Notas iniciais
Como o próprio título diz, esse capítulo vai ser daquele jeito. Mas pelo menos é o capítulo mais dolorido da história e depois a coisa começa a melhorar. Mas dói.

NAZIS WARNED TO STAY AWAY FROM AUSTRIA: ‘Keep hands off Austria’; Britain, France and Italy prepare to warn Germany. Albany Evening News, 17 de fevereiro de 1934.

NAZIS AVISADOS A FICAREM LONGE DA ÁUSTRIA: ‘Tirem suas mãos da Áustria’; Bretanha, França e Itália preparam para avisar Alemanha.

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Era um domingo simples de verão.

A família dos Stilinski andava pelas ruas de Chicago, indo de volta para casa depois de uma tarde de folga das docas para John e Derek. Os homens haviam aproveitado o dia para ver um pouco do sol, sentir o calor na pele, ouvir o canto dos pássaros e ver as águas do Lago Michigan se revolvendo em pequenas ondas nas areias escuras da prainha.

Stiles andava com a mão no ombro do pai para se guiar.

“Eu acho que não tem problema em tentar fazer uma nova receita de peixe.” Stiles falou, sorrindo. “A gente pode tentar misturar ele com um pouco daqueles novos temperos que a Dona Martin nos deu. Ela vive querendo fazer comida pra gente ou nos dar coisas pra comer a toda hora. Eu fico imaginando os motivos…” Ele terminou a frase com uma entonação de dúvida junto com insinuações de que esses motivos eram importantes para alguém da família.

Derek e Stiles riram com aquelas palavras e John apenas grunhiu, balançando a cabeça.

“Eu não tenho culpa se ela quer… alguma coisa.” John falou, fingindo tremer e tentando não falar coisas piores sobre o que as palavras do filho estavam sugerindo.

“Ela é uma mulher bem feita na vida, no entanto. Não seria uma coisa assim ruim se juntar com ela.” Derek falou, mantendo seu sorriso por trás das palavras. O homem riu depois que completou a frase.

John apenas bufou.

“Então você que case com ela.” O pai de Stiles protestou.

Stiles e Derek riram de novo.

“Ai, pai, ela não é tão ruim.” Stiles falou, apertando o ombro do pai. “Pelo menos ela não parece tão ruim. Ela gosta de fazer comida pra você. Ela tem um corpinho bem bonito, pra estar nos cinquenta. E ela parece uma pessoa legal. Eu não vejo problema.” Ele disse, levantando os ombros uma vez, sinalizando que as coisas poderiam ser mais simples do que eram.

“Bom, eu não vou dizer pra você o mesmo que disse para o Derek, mas…” John parou de falar por um instante, pensando. “Como que você sabe como é o corpo da Sra. Martin?” O homem perguntou, parando de andar e se virando para Stiles.

O garoto sorriu, tentando morder os lábios para não deixar o riso escapar, mas não disse nada.

“Ele me pediu pra descrever ela.” Derek falou, puxando a atenção dos homens para ele. “Mas ele estava tão feliz que eu não pude falar a verdade sobre a mulher...” John grunhiu com a resposta de Derek.

“O que?” Stiles protestou. “Ela não é bonita?” Ele pediu, incrédulo por ter sido enganado.

Os dois homens ficaram em silêncio por alguns instantes, deixando que a própria falta de palavras falasse por si própria. Eles voltaram a caminhar sem dizer nada. Stiles balançou sua cabeça, sorrindo por alguns passos enquanto o assunto ficava pra trás deles.

“Ugh, desculpa, tato.” Stiles falou.

“Pelo que?” John pediu para o filho.

“Por ter pressionado você a sair com a Sra. Martin. E tudo mais.” Stiles falou, apertando o ombro do pai.

“Não tem problema.” John disse, soltando um pequeno riso, quase como uma pequena bufada de ar.

“Eu só não queria te ver sozinho.” O garoto falou.

John riu curtamente. Quando ele voltou a falar havia um sorriso estampado em suas palavras.

