Odd Symmetry
10 Segredos
Notas iniciais
Ao acordar — sem a claridade vinda de sua janela devido as novas cortinas — Elise levanta vagarosamente e põe uma música animada para tocar em seu celular, em um volume que não acorde sua mãe, pois ainda era seis da manhã e Elise sempre teve sonos ruins, não conseguia dormir por mais de duas horas seguidas. O quarto estava escuro demais para o seu gosto e ela não estava suportando tais mudanças na sua casa dos sonhos. Caminhou até a janela e, ao abrir a cortina, vê as temidas grades de ferro, que mais pareciam uma jaula que a faziam se sentir encurralada. Elise começou a coçar seu pescoço e um mal estar a atingiu, fazendo-a ter vontade de vomitar. Imediatamente, parou a música em seu celular e, quando voltou para a janela, olhou para baixo e sufocou um grito. Haviam... pessoas. Muitas. Elise não entendeu e nem queria entender o que estavam fazendo ao redor da sua casa. Parecia estar participando de um ritual macabro. Fechou a cortina e, vagarosamente, tentou voltar a dormir, ou pelo menos cochilar, até acordar novamente e olhar as horas no celular, percebendo que não conseguiu cochilar nem sequer cinco minutos, se é que ela pregou os olhos ao menos por um segundo.
Preocupada, segue até a janela novamente e tenta abrir uma frecha pela qual só conseguisse enxergar com um olho o que quer que ainda estivesse lá fora. Respira fundo antes de olhar para baixo. As pessoas ainda estão lá... E, agora, ela consegue ouvi-las. O pavor toma conta do corpo de Elise, que, se encolhe no canto do quarto. As pessoas a chamam, ela sente isso, ela ouve isso, mas de certa forma, não consegue ajudá-los, não sabe como, na verdade, nem sabe se é isso o que realmente querem.
Estremece ao reconhecer uma voz, a mesma que achou familiar ontem. Desesperada, tenta tampar os ouvidos apertando suas duas mãos contra eles o mais forte que pode. Morde o lábio na tentativa falha de se controlar. Se encolhe ainda mais ao ouvir, novamente, mil vozes dizendo seu nome.
De repente, outro som toma conta do lugar. O alarme instalado pela sua mãe começa a disparar. Elise, ao invés de tentar se levantar e recompor suas forças, tentar acreditar que aquilo não era real, que aquelas pessoas desfiguradas não estavam na sua casa, não... a invadiram.
Despida pelo medo e pavor que tiravam-lhe a sanidade e a tranquilidade, grita por sua mãe, cada vez mais alto. A senhora de Paula não demora muito para invadir o quarto de Elise e vê-la, agachada no vão entre duas paredes, balançando para frente e para trás. Cate aproxima-se da filha e a abraça, tentando acalmá-la.
– Vamos hoje á terapeuta. Temos que ir hoje à terapeuta... Quanto mais cedo, melhor. Quanto mais cedo, seria melhor, agora estamos lutando contra o tempo. — pensa alto, Cate, enquanto continua abraçada a filha, que não consegue parar de chorar, ainda com as mãos ao redor dos ouvidos e mordendo os lábios, que agora, sangram. — Vamos, levante-se, se não tiver coragem, não precisa me contar o que aconteceu.
Senhora de Paula consegue levantar a filha segurando-a pelo braço. Elise ainda não consegue tirar as mãos de seus ouvidos, pois ainda ouve os gritos agonizantes das pessoas que querem entrar em sua casa. Os olhos de Elise se viram para a mãe, devagar, bem devagar... As palavras que Elise diz são irreconhecíveis para qualquer humano, mas Cate as entende muito bem. São velhos ditados do século XVI, velhas rezas de cultos satânicos. Elise retira as mãos dos ouvidos e Cate, assustada, afasta-se da filha e solta seu braço.
– Desligue o alarme. Todos esses métodos de segurança não os mantém distantes de mim. Eles precisam passar... — Elise desmaia no colo da mãe e quase se sufoca com o próprio sangue na boca. Senhora de Paula não consegue pensar em nada que possa ajudar a filha. Desesperadamente, levanta sua cabeça e tenta levantá-la do chão e levá-la até a cama, onde a deixa com o sangue ainda escorrendo da sua boca. Pega o celular da filha na mesa de cabeceira e digita agilmente o número da terapeuta.
