o presente e viu que dentro da caixa tinha o tablet do qual ela tinha dito que não queria, pensou que seu pai não ouvia mesmo o que ela falava, tinha gasto dinheiro atoa já que não estava mesmo interessada em coisas tecnológicas.

Deixou o tablet em cima da mesa quando ouviu a campainha tocar. Ponderou se abriria ou não a porta, não queria receber parabéns das pessoas, mas resolveu abrir, já que as pessoas ali naquele prédio não costumavam falar com ela mesmo.

Ao abrir a porta se deparou com o Theodor ali parado, ele vestia uma calça rasgada e uma camiseta azul, em uma das mãos segurava um skate e na outra algo que Avaline não conseguiu identificar.

– Parabéns, fiquei sabendo que fazia aniversário hoje — ele disse.

A garota revirou os olhos, realmente não conseguia fugir das pessoas lhe dando parabéns e quando chegasse na casa da sua avó seria a mesma coisa.

– Obrigada, mas não quero que me lembre disso, para mim é só um dia como os outros.

– Você realmente é diferente das outras pessoas, é a primeira que conheço que não gosta do dia do aniversário. Mas gostando ou não, eu trouxe isso para você — ele estendeu uma pintura na direção de Avaline — Foi mal não ter comprado um presente, nem tive tempo.

Avaline olhou a pintura e ali pintado viu um desenho maravilhoso e perfeitamente realístico dela sentada no topo de uma montanha olhando o horizonte ao longe. Era um pintura misteriosa e bela e ela não se reconheceu direito ali, parecia mais bonita do que realmente era.

– Adorei, ficou tão esplêndida a pintura. E não me importo de não ter comprado presente, eu não gosto mesmo e fora que nos conhecemos a pouquíssimo tempo. Essa garota aqui na pintura sou eu? — perguntou incerta, talvez não fosse ela, afinal.

– Sim, por que pintaria outra garota se o presente é para você?

– Sei lá, eu não sou tão bonita assim — deu de ombros.

– Bom, acho que está precisando se olhar mais no espelho... Agora tenho que ir, vou andar de skate, nos vemos por aí.

– Sim...e obrigada pela pintura — respondeu sentindo seu rosto corar com o que Theodor disse.

Fechou a porta e ainda tinha um sorriso bobo no rosto, já era a segunda vez que Theodor a tinha elogiado, coisa que quase nenhuma pessoa fazia, além de seu pai, é claro. Ao se virar, notou que Fabrizio estava parado no meio da sala de braços cruzados observando-a.

Tentou passar por ele direto de cabeça baixa indo para seu quarto, mas seu pai ficou travando seu caminho para o corredor.

– Posso saber o que está havendo, mocinha?

– O quê? Não está havendo nada.

Avaline tentava olhar para todos os lados, menos para os olhos acusadores de seu pai, ele adorava fazer aquilo.

– O que é isso que está segurando e por que esse sorriso no rosto?

– Isso — disse levantando a pintura — é um presente que o Theodor me deu e isso — disse apontando para seu sorriso — é só pelo fato de ser meu aniversário, mais nada.

– Sei que não gosta de fazer aniversário, então essa desculpa não cola, então pode começar me dizendo o que está rolando entre você e o vizinho, não é porque está fazendo 16 anos que já pode namorar.

Avaline revirou os olhos e se jogou no sofá, sabia que não conseguiria se livrar de Fabrizio tão facilmente, ele conseguia ser bem ciumento quando o assunto era garotos e ela se sentia completamente constrangida conversar esse assunto com seu pai.

– Pai, para com isso, eu e o Theodor nos conhecemos a quatro dias só, isso se "conhecer" contar comigo segurando a porta do elevador para ele, senão é a menos tempo ainda. Pode ficar tranquilo, sua filha por enquanto ainda não desencalhou e provavelmente ainda vou passar muito tempo sendo sua menininha. Tudo bem?

A expressão de Fabrizio aliviou um pouco e seus músculos ficaram menos tensos.

– Ok, confio em você. Mas nada de ficar se engraçando para aquele vizinho, ainda mais quando você passa boa parte do tempo sozinha aqui no apartamento...

– Pode deixar, papai — respondeu e deu um beijo na bochecha dele.

*****

O caminho até a casa da avó de Avaline era um pouco longo, em torno de três horas e meia de carro. Era um percurso que passava por muitos lugares sem nada ao redor, seco, parecia até que estavam fugindo de um fim do mundo, e na verdade aquela cidade seria um bom refúgio se isso acontecesse, já que era bem escondida e longe de tudo, um lugarzinho bem pacato e tranquilo com índices de criminalidade quase zero. Por isso foi uma grande surpresa para todos quando Fabrizio resolveu que iria se mudar com sua filha para uma cidade grande.