“Eu não estou sozinho. Eu tenho você. E tenho o Derek. Eu tenho tudo que eu preciso bem aqui.” O homem disse, colocando uma mão por sobre seu ombro e a mão de Stiles, apertando ela por alguns momentos.

Os homens seguiram caminhando em direção ao prédio em que eles moravam, continuando com conversas paralelas e outros momentos de silêncio, que era sempre confortável entre eles. As ruas iam passando com calma e o sol ia se pondo no horizonte na hora que os três chegaram à última esquina antes do endereço deles.

Uma comoção na rua chamou a atenção dos três.

“Eu só quero ter o que eu paguei, sua puta!” A voz de um homem se ouviu, acompanhada de grunhidos.

“Eu já te chupei, seu babaca. Era tudo que o dinheiro ia pagar.” A voz de uma mulher soou pelo ar, respondendo ao homem.

Stiles ficou tenso por alguns instantes, tentando imaginar a cena em sua cabeça. Ele sabia que depois da chegada de mais imigrantes no últimos anos, vindos do sul para as cidades do norte, uma horda de pessoas tinha ficado à deriva nas ruas ao mesmo tempo em que as portas da prostituição se abriram, fazendo com que centenas de pessoas trabalhassem nas esquinas, tentando ganhar mais dinheiro do que as fábricas lhes davam.

A prostituição, no entanto, tinha seu lado horrível — se é que houvesse outro lado melhor do que o dinheiro. Mulheres e homens tinham que se sujeitar a qualquer cliente e na maior parte do tempo ainda eram abusados. Muitos homens que não queria pagar pelo serviço acabavam por usar a força física para obrigar eles a trabalharem para seu prazer.

E parecia ser aquilo que estava acontecendo.

Stiles teve alguns segundos para se preocupar com o que se passava na frente deles antes de perceber a falta do seu pai por baixo da mão dele.

“Pai?” O garoto chamou com uma voz baixa, mas ninguém respondeu ele. Ele só ouviu os passos de alguém correndo para longe.

“Hey, solta ela!” Gritou a voz de John, metros a frente de onde seu filho estava. Um arrepio correu pelas costas de Stiles, como um mau pressentimento.

“John, cuidado.” Derek gritou, longe de Stiles também. O garoto não fazia ideia do que estava acontecendo entre seu pai, Derek e o casal que brigava, já que seus olhos não lhe permitiam ver nada. Ele então tentava aguçar a audição para conseguir ouvir as vozes.

“Solta ela!” A voz de John gritou.

“Eu paguei pela mulher, seu polaco de merda.” Disse o homem, tendo notado o sotaque de John.

Stiles tentou respirar fundo para se acalmar, mas a falta da presença de alguém conhecido por perto dele fazia o seu coração disparar e a situação em que ele se encontrava deixava seu peito com dificuldade de respirar.

Ele tentou escutar o que estava acontecendo, mas não era fácil de ouvir enquanto os homens estavam brigando. Pelo que ele conseguia captar, havia alguém socando outro homem enquanto a mulher chorava, mas ele não sabia quem fazia o que.

O coração de Stiles palpitava com imagens do pai dele sendo massacrado por outro homem, mas ele não queria acreditar nas imagens que a cabeça dele provia. Ele preferia imaginar qualquer outra coisa.

“John, cuidado!” A voz de Derek foi o que tirou Stiles de seus pensamentos, antes de um tiro soar nítido pelo ar, seguido pelo movimento de passos correndo pela rua. O coração de Stiles foi ao chão e ele teve que procurar alguma parede para se apoiar.

“Pai!” A voz de Stiles ecoou pelo ar, mas ninguém respondeu a ele. “Pai!” Ele gritou mais forte, mas só o silêncio e o vento responderam aos seus clamores.

Ao longe, Stiles só conseguia ouvir os lamúrios de uma mulher aos soluços.

E mais nada.

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Eu não consigo imaginar o que é mais difícil na vida de alguém, se é perder a família onde você nasceu ou perder aquela que você aprendeu a amar. Qualquer perda é complicada e você ver as pessoas que guarda no coração se perderem na linha do tempo é doloroso demais.

