Oczy

4 Uma noite sem piano


Notas iniciais
Tem algumas palavras em polonês aí pelo meio que eu não coloquei tradução junto - a única que vocês precisam saber é a expressão "mój syn" que quer dizer "meu filho". O resto é entendido na história sem problemas. E a comida que Stiles tá comendo eu não indico pra ninguém, haha. Minha vó fazia. Não é uma coisa boa pra lugares fechados, só dizendo... =D Obrigado pra todo mundo que tá lendo e comentando, ou só lendo. Lembrem de dizer como está a história!

“Tenho visto você conversando com Hale ultimamente, filho.” John falou, tentando não chamar atenção demais para as próprias palavras, apenas jogando elas no meio da conversa como se fosse uma coisa normal. Pai e filho estavam na bancada do bar fazendo a refeição noturna antes da movimentação da noite do Olhos Negros começar.

A estratégia de John de colocar a pergunta simples no meio da conversa, sem muito alarde, não funcionou direito, no entanto. Stiles, ao ouvir as palavras do pai, acabou se engasgando com o pouco de kapusta que tinha colocado na boca, tossindo para tentar tirar a comida do lugar errado.

“Calma, mój syn.” O pai dele falou, esticando o braço para bater nas costas do filho, tentando ajudar o garoto a respirar com normalidade. Stiles tossiu mais algumas vezes antes de inspirar ar para seus pulmões, alcançar seu copo com água, tentativamente, e tomar alguns goles. Ele esperou alguns segundos antes de virar seu rosto para o pai, protesto escrito nas feições dele.

“Eu não obrigo ele a conversar comigo. Eu nem tenho culpa. Ele aparece no piano e… fala comigo. Ele diz que…” Stiles fez sua boca parar de falar no meio do caminho, antes que ele repetisse as palavras que Derek dizia para ele em seu ouvido. Com certeza não seria uma boa ideia conversar com o pai dele sobre aquilo. O assunto já era complicado o bastante só na cabeça do garoto.

“Eu sei que ninguém obriga ninguém a conversar.” John falou em meio a mais uma colher de comida. “Eu estava com ele no primeiro dia em que ele pediu se poderia ir conversar contigo, então isso não era um mistério pra mim. Você precisa de… amigos. E eu disse que sim, disse que ele deveria ir conversar com você. Não tem nenhuma lei que proíba pessoas de conversar. Não é uma coisa ruim.” O homem parou de falar e engoliu o que tinha na boca antes de continuar. “Ou tem algo que eu deveria saber sobre o Hale?”

Stiles bufou ao ouvir o pai falando de novo sobre essa necessidade de se ter amigos, coisa que às vezes o garoto não conseguia compreender. Mas a preocupação do homem não era só sobre aquilo, parecia que John estava preocupado com a possibilidade de Derek não ser um homem decente.

Não havia nada de errado com o que Derek estava fazendo, no entanto, e Stiles sabia daquilo. Porém as coisas eram novas, coisas que o garoto nunca havia feito antes, ou, pelo menos, não fazia há muito tempo.

Ter amigos.

Stiles respirou fundo.

“Não tem nada de errado com ele, pai. Pelo menos eu acho que não tem.” Ele falou, descansando a sua colher no prato e suspirando. Ele esperou alguns segundos para as ideias se organizarem na cabeça dele antes de abrir a boca. “Eu não sei o que pensar, na verdade. Eu não o conheço, mas ele fala comigo como se fosse meu amigo. Ele sabe coisas sobre mim que eu contei pra ele, mas ele não me disse muito sobre quem ele é. A gente só conversa enquanto eu estou no piano, quando eu não posso descobrir mais sobre ele. Eu…”

Stiles suspirou de novo.

John colocou uma mão no ombro do filho e apertou.

“Você poderia passar uma noite no bar, sentado. A gente pode colocar a nossa vitrola pra trabalhar por algumas horas e você pode ter uma folga pra conversar com esse amigo, conhecer ele melhor.” A voz de John veio sem a mesma relutância de antes. “Quando o Hale aparecer por aqui vocês podem conversar sobre qualquer coisa que quiserem. Qualquer coisa, Stiles.” As palavras do pai de Stiles saíram com normalidade e a sugestão dele não era ruim, só não era exatamente o que Stiles estava esperando.

Mas quando que o pai dele fazia alguma coisa que ele esperava?