A rua da casa era uma das poucas asfaltadas da cidade e a melhor dali, as casas não eram grandes, mas eram boas. A da casa da avó da garota era logo uma das primeiras, uma construção grande de dois andares com as paredes pintadas de verde claro e janelas e portas de madeira. Nos fundos tinha uma outra casa de um andar só, porém espaçosa onde Avaline morava antes junto com seus pais.

Ao estacionar o carro na entrada, um aperto no coração surgiu e uma vontade enorme de ir embora dali a atingiu. Ela ainda não sabia se estava preparada ou não para voltar ali e naquele momento teve a certeza de que não estava. Imagens dela pequena correndo naquele quintal e sua mãe correndo atrás dela vieram-lhe na mente. Depois de sua mãe falecer e Avaline e seu pai se mudarem, nunca mais tinham ido ali, os parentes que iam visita-la, mas não ao contrário, até aquele momento.

Antes de abrir a porta do carro, Fabrizio se virou para a filha e peguntou se ela estava bem mesmo, a garota acenou com a cabeça e depois saiu.

Ela só deu alguns passos em direção a casa quando uma criança em torno de uns nove anos veio correndo abraça-la. Avaline retribuiu o abraço e não estava acreditando que aquela era sua priminha que ainda era um bebê quando ela se mudou.

– Priminha, você veio — a criança disse e logo depois começou a puxar o braço de Avaline na direção da porta de entrada — Vem, tem uma surpresa para você lá dentro.

Ela forçou um sorriso para sua prima, mas na verdade odiava surpresas ainda mais relacionadas a seu aniversário, eles adoravam fazer bolo e cantar parabéns.

Ao adentrar a sala de estar da casa — um ambiente amplo todo acarpetado, com as paredes pintadas de verde escuro e móveis antigos — viu seus avós maternos, suas duas tias, mais três primos — sem contar com a criança que segurava seu braço — e uma outra garota que não conhecia quem era. Todos estavam em volta de uma mesa de madeira forrada com um tecido xadrez onde um bolo de chocolate estava em cima e começaram a cantar parabéns.

Avaline não gostava muito daquilo, mas teve que fingir que estava feliz com a surpresa.

Depois de terminarem de cantar aquela musiquinha chata, ela foi cumprimentar todos ali e se admirou em como seus primos haviam crescido, principalmente Micael, eles brincavam juntos quando crianças e aprontavam naquele quintal enorme, ele era dois anos mais velho e já estava um homem feito, ao seu lado estava uma garota que ele apresentou com sua namorada, ela deu um olhar torto na direção de Avaline e não fez a mínima questão de ser simpática.

Suas outras primas eram gêmeas, estavam com doze anos e também haviam crescido bastante, elas eram idênticas e como Avaline estava a um bom tempo sem vê-las teve uma certa dificuldade de identificar quem era quem, mas depois se lembrou que uma tinha os cabelos mais claros do que da outra.

Suas duas tias eram irmãs de sua mãe, elas eram bem misteriosas, parecia que sempre estavam escondendo algo e naquele dia em especial estavam mais quietas do que o normal e olhavam a garota que fazia aniversário como um ar de mistério.

Depois de muito conversar com todos, mesmo isso não sendo sua coisa favorita já que preferia o silêncio ao falatório, foi em direção a cozinha que era o lugar que estava mais calmo na casa e encontrou sua avó que lavava alguns pratos na pia.

– Quer que eu ajude a senhora a lavar os utensílios? — perguntou.

– Não querida, obrigada.

Sua avó era uma senhora de 65 anos, mas ninguém dava essa idade para ela, era incrivelmente conservada, tinha os cabelos castanhos cortados até a atura dos ombros, olhos que sempre inspiravam compaixão, e poucas marcas da idade apareciam em seu corpo, o máximo de idade que dariam para a mulher era uns 50 anos.

Avaline se sentou numa cadeira perto da mesa redonda e sua avó após lavar a louça se sentou numa cadeira próxima a ela.

– Você cresceu tanto, está fazendo 16 anos, sua mãe tinha um pouco de receio desse dia em diante... Mas você vai ficar bem — disse dando um sorriso.

– Como assim? Porque ela tinha receio? — perguntou confusa.

