Oczy

10 Dias melhores virão


Notas iniciais
Eu li uma fic hoje que me deixou um pouco puto, aí eu decidi que tinha que publicar capítulos das minhas fics pra compensar - pelo menos aqui sterek existe! =D

Stiles sentiu seu corpo voltar à vida. Os dedos começavam a se mexer aos poucos, ele ia sentindo que a letargia ia passando a cada segundo, fazendo os ouvidos dele escutarem as batidas do coração e o som do ar entrando e saindo do peito, permitindo que ele sentisse o mundo ao seu redor voltando a normalidade com o passar dos segundos.

Ele respirou fundo, com calma.

“Stiles?” A voz do pai soou nos ouvidos do garoto, fazendo com que ele se acalmasse. O homem parecia estar perto da cama onde Stiles estava deitado.

“Sim?” Quando ele falou, as palavras ainda saíam com dificuldade, mas foi possível entender elas. “Pai?” Stiles perguntou pelo homem, tentando pensar de onde vinha a voz dele, ainda sentindo a estranheza passar do corpo dele devagar.

“Sim, meu filho.” John falou de novo, colocando uma das mãos por sobre o ombro de Stiles e apertando ele, não muito delicadamente. Era como se ele quisesse se certificar de que ele estava bem, quisesse fazer Stiles sentir que o homem estava ali.

Mesmo sem falar nada, Stiles se sentia melhor com os toques do pai o assegurando de que ele estava bem.

“Que que aconteceu?” Stiles perguntou, vasculhando sua mente por alguns segundos sem resultado, buscando imagens do que havia ocorrido antes de ele apagar e acordar de volta na cama dele.

“Você desmaiou no meio da rua. Nada muito grave. Derek trouxe você de volta pra cá.” John falou, soltando um pouco o ombro de Stiles, mas ainda assim esfregando suas mãos pelos braços dele. As frases saíam cortadas, como se John não soubesse exatamente como falar elas, e Stiles conseguia sentir aquilo.

“E onde que ele tá? Onde que tá o Derek?” Stiles perguntou.

“Na sala.” John respondeu.

Por alguns segundos o silêncio ficou entre eles dois. Stiles escutava a sua respiração e a do pai, e também conseguia ouvir o seu coração. Ele sentia os toques de John ao acariciar o braço dele, levemente descendo para segurar as mãos de Stiles e ele também sentia o cheiro da sua própria cama, de sua casa, a presença das coisa conhecidas o confortando.

Ainda assim, ele precisava de mais. Ele sentia que precisava de mais alguma coisa para se sentir ali, inteiro, bem.

Ele precisava de Derek.

Ele não sabia o motivo, mas ele precisava do homem.

“Chama o Derek aqui pra mim?” O garoto pediu, sussurrando.

“Claro.” John apertou a mão de Stiles uma vez antes de se levantar e sair do quarto. O homem não esperava nada diferente de Stiles. Enquanto John caminhava, o som de seus passos foram como um calmante e o barulho que eles fizeram no chão fez Stiles relaxar ainda mais.

Alguns instantes depois Stiles pode ouvir outros passos se aproximando dele, passos que ele conhecia também, de alguma forma. Os pés de Derek pararam na porta do quarto do garoto antes de ele entrar.

“Derek?” Stiles chamou por ele.

“Oi…” O homem respondeu, voz um pouco embargada. “Que bom que você acordou.” Ele disse ao se aproximar lentamente da cama. A presença do homem junto a Stiles foi a última coisa que faltava para a mente dele relaxar quase que por completo.

“O que aconteceu?” Stiles perguntou de novo, dessa vez para Derek. Ele queria ouvir mais da voz dele, por isso ele perguntou a primeira coisa que veio à mente.

“Você caiu na rua.” O homem falou, sem avançar dentro do assunto. As palavras dele pareciam controladas.

“E o motivo?” O garoto pediu de novo.

Derek suspirou antes de falar.

