Oczy

8 O fim dos olhos negros


A situação do mundo e a teoria do caos foram assuntos recorrentes na vida dos Stilinski nos últimos dias. John e Stiles conversavam sobre as notícias que vinham chegando através do rádio e iam analisando pouco a pouco o que acontecia na América do final dos anos 20.

Era de conhecimento do público que os Estados Unidos estavam enfrentando problemas econômicos com a deflação dos preços nas taxas de produtos, afetando grande parte da economia. A situação monetária americana tinha sido explorada ao máximo ao longo dos anos, desde a Primeira Guerra Mundial, quando eles lucraram muito vendendo seus produtos aos países que precisavam de ajuda no período de recuperação pós-guerra.

As indústrias cresceram a uma velocidade alarmante e a produção americana chegou a níveis muito altos. O país lucrou muito por muitos anos, acumulou riquezas e durante essa época se instituiu o modo de vida americano, em cima dos ideias capitalistas, porém puritanos da sociedade.

Nem tudo eram flores, no entanto. Com o passar dos anos, a Europa foi retraindo seu consumo dos produtos que vinham da América, mas a produção por aqui continuou, o que gerou, em 1929, uma situação de super produção, onde a demanda era ínfima perto da oferta. Tudo aquilo teve grande influência nas vidas dos operários e agricultores, como também no bolso dos consumidores, que mesmo apenas na ponta do iceberg, já podiam sentir os resultados de mais de 10 anos de descontrole econômico.

Bancos já haviam começado a fechar e empresas despediam funcionários aos milhares e declaravam falência.

Todos os dias era possível ouvir mais e mais pessoas nas grandes cidades falando sobre empresas realizando demissões em massa e trabalhadores se acumulando nas ruas querendo saber notícias do que iria acontecer com a economia. No rádio, as notícias que vinham de Wall Street colocavam medo no público e criavam a sensação de que alguma coisa maior estava por acontecer, mesmo que ninguém soubesse o que.

Aquela crise da economia havia demorado a chegar nos bairros mais pobres de Chicago, mas ele sentiram o baque também. Os ricos da sociedade já haviam sido afetados, depois a ameaça cresceu sobre a classe mais pobre e branca das cidades, seguida dos agricultores. Os últimos nessa cadeia eram os imigrantes.

E agora era a vez deles de serem afetados também.

A caixa registradora do Olhos Negros era a prova viva de que alguma coisa estava acontecendo.

O dinheiro tinha diminuído aos poucos ao longo dos últimos meses, uma coisa que não deu para se perceber no começo, mas agora com crise assustando as grandes empresas e a mídia, era possível se ter um olhar diferente sobre as finanças do bar também. A diferença do que eles tinham ganhado no outro ano para o que estavam faturando agora era bastante grande, o que não deixava um bom sabor de boca em John.

Ele olhou para as poucas notas dentro da registradora e pigarreou.

“Eu sinto que as coisas não vão ir muito bem pra nós, se as coisas continuarem assim.” John falou ao terminar de passar um pano na bancada do bar, fechando a máquina com um barulho característico. Stiles estava secando copos e Derek estava por terminar de varrer o chão, mas assim que John começou a falar, Stiles e Derek se viraram para ele.

“O que você quer dizer com isso, pai?” Stiles perguntou, jogando por cima do ombro dele uma das toalhas que usava para secar as louças.

John suspirou, balançando a cabeça.

“Vocês sabem como a economia começou a despencar desde o começo do ano e tem aí uns rumores de que as coisas vão piorar. E eu sinto que elas vão piorar. Eu consigo ver como os clientes estão dando menos gorjetas, como eles estão mais controlados na hora de comprar bebida — até mesmo quando eles já estão longe da sobriedade. Não sei quando, nem de que forma, mas eu acho que a gente tem que se preparar para o que vai vir.” O homem falou, sacudindo a cabeça com calma.

Derek caminhou até um dos pequenos banquinhos e se sentou em frente a John. Ele olhou para o homem por alguns segundos antes de falar.

“Eu escutei dois clientes comentando sobre o risco se acontecer uma quebra na bolsa em Nova York. Eles falaram coisas que eu não estou muito bem acostumado a ouvir, algo a ver com os estoques do mercado e a super produção, mas o resumo de tudo é que eles esperam que as coisas piorem, sim.” Derek falou, vendo a atenção de Stiles se voltar para ele enquanto John apenas assentia com a cabeça.