Quando eu perdi meus irmãos e meus pais, eu achei que o mundo tinha acabado. Junto com os traumas de uma guerra, eu vi o universo desabar por cima de mim, como se uma tonelada de pedras tivesse caído do céu e me apertado contra o chão.

Eu não podia me mover, não conseguia respirar, meu coração se sentia preso.

Mas as pedras tinham caído de uma forma que a minha morte não veio e eu tive que me obrigar a sofrer por anos e anos, dias e horas que não passavam, que não chegavam ao fim, que tinham que continuar me assombrando.

Quando eu vi aquele bastardo puxando uma arma de sua cintura e atirando uma bala na testa de John, eu senti aquela tonelada de pedras cair sobre mim de novo.

Foi horrível.

Assim que eu vi o olhos do meu segundo pai pararem de brilhar e escutei os passos daquele homem correndo para longe eu senti um fogo dentro de mim. Eu corri atrás dele e nem olhei pra trás. Corri como se fosse o último dia da minha vida e eu precisava fugir de um monstro enorme e escuro. Eu corri como se a vida do mundo dependesse daquilo — e quando eu cheguei nele, eu não deixei ele nem pensar em qualquer outra coisa a não ser a própria morte.

Eu nunca me senti feliz em matar alguém.

Mas se houve algum momento para aquilo, a morte daquele homem foi o que me fez assim.

Não senti felicidade, mesmo assim. Apenas me senti livre da vingança, pois eu sabia que ele não iria mais matar ninguém que eu amasse.

Minhas mãos responderam rápido e ele foi tombando pela rua quando eu me joguei nas costas dele. O homem nem teve tempo de preparar sua arma para um novo tiro, eu só agarrei na cabeça dele e bati contra o chão. Uma, duas, três vezes. E mais e mais. Bati a cabeça dele até sentir ele parar de se mover embaixo de mim, até sentir o ar e a vida escaparem dele.

E então eu continuei batendo.

Minhas mãos e meus braços estava sujos de vermelho vivo, meu corpo cansado de correr, mas eu não descansei até saber que nem o espírito do canalha iria assustar alguém.

Depois de terminar com ele, eu deixei o corpo em um dos cantos da rua, para quem quisesse achar. Ninguém ligava muito para os bairros da periferia da cidade, muito menos para os que eram cheios de imigrantes — mesmo assim, eu não me importava se alguém achasse ele.

Aquela era minha última preocupação.

Foi quando eu me vi coberto de sangue é que Stiles apareceu em minha mente. E meu coração parou de bater ao imaginar ele sozinho lá, sem poder saber o que havia acontecido. Minhas pernas seguiram o caminho de volta por conta própria, correndo ou voando, eu não saberia dizer.

Eu não conseguiria imaginar o que se passava na cabeça do garoto — que ainda era uma garoto pra mim e sempre iria ser.

Antes de chegar no lugar onde o corpo de John estava ao chão eu conseguia ouvir os gritos do pranto de Stiles e meu coração se apertou no peito, quase como se as paredes do meu tórax estivessem se esmagando umas contra as outras. Lágrimas começaram a sair do meus olhos sem eu nem perceber e meu corpo tremia sem controle.

Stiles estava no chão, abraçado ao pai e passando suas mãos pelo rosto do homem, tentando ver ele com seu modo de enxergar o mundo, por uma última vez. A mulher que John havia ajudado estava ao chão do lado de Stiles, olhar vazio. A mão dela esfregava os ombros do garoto em largos movimentos.

Eu nunca vi alguém chorar um pranto com tanta dor na minha vida. Nunca. Não vi soldados que perderam parte do corpo ou parte de suas vidas colocaram tanta angústia em seus gemidos. Nunca vi ninguém que perdeu a família gritar tanto por alguém que nunca mais teria a chance de ver na vida quanto Stiles.

E a dor na voz do garoto chegava a cortar a minha alma como facas afiadas, rasgando cada pedaço do meu ser e me deixando nu e fraco. Eu sentia a dor dele, infinitas vezes menor, mas eu sentia.

Eu corri para o lado dele e o abracei.

