Notas iniciais
Hoje consegui postar no dia certo o/ e vou tentar sempre fazer isso rsrs Quero avisar que se for um leitor fantasma, por favor, se manifeste nos comentários, não custa nada e não quero chamar uma equipe de caçadores paranormais para caça-los u.u

Ainda estava com medo do que tinha acontecido, tinha visto aquele garoto e ele até falou com ela, não conseguia acreditar que não fosse real. Então como sempre tentava buscar uma solução lógica, achou que talvez sua amiga estivesse bem distraída e não reparou em outra pessoa saindo da sala e que o piano talvez estivesse empoeirado e antigo desde o começo e ela própria que não reparou.

Na hora da saída do colégio ela se apressou em sair, Caterina insistiu em acompanha-la, mas Avaline disse que queria caminhar sozinha, só precisava se acalmar. Ela não acreditava que aquelas coisas estivessem acontecendo de novo, lembrava-se de que quando era menor ouvia uns barulhos estranhos no seu quarto e sombras indefinidas também, sentia medo e chamava sua mãe que logo ia acalma-la dizendo que nada daquilo faria mal a ela e que depois tudo se esclareceria. Lembrou-se de uma conversa que teve com sua mãe quando tinha cinco anos.

– Tinha uma mulher perto da cama, mamãe. Eu a vi, ela disse que queria que eu a ajudasse — Avaline tinha dito enquanto apertava fortemente o Billy, um ursinho de pelúcia azul.

A mãe acendeu o abajur ao lado da cama e se deitou ao seu lado abraçando-a enquanto acariciava seus cabelos.

– Ela não vai te fazer mal, filha, não precisa ficar com medo.

– Ela me disse também que eu precisava de um espelho e que eu não era a outra do mal.

Avaline se lembrou que quando disse "a outra do mal" sua mãe ficou um pouco tensa, mas logo depois passou fazendo-a dar um beijo na testa da filha e estender para ela um colar com uma corrente fina e um pingente de uma pedrinha azulada e bem bonita.

– Fique com ele, vai fazer se sentir bem. Agora vá dormir, eu fico aqui com você.

Avaline ainda não tinha conseguido pegar no sono quando ouviu a mãe falando com sua avó na porta algo sobre "ela ainda não está preparada" e " é melhor que eles não contem nada da outra".

Esse dia ainda permaneceu na cabeça dela, mas não conseguiu entender o que sua mãe quis dizer com aquelas coisas. O colar ela também não sabia onde o tinha guardado, nem se lembrava da última vez que o tinha visto, mas colocou na cabeça naquele momento que o queria achar, era algo da sua mãe e que tinha um valor sentimental para Avaline. Fora que depois que começou a usa-lo, os barulhos e vultos estranhos não a assustavam mais, só um pouco talvez, mas já tinha se acostumado com aquilo. Quando completou sete anos pareceu que tudo de estranho tinha parado de acontecer, mas nove anos depois estavam voltando e isso não agradava muito a garota e até a deixava um pouco receosa.

Avaline tirou os pensamentos de anos antes de sua cabeça no momento que atravessou a rua e quase foi atropelada por um carro que passou em alta velocidade e o motorista ainda colocou a cabeça para fora e a xingou de doida sem noção. A garota levou um susto e deu corridinhas até a outra calçada para se recuperar, não sabia como tinha ficado tão dispersa daquele jeito.

Não sabia direito para onde estava indo, só queria caminhar um pouco e ficar sozinha. Acabou optando para ir até o parque da cidade que naquele momento estava um pouco deserto por conta de estar enlameado por causa das chuvas, ele era mais frequentado em dias ensolarados e secos, várias fámilias iam lá fazer piquiniques.

Foi em direção a uma enorme árvore centenária e que ela tanto gostava, se sentou numa das grossas raízes que estavam para fora, colocou os fones de ouvido e tentou se distrair enquanto observava uns pescadores tentarem conseguir algum peixe no lago gelado.

