Oczy

7 Teoria do Caos


Notas iniciais
Obrigado a todo mundo que comenta na fic. Beijo pra vocês!

1929

Os dedos de Stiles tocavam livremente o novo som popular que as Big bands levavam para os vários cantos da América. A era do Swing começava lentamente a nascer em meio aos cabarés e casas de diversão, depois que o Blues e o Ragtime passaram a se encontrar entre os ritmos do passado — não esquecidos completamente, mas dando lugar a uma nova música.

Mesmo amante dessa nova música, Stiles ainda gostava do blues e não conseguia ficar sem tocar aquele som que, para ele, vinha da alma.

“Essa é uma das do Louis Armstrong?” Derek perguntou, fazendo um pouco de barulho ao sentar no pequeno banco que tinha ao lado do piano.

Depois de dois anos vindo ao bar, Hale acabou por achar em algum canto de Chicago um banco para ficar perto de Stiles nos momentos em que ele não ajudava John no bar — os dois tinham escolhido aquele tempo em que Stiles tocava piano para conversar sobre tudo. Durante os últimos três anos o banco de madeira com estofado vermelho tinha feito parte da decoração do Olhos Negros Negra, mas ninguém sentava lá a não ser Derek.

Stiles se virou um pouco para responder a pergunta, sem parar de tocar sua música.

“Sim e não. A original não é dele, mas a gravação do homem é mágica. Eu escutei ontem, quando você me trouxe o disco de presente, e gostei tanto que decidi aprender ela. Não foi fácil, mas a melodia de Saint Louis Blues é bonita demais aos ouvidos para ser apenas escutada por alguém como eu, precisava tentar.” Respondeu Stiles, sorrindo.

O garoto, não mais tão garoto aos seus 24 anos, já tinha desistido de não aceitar os presentes de Derek, agora apenas agradecendo pelas coisas que o homem dava pra ele. Não era nada muito especial, mas cada pequeno presente tinha um significado diferente. E cada um deles fazia com que Stiles descobrisse um pouco mais sobre o homem, que ainda tinha muitos mistérios a serem desvendados.

Sim, alguém iria achar que depois de cinco anos vindo ao Olhos Negros e se infiltrando aos poucos na vida dos Stilinski, Derek já seria uma pessoa sem segredos e aberta aos dois, o que não era verdade. Na maior parte do tempo o homem sempre era o mesmo, falando sobre o mundo mas deixando de falar sobre si próprio.

Stiles não iria pressionar ele, claro. Cada um tem direito a guardar seus segredos. Mas depois de tanto tempo já era de se imaginar que eles seriam mais próximos. Especialmente com as intenções que Derek tinha quando conheceu Stiles, lá atrás em 1924. Aquela estranheza do começo foi sumindo, dando lugar a uma amizade que brotava entre os dois e o pai de Stiles. Mas os segredos sempre impunham uma certa distância entre eles.

A risada simples de Derek trouxe Stiles de volta.

“Não imaginaria de forma diferente, Stiles.” O homem completou. “E é claro que essa é uma das minhas segundas intenções ao te dar um disco — pra que eu vou ficar indo atrás dos músicos se eu tenho um artista que toca de graça pra mim?” A voz de Derek veio cheia de insinuações simples, mas as palavras pareciam que tinham alguma importância maior por trás dos risos.

Stiles ficou com as bochechas um pouco ruborizadas, mesmo sem saber por que. Ele mascarou aquilo tentando fazer sua voz protestar às palavras de Derek.

“Quer dizer que eu só sirvo pra tocar músicas pra você? Depois de tanto tempo e tudo que nós construímos, Derek?” Stiles falou, fingindo estar horrorizado com as intenções do homem. A música continuava, no entanto. O bar estava com sua clientela usual e os dedos de Stiles ocupavam se com as teclas.

“É óbvio que eu vou te usar para tocar músicas, Stiles. Nenhum artista que eu conheço é tão bom quanto você. Pra que que eu vou correr o mundo se tudo que preciso está aqui?” Derek falou, sorriso estampado nas palavras que soavam nos ouvidos de Stiles.

