Notas iniciais
Obrigado a todo mundo que já comentou! Um beijo pra vocês!

“Ele me convidou para ir jantar na casa dele.” Stiles falou, quase sussurrando, enquanto o pai terminava de secar os copos que o garoto tinha acabado de lavar.

A noite parecia ter sido uma das mais curtas e mais longas da vida de Stiles. Ele nunca havia ficado tão entediado, sentado sem fazer nada, longe do seu piano, mas foi só Derek aparecer que o tempo voou sem ele nem ver, enquanto eles ficaram conversando — até o momento em que o homem disse que precisava ir pra casa pois trabalharia cedo no outro dia.

Então tudo voltou a se arrastar de novo.

“E quando vai ser isso?” John perguntou de volta.

“Amanhã de noite?” O garoto falou, mas lembrando que provavelmente já deveria ser bem tarde, ele replicou. “Ou melhor, hoje de noite.”

O pai de Stiles murmurou alguma coisa ininteligível para si mesmo, deixando alguns segundos correrem antes de responder ao filho. Aqueles segundos fizeram Stiles quase começar a tremer com antecipação pela resposta.

“Hoje você não fez nada mesmo durante a noite. Não vejo problema em você sair pra jantar com um amigo.” O pai dele disse. Stiles fez quase um som de protesto ao ser ignorado pelo pai, mas logo percebeu que John havia autorizado ele, e não o contrário. Um pouco boquiaberto ele tentou fazer as coisas fazerem sentido na cabeça dele.

“E você vai me deixar sair assim?” A pergunta não faria muito sentido para qualquer outro jovem da idade dele, mas pra Stiles era quase óbvio. Imagine, a maioria dos noviços de Chicago passava a noite fora de casa e já vivia uma vida normal como adultos, indo a festas e bebendo o que queriam. Stiles era um desses noviços, mas a forma de aproveitar a vida que ele tinha em sua cabeça divergia em muito das ideias que os outros tinham

“Sim.” John respondeu, como se só aquela palavra fosse o bastante.

E era, mas parecia até que Stiles queria achar complicações para não sair de casa. Ele ia abrir a boca para falar, mas o pai o interrompeu.

“E o Hale veio falar comigo assim que ele te deixou, filho. Ele me pediu se não teria problema em você ir jantar com ele. E eu disse que não teria problema nenhum, que era até bom que você saísse de casa para fazer algumas amizades.” John falou simplesmente.

Tato!” Stiles protestou, irritado com a conversa sobre amizades, outra vez, mas não conseguiu continuar pois seu pai o interrompeu de novo.

“Stiles, me escuta.” John falou com autoridade, esperando o filho engolir as palavras que estavam prontas para sair de sua boca, respirar fundo e virar seu rosto para ele. O garoto apenas assentiu, permitindo que o homem continuasse. “Eu não estou te obrigando a fazer nada. Eu não quero que você se sinta pressionado a fazer qualquer coisa que você não queria, me entende? Mas eu fiquei toda a noite do lado de vocês dois, eu ouvi quase tudo que vocês conversaram. Eu trabalho aqui, Stiles. Eu vi tudo que aconteceu entre vocês dois aqui no bar, as noites que Hale veio pra cá e conversou com você, as noites que ele veio pra cá só pra olhar pra você. Eu consigo ver o jeito que ele te olha. Não é como um homem que pensa em machucar alguém, não é um homem que pensa em fazer mal a alguém – fazer mal a você. Quando eu vejo o Derek eu vejo um homem que olha com fascínio pro modo que você toca piano, pro jeito que você se movimenta quando conversa, como você se porta. E eu vejo essas coisas sem nem precisar ficar perto de vocês. Mas aqui dentro vocês nunca vão conseguir ficar um de frente pro outro, nunca vão conseguir conversar direito, e eu posso parecer o pai mais maluco da história, mas se eu vejo que esse homem pode te fazer feliz, ser teu amigo, e se eu consigo enxergar isso com meus olhos sem nem precisar falar com vocês, é porque eu sei que vai dar certo.” John parou de falar e respirou fundo.