“E não teria problemas em eu conversar com ele?” O garoto fez a pergunta simples, porém uma que poderia significar uma infinidade de coisas.

Ele queria saber se haveria algum problema em ele conversar com outro homem, conversar com alguém que ele não conhecia, encontrar um novo amigo ou algo mais. Stiles queria saber se o pai estava fazendo aquilo por vontade própria, se ele se sentia forçado a fazer o filho encontrar alguém próximo da sua idade, se ele não pensaria nada de errado naquilo.

Em vez de fazer todas as perguntas, contudo, Stiles optou só por uma.

O pai dele suspirou.

“Claro que não, Stiles. Você não é mais uma criança. Se você quer conversar com alguém, se você quiser um amigo do seu lado, eu não vou encontrar problemas nisso.” John tossiu uma vez antes de apertar o ombro de Stiles de novo e continuar a conversa. “Nós vivemos em um mundo ilegal, meu filho, mas isso não quer dizer que nós não merecemos um pouco de normalidade. Nosso sustento vem daqui, nossa vida é esse bar, mas a gente também não pode viver sozinho pra sempre. Todos precisam de alguém pra dividir a felicidade. E ser feliz é apenas o que eu quero pra você. Se existe a possibilidade de Hale ser um bom amigo pra você, eu não vou me colocar no meio do caminho. Ninguém tem nada com a sua vida, Stiles. Nem eu. Quem manda nela é você.” O pai apertou mais uma vez o ombro do filho antes de soltar ele, se virando para o prato na frente dele.

O garoto ficou em silêncio, tentando entender o que as palavras do pai significavam.

“Eu nem sei se ele quer ser meu amigo, pai. Eu…” Stiles suspirou.

“Dê uma chance pra ele dizer isso pra você, então.” O homem falou de novo.

“Mas e…” Stiles ficou alguns segundos sem saber o que dizer, tentado achar a coragem para as palavras que estavam na ponta da língua dele. Ele suspirou de novo. “E o que as pessoas vão dizer se virem o pobre ceguinho conversando com outro homem? Elas vão pensar que eu sou um…” Stiles não pode terminar suas palavras.

“Stanislaw Stilinski!” John bateu a mão na mesa ao dizer o nome completo do filho, assustando ele com seu tom. “Eu não quero saber de ouvir essas palavras dentro da nossa casa. Você não vai depreciar a si mesmo só por causa do que você acha que os outros vão pensar. Não foi assim que eu te criei. A única diferença entre você e qualquer outra pessoa é o fato de que você vive seus dias de olhos fechados e eles têm a chance de abri-los. Dentro de você, no seu coração e na sua mente, você tem o mesmo valor que qualquer outra pessoa, mesmo que muitos falhem em ver isso. Mesmo que você não consiga ver isso.” O homem terminou de falar e suspirou. Ele tinha dito todas aquelas palavras com rapidez, sentindo seu coração bater forte e querendo tirar todas aquelas ideias da cabeça de Stiles.

O garoto não disse nada por alguns instantes, deixando o silêncio pesar por sobre eles dois. Stiles respirou fundo, se virando na cadeira para ficar de frente para o pai.

Przepraszam, tato. Desculpa.” A voz do garoto saiu fraca em forma de sussurro, mas foi possível ouvir muito bem as palavras que ele tinha dito. John se esticou para colocar as duas mãos nos ombros de Stiles e olhar nos olhos dele, mesmo que o filho não o pudesse ver.

Mój syn.” John suspirou antes de engolfar Stiles em seus braços, apertando o garoto contra o peito enquanto uma pequena lágrima escorria de seu rosto. “Eu não me importo com o que ninguém pensa nesse mundo, a não ser que essa pessoa seja você ou te faça feliz. Só isso que me importa, Stiles. E eu não posso ouvir você falando mal de você mesmo. Eu não posso.”

O homem descansou seus lábios nos cabelos do garoto, tentando assegurar ele de que ninguém importava mais que Stiles no mundo.

–--

John colocou a vitrola antiga que eles tinham no bar para funcionar. Quase ninguém percebeu a diferença entre as noites em que Stiles tocava ao piano e essa música que saía do cone metálico agora, já que o movimento do bar não foi afetado em nada e não houve reclamações.

Algumas pessoas deixaram seus olhos vagarem pelo piano, no entanto, notando a falta de alguém por ali – e John tinha um pequeno sorriso em seus lábios ao ver alguns clientes do Olhos Negros olhando para o instrumento e procurando o garoto que a maior parte deles não conseguia ver.