*****
Não demorou muito para a senhora Hill chegar. As coisas das quais Elise esquecera teriam que ser reveladas para ela, mais cedo ou mais tarde, para o seu bem ou para o seu mal. Muitas dessas coisas que lhe foram tiradas a ajudaram a manter a sanidade até o momento atual, mas o fato dela estar completando dezesseis anos acarretou em muitas outras que precisavam ou ser desvendadas ou vedadas.
Senhora de Paula levou sua filha no colo até a sala e a deitou no sofá. A senhora Hill a analisou bem. Nunca tinha visto alguém assim, tão consumido pelas trevas. Fez o que foi possível, levou suas melhores ervas, abriu um círculo em todo o entorno do sofá e depois que o fechou, começou a dizer palavras antigas que só as bruxas com acesso ao livro especial de magia conseguiriam decifrar.
– Ela arranhou o pescoço, acho que foi o último vestígio de que Elise ainda não havia sido consumida pelas trevas. Isso eu posso atrasar. Camuflar, na verdade. O que já se iniciou, só sua semelhante poderá reverter. — manifesta senhora Hill.
– Ela vai se esquecer, não? Vai esquecer de tudo isso? — pergunta, aflita, Cate. O suor escorrendo pela testa, o nervosismo tomando conta de seu corpo que não parava de tremer.
– Quer mesmo um conselho? Você teve que ter responsabilidades muito jovem. Tinha apenas vinte e dois anos, por isso me enviaram para fiscalizar você, mas no momento em que me pediu para fazê-la esquecer e me disse o que ela estava presenciando, percebi que ela era a do mal. O que eu fiz foi errado, mas você era inexperiente e eu queria protegê-la... Agora estamos encurraladas. Sabe o que isso quer dizer?
Senhora Hill está frente a frente com a senhora de Paula, que tenta se recompor, encarando a filha adormecida sobre o sofá, tentando não imaginá-la como um monstro. Ela afasta o pensamento tentando olhar para o lado e esquecer o sangue que percorria o pescoço de Elise.
– Não... Eu só queria protegê-la também... Eu a amo! — revela Cate, voltando a encarar Jezebel, que a conforta segurando seu ombro.
– Eu sei... Você se envolveu com o homem errado, sabia que ele fazia mal a ela, mas continuou com ele, até ela começar a ter indícios muito antes do normal.
– E agora? Ela vai acordar normal? Ou tomada pelo mal? — Cate pergunta, tentando lembrar-se da primeira vez que Elise apresentou indícios do mal. Quando disse que haviam olhos por todo o lado em seu quarto, quando, primeiramente, pediu ajuda a senhora Hill apenas para proteger a casa, mas não adiantou e se mudaram para a casa atual, na qual se sentiram mais protegidas, mesmo sempre acompanhadas de Asbel, que era um homem das trevas. Lembrou-se também de quando Elise começou a ouvir vozes a chamando.
Desde esse ponto, quando tinha apenas onze anos, Elise começou a fazer a terapia, que nada mais era do que um ritual que a fizesse se esquecer do seu lado sombrio, porém isso lhe traria alguns desencargos de memória, do qual ela esqueceria de pequenos momentos e teria pequenos cochilos, além de nunca conseguir dormir mais direito.
– Eu a fiz se lembrar de tudo... Resta saber se Elise irá resistir as trevas.
*****
Elise acorda com o gosto amargo de sangue na boca. Não se lembra de como foi parar ali, no sofá, mas alguma coisa há de errado com ela. Ela encara a senhora Hill, a bibliotecária, sentada no outro sofá e sua mãe, caminhando de um lado para o outro até vê-la acordar.
– Meu amor! Está tudo bem? — pergunta Cate, aproximando-se da filha e sentando no mesmo sofá em que ela está deitada. Aperta sua mão tão forte que Elise faz uma careta.
– Mãe... Por que eu não me lembrava da senhora Hill ser minha terapeuta? E a nossa vizinha quando morávamos na outra casa? — inquiri Elise, sentindo uma pequena dor no lábio inferior.
– Precisamos conversar... — Cate olha para Jezebel, como se lembrasse do acordo que fizeram. Não revelariam sobre seu pai, só falariam sobre seu destino, sem dizer muito sobre o quão forte ele é.