O garoto sentiu o rosto ficar mais quente. As palavras de Derek não significavam nada mais do que brincadeiras entre dois amigos se divertindo um com o outro, mesmo assim Stiles não poderia deixar de levar aquelas mesmas palavras para dentro do seu coração. Ninguém diria aquele tipo de coisa pra ele antes, fato que virou comum na vida de Stiles depois da chegada de Derek.

E agora ele não sabia mais viver sem aquilo.

Além de homem e do pai, não haviam outras pessoas que importassem na vida do garoto.

Os dois eram tudo para ele.

“Eu vou aceitar o elogio e esperar o pagamento pelos meus shows privados nos últimos quatro anos e meio. Já que eu sou seu artista favorito, nada mais justo do que eu receber um pagamento bem generoso.” Stiles falou, tentando trazer o assunto de volta para as insinuações mais leves.

“Bom, é pra isso que servem os presentes, oras.” Derek falou e se aproximou de Stiles, deixando o garoto sentir a respiração do homem em seu ouvido. “Mas se você quiser, existe um monte de outras maneiras de a gente acertar essas dívidas das mais generosas formas.”

Stiles grunhiu e balançou a cabeça, tentando se concentrar na música de volta.

Derek riu.

“Você é uma pessoa muito má, sabia?” Stiles falou, reclamando do outro homem. “Eu não posso sair por aí e viver essa vida normal que as outras pessoas vivem. E mesmo se eu pudesse, não sei se eu teria chance de acertar dívidas de formas generosas com alguém.” O garoto reclamou de si próprio e da vida, o que era comum quando ele recebia muitos elogios de Derek.

Era uma reação natural e os dois já haviam se acostumado com isso. Essa amizade que eles tinham permitia que vez ou outra algumas brincadeiras surgissem, e os dois sempre entravam no clima. Porém, certas vezes as insinuações iriam sair um pouco do controle e Stiles iria dar pra trás, envergonhado e sem saber o que fazer.

O silêncio entre os dois cresceu por alguns instantes, mesmo em meio ao barulho do bar. Stiles ficou pensando no que havia dito, inseguro de que talvez ele tivesse falado alguma bobagem ou qualquer coisa que não deveria ter vocalizado.

Seus pensamentos foram cortados pela voz de Derek.

“Stiles, você não tem nada de errado. Se as pessoas não querem “acertar dívidas” daquele jeito com você, elas é que estão perdendo. E não pense de você como menos importante que ninguém. Para seu pai você é a coisa mais importante do mundo. Pra eu também… você é muito importante.” Foi possível ouvir o homem consertando a última frase enquanto ia falando, quando na verdade ele queria ter dito apenas que Stiles era a pessoa mais importante do mundo para ele.

Stiles não pensou muito naquilo, no entanto. A cabeça dele ficou perdida nas palavras do homem por alguns segundos antes de ele retornar ao normal.

Ele suspirou.

“Eu sei.” O garoto falou, levantando os ombros. “Só que de vez em quando me sinto meio sozinho e começo a fazer aquele drama de sempre. Nada muito importante.” Stiles sacudiu a cabeça, tentando se concentrar na música de volta.

A mão de Derek desceu ao ombro de Stiles.

“Tudo é importante, Stiles. Mas não se deixe levar pelas coisas que a sua cabeça produz pra dizer que você não importa. Você é importante. E tem sempre pessoas que vêem isso. Acho que na maior parte do tempo você tenta procurar longe demais o que está mais perto do que você imagina.” A voz de Derek chegou bem perto do ouvido de Stiles, antes do homem se afastar e apertar o ombro dele. “Eu vou ir ajudar seu pai. Até mais tarde.”

Stiles nem se lembra se ele respondeu alguma coisa ou não para Derek.

–--

Os olhos do soldado que eu não consegui salvar aparecem em noites de tormenta nos meus sonhos. As imagens do homem gritando de dor enquanto eu segurava a cabeça dele, o choro dele ao sentir a vida se esvaindo do corpo aos poucos e as minhas lágrimas ao ver que eu não poderia fazer nada por ele se pintam na minha cabeça e me fazer relembrar de coisas que eu preferia que ficassem guardadas dentro de mim.