Não sabia quanto tempo tinha se passado, despertou com seu celular vibrando na mochila e pulou de susto. Olhou para cima e o céu já estava escuro. As únicas pessoas que ainda estavam ali no parque era as que estavam limpando, até os pescadores já tinham ido embora.

Olhou para seu celular e tinham dez chamadas perdidas de seu pai. Ligou para ele que atendeu em menos de dois segundos.

– Posso saber onde você está até essa hora, Avaline? — Fabrizio perguntou e dava para percerber que estava nervoso.

Avaline tirou o telefone do ouvido e viu que já eram sete e meia da noite, tinha realmente pegado no sono naquele lugar, estava mesmo cansada.

– Desculpe, pai, é que eu acabei cochilando, estou aqui no parque. Já estou indo.

– No parque? O que está fazendo aí? Quer que eu te busque?

– Não precisa, já estou indo.

Desligou o celular e saiu a passos largos do parque que estava bem deserto, a chuva de sempre já estava começando a cair e a encharca-la.

*****

Quando chegou no apartamento, seu pai já estava esperando-a sentado no sofá de braços cruzados. Essa expressão era a de que não estava gostando nem um pouco do que estava acontecendo.

– Sabe que não gosto quando não atende o telefone — ele disse.

– Eu sei, é que não sei o que me deu e acabei cochilando.

Avaline ainda não sabia como tinha pegado no sono deitada naquela árvore, de alguma forma ela a fazia se sentir mais calma e leve e gostava de ficar ali, só que não sabia que essa leveza toda fosse faze-la dormir correndo o risco de ser assaltada.

– Dá próxima vez venha direto para casa, é perigoso você ficar andando por aí e acabar dormindo nos lugares.

– Tudo bem, pai.

Avaline já ia para seu quarto, quando ouviu seu pai chama-la. Virou-se de mau humor, não queria ouvir ele dando mais bronca nela ou coloca-la de castigo, o que quase nunca acontecia.

– Ah, troque de roupa que vamos jantar na casa dos vizinhos — Fabrizio disse.

– O quê? Desde quando você é amigo dos vizinhos brigões?

– Desde que eles ficaram satisfeitos com os serviços da funerária e resolveram nos agradecer.

– Você quer dizer agradecer você, não a mim. E eu não quero ir.

– Ah, filha, o que custa? É aqui do lado só, não tem nem que andar, saiu e já está na porta dos vizinhos e eu disse que você iria comigo. O que custa darmos uma de bons vizinhos? Fora que eles trabalham numa rede de empresas grande, se gostarem da gente, quem sabe não poderiam me ajudar a expandir a funerária ou até abri-la em outros lugares?

Ela não queria ir, nem conhecia direito aqueles vizinhos, pensou que se eles começassem a brigar no jantar a faca poderia voar longe e eles também não pareciam ser muito legais, esperava que não pusessem veneno na comida.

Mas depois acabou aceitando, mais pelo fato do pai ter insistido do que pela vontade de ser boa vizinha, para ela quanto menos vizinhos falassem com sua pessoa era bem melhor.

Foi para seu quarto, tomou um banho, e já ia pegar qualquer roupa, quando ouviu seu pai do outro lado da porta avisar para ela colocar uma roupa direita que os vizinhos eram pessoas finas. Avaline revirou os olhos e não acreditou que teria que colocar uma roupa de sair para ir num apartamento praticamente colado no seu, por ela colocaria uma calça, moletom e chinelos e estava bom demais.

Acabou colocando um vestido roxo de mangas compridas que tinha o desenho de umas estrelinhas pretas, sapatilhas douradas e prendeu o cabelo numa trança lateral, ele não estava nos seus melhores dias por conta de ter pegou muito chuva, estava volumoso e seco. Passou um batom claro e quando ia sair de seu quarto acabou tropeçando na alça de sua mochila que estava jogada no chão acarpetado lilás.

Xingou mentalmente e quando foi coloca-la em cima da cadeira da escrivaninha algo caiu do bolso lateral. Era um papel dobrado ao meio que voou e caiu embaixo da cama.

