Oczy
11 De 1929 a 1934 - Interlúdio
Notas iniciais
A nossa vida foi tomando o seu rumo.
Lentamente.
Finalmente.
Tudo não ia voltar para o devido lugar apenas com um toque de mágica ou no passar de um minuto, mas nós iríamos encontrar nosso caminho. Era preciso tempo para as coisas acontecerem, trabalho para que tudo fosse para frente e perseverança para não desistir nas primeiras dificuldades, seguindo firme na esperança de que tudo iria ficar bem.
Foi difícil, no entanto. A crise de 29 havia tirado o futuro de muitas pessoas e um pedaço da vida dos Stilinski também, quando o Olhos Negros teve que ser fechado. Uma parte inteira da vida deles teve que ser deixada para trás e John e Stiles tiveram que encontrar um novo objetivo de vida, tiveram que virar para um outro caminho e seguir. As indecisões eram muitas, a aposta era alta e eles não tinham uma rede de segurança.
Era quase como um passo no escuro.
Porém, Stiles lembrou a nós dois que todos os passos dele eram no escuro, que tudo na vida dele era feito sem os olhos, sem poder enxergar o perigo à frente, sem poder medir as distâncias dos nossos saltos ou visualizar a imagem toda antes de fazer uma escolha.
Eles nos disse que a vida também tinha dessas escolhas feitas no escuro.
E nós decidimos apostar.
E deu certo.
Os Stilinski encontraram uma forma de seguir a vida, encontraram seu caminho. John foi trabalhar nas docas, naquele emprego que eu havia conseguido para ele. O dinheiro continuava a ir pra casa deles e a comida não iria deixar de ser posta na mesa. O trabalho era duro e cansativo, obrigando John a sair de casa antes de o sol nascer e voltar quando já estava escuro, mas era um trabalho.
Era um modo de assegurar que eles pudessem ter uma casa, ter um lugar pra viver. Era um jeito de fazer com que eles não se juntassem aos milhares de pessoas que ainda estavam na rua.
Era a diferença entre a ilegalidade e a indigência.
Enquanto eles lutavam com suas vidas eu continuei a trabalhar nas docas, fazendo com que durante alguns dias da semana eu e John dividíssemos o mesmo local de trabalho — e mesmo se nós ficássemos em áreas diferentes, a hora do almoço iria servir para conseguirmos companhia um do outro, o que fez com que nós dois nos aproximássemos ainda mais e eu viesse a enxergar ele como uma figura paterna com mais força do que eu o via antes.
Ainda que estivesse cansado, John sempre tinha um sorriso fácil no seu rosto, um brilho especial no olhar e um modo diferente de ver o mundo, o que me ensinou a ver um lado diferente do meu mundo.
Ele me fazia ver o lado bom das coisas.
John sentia falta do Olhos Negros como se o bar fosse um filho dele que havia ido para o outro lado do planeta. No entanto o homem ainda olhava para frente e via o mundo pelo que precisava ser visto e não apenas por suas expectativas e sonhos. Ou pelas lembranças que ele queria que não estivessem apenas no passado.
Ele via a realidade e lutava para ganhar seu sustento com ela.
Do mesmo jeito que eu e John nos aproximamos, uma distância surgiu entre nós e Stiles, infelizmente.
No começo foi mais complicado pra cada um se acostumar às novas rotinas. John precisava ir dormir cedo e acordar cedo para ter o ânimo de trabalhar durante o dia todo e não perder o emprego para os milhares de outros homens com tempo livre. Stiles, por sua vez, precisava acordar cedo também se quisesse fazer companhia para o pai durante as horas que o homem estava em casa, antes de ele ter que ficar só pelo resto do dia.
Stiles iria passar os dias sozinho em casa, apenas esperando por alguma coisa aparecer para ele fazer, já que essa nova rotina havia tirado grande parte dos motivos de Stiles sair da cama. Mas ele havia dito que não se importaria em demorar mais tempo para descobrir o próprio caminho, pois ele sabia que John era o homem da casa e os dois dependiam dele.
Ele não queria ser um empecilho no meio do progresso que os dois faziam aos poucos, por isso ele deixou de lado um pouco das suas escolhas e do egoísmo para abrir um espaço para o pai fazer sua vida.
Mas aquilo não era fácil.
Pelo menos nós arrumamos um jeito de ajudar ele.
Stiles estava pirando no final da primeira semana em que John começou a trabalhar, mesmo que ele não quisesse confessar. Naquele final de semana, então, nós três fomos ao Olhos Negros e arrumamos um jeito de transportar o piano do bar para o apartamento deles, tentando fazer com que Stiles ficasse com um humor melhor e tivesse alguma para fazer durante o dia.
E o garoto — que na minha cabeça ainda era um garoto — que sentia falta demais do piano, ficou feliz, já que ele não tinha nada a fazer senão ficar em casa tentando pensar na vida, ouvindo o rádio tocar música.
Agora ele tinha o piano.
E um sorriso no rosto.
O que significou um sorriso no rosto de John.
E no meu também.
Alguns semanas depois, enquanto eu andava do porto para meu apartamento, meus olhos captaram algo estranho na rua e eu fui olhar o que era — e acabei levando um violoncelo da rua para a casa dos Stilinski. Eu não fazia ideia se o instrumento funcionava, nem sabia se Stiles havia visto um algum dia, mas eu entreguei nas mãos dele e vi o sorriso dele se abrir como um sol outra vez. Grande, vistoso e brilhante.