Ele gostava de saber que Stiles não passava despercebido por todo mundo, porém sentado em um dos cantos do bar naquela noite, encostado na parede e escutando todo o movimento de pessoas por ali, o menino atraía alguns olhares diferentes. Quando ele estava longe dos lugares mais movimentados as pessoas não tiravam o tempo para olhar para ele, hoje que ele estava ao bar, muitos se mostravam surpresos ao verem ele, alguns até com olhares cheios de pena – e outros com pleno desgosto.

Em alguns momentos também era bom saber que Stiles não poderia enxergar a todos os rostos que olhavam na direção dele.

O trabalho na venda de bebidas iria ser bastante movimentado naquela noite; quanto mais próximo do final de semana mais pessoas apareceriam por ali, então em uma sexta-feira à noite era esperado que muitos homens e mulheres se dirigissem aos lugares onde a diversão acontecia em Chicago. John estava acostumado com aquilo, no entanto; não faria diferença para ele se o bar estivesse cheio ou vazio – ou melhor, faria sim, pois ele sempre preferia que o bar estivesse cheio.

No meio da noite, quando ele estava completamente entretido com seu movimento frenético para pegar as bebidas, encher copos, colocar copos usados na pia, servir clientes e atender a todos que estavam escorados na bancada, coisa que ele fizera há anos sozinho, o homem que ele estava ansioso por ver naquela noite fez sua entrada no lugar.

Derek Hale estava vestido com uma calça simples, camisa e suspensórios, charuto na boca e chapéu na cabeça. A cara mostrava cansaço e descuido, barba ainda por fazer, mas um pequeno sorriso brincava nos lábios dele. O homem caminhou lentamente pelo centro do bar, olhando para os lados atentamente antes de fixar seus olhos no piano e logo torcer o nariz, vendo que ele estava vazio.

O movimento foi quase imperceptível para qualquer pessoa que não estivesse de olho nele, mas John conseguiu ver a troca de emoções na cara do homem. Hale continuou caminhando com calma até chegar ao bar, e então o rosto dele se iluminou de novo. No canto do bar, sentado em uma cadeira e apoiando a cabeça nos braços estava Stiles. O sorriso de Hale era mais visível agora.

John sorriu também.

“Alguma coisa pra hoje, Hale?” O homem perguntou, puxando a atenção de Derek para ele, vendo o homem se pegar surpreso por um segundo. No canto do olho ele conseguiu ver que Stiles também levantou a cabeça. John havia falado mais alto especialmente para que o filho ouvisse.

“Eu vou querer o melhor rum que você tiver.” O homem pediu, sorrindo. John sorriu de volta antes de se direcionar para as garrafas de bebida. Ele sabia que aquele sorriso de Hale não era por ele estar em um bar pronto para beber e descansar a cabeça, era por causa de o homem ter visto o garoto sentado no canto do bar, e não ausente como a primeira impressão tinha causado.

Quando a bebida estava servida, em vez de John colocar o copo na frente de Hale ele se virou e foi até o filho. Sem nem avisar ao homem, ele colocou o rum posicionado no balcão na frente de Stiles e se virou para Derek, esperando pela reação dele.

Hale arregalou os olhos por um segundo, sem saber o que John estava planejando. O homem apenas sorriu e meneou com a cabeça para Hale ir para o lado onde estava a bebida dele – e por consequência, Stiles. Por alguns segundos, Derek ainda ficou em dúvida se ele deveria ir ou não, mas John apenas rolou os olhos e suspirou, deixando uma risada escapar dos lábios dele e mostrando que ele não se importava em ver os dois juntos.

John olhou para outro cliente na frente dele, pedindo o que ele queria ser servido. Quando ele se virou de volta para pegar mais uma bebida, Hale e Stiles já estavam conversando, sorrisos tímidos estampados no rosto dos dois.

O homem sorriu para si mesmo.

–--

O meu dia de trabalho tinha sido cansativo, como todos os outros. Trabalhar nas docas do porto era um serviço árduo e difícil, mas para quem havia ido para uma guerra, carregar madeiras dos caminhões para os barcos era alguma coisa que apresentava menos risco de morrer numa idade jovem.