Avaline estranhou, já que não se lembrava de ter recebido bilhete nenhum. Abaixou-se, pegou o papel e ao observar o que ali tinha, ficou um pouco assustada. Era a partitura de alguma música. Ela não conseguia saber como que aquilo funcionava já que não entendia nada de música, mas algo no seu interior dizia que era de um piano, mais precisamente aquela melodia que tanto tinha gostado e do garoto que tinha desaparecido. Mesmo estando um pouco receosa, um sorriso surgiu no seu rosto, afinal ele tinha se lembrado dela, coisa que raramente alguém fazia.

Estava distraída quando ouviu seu pai batendo na porta querendo saber se ela já estava pronta. Se levantou, guardou a partitura na gaveta e saiu.

*****

O apartamento dos vizinhos era incrivelmente organizado e bem decorado, parecia até que não fazia parte do prédio antigo. Tinham vários objetos que custavam uma fortuna e quadros originais de vários artistas famosos. Avaline ainda não entendia o que aquele pessoal endinheirado fazia morando naquele lugar, não que fosse um prédio muito barato nem nada, só que para ricos parecia pouco. Acabou que numa conversa e outra ela descobriu que eles só estavam morando ali por um tempo já que tinham que resolver assuntos de trabalhos em sua empresa.

O jantar tinha sido um peixe grelhado que estava esplendido,aliás, toda a comida servida estava excelente. Avaline não se lembrava da última vez que tinha comido uma comida caseira tão boa, já que seu pai não era muito bom de cozinha e ela era péssima, o máximo que fazia era um miojo.

No final da sobremesa, que era um musse de chocolate, o assunto na mesa era sobre negócios de trabalho e isso já tinha ficado chato, ela não entendia nada do que estavam falando ali na mesa e ao olhar para o lado notou que Theodor também parecia entediado.

– Então, como esse assunto não parece bom para nenhum de nós dois, o que acha de irmos para o meu quarto? — ele perguntou.

– O quê?

– Calma, não é nada do que você está pensando — respondeu rindo, mas ela percebeu que ele ficou um pouco vermelho — É só que queria te mostrar meus quadros, não sei se gosta de pinturas, mas acho que qualquer coisa é melhor do que ouvir meus pais falarem da empresa deles.

– Tudo bem, eu gosto de pinturas — Avaline mentiu, ela não era muito fã de pinturas, principalmente aquelas sem sentido que ela nunca conseguia identificar do que se tratavam, mas o assunto da mesa realmente estava chato.

Eles pediram licença e saíram da mesa, seguindo por um corredor e entrando numa porta a direita. Apesar de fazer parte do mesmo prédio, o apartamento deles parecia bem melhor do que de qualquer outro morador dali, parecia mais refinado e Avaline tentou imaginar o que eles tinham achado do apartamento do seu pai, que era todo desorganizado, eles dois não gostavam muito de organizar as coisas.

O quarto de Theodor era bem organizado e limpo, era todo branco com preto e com móveis combinando. A janela era bem localizada, onde se podia ver os carros passando se olhasse para baixo e olhar as estrelas se olhasse para cima. Pensou no seu próprio quarto — cheio de roupas e coisas jogadas pelo chão e a janela que dava para os fundos do prédio da onde só se podia ver a parte da lixeira se olhasse para baixo e um outro prédio maior do que o que morava se olhasse para cima — e achou que ele era horrível se comparado aquele onde estava.

– Vem, pode entrar — Theodor disse ao perceber que Avaline ainda estava na soleira da porta.

Ela entrou e ficou parada ali no centro do quarto, pisando num tapete felpudo preto.

– Seu quarto é legal — disse sem saber mais o que poderia falar.

– Ah, obrigado. Na verdade a decoração aqui da casa não fui eu nem meus pais que decoramos, foram meus tios. Eles moravam aqui, mas se mudaram faz uns dez anos, desde então ficou vazio esse apartamento. Então como meus pais tiveram que vir para Huperville a trabalho, resolveram ficar aqui mesmo. Você deve ser lembrar dos meus tios, eles tinham um filho.

