Oczy

9 Sem ver, sem ouvir


Notas iniciais
Esse capítulo tem algo um pouco mais dramático...

É difícil você se imaginar sem as coisas que mais ama.

Pior ainda é quando você se acostuma a amar alguma coisa, quando ela é nova pro seu mundo e você aprende ao longo do tempo que ela faz bem pra sua vida, que é uma coisa boa pra você, que faz uma diferença pra melhor nos seus dias.

E daí vem alguém e arranca ela de você.

Foi assim que eu me senti quando eu vi o olhar de Stiles ao fechar o bar na outra noite.

Eu vi o rosto dele se transformar em algumas caretas tristes sem ele nem perceber, até o momento em que ele acertou a chave na fechadura e virou ela. Era um gesto comum e um que eu já havia visto várias vezes — mas, de alguma forma, quando eu o vi no outro dia parecia ser a última vez que aquilo iria acontecer.

E eu não estava nada preparado pra aquilo.

Eu não queria deixar aqueles anos que eu vivi no Olhos Negros para trás, eu não queria deixar todos aqueles momentos só na minha mente como memórias, eu queria ter a chance de continuar a fazer tudo que eu fiz, continuar minha vida com Stiles e John, queria fazer as coisas seguirem como elas estavam, pois a minha vida nunca tinha sido tão boa.

Mas as coisas tinham que mudar, e eu não podia fazer nada sobre aquilo.

Eu levei o Stiles e o pai dele pra casa, colocamos o John na cama, pois o homem já estava mais pra lá do que pra cá e depois nós conversamos um pouco, tomamos café e rimos. Nada parecido com as vezes em que gargalhamos à vontade no Olhos Negros e sorrimos como se fosse um dos dias mais ensolarados do mundo e a felicidade não poderia escapar de nós, dessa vez nós apenas rimos porque não havia outra coisa para fazer.

Chorar não faria sentido.

Ou melhor, talvez fosse a única coisa que fizesse sentido, mas se um de nós começasse, tenho certeza que estaríamos todos chorando até agora. E não importa o quanto de choro se derrame, nada vai mudar por causa dele.

Perder o Olhos Negros foi como perder uma parte de mim. E não é nem aquela história de perder uma parte que a gente não sabia que tinha, que acontece muitas vezes em nossa vida. O bar era uma parte de mim que eu conhecia muito bem onde estava, onde me completava e em qual parte do meu eu ele se conectava. E eu gostava muito de ter todos aqueles sentimentos ao redor de mim, me completando.

O Olhos Negros me deu uma família, o que foi mais do que qualquer outra coisa na minha vida me deu. Eu ganhei um segundo pai, que me aceitou como se eu fosse um filho perfeito, uma pessoa perfeita — que eu sei que não sou. Ganhei um homem que se importava com a minha vida e não julgava as minhas escolhas. Pelo menos não a ponto de se esquecer que eu ainda estava ali do lado dele e precisava de ajuda.

John me mostrou um mundo novo. Me mostrou que as coisas podem ser mais simples do que a nossa cabeça diz que são e que na maior parte do tempo nós somos os agentes complicadores da nossa própria vida. Ele me disse palavras simples mas que fizeram a minha cabeça pensar mais sobre mim, me fizeram olhar para dentro e enxergar onde estavam as coisas boas da minha vida.

E ele fez tudo isso sem nem me dizer o que estava fazendo, como se fosse uma coisa simples que todo o pai deveria fazer por um filho.

Não que isso seja uma crítica ao meu pai ou a minha família. Eles foram grandes pessoas e muito importantes pra mim. Eles me ensinaram os valores que eu carrego até hoje, e carrego com orgulho. Eles foram parte importante da minha vida até o dia em que não foram mais — quando eu perdi todos eles para uma guerra.

Quando eu voltei pra Chicago em 1918, eu não tinha certeza de para onde minha vida iria. E confesso que não sabia o rumo das coisas até cinco anos atrás, quando conheci o Stiles, John e o Olhos Negros.

