Oczy

14 As várias despedidas


ADOLPH HITLER BECOMES DICTATOR: Germany facing uncertain future of super-hitlerism. Newport Daily News, 3 de agosto de 1934

ADOLPH HITLER VIRA DITADOR: Alemanha enfrenta futuro incerto do super-hitlerismo.

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Não posso dizer que entramos em uma rotina. Mas de alguma forma as nossas vidas, a minha e a de Stiles, conseguiram se encaixar em alguns trilhos. Conseguimos descobrir um jeito de fazer as coisas começar a funcionar, mesmo que no meio de um caminho complicado para se fazer.

Não foi nada fácil.

Assim como nenhuma das coisas que havíamos feito tinha sido fácil.

Mas elas começaram a funcionar.

Aos poucos nós decidimos a nos venturar pelo apartamento antigo de Stiles e seu pai. O garoto não se sentia nenhum pouco confortável em voltar para lá, mas ele não tinha muita escolha. Nós precisávamos ver o que iria ser das nossas vidas dali pra frente e aquilo significava olhar para as coisas que faziam parte do passado. Significava escolher o que iria para o futuro conosco e o que ficaria apenas como uma memória no fundo de nossas mentes.

Infelizmente, John só faria parte desse passado, mesmo que ocupasse um lugar em nossas lembranças para sempre.

Dia após dia nós fomos olhando os móveis e utensílios do apartamento, separando as coisas velhas do que ainda poderia ser usado. Decidimos que o imóvel voltaria para o dono original e eu e ele iríamos morar junto em meu apartamento — que tinha sido a casa de Stiles desde o acontecido.

Nós já vivíamos daquele jeito mesmo, nós três juntos, antes de tudo acontecer, então não tinha porque a gente se separar agora.

Stiles tentou me dissuadir, no entanto. Ele não queria impor nada sobre a minha vida e não queria que eu desistisse do meu emprego e das minhas escolhas para ir junto com ele, para dividir a minha vida com ele. Ele disse que não queria ser um fardo que tivesse que ser carregado por mim pelo resto da vida, agora que o pai dele não podia mais o fazer.

Eu só disse para o garoto que eu faria minha próprias escolhas e ele não tinha influência alguma sobre elas. Se uma das minhas escolhas era querer Stiles em minha vida, então ele ficaria na minha vida. Não haveria qualquer pessoa que me faria desistir disso.

O garoto era a única família que me restava. Eu não tinha mais ninguém, assim como ele não tinha mais ninguém. Não fazia sentido algum cada um seguir o seu caminho se nós dois tínhamos uma vida toda juntos. Eu disse a ele que nós iríamos ser uma família, quer ele quisesse ou não. Eu disse que não iria abandonar a última pessoa importante da minha vida e o Stiles era essa pessoa. Ele era a pessoa que ainda me fazia ter alguma felicidade nesse mundo.

Eu não podia deixar ele pra trás.

Depois que eu falei aquilo para ele, o garoto ficou em silêncio por alguns instantes, pensando nas palavras que haviam saído da minha boca. Quando Stiles terminou de virar as ideias na cabeça dele ele sorriu e veio em minha direção para me abraçar, apertando seu braços com força contra minhas costas.

E daquele jeito nós terminamos o assunto e continuamos a separar as coisas do apartamento deles.

As roupas de John foram todas para o lixo. Stiles não conseguia aguentar tocar nelas e sentir o cheiro do pai. Ele não conseguia sequer ficar muito tempo no quarto do homem, pois as lembranças vinham como uma onda gigante e levavam ele junto mar adentro. O garoto sentia demais essa falta de John na vida dele.

Não que fosse uma coisa anormal, já que Stiles teve sua vida toda balançada pela presença do pai. Era de se esperar que o eixo do universo dele perdesse um pouco do equilíbrio quando o homem não estivesse mais por aqui. E de fato, toda a vida de Stiles virou de cabeça para baixo quando John morreu.

