Oczy
13 Dor
NIGHT OF THE LONG KNIVES: Hitler executes seven, crushing revolt. The Knickerbocker Press, 1º de julho de 1934.
NOITE DAS FACAS LONGAS: Hitler executa sete, quebrando revolta.
GERMAN OCCUPATION OF FRANCE: Germany is ready for peace or war, Hitler aid warns. The Knickerbocker Press, 9 de julho de 1934.
OCUPAÇÃO ALEMÃ NA FRANÇA: Alemanha está preparada para guerra ou paz, Hitler avisa.
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O som da chuva caindo dos telhados era a única coisa a ser ouvida naquela hora da madrugada. O céu ainda não tinha nem despontado em vermelhos para anunciar o sol chegando por trás das nuvens em mais um dia de verão, mas Stiles e Derek estavam acordados, sentados no chão da sacada, apenas ouvindo as gotas caindo calmamente.
Nas últimas semanas nada tinha sido fácil pra eles; o sono nunca parecia chegar, o cansaço se abatia sobre os dois com mais força, a saudade furava um buraco no meio do peito. Tudo parecia mais complicado sem John. O dia parecia ter menos som, menos luz. As coisas não tinham gosto, o ar parecia parado. O mundo parecia de cabeça para baixo, sem sentido.
A insônia atacava Stiles, que não podia se deitar na cama pois as lembranças do pai apareciam, inundando a mente dele com milhares de imagens, memórias feitas de momentos que existiam e criações da cabeça dele. O cheiro do sangue era sentido nas narinas de Stiles e ele não sabia se aquilo era verdade ou um sonho. As coisas se confundiam entre o que era realidade e o que não era, por isso Stiles nunca se confiava a dormir, tendo medo de que o pesadelo seria pior ainda do que a realidade.
Assim que ele pensava no pai, o coração dele começava a disparar, a respiração se apressava e ele começava a ofegar. Era impossível ter um segundo de descanso pois o corpo estava sempre pronto para sair correndo, pronto para entrar em curto circuito. As memórias assaltavam ele várias vezes ao dia, a cada hora, a cada minuto, dizendo que tudo aquilo que existia na cabeça dele só existiria lá e em mais lugar nenhum.
E Stiles pensava: o que seria da vida dele?
O que seria do pobre menino, cego há muitos anos, sem o homem que guiava ele para todo o lugar? Ele tinha Derek, mas Stiles não podia obrigar ele a ser o guia de Stiles pelo resto da vida. O trabalho era diário e sempre iria acontecer, Stiles sempre precisaria de alguém do lado dele, mas ele não poderia pedir isso a alguém que não estivesse pronto pra isso, pronto para ter Stiles em sua vida a todas as horas.
E não que Derek não estivesse pronto, afinal ele ficou dez anos na vida dos Stilinski e era parte da família, mas Stiles não poderia pedir que ele parasse seus sonhos e vontades para cuidar de Stiles. E era isso mesmo que teria que ser, cuidar dele. Stiles conseguia viver sozinho por períodos de tempo, mas para o resto das coisas ele precisava de alguém. Para comprar comida ele precisava de alguém. Comprar roupas? Precisava de alguém. Saber quanto dinheiro ele tinha na mão? Precisava de alguém. Conseguir achar o caminho de casa? Precisava de alguém.
E será que Derek estaria pronto para ser sugado pra dentro desse mundo? Será que haveria alguém disposto a deixar parte de sua vida para trás e fazer de Stiles uma das maiores partes do seu dia?
O homem não sabia essa resposta. Ele só sabia que não queria obrigar ninguém a nada. Já era ruim o bastante ele ter a sua própria vida como cruz, Stiles não poderia carregar Derek junto. Ele já tinha levado o pai com essa cruz, já tinha feito o homem desistir de tantas coisas só para cuidar dele.
Stiles teve que descobrir um mundo novo quando ficou cego e John estava lá em todas as etapas do caminho, segurando a mão do garoto e dizendo a ele todas as palavras de confiança que ele precisava. E hoje, na maior parte do tempo, Stiles era um homem formado, mas em alguns intantes ele ainda precisava segurar na mão de alguém para não desabar.
Mas que mão ele iria segurar agora que John não poderia mais oferecer a dele?
Os tremores começavam no corpo de Stiles só em pensar que ele amanheceria mais um dia e não ouviria mais a voz do pai. Não sentiria o cheiro do homem ao redor dele. Não poderia esticar o braço e se assegurar de que ele estava ali.
Porque ele não estaria mais ali.
Não estaria mais em nenhum lugar a não ser a mente de Stiles.
Na mente do garoto John iria ser um homem jovem para sempre. Essa era a imagem que ele tinha do pai antes de ficar cego e era aquela que iria ficar grafada na cabeça dele. Stiles sabia que o pai tinha rugas no rosto, tinha cabelos brancos, ele pode sentir tudo aquilo quando passou suas mãos pelo rosto do pai uma última vez.
