Oczy
15 Motivos para viver
Stiles apertava suas mãos contra os ouvidos, como se aquilo fosse fazer o mundo parar ao seu redor.
A força que ele usava para tentar estancar a entrada de qualquer som na cabeça dele, de tentar impedir que ele ouvisse o que se passava na sua frente, fazia com que ele ficasse tão tenso que todo o corpo de Stiles estava estirado e as veias saltando pela pele. Ele tremia como uma folha ao vento mas tentava com toda a força que tinha não sair de sua bolha de proteção.
Ele não queria ouvir Derek morrer também. Não podia aceitar aquilo, não queria ter aqueles sons na cabeça dele, assustando ele para sempre. Já era ruim demais ele ter testemunhado de camarote o que havia acontecido com o pai dele, semanas antes, agora ele teria que ouvir o único homem que restava na vida dele se ir também, uma coisa que ele achou que nunca iria acontecer assim logo ou desse jeito.
Saber que, enquanto ele tentava se isolar do mundo, Derek estava esmurrando o mundo em que Stiles vivia, brigando com pessoas prejudicadas por seus próprios preconceitos e que viam o errado em quase tudo, fazia o coração dele bater forte no peito ao mesmo tempo em que ele se sentia um inválido, já que nada do que ele fizesse iria ajudar o homem.
Ele poderia rezar, mas que deus iria ajudar ele? Até hoje a vida de Stiles tinha sido desgraça depois de desgraça, uma história de perdas e de guerras dentro da consciência e dos pensamentos dele, algo que nunca parecia se ajeitar nos trilhos — e quando parecia que iria se ajeitar, uma maré de azar viria com tudo por cima.
Imagens da vida do garoto sem mais ninguém ao seu lado apareciam na mente dele. Como Stiles iria sobreviver sem ter alguém do lado dele? Ele mal sabia como chegar em casa dos lugares mais próximos que ele costumava ir. Ele não fazia nem ideia onde ele estava naquele momento então era possível que ele sequer tivesse a chance de ir pra casa, ficando perdido na sarjeta de um beco qualquer.
E o que seria da vida dele? O que Stiles iria fazer nas ruas de Chicago sem ter mais para onde ir, sem ter o que comer e nem do que viver? Ele não fazia ideia do que faria da vida dele se não houvesse mais nenhuma pessoa para ele segurar a mão, uma pessoa que pudesse guiar ele pelos lugares que Stiles não saberia ir.
Alguém que ainda amasse ele.
E se Derek morresse tudo iria acabar. Tudo que um dia foi prometido para Stiles, uma vida melhor, uma chance de começar em um novo lugar, de ser feliz ao lado de uma pessoa. De fazer coisas simples como ler um livro ou tocar mais músicas. Tudo iria terminar.
O mundo de Stiles iria acabar sem Derek do lado dele.
O toque de uma mão no rosto de Stiles fez um choque de adrenalina correr pelo corpo todo dele e o garoto tremeu ao mesmo tempo em que tentou se afastar da mão que o tocava, empurrando o estranho com seus braços.
“Stiles, sou eu.” A voz rouca de Derek soou como um sussurro e Stiles soltou o ar que estava dentro do peito dele por um segundo antes de se jogar nos braços do homem à frente dele, apertando ele com força.
O homem grunhiu de dor, mas Stiles não soltou ele.
“Derek…” A voz do garoto saiu embargada, pronta para se abrir em um choro. “Eu achei que…” Ele começou a falar mas parou. Era como se as palavras não quisessem sair da boca dele e Stiles também não quisesse dizer elas. Ele não queria fazer aqueles pensamentos dele se tornarem uma realidade literal, pelo menos.
Derek suspirou e abraçou Stiles também, mas o homem não o apertou com muita força como de costume. Stiles demorou alguns segundos para perceber aquilo, mas assim que ele notou a cautela de Derek nos toques, Stiles sentiu também o cheiro de sangue e se lembrou de tudo que havia acontecido.
“Você tá muito machucado?” Perguntou Stiles se soltando do homem.
Derek limpou sua garganta antes de responder.