O silêncio pareceu pesado quando o homem parou de falar e Stiles suspirou, deixando seus ombros caírem um pouco.

“Eu…” O garoto balançou a cabeça. “Eu nunca fiz nada dessas coisas, pai. Eu acho que amigos são coisas importantes, mas faz tanto tempo que…O garoto falou, se sentindo inexperiente e desprotegido. Stiles escutou os passos do pai se aproximando dele antes de sentir as mãos do homem pressionando seus ombros.

“Eu sei, mój syn, por isso mesmo que eu estou te empurrando pra fazer alguma coisa diferente. Eu sei que ele não vai fazer nada que você não queira, eu confio nele. E ele mesmo me disse que não vai te obrigar a fazer nada também, certo? Eu só não quero te ver aqui perdido e sozinho e esse homem foi a primeira pessoa que eu vi que sente alguma coisa genuína por você. Se você não tem a chance de ver isso com seus próprios olhos, eu, que posso enxergar isso, tinha que fazer alguma coisa.” John abraçou o filho, colocando uma das mãos na cabeça dele. “Se você não quiser ir é só dizer uma palavra e eu mesmo posso falar com o Hale, certo?”

O garoto ficou no calor dos braços do pai por alguns instantes, deixando todas aquelas palavras se assentarem na cabeça dele. Ele respirou o cheiro do pai dele, confortando os próprios sentidos, antes de falar de novo.

“Eu não quero dizer não, tato. Eu só não sei o que fazer quando eu estiver junto com ele. Não sei como funcionam as coisas no mundo dos adultos, metade do meu mundo ficou travado no passado dos meus treze anos.” As palavras foram sussurradas, quase como se Stiles tivesse vergonha de falar elas.

“Eu sei, Staszek. Mas se você quer ver o que vai acontecer, tenta respirar fundo e ir em frente. Muitas pessoas fecham os olhos para não sentirem medo de dar o próximo passo, mas você não precisa ter medo de ver pra onde você vai, já que não enxerga nada. Só dê o próximo passo.” O homem falou, rindo um pouco.

Stiles riu também.

“Eu não sei como eu consigo rir dessas piadas ruins sobre cegueira, pai.” O garoto bufou, batendo carinhosamente nas costas do pai. O homem apertou ainda mais seus braços em volta do filho.

“É porque a maior parte do humor é fundada na realidade. Nada pode ser mais real do que um cego com medo de conseguir enxergar o próximo passo, com medo de ter a chance de ver o que o futuro pode ser, sendo que, na verdade, ele não pode enxergar é nada.”

–--

Toda a conversa que tive com Stiles, pela primeira vez frente a frente, foi uma das coisas mais fascinantes que eu fiz na minha vida. Eu pude ver ele perto de mim de uma forma que eu ainda não tivera a chance.

Eu vi o jeito que os olhos dele se mexiam de um lado para outro, como se tentassem enxergar o mundo – mesmo que ele não pudesse ver nada. Eu pude perceber como o corpo dele responde às palavras que saem de sua própria boca, como ele gesticula com os dedos e as mãos para completar o sentido delas, ainda que na maior parte das vezes ele controle esse estímulo, tentando deixar seus membros colados ao corpo.

Foi possível ver de perto a cor clara da pele do garoto e as várias manchas que cobriam ele como estrelas iluminando o céu. O cabelo escuro como um ninho desarrumado na cabeça, como se ele tivesse passado a mão várias vezes por ele, alguns pelos mais escuros ainda, escassos, começando a desenhar uma barba no rosto dele, que ao contrário do rosto do pai não era tão envelhecido.

Todos os momentos da conversa foram incríveis, até aquele que foi cheio de nervosismo quando eu perguntei a Stiles se ele gostaria de ir jantar comigo. O garoto se sentiu acuado e inseguro, mas acabou por aceitar a proposta, mesmo parecendo nem saber se deveria.