Não sei se é possível me acostumar a reviver aquela morte e tantas outras por contínuas vezes e seguir respirando sem a dor levar nosso corpo pra longe, assim como um mar tempestuoso carrega navios à deriva.

Me viro de um jeito e de outro em meu colchão na tentativa de me arrumar, mas os sonhos sempre me desgovernam. Eu tento fazer eles sumirem, mas ainda que as únicas testemunhas dos meus pesadelos sejam as paredes do meu apartamento, que podem até ter ouvidos, mesmo que não possam falar nada, minha cabeça não me deixa esquecer aqueles sonhos.

Desde que eu finalizei minha missão na guerra e voltei para meu país, sem ninguém do meu lado, mas vivo, minha vida tentou se encaixar em um curso o mais próximo do normal possível.

Nos primeiros meses eu não conseguia nem sair de casa para ouvir os barulhos dos carros na rua. Eu tive que ficar dentro do meu quarto, apenas com as minhas memórias, tentando imaginar um mundo onde tudo seria normal, onde não sentiria medo da minha própria sombra e não fosse afetado por qualquer influência do universo.

Dinheiro não faltou para mim ir a médicos e especialistas que tentaram me ajudar de diversas formas, alguns com sucesso, outros não. A melhor ajuda que recebi, no entanto, veio como uma descoberta pessoal: o tempo, que foi cicatrizando os cortes profundos em minha pele e em minha alma, me ajudando a respirar melhor, pensar melhor e a me sentir uma pessoa de verdade.

Eu ainda sou assaltado por problemas de ansiedade. Os médicos não sabem se esses problemas tem cura ou se somos todo loucos. A única certeza deles é a de que a guerra deixa marcas em qualquer homem e aqueles que sobrevivem a uma precisam aprender a conviver com elas.

As cicatrizes até parecem uma coisa simples, tirando o fato de eu precisar ignorar o que muitas pessoas sentem ao ver a minha cara. Aprender a conviver com o medo do que a própria cabeça pode fazer com a gente não é tão fácil, no entanto.

Mas as coisas estão melhores. Mais de dez anos desde que eu vi uma batalha na minha frente e quase chegando aos trinta anos de idade, eu poderia estar pior. Poderia estar sem um braço ou uma perna. Poderia estar em uma cama, sem conseguir me mover. Poderia ter morrido no campo de batalha e ser enterrado como um indigente ou estar estraçalhado em pedaços.

Eu perdi tudo que tinha, menos a vida.

Mas agora eu comecei a ganhar coisas de volta.

Apesar das adversidades, eu tenho uma família nova, tenho amigos. Tenho uma rotina que me ajuda a seguir em frente, me dá um propósito de vida. Tenho essas pessoas que me fazem querer algo melhor, me fazem querer mais e mais.

Eu gosto de olhar apenas para o passado e imaginar que o Derek Hale que tinha dezessete anos quando foi de barco para o outro lado do globo, que tinha irmãos e pai e mãe ao lado, que tinha sonhos e ideias filosóficas de salvar o mundo, era um garoto feliz. Mas ele não é o mesmo Derek Hale que agora vive seus dias trabalhando no porto de Chicago, acumulando dinheiro que nunca vai saber como gastar e que tem dois amigos que ele carrega num peito marcado pela dor e perda que ficarão para sempre na pele.

Esse Derek de agora, no entanto, também é feliz.

Ele aprendeu que a felicidade está onde nós encontramos abrigo. Onde nós encontramos alguém que possa nos entender e nos fazer melhor.

E eu encontrei esse abrigo em Stiles e John.

Com eles eu sou feliz.

–--

“Esse mundo tá quase se encaminhando pra um fim, pelo jeito que as coisas vêm acontecendo ultimamente.” John falou, suspirando. O homem tinha terminado de trabalhar no Olhos Negros pelo dia, e agora só restava caminhar os dois quarteirões até o apartamento dos Stilinski para a noite se terminar.