– Não me lembro, moro aqui há oitos anos.

Avaline não quis dizer que morava ali há oito anos desde que sua mãe faleceu, não queria dar muito informação da sua vida. Ela e seu pai haviam se mudado para aquele prédio por conta dele não querer continuar morando num lugar que lembrasse sua esposa, moravam antes numa casa nos fundos da moradia da avó de Avaline, e ninguém ficou vivendo lá desde então e nem quiseram vender.

– Bom, venha ver minha coleção de pinturas.

Theodor pegou um monte de suas pinturas e as espalhou pela enorme cama de casal. Era todas bem bonitas e detalhistas, ele pintava muito bem e desenhava também, nenhum detalhe lhe escapava dos olhos.

– É tudo muito...impressionante. Você desenha muito bem e pinta também. Como consegue isso? O máximo que eu faço é uns bonecos de palitinhos — Avaline disse.

– Não sei, desde pequeno gosto de desenhar e sempre tive esse dom, até porque meu pai é artista plástico, acho que deve estar no genes — falou.

– Eu queria ter algum dom, eu não sei fazer nada, sou péssima em tudo — Avaline reclamou, tudo que fazia sempre saia errado, já até tinha desistido de tentar fazer algum curso, porque sabia que não ia dar certo.

– Talvez você tenha o dom de ser bonita, apesar de usar umas roupas estranhas.

– Nossa, primeiro você me elogia e depois diz que me visto estranha. Legal — respondeu ainda um pouco surpresa pelo elogio, apesar de ter ficado com um pouquinho de raiva por ele ter dito de suas roupas.

– Sim, isso aí — ele disse e sorriu.

Avaline se sentiu constrangida com a situação, desviou o olhar do dele, fingiu observar mais um pouco as pinturas e queria sair correndo daquele quarto. Theodor percebendo que ela se sentiu incomodada, pigarreou e disse:

– Venha, vou te mostrar mais uma coisa.

Os dois saíram do quarto dele e foram em direção a uma outra porta que ao abri-la revelou ser uma sala onde continha várias outras pinturas penduradas na parede, uma mesa quadrada com várias tintas e lápis em cima, um cavalete e um piano num canto.

Ao observar o piano, Avaline automaticamente se lembrou de mais cedo no colégio e quis afastar o pensamento da mente.

– Não sabia que você tocava — disse ainda observando o piano.

– Quem me dera saber tocar essa belezura aí, já tentei, mas não consigo. Era do meu primo, ele era excelente no que fazia.

Ela observou que a voz de Theodor mudou quando falou do primo, adquiriu um tom mais triste.

– O que houve, ele não toca mais?

– Infelizmente não, ele morreu faz dez anos. Foi um perda bem grande para meus tios, era filho único. Esse foi o motivo de deixarem o apartamento. Ah, ali em cima tem um quadro que pintei em homenagem a ele.

Theodor apontou um dedo para uma pintura acima do piano e quando Avaline viu aquele garoto de olhos verdes próximos do mel e cabelos negros que iam até o pescoço, sentiu sua visão escurecer, mas mesmo assim fez a próxima pergunta.

– Qual o nome dele?

– Lorenzo.

Avaline sentiu suas pernas babearem e sua visão escurecer mais e mais. Não acreditava naquilo, era o mesmo garoto que tinha visto mais cedo no colégio.

– Ei, você está legal? — Theodor perguntou e a levou até um cadeira — Quer água?

– Eu...eu preciso ir embora.

Ela se levantou mesmo estando tonta, saiu daquele lugar, passou pela sala e disse rapidamente para seu pai que estava indo para casa, não o deixou nem responder e já estava saindo porta afora em direção a seu apartamento. Sabia que estava sendo mal educada, mas não queria saber de nada naquele momento.

Notas finais
Digam o que acharam :D