Eles me mostraram uma nova forma de ver as coisas e acreditar num futuro melhor. Eles me ensinaram que não importa quem você é, não importa a sua aparência ou o modo como o mundo gira ao seu redor, se você tem pessoas que podem segurar a sua mão, se você tem amigos que podem estar perto de você, dizendo que te amam, tudo fica mais fácil.

Por isso mesmo que me dói saber que eu perdi uma parte de mim.

Uma parte que eu corro o risco de nunca mais ter de volta.

–--

A Maxwell Street era movimentada como sempre. Uma das ruas mais alegres de Chicago, que quase funcionava como um speakeasy a céu aberto — claro, sem a alegria que o rum proporcionava aos que não tinham tanto medo das leis e iam se aventurar nos bares proibidos da cidade.

Depois da quebra da bolsa e dos primeiros momentos de pânico sobre o futuro da economia dos Estados Unidos, muitas pessoas começavam a retomar suas vidas, ou pelo menos retomar o máximo das coisas que podiam.

Milhões tinham seus empregos ameaçados, os bancos tinham perdido dinheiro na casa dos bilhões, a agricultura tinha sua produção estagnada porque as vendas não conseguiam despachar os produtos e a população toda não sabia por onde começar a limpar a sujeira que havia se acumulado nas ruas ou nas suas vidas durante os primeiros dias da crise.

Alimentação pública para os que não tinham mais emprego já era uma coisa comum, com filas e mais filas de pessoas querendo pelo menos garantir a comida do dia, já que elas não tinham mais dinheiro para comprar qualquer outra coisa.

Haviam mais pessoas morando na sarjeta, aqueles que tinham perdido imensas somas de dinheiro como quem perde poeria no deserto — que não é uma analogia bastante inteligente, mas imagine perder alguma coisa em um lugar onde você não tem a menor chance de encontrá la? Foi exatamente isso que aconteceu.

O dinheiro perdido nunca iria voltar para os que o perderam.

No lado mais pobre de Chicago, o Olhos Negros e tantos outros bares famosos continuavam fechados, mas na Maxwell Street a música ainda tinha seu tempo para acontecer. Milhares de pessoas passavam o dia nos seus arredores tentando achar um pouco de diversão, já que elas não tinham dinheiro algum para isso, e se tivessem, a diversão seria uma das últimas coisas na lista.

De graça, tudo vinha de bom grado.

John ainda encontrava dificuldades para conseguir voltar a vida, tendo perdido uma das únicas coisas que ele guardava com tanto carinho. Não que ele não pudesse mais ter o Olhos Negros, o prédio iria continuar lá, na mesma ilegalidade de sempre, e agora em meio a crise havia uma chance menor ainda de algum agente da cidade ir lá e fechar o bar. Mas ele não tinha como abrir o lugar, não iriam vir clientes com dinheiro para comprar as bebidas e John ainda tinha um bom estoque de rum para vender, só que ele não poderia dar de graça.

Assim como todos precisavam de dinheiro para viver, John também tinha uma família para alimentar.

Eles tinham vivido os últimos dias com o dinheiro que eles tinham guardado ao longo dos anos, e que duraria por um tempo ainda, mas se os Stilinski quisessem continuar comendo, alguma hora ou outra John teria que arrumar um trabalho — o que deixava Stiles com um sentimento de culpa, pois ele não poderia fazer nada para ajuda o pai naquele sentido.

Já era comum imaginar que os cegos iriam ser músicos, pois era a única forma que eles tinham para ganhar dinheiro, já que nenhuma fábrica ou estabelecimento iria aceitar um deles. O problema é que não era possível viver da música em uma época em que as pessoas sequer tinham mais dinheiro para gastar com comida, que dirá com música.

“Eu não sei nem o que fazer, Derek.” Stiles falou para o homem que guiava ele. Derek e Stiles estavam andando com calma pela Maxwell Street, cuidando para não pisar nas centenas de pessoas sentadas na calçada, esperando por uma chance de seguir com a vida delas.

Stiles havia se cansado de ficar em casa e aguentar o drama do pai, mesmo que ele fosse justificado, então, Derek havia convidado ele para um passeio pela cidade, já que o homem tinha um dia de folga das docas e ele achava que seria uma boa ideia os dois saírem para espairecer, deixando John vir ao seu senso no próprio tempo.