– Eu só preciso comer algo antes... — revela Elise, sentindo o estômago revirar e o gosto de sangue a enjoar, mas, mesmo assim, a fome persistira. Senta-se no sofá e encontra os olhos amarronzados vazios e inexpressivos da senhora Hill a encarando.
– Por que só me lembro agora de que você era minha terapeuta? — indaga Elise, arrostando o rosto, agora ainda mais familiar, de Jezebel. Cate já havia saído da sala e seguido em direção a cozinha.
– Sua mãe vai lhe explicar melhor que eu, deixe-a voltar da cozinha. — diz a senhora Hill, enquanto cruza os braços. Os cabelos já brancos presos em um coque, o corpo rechonchudo coberto por um vestido claro, meio amarelado.
Elise para de analisar Jezebel quando sua mãe volta da cozinha com um prato cheio de coisas variadas como biscoitos recheados e sanduíches de pasta de amendoim e geleia.
– Meu amor, antes de comer, acho melhor ir se lavar e trocar de roupa...
Como um choque, Elise se lembra do que passara anteriormente. Não sabia que horas eram, mas se lembrava de ter acordado seis da manhã. A música que deixou tocar agora parecia um sonho distante e todas aquelas pessoas em volta da sua casa pareciam o pior do pesadelos. E realmente eram.
Olha para a blusa branca e finalmente percebe que está ensopada de sangue. Não sabia de onde tinha vindo, mesmo tento o gosto azedo em sua boca e se lembrar de ter mordido os lábios e sentido uma dor na boca.
Em passos milimetricamente calculados, caminha até o segundo andar, apoiando-se no corrimão e indo com cuidado, por causa dos pontos que levara na perna. Na verdade, não deveria nem subir as escadas, mas por decisão própria, preferiu dormir no próprio quarto e, também, só havia chuveiro no banheiro de cima.
Estava ansiosa para ouvir o que sua mãe queria contar-lhe e sabia que envolveria o fato dela se lembrar da senhora Hill ser sua vizinha e, também, terapeuta.
Ao se lembrar da antiga moradia, do tempo sempre cinzento, das casas todas iguais, do frio sempre constante, da neve no inverno, do verão sem graça, Elise, cada vez mais, se lembra de alguns acontecimentos muito semelhantes aos atuais, que ela tivera na infância cinzenta e na pré-adolescência, quando já morava na atual residência.
Com nove anos, chegou a nova cidade. Já tocava violoncelo, mas há pouco tempo, só um ano. Não conhecia a praia e quando a viu pela primeira vez, se apaixonou. No começo, não falava com ninguém, até fazer um trabalho em grupo com Anthony e ele lhe confidenciar que a amava. Demorou para criarem um laço, mas ele insistiu, deixou seus amigos por ela e então se tornaram quase inseparáveis, mesmo ele sendo mais velho que ela.
Elise finalmente se lembra do trabalho que fizeram, que para ela não passava de um apagão. Era uma pesquisa para uma feira cultural, em que crianças de salas diferentes teriam que interagir para fazer, por isso fizeram o trabalho juntos.
Enquanto vê o sangue descer misturado a água rósea, Elise fecha os olhos e ainda se lembra de mais mil coisas que há pouco tempo atrás, nem sabia que tinham acontecido consigo mesma.
Após o banho, Elise penteou o cabelo em frente ao espelho. Tentou fazer uma trança para — pelo menos em seu aniversário — parecer apresentável. Nem sua mãe, nem senhora Hill haviam lhe dado parabéns. Não que ela ligasse, pelo contrário, achava que era só uma forma de manter a educação, por isso que desejavam parabéns.
Ao terminar de fazer o curativo sobre a cicatriz com os pontos, Elise sai do banheiro sentindo-se revigorada e em paz consigo mesma. Desde as escadas sentindo pontadas de dor na coxa direita e segurando um algodão sobre os lábios, para estancar o sangue.
*****
Logo após Elise terminar seu café da manhã, já passando das nove horas, Cate percebe que ela já está preparada para ouvir o que ela tinha para dizer, para o momento.
Senta-se, então, ao lado de Jezebel, logo depois de deixar o prato vazio em cima da pia. Ela não conseguiria começar a falar, a ânsia de choro a fez gaguejar uns você, trevas e desígnio, mas nada muito claro que fizesse Elise realmente entender a gravidade da situação.
– Amor, eu queria começar do básico, mas acho que você já deve saber que essas coisas que você anda vendo, pressentindo e ouvindo não são fruto da sua mente... — começa a senhora de Paula, respirando fundo e contendo o choro.