“Um pouco. Eles eram três e eu só um.” O homem disse calmamente como se fosse uma coisa simples ter saído de uma briga com mais três homens.
“E o que aconteceu com eles?” Stiles peguntou, dando um pouco mais de distância para Derek, mas segurando na mão dele.
“Dois deles saíram bem machucados. O terceiro ajudou eles a irem embora. Eu espero que eles não se metam mais com ninguém por aqui.” A voz de Derek era fria quando ele disse aquelas palavras e Stiles sentiu em seu próprio peito a ameaça por trás delas.
Um silêncio se propagou por alguns instantes, enquanto os dois homens tentavam respirar um pouco de ar, sentindo o vento a bater no rosto deles. Stiles tremeu por um instante, ainda tentando ajustar as emoções.
“A gente precisa ir pra casa pra limpar você. Eu sinto o cheiro do sangue daqui.” Stiles falou ao apertar a mão de Derek.
O homem apenas concordou com um som de garganta e pegou com mais força na mão de Stiles para guiar ele pra casa, sem dizer nada.
Eles andaram de mãos dadas até o prédio deles, e não com Stiles com sua mão no ombro do homem como era o costume na hora de eles saírem na rua. Stiles até quis soltar sua mão, mas Derek não deixou, agarrando ela e entrelaçando os dedos, fazendo com que Stiles entendesse a mensagem de que ele queria ficar de mãos dadas.
O perigo de eles serem vistos e alguém ter a mesma reação que aqueles homens tiveram fazia com que Stiles se sentisse assustado, acuado. Ao mesmo tempo, no entanto, a força com que Derek segurava na mão de Stiles, como se ele quisesse proteger ele do mundo, como se aquele simples gesto afirmasse que eles estavam juntos e nada mais importava, fazia com que uma coisa surgisse no peito dele, um sentimento diferente.
Alguma coisa que ele nunca havia sentido.
Depois que eles caminharam e os minutos de silêncio tinham se esticado até eles chegarem em casa, Stiles foi o primeiro a entrar no apartamento, dizendo rapidamente para Derek se sentar no sofá que ele iria buscar as coisas para limpar os machucados do homem.
Stiles nem prestou atenção para qualquer resposta que Derek tivesse lhe dado, torcendo para que ele esperasse enquanto Stiles iria buscar a pequena caixa com medicamentos
E conseguisse um minuto para tomar um gole de rum.
Ele percebeu que tremia tanto durante o caminho para casa, que Stiles achava que se não colocasse algo no corpo dele para criar coragem, ele certamente iria acabar desmaiando ao chão. O gole de álcool serviu para acordar ele, serviu para deixar ele mais alerta.
Não ajudou muito nos tremores, no entanto.
Assim que Stiles colocou seus pés na sala de volta, ele conseguia ouvir a respiração cansada de Derek no sofá.
“Em que lugar você está?” Pediu o garoto.
“No canto, perto da porta.” Derek disse e Stiles prontamente caminhou até ele sem dúvida.
Assim que ele chegou na frente de Derek, seus pés batendo nos pés do homem, Stiles se ajoelhou ao chão, colocando a pequena caixa ao lado dele. Stiles checou com suas mãos o que havia dentro dela, encontrando alguns pequenos pedaços de pano e alguns vidros. Contudo, ele não poderia saber o que era para limpar ferimentos.
“Qual deles eu posso usar em você?” Stiles perguntou, levantando os dois vidros que havia encontrado.
“O da sua mão direita.” Derek respondeu devagar. “Álcool.”
Stiles apenas assentiu, colocando o outro vidro de volta na caixa. Ele respirou fundo, abrindo a tampa e molhando o pano com o líquido, sentindo o cheiro forte se espalhando pelo ar.
“Eu vou precisar que você me diga onde eu tenho que limpar.” Stiles falou.
“Eu poderia fazer isso pra mim mesmo.” Derek disse.
“Mas eu vou fazer. Eu quero.” Stiles retrucou sem acidez. “Se você pode me defender, eu posso, pelo menos, ajudar você.”