“Alguns garotos falaram coisas ruins. Nomes feios e algumas coisas sobre nós que não eram verdade.” A voz de Derek era cuidadosa, falando as palavras devagar.

Stiles, no entanto, ao ser lembrado do que havia acontecido, conseguiu voltar às memórias do que ele passou na rua, ouvindo as palavras dos garotos na cabeça dele outra vez. Ele respirou fundo, sentindo a pressão daquelas frases no seu telhado de vidro.

“Eu…” Stiles começou a falar e parou por um segundo antes de continuar. “Eu consigo me lembrar.”

Após as palavras do garoto o silêncio se instalou no quarto, fazendo com que as únicas coisas a serem ouvidas fossem a respiração de Stiles e Derek, e o som de John caminhando pelo apartamento deles ao longe.

Os braços de Stiles se abriram na cama, esperando que as mãos pudessem chegar perto de Derek e o tocar. Stiles precisava sentir ele ali, precisava ficar perto dele. Ele se sentia seguro com Derek e queria se sentir mais protegido naquele momento.

No entanto o homem não se moveu de onde estava.

Alguns instantes depois, Stiles voltou a se abraçar, respirando fundo.

“Você sabe que nada do que eles falaram é verdade, não sabe?” Derek falou, terminando com a tensão do silêncio.

“Sobre o que?” Stiles perguntou de volta.

“Tudo?” Derek respondeu. Ele suspirou. “Olha, não importa o que as pessoas façam da vida delas ou o que elas tem que passar todos os dias para viver, cada um faz as suas escolhas e deve lidar com elas. Mas todas as escolhas são válidas, então não tem porque ficar com o que aqueles garotos falaram em sua cabeça. Cada um vive a sua vida por si próprio e se eles precisam invadir a vida dos outros é porque a deles não deve ser tão boa assim.”

Derek parou de falar e esticou sua mão para encostar na de Stiles. O garoto abriu seus dedos e agarrou na mão do homem, se percebendo desmanchar aos poucos com o contato. Ele se sentia mais completo agora.

“As palavras são bonitas, mas não apagam o que eles falaram.” Stiles disse calmamente, apertando a mão de Derek.

“E nunca vão apagar, Stiles. Vão existir mais pessoas falando coisas ruins pra você. Assim como existem pessoas que falam coisas ruins para outras pessoas todos os dias. Não quer dizer que você precise viver do jeito que elas dizem pra você viver.” Derek apertou a mão do garoto com mais força e suspirou.

“Eu sei.” Stiles respondeu. “Ainda assim, nada muda.”

“Eu sei.” Derek concordou. “Mas você tem que continuar. Nada muda, mas a nossa vida segue em frente, e não tem motivo pra parar de seguir em frente também.”

–--

Stiles sofreu bastante com as palavras que aqueles garotos disseram para ele na Maxwell Street. Acho que ele nunca teve que bater de frente com pessoas que pensam menos dele, pessoas que não tem muito o que fazer da vida, distribuindo palavras ácidas que vem de suas mentes — por isso mesmo que a reação dele foi tão intensa.

Geralmente as pessoas não desmaiam quando escutam um insulto, mas Stiles nunca ouviu um na vida, pelo menos não assim diretamente e sem motivo qualquer. Bom, não existem muitos motivos para você insultar uma pessoa, de qualquer maneira, mas ele nunca havia sentido a raiva injustificada de alguém na própria pele.

Acredito que ele não estava esperando aquelas palavras duras, alguém gritando pra ele que ele merecia morrer. E adiciona isso com o fato de ele ter a perda do Olhos Negros na cabeça, ele ficar pensando sobre o pai e se preocupando com ele. Sem falar em se preocupar consigo, já que Stiles agora não tinha mais onde tocar e também não sabia o que seria da vida dele. Um motivo mais que válido para deixar sua cabeça perdida.