– Eu não sei... Queria que não fossem, mas, ao mesmo tempo, queria que fossem... Não sei o que seria melhor. — confessa Elise, deixando sua mãe confusa. Até ela estava confusa.
De repente, a televisão da sala liga sozinha. Elise começa a prestar atenção no documentário que passara. Presta tanta atenção que nem ouve sua mãe a chamar. O ambiente parecia escuro, mesmo sendo manhã. Ela pensa que escureceu apenas pela presença das cortinas, com as quais ainda não estava acostumada.
Era sobre uma mulher, de trinta e sete anos, que matou seus dois filhos, um de cinco e outro de dois e logo depois, se suicidou. As imagens que passavam eram do local. Ela não tinha apenas matado os filhos, ela também espalhou o sangue deles pela casa, fazendo estrelas que, de alguma forma, Elise conhecia. Quando mostrou a árvore do quintal e a corda que ela usara para se matar, Elise se lembrou de algo perturbador...
A televisão desligou sozinha, o ambiente ficou ainda mais escuro. As vozes a chamando dessa vez não soavam tão assustadoras, não para ela, mas horripilantes para sua mãe e Jezebel que Elise nem ouvia nem sentia a chamar. Gritavam para ela olhar para elas, imploravam para ela não se deixar levar pelo que estava ouvindo, mas era necessário ouvir a mulher que batia em sua porta e fazia o alarme tocar desesperadamente.
Era necessário levá-la para o outro lado...
*****
Uma mulher chegou em casa, após o trabalho. Sofria de depressão desde o nascimento do filho mais novo. Não que ela jamais tivesse sentido antes vontade de se matar ou de, pelo menos, sentir uma dor diferente. Trocou de roupa e pegou, mais uma vez, o livro que escondera embaixo da cama. Era magia negra, mas a feiticeira que lhe dera o livro disse que voltaria para pegar assim que tudo desse certo, quer dizer que ela não seria tão amaldiçoada se só o usasse para fazer o único feitiço que lhe interessara.
Gravou em apenas dois dias tudo que precisaria falar. Ela queria apenas ser feliz... mesmo que isso custasse a vida de seus próprios filhos.
Enquanto preenchia a estrela de seis pontas, formada por dois triângulos, tomando conta de toda a sua sala, sentia a felicidade lhe preenchendo, de certa forma, mas mal ela sabia que essa felicidade que sentira, era por estar matando seus próprios filhos. Tentou ir dormir, após terminar o ritual, mas a agonia, a insanidade, a depressão, lhe preencheram por completo. Não entendeu, afinal, o que havia dado de errado com todo o seu ritual.
Corrompida pelo abatimento, prepara a cena da sua morte. Amarra a corda na árvore e, sem nem pensar, enfia a cabeça na abertura e pula do galho no qual estava sentada.
A televisão dissera que o nome da mulher era Angelina Counst assim que ligou novamente e o alarme parara de tocar. Jezebel e Cate aliviaram-se enquanto Elise continuava em estado de choque. A casa ainda estava escura e Elise ainda ouvia Angelina a chamar.
De repente, ela diz algo diferente de seu nome.
– Finalmente te encontrei. Fui enganada pela outra...
Mas ela não tinha terminado de falar, ela ainda precisava lhe fazer um convite.
– Vamos, preciso te levar para um lugar.
Elise primeiramente pensou em negar, até algo fazê-la mudar de ideia, entretanto, mesmo assim, preferiu não responder.
– Preciso que você me acompanhe! — quando Elise ouviu o grito, levantou-se do sofá e encarou Angelina, que simplesmente havia surgido em sua frente.
Jezebel e Cate não conseguiram ver nada, além de Elise, mas pressentiram algo, além de terem sentido um vento gélido passar por seus corpos.
– Ainda não... — responde, calma, Elise, enquanto sua mãe e senhora Hill não escutavam nada, além dela agora, conversando sozinha.
A casa volta a ficar iluminada, a televisão desliga novamente. Elise senta no sofá, parecendo exausta. Quando encara sua mãe e senhora Hill, fica assustada com tamanho pavor e surpresa em seus olhos.
– O que houve? Por que não continuam a explicação sobre o que eu ando pressentindo? — pergunta, confusa, Elise, sem se lembrar do que acontecera anteriormente.
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