“Eu confesso que também não sei, na maior parte do tempo.” Respondeu o homem, tentando elevar a voz para que Stiles pudesse ouvir ele por cima do barulho das conversas e da música vindo de todos os cantos.

“Era isso que eu temia.” Disse Stiles, suspirando.

“Temia o que?” Perguntou Derek.

“Que você não soubesse o que está fazendo também. Quer dizer, não que você não saiba, mas é complicado a gente confiar nas pessoas e achar que elas tem certeza de para onde estão nos guiando só pra ter a confirmação de que nem elas sabem.” Stiles falou, balançando a cabeça.

“Bom, eu nunca disse que era a pessoa que sabia tudo, Stiles.” Derek falou, um pouco de indignação aparecendo na voz do homem. Stiles foi rápido em responder a ele.

“Não que você não sabe do que está fazendo. Ou melhor, não foi uma crítica a você. Ou pelo menos não só pra você. Eu sou cego, não posso falar da falta de força para seguir em frente e guiar os outros, na verdade. Eu não posso guiar ninguém. Só falei que é complicado imaginar exatamente o que a gente vai fazer daqui pra frente. E é complicado a gente não poder ter olhos para agir e conseguir guiar os outros, ou pelo menos tentar.”

Stiles terminou de falar e suspirou de novo, apertando o ombro de Derek onde estava a mão dele. O gesto serviu para dizer que Stiles não estava culpando ele de nada e também pedia desculpas por parecer que ele falava aquilo.

“Eu sei, Stiles. Tudo parece mais complicado do que é nesse momento. A gente não tem muito escolha senão olhar para frente e tentar achar o nosso caminho. Vamos achar ele, eventualmente.” Derek falou, calmamente.

Os dois caminharam por mais alguns metros, ouvindo a música em volta deles e as conversas que se centravam em torno do que acontecia. Era um bom passatempo para Stiles ficar apenas ouvindo o mundo em volta dele e não se preocupar com muita coisa. E também era bom ele ter a chance de ouvir uma música boa enquanto a cabeça dele viajava.

“Você poderia aprender braille, Stiles.” Derek falou, puxando a cabeça do garoto de volta para o presente. Stiles franziu o cenho por alguns instantes, se acostumando a troca de assunto repentina antes de falar.

A proposta não era exatamente o que o garoto estava esperando para a conversa deles, mas a troca de assunto foi bem vinda.

“Eu não sei. As pessoas dificilmente ensinam pra gente que é ilegal por aqui.” Stiles falou, colocando o humor de todo mundo pra baixo de novo. “Não é que eu não queira também. Eu já pensei nisso. Pelo menos eu pensei na ideia de tentar entrar em alguma escola mais especial, mas não posso. No nosso bairro tem algumas professoras que ajudam os estudantes ilegais a completarem os anos de escola que faltam, e eu estudava com uma delas, mas depois que eu…” Stiles apontou para os próprios olhos. “Não tenho muita escolha.”

Os dois continuaram caminhando por mais alguns metros, Stiles sentindo os músculos de Derek se mexerem embaixo da mão dele, como se o homem estivesse tentando eliminar alguma tensão no corpo sem deixar ela transparecer para Stiles.

O homem respirou fundo antes de falar

“A gente poderia pensar nisso mesmo assim. Talvez tentar encontrar alguém pelo bairro de vocês que saiba. Seria um coisa a mais pra você fazer, afinal, se o Olhos Negros estiver fechado por muito tempo…” Derek parou de falar, não querendo dizer as palavras que estavam na mente dele. Ele balançou a cabeça.

“Eu sei, Derek. Não tenho um futuro bem definido daqui pra frente. É mais esperar e ver.” Stiles falou, entristecido. “A gente tem que se acostumar com o que está acontecendo agora, a gente precisa tentar enxergar pra frente e pensar em soluções. Primeiro pra meu pai e depois pra mim.”