Eu não sabia o que fazer, não sabia como proceder, não sabia o que pensar. As palavras não queriam sair da minha boca e meus movimentos pareciam impossíveis de se controlar. Mesmo assim eu tentei.

Matar alguém era fácil. Você iria acabar com uma vida. Apenas. Não que fosse a coisa mais simples do mundo para se driblar a consciência, mas era fazível. Puxar o gatilho de uma arma, empurrar alguém de um abismo, esmagar a cabeça de alguém nas pedras de uma rua.

Fácil.

Agora, dizer para uma pessoa que ela nunca mais teria a chance de ver alguém, de abraçar alguém. Tirar esse alguém da vida de outra pessoa sem poder dar nada em troca, jogar essa dor em cima de alguém que não tinha escolha sobre as coisas que aconteceram, isso sim que era difícil.

Quase impossível.

Aquela noite foi a pior da minha vida.

Sem dúvida.

Nós ficamos por horas na rua, até o frescor das noites de verão chegar e transformar um dia em outro. Eu segurei aquele garoto contra o meu peito, esperando que o choro dele cessasse e depois fiquei contando as horas para que os tremores se fossem também. No final de tudo, eu só esperei que Stiles conseguisse respirar sem soluçar outra vez.

Foi difícil.

Poucas pessoas pararam na rua para nos ver, afinal ninguém queria se meter com um homicídio causado por problemas com prostitutas, mas algumas almas foram caridosas.

Dona Martin segurou as lágrimas ao levantar Stiles do chão enquanto eu e dois filhos dela ajuntamos o corpo de John. Olívia, a prostitua que John havia salvo, esteve ao lado de Stiles por todo o tempo, sem dizer uma palavra. Eu conseguia ver a culpa nos olhos dela, conseguia ver como ele não conseguia falar nada.

Mas ela não tinha culpa de nada, tinha?

Ela não pediu pra ninguém defender ela.

E eu não iria ser o homem a apontar dedos.

John morreu como um herói, para mim.

Mas ele morreu.

Morreu.

E nós não pudemos fazer nada.

Nada.

Assim que tiramos o corpo da rua, a Sra. Martin nos deu lençóis para enrolarmos ele e levarmos para o jardim de trás do nosso prédio, o único lugar onde era possível se enterrar alguém que não tinha identidade nesse mundo. Alguém que ninguém iria sentir falta além de nós.

A ilegalidade não iria deixar o corpo de John chegar a um cemitério, por isso o fundo de um quintal teve que servir.

Além de eu e Stiles, a Sra. Martin e seus filhos, Olívia e mais um casal de velhinhos vieram para ver o corpo de John ir ao chão, com a ajuda de uma das curandeiras mexicanas do bairro que orou para algum deus quando nós jogamos a terra por cima do homem.

Do meu pai.

Assim que tudo terminou, eu dei minha mão para Stiles, que havia parado de chorar desde que saímos da rua, e esperei que ele encontrasse a paz para seguir para onde ele quisesse — acredito que ele só parou porque as lágrimas haviam secado.

Não sei quanto tempo nós ficamos apenas ali, sentindo o cheiro da terra recém tirada do chão e do sangue que ainda grudava nas minhas roupas.

Eu tinha que levar aquele garoto para tomar um banho e comer ou dormir

Eu tinha que escolher alguma coisa para fazer da minha vida.

Eu tinha que ir trabalhar e deixar ele sozinho.

Eu…

Eu não sabia o que fazer.

Não sabia mesmo.

Era fácil dividir a atenção de Stiles quando John estava do meu lado, mas agora eu tinha ele só pra mim.

E nós não tínhamos mais o nosso pai.

Não tínhamos mais John.

Ele havia morrido tentando salvar uma mulher que nem conhecia, tentando fazer justiça com as próprias mãos.

E agora ele estava morto.

E nós não tínhamos mais nada.

Bom, nada além de Stiles com seus olhos abertos no silêncio da noite murmurando uma canção polonesa que eu ainda não tive a coragem de pedir o significado.

Pelo menos ele não estava chorando.