“Assim ruim?” Stiles perguntou.

Derek suspirou também antes de responder.

“Um deles falou que essa provavelmente seria a última vez que eles viriam aqui para o Olhos Negros, já que as famílias estavam perdendo os empregos e o dinheiro para o álcool ficaria em segundo plano. O que provavelmente vai ser um fenômeno bastante comum, se as coisas continuarem assim.” A voz de Derek saiu quase como um suspiro antes de um silêncio bastante pungente se instalar.

–--

“WALL STREET IN PANIC AS STOCKS CRASH” – Brooklyn Daily Eagle, 24 de outubro de 1929.

“WALL STREET EM PÂNICO ENQUANTO OS ESTOQUES QUEBRAM.”

“AFTERMATH OF A STOCK MARKET CRASH: Behind the exciting show window of frenzied Wall Street is an endless pageant of obscure tragedies.” – The World, 8 de novembro de 1929.

“DEPOIS DA QUEBRA DO MERCADO DE ESTOQUES: Atrás da excitante janela frenética mostrando Wall Street está uma infinita demostração de tragédias obscuras.

–--

3 semanas depois

–--

Stiles movia seus dedos com rapidez pelas teclas do piano, fazendo o som vibrar pelo seu corpo e se espalhar pelo ar, deixando as notas transcenderem pelo espírito de todos à sua volta. Era comum ele estar perdido na sua maneira de tocar enquanto o mundo continuava a fazer e acontecer em torno dele — nada importava muito quando ele estava com a música em sua cabeça.

Infelizmente, não haviam muitas pessoas que poderiam atrapalhar ele naquele dia. De fato, as únicas pessoas que poderiam fazer aquilo eram seu pai e Derek, já que não havia mais ninguém no Olhos Negros. Ainda era cedo na noite em um sábado, horário que faria o bar encher de clientes, pessoas estariam cantando e gritando, rum seria jogado ao alto e ao chão em meio a algazarra, no entanto só o silêncio preenchia os espaços deixados pelas notas do piano.

O silêncio e a sensação de eles haviam perdido tudo.

Depois que Wall Street havia entrado em pânico e a economia da América tinha caído em uma recessão generalizada, a maior parte das pessoas tinha ficado com medo de sair e gastar dinheiro — principalmente porque muitas das pessoas que tinham ele de sobra antes da crise, agora se amontoavam aos desempregados infestando as ruas. Pessoas que eram ricas em um tempo anterior, agora faziam parte do mesmo grupo que vivia na sarjeta.

E se antes, muitas pessoas já tinham começado a deixar o entretenimento de lado para conseguir viver suas vidas sem sofrer com a falta do capital, agora que as coisas tinham piorado, a frequência de clientes nos bares tinha caído drasticamente.

Durante alguns dias após a Quinta-feira Negra as pessoas haviam corrido para comprar rum e se embebedar na tentativa de esquecer o mundo, mas agora que a dor de cabeça havia passado era hora de olhar para frente e decidir a vida, começar a procurar uma maneira de recuperar o que se havia perdido.

Nesse processo, o Olhos Negros foi um dos bares que quase perdeu todos os seus clientes, assim como milhares de outros. Uma epidemia se alastrando como fogo em palha seca, terminando por pulverizar o que havia de bom em uma sociedade.

Stiles finalizou mais uma música, ouvindo as palmas irregulares de Derek ao fundo.

“Bravo.” O homem disse, voz um pouco afetada pelo álcool correndo pelas veias. “Se não tem ninguém pra apreciar tudo isso aqui, as pessoas são muito bobas. Pra que se preocupar com dinheiro quando se tem música de qualidade e rum numa garrafa?” Derek disse, palavras escorregando de sua boca. Stiles conseguia ouvir o barulho do fundo da garrafa de vidro sendo batido continuamente pelo chão.

Ao longe, os roncos do pai vinham de algum lugar por trás do bar.

Stiles balançou a cabeça, se movendo para sair do piano e procurar o homem. Ele não havia bebido, por isso mesmo que ele tinha que acabar por aguentar as noites em que Derek e John procuravam um pouco de conforto no rum — coisa que havia acontecido bastante nos últimos dias. Não era fácil pra nenhum deles, mas Stiles era aquele que ainda conseguia segurar suas emoções melhor entre os homens.