Derek não disse mais nada depois, deixando Stiles se acalmar e decidir por onde começar. O garoto pegou numa das mãos de Derek e começou a apalpar a pele com calma, subindo pelo braço dele e tentando sentir se havia algum corte que ele precisaria limpar. Quando ele não achou nada Stiles seguiu para o outro braço, repetindo o processo. Ele achou um pequeno corte perto do cotovelo do homem, passando o pano com cuidado pela pele. A ação não fez Derek protestar nem nada, o homem apenas seguiu em silêncio.
“Tem algum corte no seu peito?” Stiles pediu e Derek apenas respondeu com um som negativo, sem falar palavra alguma.
Stiles colocou o pano no alto de seu ombro, preparando para se movimentar. Ele se levantou para sentar no sofá ao lado de Derek, colocando uma das mãos no ombro do homem.
“Eu preciso que você vire pra mim, pois eu posso imaginar que seu rosto deva estar todo machucado.” Stiles falou, esperando por Derek se mover.
O homem não disse nada outra vez, mas Stiles sentiu ele começar a ajeitar seu corpo no sofá, antes de se soltar do encosto para se virar de frente para Stiles. Derek pegou as mãos do garoto e, com calma, colocou elas no rosto dele.
Derek grunhiu de dor quando a pele de Stiles encostou na dele, mas não recusou o contato.
“Eu vou limpar tudo, certo?” Stiles perguntou, à voz pequena.
Ele não esperou por uma resposta de Derek, pegando o pano que estava no ombro dele para continuar a limpeza. Percebendo que o líquido já havia secado, Stiles se esticou para alcançar o vidro e adicionar mais álcool ao tecido, procedendo então para o rosto de Derek.
Ele teve bastante calma para ir reconhecendo os lugares onde o homem tinha seus machucados, ao mesmo tempo em que tentava procurar em suas memórias a sensação das cicatrizes de Derek. Não que Stiles nunca tivesse sentido elas, há muito tempo atrás, quando eles estavam se conhecendo, Stiles falou que a única forma de ele ver o rosto de alguém seria colocando suas mãos sobre a pessoa, e ele fez aquilo com Derek.
Depois daquele dia, no entanto, ele nunca mais tocou no rosto do homem, tendo se esquecido de como as feições dele eram. Ao mesmo tempo em que ele tentava se lembrar das cicatrizes que cortavam a pele do homem, Stiles imaginava como Derek tinha seu rosto desenhado, como seria a face do homem se Stiles pudesse enxergar.
O ato de limpar o rosto de Derek demorou um pouco, já que Stiles tomou seu tempo para conhecer todos os lugares machucados dele antes de usar o pano para tirar o sangue da pele do homem. Quando ele terminou, Derek parecia estar dormindo.
“Derek?” Stiles chamou pelo nome dele.
“Sim?” O homem sussurrou.
“Eu acho que você precisa ir pra cama.” Stiles falou e Derek concordou com ele.
“Eu só quero ver se tem alguma coisa pra dor por aqui.” Derek disse, assim que se curvou para frente, colocando a mão dele sobre o ombro de Stiles e apertando. “Obrigado por me ajudar.”
Stiles respirou fundo, ouvindo o som que a outra mão de Dererk fazia ao procurar pela caixa dos remédios. Ele esperou por alguns segundos antes de falar.
“Tem alguma coisa por aí?”
“Eu acho que esse Anacin que eu achei vai ter que dar.” Derek falou.
“Eu vou buscar água.” Stiles falou e se levantou, não esperando pela resposta de Derek.
A viagem para a cozinha foi fácil, como sempre, e ele foi a pia e colocou um copo debaixo da torneira para encher de água enquanto ele foi outra vez para a garrafa de rum e tomou mais um gole.
Um pouco mais de coragem.
Quando voltou para a sala, Stiles deu o copo de água para Derek, que tomou seus remédios.
O garoto sorriu, quase aliviado.
“Acho que não tem muito mais que eu possa fazer agora, só te levar pra cama.” Stiles disse.
“Acho que não.” Derek falou.