Eu confesso que teve noites que eu me senti preocupado com ele, imaginando que talvez o garoto nunca fosse superar isso, ouvindo os gemidos dos pesadelos de Stiles, tremendo meu corpo todo quando ele falava o nome do pai ou acordava aos gritos. Foi difícil ver ele não saber nem se estava vivo ou morto, duvidar da própria realidade, não conseguir acreditar que a vida havia feito aquilo com ele.

Foi tudo muito difícil para ele.

Assim como para mim foi difícil também. Quando Stiles começou a ter seus pesadelos, eu comecei com os meus também. Ou melhor, os sonhos de guerra que haviam quase sumido das minhas noites, voltaram com força, mas dessa vez haviam mais imagens neles.

Mais coisas que eu não queria ver.

As lembranças da guerra apareciam constantemente, mesmo quase vinte anos após seu fim. Bombas e explosões, choros de desespero e sangue eram o lugar-comum de meus pesadelos. Junto disso, aparecia o rosto do homem que eu matei, do homem que matou John, o rosto desfigurado de um assassino. Junto dele aparecia Stiles também, chorando e sujo de sangue.

E aparecia a mim também, como o assassino que eu era.

Vez ou outra esses sonhos perdiam a noção das coisas, pois em alguns deles eu via John se matando com uma arma na mão, sacudindo a cabeça e jogando a responsabilidade de Stiles em minhas costas. Em outros eu via Stiles atirando no próprio pai, chorando por uma coisa que ele nem sabia como tinha feito, segurando uma arma como se ele não fizesse ideia de como ela tinha ido para na mão dele.

E eu via também eu matando a John e Stiles, minhas mãos ensanguentadas após eu ter batido a cabeça deles nas pedras da rua.

Não preciso dizer o quão mal eu me senti ao acordar desses sonhos.

Mas por mais que as noites fossem horríveis, os sonhos nos assombrassem das formas mais diferentes e a presença de John ainda vagando sobre nós como uma figura muito grande em nossas vidas para a gente conseguir ir pra frente, nós fomos.

Um passo de cada vez, repensando e reconstruindo nossos sonhos e ideias, fazendo as mesmas coisas ou tentando fazer o mundo voltar a seu normal, nós fomos.

O mundo à nossa volta parecia não parar para ouvir os nossos chamados. A crise havia se tornado uma coisa do passado com as ideias do governo para salvar a economia e o país. O povo nas ruas voltava a respirar os ares de alegria e sonhar com um novo amanhã, ao mesmo tempo em que rumores de uma nova guerra surgiam num horizonte distante.

Eu não sabia se aquilo tudo iria mudar a minha vida ou não. Eu não tinha tempo para pensar no planeta que girava em volta de mim, já que o meu próprio mundo estava com problemas o suficiente para eu resolver.

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“Já faz tempo demais que a gente não faz isso.” Derek falou. A voz do homem viajou pelo ar antes de entrar no ouvidos de Stiles, fazendo ele relaxar. O dia estava bonito para se andar pela rua.

“Eu sei. Eu senti falta disso também. É bom voltar.” O garoto falou calmamente. Stiles segurava com carinho no ombro de Derek, enquanto o homem ia contando seus passos lentamente e levando os dois pela rua sem destino algum, apenas aproveitando o dia.

“O sol faz bem pra gente.” Derek falou, colocando uma das mãos por sobre a de Stiles, que estava no ombro dele, e apertando.

“Parece que sim.” Stiles falou, sorrindo. O sentimento de estar com Derek ali, caminhando sem rumo pelas ruas de Chicago em uma dia iluminado pelo sol era um sentimento bom. Fazia ele respirar melhor, sentir seu peito mais leve e o coração bater sem tanta dificuldade dentro dele.

Os dois continuaram caminhando por mais alguns metros sem trocar palavras. O silêncio não era uma coisa desconfortável pra eles, já que ambos entendiam bastante um do outro para se sentirem bem sem precisar das palavras. Às vezes o conforto de um carinho sem mais explicações era o que se precisava para desligar a cabeça do que de ruim acontecia na vida dos dois homens.