John tinha construído o bar em um antigo prédio que estava interditado, muitos anos atrás. O homem trabalhou com tudo que teve para conseguir manter o local de pé e depois transformar ele em um bar que vendesse bebidas ilegais para os moradores da cidade. Era um dos mais famosos entre a vizinhança de imigrantes ilegais, atraindo não só os moradores do bairro, mas outros homens e mulheres que vinham de partes mais distantes da cidade.

O que antes era um lugar pobre e sem nada virou um centro de alegria e prazeres proibidos, movimentando a vida de todos à sua volta. Stiles, que cresceu no meio de tudo aquilo, viu das mais diferentes figuras aparecendo pelo Olhos Negros, espalhando seus sorrisos e cores pelo lugar todo, até o momento em que ele não pode mais ver, tendo que recorrer às histórias dessas pessoas apenas.

Junto com a falta da visão veio o piano, que virou mais um companheiro para o garoto — e colocou um pouco de música boa na vida de todos.

A vida de Stiles ao lado, o Olhos Negros era tudo para John.

E agora ele tinha o perdido também.

Mas não foi o único — Derek também tinha perdido algo importante para ele.

O homem havia apenas contado poucos detalhes sobre sua vida, como as histórias sobre as lutas dele na Primeira Guerra e a perda da família. Além disso, tudo que Derek falava era a respeito do Olhos Negros e dos Stilinski, o que deixava bem claro quais eram as prioridades dele.

Derek aparecia muitas noites para ajudar eles, participava de quase todos os aspectos da preparação das coisas, ajudava John a conseguir as bebidas para que pudessem vender elas depois, ajudava a limpar o bar e encontrar novas maneiras de fazer eles crescerem. Ele fazia várias de suas refeições junto com Stiles e John e passava quase todo seu tempo livre por ali também.

O Olhos Negros era uma segunda casa para ele.

O homem fez da sua vida parte integrante do bar, apenas para no fim ver tudo aquilo se esvair com tanta rapidez, fazendo se coração se apertar no peito e se perder pelo meio do caminho.

“Sabe, Stiles, eu não achei que fosse ver esse lugar vazio.” As palavras vieram com calma, afetadas pela bebida, porém havia uma nota de sobriedade que esse assunto trazia a voz dele. O garoto sentiu um arrepio correr pelo corpo ao ouvir a forma como essas palavras chegavam até ele e Stiles se virou para a direção de onde elas vinham antes de falar qualquer coisa.

Ele suspirou.

“Eu também nunca achei que veria esse dia. Mesmo que eu não possa ver mais nada.” O humor da piada ficou perdido por baixo da tristeza do momento. Stiles sentia o corpo pesado ao saber que, talvez, eles tivessem perdido tudo, que talvez eles nunca mais veriam o Olhos Negros em sua glória.

“É complicado. Todos precisam pensar em suas próprias vidas, agora. Todos tem que achar uma maneira de continuar, não é? Mas e quem pensa no John? Quem decide quem tem a chance de continuar a trabalhar e fazer a sua vida com dignidade? Pois mesmo que os speakeasies não sejam legais, o trabalho é digno, tem serventia e sempre foi feito com o coração.” A voz do homem vinha embargada e Stiles podia ouvir toda a infelicidade de Derek ao falar todas aquelas palavras.

“Eu não sei como responder isso. Eu sei que meu pai sempre trabalhou com dignidade. Sei que o Olhos Negros era a vida dele. Era a minha vida também. E eu não sei como nós vamos continuar.” Stiles terminou de falar assim que chegou no bar, começando a tatear através de sua extensão para conseguir chegar atrás dele e encontrar onde o pai estava.

A garrafa que Derek tinha na mão continuava a bater no chão, calmamente, enquanto Stiles dava seus passos lentos para tentar achar onde o pai se encontrava sem machucar o homem. Os roncos ajudaram ele a sentir John com suas mãos quando se agachou ao chão. O homem estava enrolado no próprio corpo num dos cantos do bar, dormindo profundamente.

“Derek?” Stiles levantou a cabeça e chamou o outro homem.

“Sim?” Derek respondeu com calma. Stiles ouviu o chão cedendo ao longe e fazendo barulhos enquanto Derek se levantava e caminhava na direção do garoto. “O que você precisa?”

“Pode me ajudar a levar o pai pra casa? Você consegue?” A voz de Stiles vinha cheia de dúvida por pedir algo para Derek, já que ele não podia ver qual era o estado do homem. Mas ele não precisou se preocupar, pois assim que ele se mostrou necessitado de alguma coisa, a voz de Derek voltou ao normal e o homem parecia mais atento.