Stiles parou de falar e Derek não disse nada. Ele andaram por mais alguns metros até que Derek parou de andar também, Stiles sentindo o homem ficar no lugar em que eles estavam. Ele apertou o ombro de Derek, para saber se tudo estava bem sem perguntar nada, mas logo ele sentiu que Derek estava se virando para olhar para ele.

“O que foi?” Stiles pediu, um pouco preocupado.

“Nada demais, Stiles.” Derek falou. Logo, as mãos dele se colocaram nos ombros de Stiles e ele o apertou carinhosamente. “Eu só percebi que você ficou um pouco triste com o assunto que nós conversamos. E esse nosso passeio não era pra ser triste. A gente tá aqui pra se divertir um pouco e ouvir música. Tentar esquecer um pouco da vida…”

“Mas é difícil…” Stiles começou a falar mas foi interrompido por Derek.

“Eu sei que é difícil, Stiles. Não tem motivo pra gente esquecer de tudo de verdade. E você tem que se preocupar com a sua vida, não só com o seu pai. Eu ia te falar, mas eu conversei com o meu patrão nas docas e em alguns dias vão abrir umas vagas para mais homens virem trabalhar no porto, e eu já disse pra ele que eu tenho um homem pro serviço. Se o seu pai quiser…” Derek parou de falar ao sentir os braços de Stiles se enrolando no corpo dele e o apertando.

O abraço foi estranho e diferente. Pela primeira vez em muito tempo Stiles abraçava outra pessoa que não era seu pai, mas o sentimento de gratidão que se espalhou pelo peito dele ao perceber que Derek tinha pensado no pai dele e que eles poderiam encontrar algum caminho para a vida deles, deixou o garoto extasiado.

“Obrigado.” O garoto falou, colocando sua cara no pescoço de Derek. O homem demorou um pouco para retribuir o abraço, mas logo colocou seus braços em volta do corpo de Stiles e o apertou contra o peito.

“É claro que eu iria ajudar vocês, Stiles. Vocês são tudo pra mim.” O homem falou, abaixando sua cabeça para encostar na cabeça de Stiles.

Naquele momento os dois ficaram conectados, sentindo o corpo um do outro se ligar por aqueles segundos em que os braços de um se enrolavam aos do outro, em uma abraço que começou meio esguio, mas logo fez os dois se aproximarem.

“Maricas!” Os gritos vieram de um lugar perto deles.

“Olha só as margaridas!”

“São namoradinhos!”

“São uma vergonha isso sim, onde já se viu homens se abraçando desse jeito na rua?”

“Tem que morrer.”

De um abraço simples os dois homens se separaram rapidamente, assustados ao ouvir as vozes de um grupo de garotos de rua se aproximando deles. Stiles não fazia ideia de quantos deles estavam ali por perto, mas haviam várias vozes. Ele nem fazia ideia do que eles estavam falando, afinal ele só tinha agradecido a Derek por ajudar ao pai de Stiles, nada mais. Ele não conseguia ver um motivo para aquilo acontecer.

“Vamos embora, Stiles.” Derek sussurrou pra ele, agarrando a mão do garoto e guiando ele para o lado de onde eles vieram, tentando sair do caminho dos outros garotos. Stiles seguiu Derek, tentando se concentrar em onde ele deveria caminhar e não na voz dos meninos vindo de longe.

“Mas olha só as namoradinhas.”

“E uma delas ainda é ceguinha.”

“Só podia ser, um casal de defeituosos.”

“Tem que morrer mesmo…”

Stiles nem conseguiu sentir direito o que estava acontecendo, a mente dele não conseguia processar as informações e o corpo dele não queria ajudar a andar. As pernas pareciam pesadas demais, as vozes dos meninos ficavam se repetindo nos pensamentos de Stiles e os olhos dele começaram a deixar as lágrimas escapar.

“Derek…” Stiles pode abrir a boca para falar o nome do homem antes do mundo se abafar para ele.

Ele já não enxergava nada, mas agora o mundo tinha perdido o som também e ele foi ao chão.

Notas finais
Obrigado a todo mundo que comenta na fic - as duas pessoas que comentam, melhor dizendo. Amo vocês - e os fantasmas também! =D