Oczy

6 De 1924 a 1929 - Interlúdio


Notas iniciais
Esse capítulo é só do Derek Hale...

Depois de comermos a sopa e os pierogi que eu havia feito para nós, nada mais aconteceu entre Stiles e eu. Nada. Nós dois ficamos quase que imóveis no sofá da pequena sala do meu apartamento, ambos sem saber o que fazer, sem saber por onde começar uma conversa ou sequer saber para onde dirigir o olhar — bom, pelo menos eu não sabia para onde olhar, já que eu era o único que poderia.

Quando eu não consegui mais aguentar aquela estranheza, decidi por levar o Stiles para casa e agradecer pela noite. Eu tinha esse sentimento no peito de que nada iria acontecer, mesmo que quisesse. E sabia que estava fazendo pressão em um garoto que ainda nem tinha certeza do que queria pra vida, que nem sabia ainda para que direção seguir, mesmo que eu não pudesse evitar.

No fundo, acho que foi bom que nada aconteceu. Anos pra frente eu iria acabar me arrependendo de ter feito o garoto se expor a coisas que a mente dele ainda não estava preparada, mesmo que eu quisesse ser aquela pessoa que estaria disposta a mostrar um novo mundo para ele.

Porém, eu queria que ele quisesse ver esse novo mundo, quisesse fazer parte desse futuro que a minha cabeça imaginou assim que viu ele.

Eu só não queria fazer as coisas do jeito errado.

E, por mais que parecesse que Stiles estava gostando de mim, gostando das coisas que estávamos fazendo, ele se sentia desconfortável. Ele se sentia despreparado — e eu conseguia perceber isso, ele nem precisou me dizer. Forçar alguém a fazer alguma coisa não pode ser o jeito certo de fazer algo.

Por isso não fizemos nada.

–--

Depois de tudo aquilo, fiquei alguns dias pensando.

Quem sabe eu deveria ter mais calma com Stiles? Quem sabe deveria procurar pela amizade dele, descobrir as coisas que ele gosta, coisas que quer fazer na vida. Eu poderia me mostrar como uma ajuda, uma pessoa que está perto quando ele iria precisar. Alguém que ele pode aprender a confiar.

Ser um amigo.

Para fazer aquilo, no entanto, eu precisaria entender a minha própria cabeça. Tinha que perceber que as coisas não deveriam ser tão corridas, mas sim crescerem aos poucos, terem seu tempo de maturação. Cada momento da vida do garoto deveria ter seu próprio tempo e passar na velocidade certa.

Mas e qual seria essa velocidade certa?

Eu não sabia.

Fiquei com esses pensamentos na minha cabeça até o momento em que voltei ao Olhos Negros, dias depois, para surpresa de John. O homem me disse que achou que eu não voltaria mais e até se desculpou por, quem sabe, ter me pressionado a criar um laço com o filho dele. Eu tive que dizer para ele que ele não havia me pressionado a nada e que, na verdade, eu queria sim criar alguma coisa com o garoto.

Mas ele ainda não estava preparado.

E eu comecei a perceber que talvez nem mesmo eu estivesse.

Naquela mesma noite que voltei ao bar, eu fui ao piano, também. Vi o pequeno sorriso de surpresa que se abriu nos lábios de Stiles e fiquei feliz. Conversamos por um bom tempo sobre tudo e qualquer coisa, como se nada tivesse acontecido. Pedi desculpas por ter feito ele se sentir obrigado a fazer qualquer coisa estranha que talvez não quisesse fazer e Stiles me pediu desculpas por eu ter que aguentar a estranheza dele.

Eu sorri e acabamos por ficar horas trocando algumas palavras e compartilhando silêncios juntos.

Depois daquela noite em que fui ao Olhos Negros de volta, as coisas começaram a fazer sentido na minha vida, de novo. Era como se tudo tivesse voltado ao normal de onde nunca deveria ter saído.

Eu precisava daquele momento de normalidade em minha vida e tinha que aprender a lidar com as coisas com calma, precisava aprender que o mundo não iria fugir das minhas mão se eu olhasse para ele antes de tentar resolver tudo. Minha mente precisava se concentrar nas coisas simples para poder funcionar direito, aprender a viver a vida um passo de cada vez.