Foi complicado levar o homem para cama, mas Stiles conseguiu. Claro que Derek se ajudou bastante para chegar até o quarto, porém o garoto se sentiu um pouco melhor em conseguir auxiliar Derek.
Quando ele estava deitado na cama, Stiles já se encaminhava para sair do quarto em direção a cozinha outra vez quando a voz de Derek chamou a atenção dele.
“Por que você tomou rum?” Derek pediu.
Stiles parou na porta e respirou fundo antes de se virar.
“Eu não sabia se iria desmaiar ou seguir acordado. O rum ajudou um pouco.” O garoto disse. “E eu também achei que a qualquer segundo eu fosse começar a chorar, só de saber que você se machucou por mim, se deu pra me proteger. Eu não consigo entender como essas coisas acontecem e porque as pessoas que eu amo tem que se machucar. Se eu não tivesse tomado alguma coisa eu tenho certeza eu não estaria assim calmo falando agora.”
Stiles sentiu as palavras deixarem ele mais leve, admitindo que ele não conseguia lidar tão bem com o fato de que ele era o que sempre acabava protegido do mundo enquanto os que ele amava tinham que se machucar.
“Você sabe que, independente de você enxergar ou não, eu teria te defendido mesmo assim, Stiles.” Derek falou. “Eu espero que você saiba disso. Você não poder enxergar não quer dizer nada pra mim. Assim como não dizia nada para seu pai, pois nós iríamos defender um dos nossos, sempre.” A voz de Derek era cansada ao sair da boca dele, mas o homem ainda fazia força para falar.
“Eu sei que vocês iriam me defender. Não é esse o problema. O problema maior é que eu não posso me defender.” Stiles falou, avançando de volta para o quarto. “Eu não posso me ajudar, eu não posso pular na sua frente e te salvar de alguma coisa. Enquanto todas as pessoas que eu amo se machucam eu fico aqui, tentando aguentar de pé, tentando não deixar as coisas caírem pelo chão e…” Stiles parou de falar e respirou fundo, tentando controlar o choro que ameaçava sair do olhos dele.
“Você percebe o que você está falando, né, Stiles?” Derek perguntou, mas o garoto não respondeu nada, deixando o espaço para o homem continuar. “Enquanto nós podemos agir na hora, enquanto eu posso brigar por você, assim como seu pai morreu para… morreu para salvar alguém, você tem que aguentar de pé. Você tem que ser o elo forte da nossa corrente. Aguentando o que acontece. Eu estou aqui na cama, você ajudou a me limpar e me colocar aqui. Eu tenho as dores para me preocupar por agora e preciso me curar. Você não tem essas dores para se preocupar, Stiles, mas você tem sua cabeça. Você é a pessoa que vai ficar esperando pelos soldados voltarem da batalha para salvar um por um. Você é a pessoa que ajuda eles a voltarem ao normal, a pessoa que dá motivos para eles continuarem vivos.”
A voz de Derek ficou meio perdida pela fala dele, como se as memórias do homem se misturassem um pouco.
“Mas e como eu posso salvar alguém, dar esperança para alguém, motivos para viver, se nem eu sei se tenho essa força, essa esperança?” Stiles perguntou.
“Você não precisa dar motivos para ninguém viver, Stiles.” Derek falou, cortando seu discurso com um bocejo. “Só de eu saber que mesmo depois de apanhar eu vou ter você do meu lado, vou poder ver você mais uma vez, eu já tenho todos os motivos que eu preciso para querer viver. Você é meu motivo para viver, Stiles.”
–--
ADOLPH HITLER BECOMES DICTATOR: Germany facing uncertain future of super-hitlerism. Newport Daily News, 3 de agosto de 1934
ADOLPH HITLER VIRA DITADOR: Alemanha enfrenta futuro incerto do super-hitlerismo.
ADOLF HITLER CLIMBING TO POWER OF GERMANY: Entire world arms as challenge to Hitler’s powers. The Omaha-Bee News, 6 de agosto de 1934.
ADOLPH HITLER SOBE AO PODER NA ALEMANHA: Mundo inteiro se arma em disputa aos poderes de Hitler.
Fale com o autor