E daí, do nada, surge alguém gritando para ele morrer…

Ainda que ele não se machucou. Eu consegui segurar ele para que não batesse no chão com muita força e depois levei ele direto pra casa nos meus braços. Já quando estávamos chegando ele parecia se acordar um pouco, mas foi só quase uma hora depois, já deitado em sua cama, que ele se acordou completamente.

John ficou bastante preocupado.

E com razão.

A primeira coisa que ele fez foi me xingar. Ele disse que eu era um irresponsável por levar o Stiles para longe de casa e depois disse que provavelmente era tudo culpa minha. Eu fiquei hesitante por algum tempo, sem nem saber o que fazer ou dizer, afinal Stiles é o filho dele, e quando algum pai vê seu filho sendo machucado a primeira coisa que vai fazer é lutar por ele com unhas e dentes. Mas eu me senti machucado também.

Eu não disse nada, no entanto.

Mais tarde John veio pedir desculpas pra mim e me abraçou. Ele disse que eu não tinha culpa de nada e que graças a mim Stiles tinha chegado em casa são e salvo. Eu contei pra ele o que havia acontecido e ele só balançou a cabeça irritado. Ele estava triste por ver que existiam pessoas que ainda não tinham se acostumado a coisas diferentes nesse mundo.

Mas ele me agradeceu de novo, dizendo que eu era como um filho pra ele. E me abraçou de novo.

E eu fiquei feliz de novo, também.

Nesses momentos que eu percebi como nós três éramos partes de uma coisa só, éramos os três de um todo. Eu poderia ir mais longe e dizer que éramos uma família. Com seus altos e baixos, problemas e momentos felizes, como qualquer outra. Vez ou outra iríamos brigar, vez ou outra iríamos chorar juntos, mas estávamos juntos em qualquer parte do caminho.

E aquilo era mais do que o bastante.

Estaríamos um ao lado do outro, pronto para segurar a mão de quem fosse cair primeiro.

–--

2 semanas depois

–--

Derek, John e Stiles estavam sentados ao chão, lado a lado. Os três homens se encostavam no balcão do antigo bar do Olhos Negros, conversando sobre as coisas da vida. Era como se fosse um dia normal para os três no bar, a única diferença é que não havia mais ninguém para eles atenderem.

“É uma pena que nós não tenhamos mais o Olhos Negros como um porto seguro. Ele era um meio de proteção para todas as pessoas que nunca estiveram felizes com o modo que a sociedade vê elas. Assim como grande parte dos speakeasies que eu conheci.” John disse, tomando um gole de rum direto da garrafa que ele segurava na mão. O homem suspirou, balançando a cabeça.

Derek conseguia ver a decepção escrita nos olhos do homem. Ele parecia estar infeliz com muitas coisas, mas a maior delas parecia ser o fato de que ele havia perdido a chance de dar um propósito para o filho e que agora ele tinha que se contentar com um trabalho no porto e ficar longe de Stiles o dia todo.

John sonhou que o Olhos Negros seria o porto seguro de Stiles, como ele disse a Derek muitas vezes, mas agora que o bar não existia mais, o garoto não teria mais onde tocar, não teria um lugar para ser o que era e ser livre.

E Derek também não teria esses mesmos privilégios — ser o que ele era.

“Não tem muita coisa que nós possamos fazer, no entanto.” Derek falou, fazendo o olhar perdido do pai de Stiles se voltar para ele. “A crise afetou todos os setores do país. Mudou a vida de um monte de pessoas, assim como a nossa, John. Eu acho que nós temos sorte ainda. Sair disso tudo sem perder dinheiro para os bancos.”

“Viva à ilegalidade.” John falou, levantando a garrafa de rum ao alto. Stiles balançou a cabeça e Derek sorriu para o homem antes de beber direto da sua garrafa também.

Derek viu Stiles se preparar para falar alguma coisa, esperando o pai parar de beber para ter a atenção do homem.