Construindo a rotina de trabalho nas docas e indo ao bar dos Stilinski era o que eu precisava.

–--

Depois da guerra nada tinha sido muito fácil.

Eu era um garoto de 17 anos quando fui batalhar do outro lado do mundo, e vi algumas coisas que jurei que nunca iria ver. Não tinha enxergado tanto sangue na minha frente, ainda. Não tinha visto pessoas mortas, caídas ao chão, homens gritando em desespero por suas vidas. Em um campo de batalha todos somos peças de um jogo em que não valemos muito e acabei por descobrir aquilo só quando já era tarde demais.

Se voltamos com vida de um lugar daqueles é porque tivemos sorte.

Pelo menos é o que dizem.

Alguns de meu antigos amigos acreditavam que a sorte era de quem tinha morrido em um campo de batalha, no entanto, já que eles não podem ser assustados pelos pesadelos que recriam as imagens dos horrores que cada um viveu em uma guerra.

Muitos desses amigos, que eu nem tenho mais contato, queriam tanto essa morte que eles conseguiram, coisa que eu acho que nunca seria forte o bastante para tentar. Não consigo imaginar como seria um mundo onde eu conseguiria pedir para desistir de tudo, desistir de viver. Não consigo. Me sinto muito ligado ao chão que caminho, ao ar que respiro. A vida que eu tenho aqui.

Infelizmente outras tantas pessoas não tiveram como escolher seus destinos e foram arrastadas pelo mesmo caminho, perdendo suas vidas.

Por isso que sou sozinho hoje.

Meu pai era um grande homem, grande sargento. Morreu com honras numa das batalhas. Minha mãe era uma médica incrível, valente. Morreu com honras também, tentando salvar a todos que pudesse. Quatro irmãos e irmãs meus eram soldados assim como meu pai e eu, e todos morreram com honras também.

Eu fui o único membro da família Hale que restou aqui. E um dos últimos da minha família na América — tenho apenas dois tios que ainda vivem na Califórnia, mas que eu não vejo em muito tempo. Acredito que eles nem saibam sobre o destino que essa parte da família deles sofreu. E nem tive coragem de me comunicar com eles, já que desde que eu era uma criança nós não mantínhamos contato e eu não sabia bem como dizer que só eu tinha restado dentro de uma família grande como a nossa.

Algum dia vai chegar o momento em que nem eu vou restar aqui, então não sei se preciso fazer eles entrarem nesse mundo de dor e perda.

–--

Junto com minha tristeza e minha vida solitária, meu trabalho no porto e minhas visitas ao Olhos Negros, minha amizade com Stiles e as conversas com John, cinco anos se passaram como se eu nem tivesse visto eles correndo pela minha frente.

A vida seguiu seu curso e aos poucos eu fui me juntando a aquela família de dois.

Algumas noites eu iria ajudar John no bar, servindo rum para os homens sedentos de bebida. Depois iria ajudar a limpar o recinto antes de eles fecharem, me colocando à disposição dos Stilinski e mostrando que poderia servir para alguma coisa.

Aos poucos comecei a conhecer um pouco da vida de John e de Stiles, mesmo que apenas em pequenas doses de conta-gotas. Minha cabeça foi se acostumando com a ideia de ter uns amigos a mais — de ter uma pequena família ao meu lado.

Meus pensamentos obsessivos foram desaparecendo lentamente, não por completo, mas se moldando de uma forma mais natural. Minhas relações para com as pessoas acabavam por se desvendar mais simples e menos cheias de intenções implícitas.

Meus sonhos eram ainda povoados pelos horrores da guerra, mas essa era uma das últimas marcas da violência que ainda se mostravam em mim. Os sonhos e minhas cicatrizes.

Quem sabe um dia eu tenha a chance de me esquecer dos sonhos, pois as marcas em minha pele nunca iriam desaparecer.

Notas finais
Obrigado a todo mundo que comenta na fic - e ao povo que mesmo escondido, lê a história. Eu gosto de todos vocês! E por algum tempo, pelo menos até dezembro, eu não sei como vai ser o calendário da postagem. Talvez não mude nada, mas eu tenho bastante coisa pra fazer já que vou me formar na faculdade agora. Beijo do Cold e espero ver vocês mais pra frente! =D