A mão de Stiles, que estava por sobre o ombro de John para se guiar, apertou ele, chamando a atenção.

“O que está acontecendo, Tato?” O termo de carinho usado pelo garoto sempre indicava que ele estava preocupado também.

“Bom, as pessoas parecem estar com um pouco de medo de algumas coisas que acontecem no mundo, ficam meio que perdidas quando escutam notícias sobre os movimentos fascistas se espalhando pela Europa, a ameaça de um mundo controlado pelos governantes e nações sem liberdade. Nós ainda temos a liberdade, mas o que acontece em um lugar do planeta afeta o resto do mundo, primeiro aos poucos, mas com o tempo isso de alastra de uma forma que nós não podemos prever.” John falou, caminhando com calma por dentro da noite.

“Teoria do caos?” Stiles proveu.

O pai dele sorriu ao ouvir as palavras do garoto.

“Mais ou menos assim. Ainda lembra dos livros que eu lia pra você?” John perguntou, colocando sua mão por cima da de Stiles, que estava no ombro dele.

“Eu preciso, Tato. Não posso sobreviver se eu não conseguir lembrar das coisas.” O garoto falou, antes de bocejar. O som se espalhou em volta deles, quebrando o silêncio da rua calma.

“Não posso discordar disso.” Stiles apenas respondeu ao pai com um som de concordância, antes de continuar.

“Pois então, se a teoria do caos pode explicar um pouco do nosso mundo, eu diria que não tem muita razão para se preocupar tanto pelo futuro? De qualquer forma ele vai ser influenciado por tudo que acontecer e nossas previsões podem chegar apenas até a um pedaço do espectro temporal. A gente também não sabe qual vai ser a situação, a variável que vai afetar o futuro.” O discurso de Stiles foi calmo e concentrado.

Assim que as palavras cessaram, John parou, tendo que abrir a porta do prédio para os dois entrarem. Ele, porém, não seguiu caminhando, apenas tirou a chave de bolso e se virou para o filho.

“Eu quase não consigo acreditar que você seja assim tão inteligente, mój syn.” A voz de John vinha carregada de emoção e orgulho, brindadas com um sorriso no rosto.

“Tá me chamando de burro?” Stiles perguntou em tom de leve provocação, levantando uma sobrancelha. Esse gesto simples de mexer a sobrancelha sempre surpreendia o pai, já que o garoto apenas aprendeu o trejeito muito tempo depois de não poder mais enxergar.

“Não, Stiles. Só fico surpreso de você ser assim tão inteligente mesmo passando pelas dificuldades que você passa. Eu sinto orgulho de você.” John colocou uma das mãos nos ombros de Stiles e apertou, carinhosamente.

“Derek tem lido alguns autores novos pra mim. Livros que ele traz sabe se lá de onde.” O garoto falou as palavras como se elas fossem coisas simples, sem muita importância.

“Eu não sabia que ele estava lendo pra você.” John falou, surpreso.

“Bom, nem sempre você tem tempo pra fazer isso.” Stiles falou, levantando os ombro antes de continuar. “E o Derek tem uma obsessão especial por mim, se é que se pode chamar uma obsessão algo especial.” O garoto respondeu..

John ficou alguns segundos em silêncio, antes de pigarrear.

“Não sei se serve muito de consolo, mas eu não acredito que ele seja o único com uma obsessão especial por alguém.” O homem falou e se virou para a porta, abrindo ela para deixar Stiles entrar. A partir da entrada do prédio deles o menino já conseguia se guiar sozinho.

Dessa vez, contudo, ele ficou alguns segundos a mais pela porta, tentando fazer sentido as palavras do pai.

John deu uns passos em direção à escada, antes de se virar para o filho, que ainda estava na porta.

“Você não vem?” O homem pediu.

Stiles apenas balançou a cabeça, tentado limpar as ideias, e só assentiu, dando um passo a frente e fechando a porta atrás de si. Ele seguiu os passos do pai que retomavam seu ritmo calmo ao subir as escadas, enquanto na sua cabeça Stiles tentava procurar outra pessoa que poderia estar obcecada por alguém...