Ele sabia que o homem iria envelhecer assim como Stiles iria um dia, mas nos pensamentos ele sempre seria um homem novo, sorridente. Um herói para Stiles. O homem que ensinou ele a caminhar de novo, que ensinou Stiles a viver de novo e esteve sempre pronto a dar uma mão e um pedaço do coração.
Por isso que Stiles sentiu que um pedaço dele morreu quando o pai se foi, porque aquilo era verdade. John tinha dado um pedaço de si para que Stiles encontrasse uma forma de continuar a viver. Quando John se foi, aquela parte de Stiles se foi também.
“Você acha que isso um dia vai passar?” Stiles sussurrou. O som mal podia ser escutado por cima do barulho da chuva, mas Derek estava sentado bem perto dele. Perto o bastante para conseguir ouvir.
“A chuva?” Derek perguntou, calmamente. Stiles bufou por um instante, não sabendo se ele reagia àquilo como uma piada ou se ficava bravo por ter que repetir as palavras.
“Não. Meu pai.” O garoto falou.
O silêncio cresceu por alguns instantes, tempo para se ouvir só o barulho da água. As palavras foram pesando no meio dos dois, fazendo com que Stiles nem soubesse o que falar ou se haveria alguma outra coisa para dizer. Com sorte, Derek percebeu aquilo.
“Eu te dei a resposta. A chuva. Como a chuva.” Derek falou calmamente, outra vez.
“Como assim?” Stiles perguntou, intrigado por um instante. A resposta parecia não fazer muito sentido, mas naquela hora a maior parte das coisas não fazia.
Derek respirou fundo antes de soltar as palavras para tentar responder a Stiles.
“As coisas da nossa vida são como a chuva. Qualquer coisa. Nós precisamos de todas elas, boas ou ruins. Elas fazem falta se não aparecem na hora certa e são demais quando transbordam pelos cantos. Tudo precisa ser na medida certa para que as coisas deem certo. Assim como a chuva precisa ser na medida certa para que tudo cresça direito, que as coisas se recuperem ou aproveitem a água que vem do céu.” Derek terminou de falar e o barulho da chuva foi a única coisa que se ouviu por alguns instantes, antes de Stiles falar de novo.
“Mas e como a gente esquece das coisas? Como a gente faz pra chuva se ir também?”A voz de Stiles era quase impossível de se ouvir com a guinada no volume da chuva. Derek colocou uma mão na perna de Stiles e apertou. O sinal era apenas como uma forma de conforto.
“Assim como a chuva, as coisas vêm e passam. Algumas delas destroem o caminho por onde vieram, correm soltas e levam muito do que há pelo chão. Outras são apenas como uma brisa leve no fim da tarde. A gente nunca sabe a hora que elas vão vir e nem a força que terão. A gente só sabe que elas vão passar. Assim como essa chuva de agora também vai passar.” Derek terminou de falar e apertou a perna de Stiles de novo.
O garoto suspirou uma vez e se encostou no corpo do homem, deitando sua cabeça no ombro de Derek. Um curto soluço escapou do peito de Stiles mas ele conseguiu respirar fundo e segurar o choro.
“Eu espero que passe mesmo.” Ele disse, voz embargada. Derek passou um braço pelas costas de Stiles e abraçou ele, encostando seus lábios na cabeça dele, beijando os cabelos com carinho.
“Vai passar sim.”
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Eu não sabia muito o que esperar de tudo que estava acontecendo. Ninguém tinha muito o que esperar. O fim de John, daquela forma assim violenta, pegou todos nós de surpresa. O momento em que tudo aconteceu mudou as nossas existências de uma forma profunda e que deixaria efeitos colaterais por muito tempo.
Mas eu não achei que seria assim.
Jurei que estávamos no caminho certo.
O mundo parecia ter retomado sua forma após o final do Olhos Negros em nossas vidas. Mesmo que ele estivesse de pé e nós fôssemos passar um tempo por lá vez ou outra, o bar era uma coisa do passado e nós acabamos por entender aquilo. Ele era uma das memórias boas, uma das coisas que nos reuniu, que nos fez família.
A nossa vida se encaminhava para um lugar bom. Eu e John trabalhávamos um monte e dava até pra guardar um dinheiro, coisa que fez John pensar em viagens, pela primeira vez na vida. Quem sabe passear em algum lugar que ele nunca tivesse ido, quem sabe visitar a família na Polônia. Sair da mesma vida que eles tinham em Chicago.
Desbravar o mundo.
Stiles tinha aprendido a ler em braille, tinha aprendido a tocar violoncelo e trazia a música para alegrar a nossa vida. O que nós não tínhamos mais no Olhos Negros nós tínhamos em casa. Os vizinhos vinham ouvir Stiles tocando e nós iríamos repartir uma garrafa de rum entre todos.
As risadas ainda ecoam na minha mente.
Mas John morreu. Ele desapareceu das nossas vidas e de um dia para o outro tudo mudou. Tudo que eu achava que já era certo e importante se fez insípido. As coisas que eram prioridades da minha vida viraram castelos de areia lavados pela força da água e tudo que eu achei que fosse meu caminho virou uma parede enorme bloqueando a minha visão.