– Tem coisas que ainda vai descobrir minha pequena. Tome — sua avó disse e estendeu para ela um caixa de presente e ao abri-la deparou-se com um filtro dos sonhos — Isso é para protegê-la de coisas ruins enquanto dorme, acredite, nem sempre coisas boas virão, alguns perdidos irão aparecer para você, mas não irão lhe fazer mal.

Automaticamente sua mente foi em direção ao ser que parecia uma sombra no seu quarto e o medo que ela sentiu. Um frio subiu-lhe pela espinha.

– Perdidos? A senhora está bem?

– É normal não entender agora, mas logo irá descobrir...

Avaline ainda não estava entendendo nada, mas deixou o assunto para lá, sua avó adorava falar coisas nada a ver as vezes. Se lembrou de algo que queria fazer e perguntou se poderia entrar na sua antiga casa que ninguém vendeu ou morava lá desde que ela e seu pai se mudaram.

Sua avó apesar de ficar na dúvida se dava a chave para ela ou não acabou cedendo, não sabia se isso iria mesmo fazer bem para sua neta, mas achou que seria bom ela recordar algumas coisas boas.

Avaline foi em direção a casa dos fundos pela porta da área, não queria passar pela sala e dar explicações do motivo de estar indo para sua antiga moradia que guardava algumas mágoas do passado e do qual ninguém ali tinha realmente se recuperado.

O quintal dos fundos eram bem grande, muitas árvores frutíferas como macieiras e laranjeiras se espalhavam ali, assim como diversos tipos de flores. A garota se lembrou de como gostava de se esconder naquele espaço quando era menor e por não ser muito alta dificilmente era achada.

A casa que antes morava era de um andar só, porém ampla, tinham dois quartos, sala, dois banheiros, cozinha e um porão que tinha um monte de caixas velhas e empoeiradas e do qual Avaline sempre foi mantida afastada, sua mãe lhe dizia que lá embaixo tinha um monstro, mas ela sabia que não tinha, uma vez tinha ido lá mesmo sem ter conseguido abrir as caixas e não viu nada de anormal, só um cheiro de mofo.

A garota subiu os degraus que levava para um varandinha na frente da moradia e ficou parada em frente a porta, não sabia se estava mesmo preparada para entrar naquele lugar e recordar várias boas lembranças que infelizmente ficaram no passado.

Respirou fundo, abriu a porta e entrou. Ela achou que iria encontrar o lugar todo empoeirado e sujo, só que estava limpo, esqueceu que sua avó as vezes entrava lá para não deixar acumular sujeira.

Estava tudo perfeitamente igual a última vez que esteve ali, todos os móveis na mesma posição, até a coleção de corujas que sua mãe tanto gostava na estante ninguém tinha mexido nem um milímetro, estavam lá ainda com os olhos enormes a observando, quando era menor Avaline tinha um certo medo delas, parecia que podiam realmente enxergar.

Seguiu o corredor e entrou no seu antigo quarto, todos os móveis permaneciam lá intactos. Sua cama rosa de princesa, seu guarda-roupa em formato de castelo, as prateleiras cheias de ursos de pelúcia, a enorme casa de bonecas que ela tanto adorava, o teto com várias estrelinhas coladas que acendiam quando se apagava a luz...Tudo, tudo ainda permanecia igual, isso fez os olhos de Avaline se encherem de água, ela se sentou na cama e deixou que as lágrimas caíssem. Sentia bastante falta de sua mãe, ela era bem especial e isso era um dos motivos dela nunca querer procurar quem eram seus verdadeiros pais, nunca precisou.

Depois de um tempo saiu do seu antigo quarto, não aguentava mais tanto rosa — cor que não gostava mais — e quando estava passando pela porta, notou algo caído atrás do guarda-roupa, era brilhante e logo ao notar o que era ficou feliz, tinha achado o colar que sua mãe tinha lhe dado alguns anos atrás, o que tinha perdido.

Enfiou a mão ali atrás e puxou a corrente prata, o pingente com a pedrinha delicada azul ainda tinha aquele brilho intenso. Era bem bonito, ela não perdeu tempo e o guardou, não queria correr o risco de perde-lo de novo, era algo valioso, sentimental.

Foi indo de cômodo em cômodo e cada um dos lugares uma lembrança vinha na sua cabeça, o único lugar que não quis ficar muito tempo foi o antigo quarto de seus pais, ali tinha muitas lembranças de sua mãe e Avaline não sabia se poderia aguentar ver tudo aquilo de uma vez só, então passou direto.

Já estava saindo da casa quando se lembrou do porão, ela não tinha ido ali e não sabia se seria uma boa ideia já que aquele lugar dava-lhe um pouco de medo. Mas deu de ombros e resolveu ir, não tinha mais ninguém para impedi-la e dizer que não podia entrar. Então voltou para dentro da moradia, abriu a porta e desceu as escadas de madeira antiga que levava até o porão.