Eu fiquei mais do que feliz.

Tenho que admitir que, em circunstâncias inversas e vivendo a mesma vida que Stiles vive, eu me sentiria do mesmo jeito que ele, afinal não é todo dia que um homem mais velho que você se força em sua vida, demanda sua companhia e amizade e convida você para sua casa sem ter algum perigo mascarado pelo meio.

E tudo fica pior quando você pensa que o garoto não pode nem julgar uma pessoa com seus próprios olhos, afinal ele não pode ver ninguém. E ninguém toma o lado dele em nossa sociedade, que tem por costume excluir as pessoas em condições especiais, por isso qualquer relação com Stiles já é olhada com carrancas e caretas.

Imagine o que eles pensariam se soubessem das intenções que eu carrego no peito...

Eu sei, nada do que aconteceu foi muito ortodoxo – e só de eu admitir isso e vendo o problema, eu até consigo me fazer sentir um pouco melhor em relação ao fato de eu não conseguir me controlar.

É que eu vejo as coisas que eu quero perto de mim e eu as quero daquele jeito, as pessoas que eu quero que fiquem na minha vida eu realmente quero na minha vida e simplesmente não consigo ignorar essa vontade de transformar elas parte disso, parte de mim. Eu não consigo esperar as coisas acontecerem na velocidade normal – especialmente depois de perder tanto quanto eu já perdi.

Se eu tivesse conhecido o Stiles anos atrás, talvez eu…

Não sei.

Talvez tudo fosse diferente, talvez não.

Nunca vou saber.

Só quero pensar no Stiles por hoje.

Vou me preocupar com meus fantasmas um outro dia.

–--

“Os pierogi estavam bem bons. A sopa de beterrabas também.” Stiles falou, usando o guardanapo para limpar seus lábios e os dedos. Ele não sabia exatamente onde ele estava sujo, mas conseguia sentir que havia um pouco de molho em algum lugar da boca dele. E nos dedos também. E ele não queria ficar com a cara suja na frente do outro homem.

Stiles estava feliz.

Incrivelmente nervoso, mas feliz.

Derek havia feito pastéis de requeijão com bacon e uma sopa cremosa de beterraba com tomate, comida que o remetia a lembranças da infância com a mãe dele. O homem foi bastante receptivo desde o momento em que foi buscar Stiles no bar, falando sobre a casa dele e explicando o que eles comeriam. Depois ele mostrou um pouco de seu pequeno apartamento para o garoto – que era apenas um quarto com banheiro e uma sala com cozinha – e depois eles comeram.

Não houve muita conversa entre ele e Derek, pelo menos não uma conversa que importasse para muito; a maior parte dos assuntos foram coisas do cotidiano. Os dois pareciam um pouco travados ainda, o que era normal, pelo menos na cabeça de Stiles, que nunca tinha tido um encontro.

E ele nem sabia se isso era um encontro ou não, afinal ele não sabia o que estava acontecendo. Ele não sabia se eles eram amigos, se Derek queria algo mais. Nem Stiles sabia o que ele queria ou se ele queria. O garoto não tinha experiência em quase nada na vida – depois de perder a visão o mundo dele se resumiu ao bar, o piano e o pai. Mais nada. Não houve amizades, não houve namoros ou qualquer outra diversão que colocasse uma distância entre ele e o homem que o criou.

Para Stiles, só o fato de ele sair de casa, de ele sair sozinho, já era um motivo para comemorar. Por isso mesmo ele não sabia como se sentir com tudo aqui. Não que ele quisesse viver como um recluso, mas a vida dele já tinha uma definição inteira antes de Derek chegar e em algumas semanas mudar tudo aquilo. O homem tinha entrado na vida dele e do pai e agora muitas coisas eram diferentes – não para pior ou melhor, pois ainda não houve tempo necessário para conseguir avaliar tudo.