Nada mais fazia sentido.
Desde o dia em que sujei minhas mãos com sangue eu não voltei mais ao trabalho. Minha mente ficava presa nas imagens do homem que eu matei, mas meu corpo ficava preso ao homem que havia perdido tudo, e eu não tinha forças para sair do lado dele. Eu não podia.
O garoto, como eu ainda o chamava. Sempre o chamei de garoto em meus pensamentos e não sei se algum dia eu vou conseguir chamar Stiles de outra coisa.
Eu matei um homem por aquele garoto. Isso seria uma coisa importante na minha vida, minha cabeça deveria estar se culpando, eu provavelmente deveria ter pesadelos horríveis e lembrar da guerra como se fosse uma coisa que havia acontecido ontem. Mas nada disso se realizou.
Eu matei um homem e nada mudou.
No meu coração eu só ouvia o choro de Stiles e os gritos que saíram da boca dele, a dor que cada um deles transportava.
Eu não sei se aquele foi o ponto em que as coisas mudaram pra mim, se foi o momento em que o eixo do meu mundo se virou e meus olhos só conseguiam ver o Stiles. Nada mais importava pra mim quando eu olhei pro rosto dele e vi que ele não poderia mais enxergar o pai dele com suas mãos. Que ele não poderia escutar as palavras de John ou aproveitar de sua companhia.
Eu vi naquele garoto todas as dores do mundo.
E eu vi a dor de uma guerra nos olhos de uma pessoa que sequer pode enxergar.
E se isso não é um sinal para que a sua vida mude, eu não sei o que é.
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“Você não se importa que eu fique aqui?” Stiles perguntou.
Os dois homens estavam sentados à mesa de jantar do apartamento de Derek, lugar onde Stiles havia passado as últimas semanas. Depois da morte de John, nenhum deles queria voltar ao apartamento e ver ele vazio. Nenhum dos dois estava preparado.
Nenhum dos dois sabia se estaria preparado algum dia.
Tudo que estava lá dentro lembrava eles de John, os móveis, os livros, o piano, as bebidas, tudo. Cada um dos objetos fazia parte da vida de Derek e Stiles, mas fazia parte do que foi a vida de John. Assim como o próprio homem fazia parte da vida dos dois. Parte vital.
Derek respirou fundo antes de responder.
“Stiles, eu não sei se conseguiria ter você em outro lugar senão aqui.” Derek falou, esticando a mão por sobre a mesa e apertando a de Stiles, que segurava uma colher. A sopa não tinha saído do prato ainda, mas Stiles tinha a intenção de comer, pelo menos. A intenção já era o bastante.
Stiles sorriu para Derek. Um sorriso apertado, mas um sorriso, de qualquer jeito.
“Obrigado por tudo.” O garoto falou.
“O John nos fez família.” Derek disse. Stiles apenas assentiu, respirando fundo. “Ele ia querer que a gente passasse o nosso tempo juntos, não importa o que fosse acontecer.” O homem completou.
Stiles exalou o ar de dentro de seus pulmões com força antes de respirar fundo de novo, tentando segurar as lágrimas.
“Eu só não quero que você pare sua vida por causa de mim.” O garoto disse, levantando os ombros.
“Eu não estou parando nada por sua causa, Stiles.” Derek falou, decidido. “Eu parei de trabalhar por minha causa. Eu parei porque eu preciso ficar com você.” A voz do homem veio quase de forma rude, mas não o bastante para amedrontar Stiles.
Um silêncio se fez por alguns instantes, antes de Derek continuar falando.
“Eu larguei algumas coisas da minha vida porque eu preciso de você assim como você precisa de mim, Stiles. Eu sei que a perda foi mais difícil pra você, mas eu perdi o John como um pai também. Eu perdi ele como um amigo. Eu deixei muitas das coisas ruins da minha vida para trás porque ele me ensinou o jeito de ser feliz. E agora ele se foi e eu não sei se eu posso achar um jeito de ser feliz. Porque a única pessoa que me ensinou como ser se foi.” Nas últimas palavras, Derek bateu seu punho na mesa. “Eu não me sinto no direito de chorar por ele assim como você pode, mas eu sinto a falta dele. Eu amei o John como eu amei meu pai. E ver ele se indo levou um pedaço do meu coração. E é por isso que eu não vou deixar você, Stiles. Não importa o que aconteça. Seu pai dividiu o coração dele entre nós dois e se eu perder mais um pedaço dele eu não sei se eu vou sobreviver também. Por isso me perdoe se eu sou egoísta, mas eu não vou perder mais uma parte da única coisa que me faz feliz.” Quando Derek terminou de falar o pranto veio de uma forma violenta.
O homem mordeu seus lábios para não gritar.
Stiles, desajeitadamente, passou por volta da mesa para ir de encontro a Derek. O garoto procurou o corpo do homem com seus braços e assim que o encontrou, se grudou nele, abraçando ele forte.
Não houveram mais palavras para serem ditas naquele momento.
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