Tentou acender a luz, mas como já imaginava, ela estava queimada. Avaline teve que usar a lanterna de seu celular para enxergar melhor, já que a pouca claridade que entrava pelo vasculhante era pouca.

O porão era um lugar um pouco sombrio, tinha o chão e as paredes de pedra, o que causava umidade e frio ali embaixo. Tinham várias caixas de papelão espalhadas pelo local e uma mesa de madeira de carvalho num canto onde em cima dela continha alguns livros com capas duras e coloridas sem título do qual Avaline não conseguiu identificar o que era.

Abriu um deles numa página qualquer e não entendeu nada do que estava escrito, eram palavras sem sentido e desenho e símbolos estranhos, pareciam uma espécie de conjuro. A garota se afastou rapidamente dali, não sabia o que sua mãe fazia com aquilo e ficou surpresa.

Quis saber o que mais ela escondia ali embaixo então a garota começou a abrir as caixas, algumas não tinham nada de importante, mas em outras encontrou coisas que não sabia o que significava, como uma foto antiga de três garotas jovens abraçadas, uma era sua mãe mais nova e as outras duas não sabia quem eram, mais o que mais deixou Avaline atônita era que a garota do meio era incrivelmente parecida com ela, com os cabelos negros, lisos e longos. Observou mais algumas fotos antigas e várias as três garotas estavam juntas como se fossem muito amigas, o que era estranho já que sua mãe nunca tinha mencionado nenhuma amiga do passado.

Em outra caixa achou alguns objetos não identificados e vidrinhos com líquidos coloridos estranhos que pareciam aqueles que os alunos usavam nas aulas de química. Pensou em abrir e cheirar aquilo, mas resolveu que era melhor não, até porque não sabia do que se tratava.

Achou nos fundos de uma caixa umas folhas soltas e algumas rasgadas do que parecia ser de um diário. Ficou bem curiosa com aquilo e já estava pronta para ler quando ouviu a voz de seu pai lá em cima chamando-a.

Avaline resolveu enfiar as folhas dentro de um dos livros que estavam em cima da mesa e os carregou lá para cima, assim como alguns outros livros também que resolveu que tentaria saber o significado daquilo tudo.

Chegou na sala e pode ver pela janela seu pai parado na varanda, ele ainda não se sentia muito pronto para entrar naquela casa de novo, sentia bastante falta da esposa. Quando passou perto do sofá, tropeçou em algo que quase a fez cair no chão. Olhou para baixo e viu que era o violino que sua mãe tocava e que ela tanto adorava. Avaline se abaixou e pegou o instrumento admirando-o, tinha se esquecido do quanto gostava de tocá-lo, sua mãe a ajudava com isso então conseguiu aprender a tocar algumas melodias.

Resolveu levar o violino também e quando saiu da casa Fabrizio estranhou sua filha carregando aquelas coisas.

– Por acaso vai querer um caminhão para levar tudo isso?

– Pai, são só livros e um violino.

Avaline notou que ao olhar o instrumento as feições de seu pai ficaram mais tristes, ele adorava quando sua esposa tocava, fazia qualquer um parar para admira-la.

– E o que tem nesses livros? — ele perguntou apontado para os três livros que a garota segurava desajeitadamente no colo.

– É isso que quero descobrir.

– Tudo bem. Bom, o que acha de dar uma volta na cidade com seus primos? Eles estão indo para um festival que vai ter na praça.

Não estava com a mínima vontade de ir, queria sentar e começar a ler aqueles livros, mas não queria decepcionar seu pai, ela sabia que Fabrizio não gostava do jeito dela meio antissocial e não queria o deixar mais chateado, ainda mais depois de tê-lo visto mudar de expressão tão rapidamente ao se lembrar de sua esposa. E outro motivo também era o de que talvez realmente fosse ser divertido, fazia tempo que não ficava com seus primos.

– Que horas eles vão?

– Daqui a pouco.

Fabrizio abriu um sorriso e segurou a filha pelos ombros enquanto caminhavam em direção a outra moradia. Avaline sorriu também, mas as fotos e as coisas estranhas do porão ainda perambulavam sua mente.

Notas finais
Calma, não sou eu que vou responder os comentários de vocês, vai ser a Odessa, prometo. Avisem-me (ou avisem a ela) qualquer erro de edição, porque fiz meio que as pressas, estou muito ocupada e, pelo visto, mais atrasado que nunca. Até o próximo!