Essa não era a primeira vez que eles saíam para caminhar pela cidade. Antes na mesma semana, Stiles e Derek tinham ido até o Olhos Negros para passar algumas horas. Claro que lágrimas estiveram bastante envolvidas naquele reencontro deles com a casa antiga dos Stilinski. O lugar estava pronto para cair aos pedaços, já que ninguém mais frequentava ele, mas ainda assim funcionava como um porto seguro para os dois.

Stiles e Derek dividiram uma garrafa de rum e passaram horas contando histórias sobre coisas que aconteceram no Olhos Negros durante os anos que eles ficaram juntos por lá. Sorrisos e lembranças ruins se entrelaçaram nessas histórias e Stiles se sentiu mais leve quando saiu de lá. Ele sentiu como se aquela tarde havia sido mais uma das despedidas que ele fez ao lugar.

A primeira foi muitos anos atrás quando ele fechou a porta do bar na primeira semana da cise de 29, com Derek levando John para casa em suas costas. Uma segunda vez foi quando ele buscaram o piano que estava lá, deixando o bar mais vazio de um de seus companheiros de sempre. E agora numa terceira despedida, Derek e Stiles, os últimos sobreviventes, foram lá para dividir uma garrafa de rum e lembrar de tudo que houvera de bom na vida do bar.

Se Stiles não estivesse mais no Olhos Negros a partir daquele dia ele não se sentiria tão triste, pois tudo que ele quis dizer para o lugar já havia saído da boca dele.

“Já passou pela sua cabeça que a gente poderia tentar se mudar daqui?” Stiles perguntou, sentindo a ideia vir de algum lugar da mente que ele nunca havia visitado antes. O desejo de sair de Chicago nunca foi uma coisa que Stiles teve, mas no instante em que as palavras saíram da boca dele, ele sentiu que talvez o caminho fosse aquele.

Como se houvesse uma luz apontando para aquilo.

“Já passou sim pela minha cabeça.” Derek respondeu. “E pela sua?”

“Nunca.” Stiles falou com sinceridade. “Pelo menos nunca até agora.” Ele esclareceu.

“E por que agora?” Derek perguntou.

Stiles respirou fundo, pensando em uma resposta. Ele exalou o ar antes de falar.

“Não sei?” Stiles falou indeciso. “Não tem uma razão exata pra isso. Eu só estava aqui pensando sobre o Olhos Negros e como eu sinto que eu me despedi desse lugar várias vezes, mas nunca me despedi de verdade, quando a gente sabe que não vai ter mais aquela chance de voltar. Aí surgiu na minha cabeça essa ideia. E se um dia eu me despedisse do bar, daqui, dessa cidade e da vida que eu tive, de verdade? Sair e nunca mais voltar?”

Derek esperou alguns segundos para responder a Stiles, tempo que deixou o garoto pensando sobre as próprias perguntas.

“Você tem certeza que isso é uma coisa que você quer?” Derek perguntou. “Não tem problema a gente continuar aqui, como não tem problema a gente sair. Eu sei que Chicago importa para você e pra mim. Importa pra nossa família. Mas eu sei também que não existe mais nada aqui pra nós. Nada além de um bar caindo aos pedaços e um monte de tralhas que vão ter que sair da nossa vida.”

Stiles apenas assentiu para si mesmo, esperando que Derek falasse mais. Os passos dos dois foram as únicas coisas a se ouvir pelos segundos em que Derek se preparava para dizer alguma coisa.

“Eu só não sei como você se sente em deixar isso tudo pra trás. Se isso iria te fazer bem ou se é só uma maneira de correr de tudo que aconteceu aqui.” As palavras do homem foram simples, mas bateram fundo na mente do garoto.

Stiles bufou, não sabendo qual seria a resposta certa para a indagação.

“E se for uma maneira de correr disso aqui?” Ele falou. “E se eu quero deixar isso pra trás, só pra não precisar mais voltar? Eu não sei, Derek. Essa ideia só apareceu na minha cabeça tem três minutos.” Ele respirou fundo antes de completar. “Incrivelmente ela faz muito mais sentido do que eu esperava que fizesse…”

Derek parou de caminhar naquele instante, pegando na mão de Stiles outra vez e se virando para ele. Os dois homens estavam de frente um para o outro e Stiles conseguia sentir a respiração de Derek passando pelo seu rosto.