Apenas diferentes

“Obrigado.” Derek respondeu, puxando Stiles de volta para a conversa. “Eu não sabia se você ia gostar deles, mas seu pai me falou que você gosta bastante de comida polonesa e eu aprendi a fazer há um tempo atrás quando... Um tempo atrás.” O homem respondeu, organizando os pratos um em cima do outro, pelo barulho que Stiles conseguia ouvir.

“Se eu soubesse como as coisas funcionam aqui eu ajudaria, mas…” O garoto gesticulou com o braço para mostrar que ainda não estava acostumado com o ambiente o suficiente para ajudar a recolher os pratos da mesa.

“Ah, não se preocupe.” Derek falou ao se levantar de sua cadeira. “Eu só vou levar esses pratos para a pia e depois a gente pode sentar no sofá e conversar um pouco, certo? Como amigos fazem.” A voz do homem não parecia tão confiante como costumava ser, principalmente naquela última frase. O coração de Stiles bateu um pouco mais forte ao ver que Derek estava passando pelas mesmas inseguranças que ele.

“Eu vou sentar no sofá, então. É perto e eu consigo me lembrar.” Stiles se levantou da cadeira devagar, se lembrando de como a sala do homem era. Ele deu um passo para o lado e dois para trás, acertando com os joelhos o sofá. Ele sorriu e se sentou, escutando Derek levar o resto das coisas para a pia.

Alguns segundos se estenderam em silêncio. Derek caminhava por seu pequeno lar enquanto organizava alguma coisa ou outra, o que fez o garoto sorrir, já que não importava se a casa estivesse bagunçada ou não – ele não iria ver de qualquer jeito. Contudo, mesmo com um sorriso no rosto, Stiles começava a pensar no que poderia acontecer agora que eles já havia passado pelo jantar.

Ele não sabia o que esperar.

“Tudo pronto.” Falou Derek ao se sentar no sofá. Stiles nem tinha escutado o homem chegar perto dele, perdido em sua mente. No entanto, agora o coração começava a bater um pouco mais forte, sabendo que não haviam mais tantas barreiras entre eles.

“Certo.” Stiles falou.

Alguns segundos se passaram, o nervosismo palpável no ar.

“Certo.” Derek repetiu.

Stiles não conseguiu segurar a risada que escapou dos lábios dele. Derek riu também.

“Eu não imaginei que isso iria ser assim, Stiles.” O homem disse. “Eu…”

“Eu sei, Derek.” O garoto respondeu, colocando as duas mãos em cima de suas coxas, batendo elas repetidamente para passar o tempo. “Parece que nenhum de nós sabe o que fazer. Eu tenho certeza que eu não sei. Esse negócio de amizade, ou seja lá o que for, é novo pra mim.” Stiles completou, respirando fundo.

“Eu sei.” Derek disse, calmamente. “Ou melhor, eu imagino que seja, pelo que seu pai me disse.”

Stiles apenas assentiu.

Depois das palavras de Derek, o silêncio se instalou entre eles por mais alguns segundos. Stiles sabia que ele poderia perguntar alguma coisa para o homem, quem sabe descobrir mais sobre seu passado, perguntar o motivo de ele se interessar por Stiles, pedir sobre o que fez ele perguntar a John se o garoto poderia ir jantar com ele e os motivos por trás de tudo que estava se passando na vida de todos nos últimos tempos.

Mas acima de tudo, Stiles queria saber de verdade o que estava acontecendo.

A palavra amizade parecia tão estranha na boca dele, mas ao mesmo tempo, não havia mais nada para descrever eles.

Não havia mais nada.

E Stiles também não fazia ideia sobre o que pensar daquilo.

Pela mente do garoto as palavras corriam e se misturavam, mas não havia nenhuma que pudesse sanar essa necessidade de colocar um nome e reconhecer o que eles eram.

Talvez fosse porque eles ainda não eram nada.



Notas finais
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