Claro que sempre havia o perigo de eu perder um braço ou uma perna devido a alguma madeira perdida, porém não conseguia me importar muito com aquilo. O trabalho servia mais para passar o tempo, colocar a mente em algum lugar em vez de deixar ela se perder dentro da própria cabeça. Suar e grunhir como um dos outros tantos homens durante o dia de serviço era uma coisa boa para eu não ter que pensar em tudo que já havia visto na vida.

Sem falar que eu também não tinha muito para onde correr, então o trabalho servia bem para deixar os dias passarem até eu encontrar meu próprio lugar no mundo.

Nada era assim tão horrível. Especialmente numa sexta-feira, já que o trabalho corria por mais de doze horas no dia, cinco dias na semana, tendo dois dias livres para fazer nada – o que me deixava livre para aproveitar uma noite nos bares de Chicago sem ter que me preocupar em acordar cedo no outro dia.

Não que eu ficasse dormindo até mais tarde, mas o que valia era a intenção.

Ao chegar ao meu pequeno apartamento, todo sujo, eu corri para o banho, tentando tomar o menor tempo possível para me limpar. Não fiz a barba e nem tomei tempo demais embaixo da água, querendo chegar ao Olhos Negros logo, já que eu saía do porto depois das oito horas da noite e até chegar em casa e me aprontar para ir, o bar já estaria em alto movimento.

Eu ainda me olhei no espelho por alguns segundos, assim que o banho terminou. As cicatrizes que marcavam o meu rosto, no lugar onde os estilhaços de um morteiro haviam atravessado a pele, estavam avermelhadas pelo calor da água. A barba conseguia esconder algumas, mas as linhas ainda eram bastante proeminentes.

Não dei muita atenção para aquilo, no entanto, apenas peguei minhas roupas comuns para uma noite na cidade, charuto e chapéu, e sai de casa.

A caminhada para o Olhos Negros foi rápida, e a porta de entrada já estava escancarada. Mesmo sendo um lugar ilegal, a vizinhança do bar era tão escondida que ele era um dos únicos estabelecimentos que tinha uma porta direta para a rua, quando a maioria dos outros tinha passagens secretas para seus clientes entrarem.

Coloquei meus pés dentro do local, deixando o assoalho de madeira sentir meu peso. Meus olhos correram direto para o piano, procurando por Stiles, mas eu não o vi. Meu coração parou de bater no peito por um milésimo de segundo e o desapontamento se espalhou rapidamente.

Stiles não estava lá.

Os passos até a bancada do bar foram tensos, meio perdidos. Era como se eu não soubesse exatamente o que fazer sem ter o garoto por ali, pronto para pedir mais coisas sobre mim, sem ter Stiles pra eu poder conversar. Sem poder ouvir a música que saía dos seus dedos.

Minha chegada ao bar foi quase imperceptível para mim mesmo, no entanto logo John já veio me atender.

Antes mesmo de o homem perguntar qualquer coisa, meus olhos se viraram para ele, mas meu olhar se fixou em algo lá no fundo, quase escondido, e se perdeu antes de eu encontrar o que eu estava procurando: Stiles estava sentado em um dos cantos do bar, mergulhado dentro de seus próprios pensamentos.

Um sorriso brotou em meus lábios e o desapontamento desapareceu como num passe de mágica.

“Alguma coisa para hoje, Hale?” A voz do homem parecia mais alta do que o necessário para apenas falar comigo, mesmo assim eu tomei alguns segundos a mais para olhar para John, querendo ver Stiles por mais alguns momentos.

Virei com calma para o barista sorridente.

“Eu vou querer o melhor rum que você tiver.” A resposta foi objetiva. Enquanto John se preocupava com a minha bebida, eu deixei os olhos vagarem calmamente para a figura sentada no canto do bar. Stiles parecia especialmente introspectivo naquela noite, sem a proteção do piano. Ao mesmo tempo, no entanto, seu semblante exibia uma cor diferente, os tons claros e as manchas em sua pele apareciam com mais força quando ele não se curvava sobre seu próprio corpo.

Assim que eu voltei meu olhar para John, esperando pelo rum, pude ver que o homem não estava se dirigindo para meu lado, mas sim para seu filho, colocando o copo com a bebida na frente do lugar onde Stiles estava sentado.

Meu corpo tremeu todo e eu arregalei os olhos, esperando para ver o que o homem faria. John só rolou os seus olhos e sorriu, fazendo um gesto de cabeça para indicar que o lugar onde eu deveria sentar era aquele lá, junto de Stiles.

Eu não sabia o que fazer senão ir ao encontro do garoto.