“Não tem problema em fugir das coisas, Stiles.” A voz de Derek soava mais próxima do garoto do que ele imaginava, mas a sensação de ter Derek por perto era boa. “Não tem problema em querer deixar o passado no passado e tentar fazer coisas diferentes. Se você acha que mudar de cidade, mudar de vida, tentar em outro lugar é o que você precisa fazer, eu faço junto, eu te ajudo. A gente vai junto e muda de cidade.” Derek falou, apertando as mãos do garoto.

Stiles franziu o cenho ao mesmo tempo em que tentava entrelaçar seu dedos com os de Derek.

“Mas e o que você quer? Só porque eu quero fugir você vai vir junto? E as coisas que você quer na vida, Derek?” O garoto pediu, franzindo a testa também. Era como se ele estivesse indignado com a falta de ação do homem, como se ele não pudesse decidir por si, mas ao mesmo tempo Stiles tinha medo de querer mudar de vida e perder Derek pelo meio do caminho.

Stiles sentiu a mão de Derek soltar da dele e chegar perto da pele do rosto de Stiles. O quase-toque deixou arrepios correndo pelo corpo do garoto e num segundo depois ele encostou seu rosto na mão de Derek, procurando pelo toque.

Ele suspirou.

“Stiles, você já parou pra pensar que talvez eu queira seguir você? Talvez as minhas escolhas sejam sempre relacionadas a você porque as coisas que me fazem feliz tem sempre você no meio?” Enquanto o homem falava ele ia acariciando a bochecha de Stiles com seu polegar. “A minha vida, aquela que eu tinha antes de conhecer você, ficou pra trás. Tudo ficou no passado. No meu futuro eu só enxergo você e não consigo imaginar nada diferente…”

“Hey, maricas!” A voz de um homem ao longe cortou o momento entre Stiles e Derek, fazendo o garoto sentir a tensão se movimentar no ar. Lembranças de coisas que já haviam acontecido assaltaram a mente dele.

“Derek?” Stiles sussurrou o nome do homem. Uma súplica.

Ao longe, vozes de mais homens se ouviram.

“Ah, Chicago tá ficando cheia desses viadinhos.”

“A gente tem que é matar todos eles.”

“Só servem pra chupar pinto de macho e mais nada.”

“Um raça de gente que tem que morrer.”

As palavras ia mudando mas a intenção era a mesma. Três vozes diferentes vinham caminhando na direção deles ao mesmo tempo em que Derek se posicionou na frente de Stiles, tentando proteger o garoto enquanto ele se agarrava aos braços de Derek. Ele sabia que os dois não iam conseguir fugir dos homens correndo, nem se Derek carregasse Stiles no colo.

O garoto não queria imaginar o que iria acontecer.

Quando os homens chegaram perto deles, com os xingamentos soando como gritos de guerra nos ouvidos, Stiles sentiu Derek se afastar dele e no segundo seguinte ele conseguia ouvir uma briga entre os homens.

Era impossível imaginar o que estava acontecendo. Stiles não conseguia perceber quem estava ganhando a briga, quem estava sofrendo mais. Os olhos dele não forneciam aquela informação e a sensação de estar ali sem poder fazer nada era horrível, pois ele só podia se encostar ao muro, esperar que tudo passasse. Tudo era como o momento em que o pai dele tinha morrendo de novo, pois ele se sentia sozinho ali, sem ninguém para ajudar ele.

Lágrimas furtivas saíam dos olhos de Stiles, mas ele tentou ficar em silêncio para não chamar a atenção dos outros homens. Ele colocou as mãos sobre os ouvidos, para não ouvir o som de socos e pontapés e grunhidos. Ele não queria ouvir nada, só queria que tudo passasse.

Ele apertou as mãos contra os ouvidos com toda a força que tinha.

Stiles queria poder não ouvir mais nada, pois se a vida já tinha lhe tirado a visão, ouvir as coisas ruins que estavam acontecendo era ruim também.

Ele só não queria perder Derek também.