“Eu posso sim, Stiles.” As palavras vieram momentos antes de Derek colocar uma das mãos no ombro do garoto e apertar, partindo então para alcançar o outro homem deitado ao chão. “Pode se preocupar só com as chaves daqui que eu carrego ele. Escuta a minha voz que eu levo vocês pra casa, okay?”

Stiles não respondeu com palavras, apenas concordou com a cabeça em um movimento rápido. Depois que se certificou de que Derek estava pronto para carregar John para casa, ele se levantou para ir buscar as chaves que ficavam no balcão.

Demorou alguns momentos mas eles conseguiram se arrumar para deixar o bar. Não seria a última vez que eles estariam ali, mas de alguma forma aquele momento em que Stiles fechou as portas do Olhos Negros parecia como um fim. Parecia que ele estava fechando um dos capítulos mais importantes da vida dele deixando tudo aquilo para trás em algum lugar em que ele não pudesse ir mais visitar aquelas lembranças.

Quando a chave girou na porta, Stiles teve que respirar fundo antes de seguir os outros dois para casa.

O caminho deles foi lento, com Derek caminhando devagar ao ter que carregar John e ainda guiar Stiles, mas eles chegaram ao apartamento sem problemas. Depois de subir as escadas e entrar, Derek foi até o quarto e colocou o homem na cama dele, obedecendo ordens de Stiles, que disse que era melhor que John viesse a si no próprio tempo.

“Você vai querer um café?” Stiles perguntou assim que eles tinham voltado para a sala.

“Eu aceito, obrigado.” Derek respondeu.

Stiles caminhou com calma até a cozinha, ouvindo os passos do homem seguindo ele. Uma das cadeiras da mesa se moveu para Derek sentar enquanto Stiles colocava água para esquentar. O trabalho foi realizado em silêncio e em alguns minutos Stiles se virou para Derek com uma xícara de café quentinho em sua mão.

“Obrigado.” O homem respondeu, pegando a xícara e esfregando seus dedos nos de Stiles. O garoto sorriu para ele.

“Obrigado você por trazer o pai pra casa.” Stiles respondeu sacudindo a cabeça. “Espero que ele não continue assim por muito tempo.”

“Eu acho que dentro de alguns dias ele volta ao normal. É complicado alguém ter que se acostumar a perdas assim grandes. Eu sei como é isso.” As últimas palavras de Derek falavam mais sobre ele próprio do que sobre o pai de Stiles, mas o garoto não comentou nada sobre aquilo. Os dois sabiam que era um assunto que Derek não gostava de trazer para uma conversa.

Stiles puxou o papo de volta para os trilhos.

“Será que a gente não vai conseguir abrir de novo?” O garoto perguntou, pegando sua própria xícara e se sentando à mesa.

“Não sei. As coisas precisam se assentar bastante para que as pessoas se sintam seguras para apenas então começarem a gastar dinheiro. Essa crise afetou a economia e a agricultura da mesma forma, e nosso rum vem do interior, então não sei nem se nós conseguiremos mais bebida no futuro se as coisas não melhorarem.” Derek respondeu.

“É uma pena. O Olhos Negros era como se fosse uma parte da família. É difícil a gente se separar da família.” Stiles falou, tomando mais um gole de café.

O silêncio se instalou por alguns segundos enquanto os dois tomavam seus cafés. Derek foi o que falou de novo.

Stiles bufou.

“O que foi?” Derek pediu.

“Nada demais. Sei lá.” Ele disse. “Às vezes eu fico um pouco frustrado porque eu queria poder falar mais coisas pro meu pai, e eu tô pensando isso agora em que ele tem tanta coisa pra pensar na vida e tanta coisa pra se importar e eu aqui pensando na minha vida e no que eu poderia estar fazendo e… Isso parece meio egoísta demais.” O garoto disse.

“Eu não acho que seja egoísta pensar em você. Nem toda a hora é perfeita, isso é verdade, mas você é a pessoa mais importante para você se preocupar.” Derek disse puxando uma da seuas mãos pela mesa e alcançando a de Stiles. “As coisas vão encontrar um jeito de se arrumar, okay?”

Stiles não respondeu com palavras, apenas assentiu calmamente ao mesmo tempo em que mordia o lábio.