Minha vida poderia se movimentar apenas em volta daqueles sorrisos, se eu quisesse.
Parecia que depois de tantos tropeços, havia alguma luz entrando em nossa vida.
Enquanto eu e John seguíamos nossa rotina no porto, Stiles passava seu tempo em casa, descobrindo novas formas de fazer música, tendo agora suas mãos cheias com as teclas do piano e as cordas de um violoncelo.
Dois anos depois que eu entreguei o instrumento para o garoto ele havia descoberto formas de tocar que me surpreenderam. A primeira vez que eu ouvi ele tocar uma música no violoncelo eu quase chorei — e a escolhida por ele foi “Georgia On My Mind”. O som era uma coisa assim tão diferente que eu fazia meu coração ser levado ao som das notas se espalhando pelo ar e se algum dia eu achei que algo tão bonito não poderia sair das mãos de Stiles, eu estava enganado.
Nós passamos juntos muitas noites cantando sobre um mundo utópico enxergado pelos olhos de mulheres fictícias nas músicas que rondavam Chicago, quase como nossa vida no antigo Olhos Negros — o que nos trouxe boas lembranças.
Nem tudo era um mar de rosas, no entanto.
Três anos dentro de nossa rotina e eu e John tínhamos nossos dias planejados para o trabalho, mas Stiles não tinha nada além da música e do apartamento — o que fez com que alguma coisa acabasse estourando nossa bolha de felicidade.
Um dia em que nós voltamos do porto muito mais tarde do que o normal, por motivos normais de trabalho, encontramos Stiles deitado na pequena sacada do apartamento, olhos vermelhos e rosto sangrando. John quase entrou em choque ao ver o filho daquele jeito, já achando que algo de muito pior havia acontecido.
Stiles havia sofrido um colapso nervoso. Ele nos contou que tudo ia como uma dia normal até que ele queimou a comida na cozinha, uma coisa simples, mas em seguida uma da cordas do violoncelo estourou na mão dele e ricocheteou no rosto, cortando a testa. O garoto ficou mais bravo do que qualquer outra coisa e na tentativa de achar uma forma de consertar estrago, ele derrubou o violoncelo no próprio rosto, rasgando um pedaço da bochecha dele. Stiles ficou frustrado, perdeu a noção do tempo em sua cabeça bagunçada e começou a chorar, achando que John não iria mais voltar pra casa por causa do filho defeituoso que tinha.
A partir dali ele saiu quebrando coisas pela casa até se cansar e ir deitar no chão.
John chorou ao abraçar o filho, dizendo que nunca iria abandonar ele e que amava Stiles mais do que tudo. O garoto disse que ele sabia que não havia perigo de o pai abandonar ele, que tudo aquilo era coisa da cabeça dele, e que talvez ele precisasse encontrar mais coisas para ocupar o tempo.
E então foi aí que eu decidi que ajudaria Stiles a aprender braille.
Foi uma das decisões mais complexas da minha vida — e uma das coisas mais difíceis que eu fiz, mas por Stiles eu faria quase tudo. Eu não sou cego e não fazia ideia de como aquilo funcionava, assim como ele também, que só havia ouvido falar do alfabeto. Eu decidi ir atrás de livros e das formas de se aprender, tendo que eu aprender primeiro para depois ensinar para ele, processo que se estendeu por longas noites ao largo de vários meses.
Aquilo foi uma das coisas mais loucas que eu fiz na vida, tenho que admitir.
Não foi nada fácil, eu fiquei mais frustrado do que eu gostaria de ficar, mas eu sabia que aquilo era um bem maior, que era para Stiles ter mais coisas para fazer, para ele ficar mais tranquilo, para John ficar mais tranquilo. E a mim também.
Se tivesse um jeito de eu ajudar a nossa família a seguir forte, eu o faria.
Ah, e sim, nós viramos uma família.
Um ano atrás, quatro anos depois de fecharmos o Olhos Negros, eu me mudei para o mesmo prédio dos Stilinski, morando no apartamento logo abaixo do deles, o que fez com que eu passasse ainda mais do meu tempo livre com eles.
Nossas vidas foram se interligando mais e mais.
Já saíamos aos domingos para ir passear pela cidade, caminhar pelos parques, passear perto do Lago Michigan ou fazer qualquer coisa que envolvesse a nós todos. E começamos também a passar o máximo de nossos dias juntos também, dentro e fora do trabalho. Forjamos uma rotina em que cada um tinha uma parte importante e essencial, e que funcionava muito bem.
Fazíamos algumas visitas para o antigo prédio do bar de John, indo almoçar ou apenas passar alguns momentos nas ruínas do que foi parte de nossas vidas. Muitas vezes fomos nos divertir também na Maxwell Street, mesmo que ela trouxesse memórias ruins para mim e Stiles.
Cinco anos depois de o Olhos Negros se despedir das nossas vidas, tudo parecia já em outra dimensão, em outro sentido. Nossas ideias e expectativas haviam mudado, nossos sonhos também, mas o sentimento de fraternidade entre os Stilinski e eu continuava mais vivo que nunca. Eu me senti dentro de uma família que não tinha o mesmo sangue que eu, mas tinha algo ainda mais importante: eles estavam do meu lado.
Os dois eram uma família que eu poderia tocar, abraçar, conversar.
E tudo parecia perfeito daquele jeito
Perfeito demais, infelizmente...
Fale com o autor