“É pai.” Stiles falou de seu canto. O garoto tinha colocado os pés para perto do peito, conseguindo abraçar suas pernas. “A gente perdeu o Olhos Negros, mas a maior parte das pessoas que a gente conhece perdeu coisas também. A gente não tem muita culpa que nossos clientes não tem mais dinheiro para pagar pelas bebidas. E sem dinheiro, nós não podemos manter o bar. Infelizmente. Mas como Derek falou, não ter dinheiro no banco foi bom. A ilegalidade esteve nos ajudando, como sempre.”

Derek e John apenas assentiram às palavras de Stiles, antes de ambos provarem do rum outra vez.

Um silêncio se formou por alguns segundos entre eles três, deixando apenas os sons da rua penetrarem no antigo bar dos Stilinski. As luzes da noite apareciam também pela janela e o canto de vida de algumas pessoas pelas ruas ainda era possível se ouvir. Muitos dos homens que haviam perdido o emprego correram para suas casas e procuraram o que tinha sobrado d álcool para afogar as agonias no amargo de uma bebida, o que fez com que a cidade se enchesse de bêbados pelo tempo em que as casas ainda conseguiram seu próprio rum.

Depois nem aqueles tiveram sorte.

A ilegalidade das bebidas fez a vida das pessoas mais difícil ainda, já que os speakeasies não podiam vender elas de graça e quase ninguém queria mais gastar do seu dinheiro com rum. Ainda assim, muitos tinham estoques a serem usados e muitos bêbados continuavam a brotar pelas esquinas.

“Pai, você acha que a gente vai conseguir viver a vida sem o Olhos Negros?” O garoto perguntou, chamando a atenção de Derek para o rosto dele. O homem pode ver a dúvida simples na cara dele, junto com a preocupação sobre o futuro deles.

Com a pergunta de Stiles, John voltou a sobriedade, mesmo tendo tomado bastante rum. O homem pegou na mão do filho e apertou pra um instante antes de falar, palavras vindo da boca dele com certeza.

Era possível ver a diferença do homem de semanas atrás para esse de agora. John ainda bebia bastante, mas já tinha sua cabeça no lugar de volta.

“Claro que vamos, Stiles. Nossa vida já mudou várias vezes e uma mudança a mais não vai nos tirar do caminho. A gente só precisa seguir em frente e seguir em frente, só tem essa escolha para nós. Não se preocupe com isso, tudo vai dar certo.” John falou, assegurando o filho.

Stiles parecia preocupado ainda.

“Eu sei, mas vai dar tudo certo mesmo?” Naquele momento em que ele virou seu rosto para John, Stiles mais parecia um garotinho indefeso aos olhos de Derek , uma visão bastante diferente do que ele normalmente via em Stiles.

O olhar dele parecia mais o de um garoto, como a mente de Derek sempre gostava de imaginar — por mais que Stiles tivesse 24 anos, Derek ainda via ele como um simples menino — mas ele sempre via um garoto forte e valente nas feições de Stiles. O olhar indefeso aparecia só às vezes na cara dele.

Ultimamente, no entanto, aquele olhar indefeso aparecia com mais frequência, principalmente depois do ataque.

Stiles se sentia bastante inseguro com sua própria vida e suas escolhas, e assim como John falou, o Olhos Negros não estava mais do lado deles para proteger os Stilinski do mundo. O garoto não tinha mais as suas costas guardadas pelas paredes do bar e seus ares de liberdade.

E pelas palavras de Stiles, ele sentia que algum dia ninguém estaria do lado dele para proteger ele. Não que ele precisasse de proteção para sempre, mas a vulnerabilidade de Stiles estava escrita nos olhos vazios dele.

Derek queria poder ter a força de abraçar ele e dizer que ele estaria sempre por ali, se Stiles precisasse.

Mas ele não fez nada.

Quem abraçou Stiles foi seu pai, murmurando palavras ininteligíveis no ouvido de seu filho.

Derek apenas sorriu, esperando que as coisas se ajeitassem com calma. O tempo iria passar para eles também.

Dias melhores iriam vir.