Oczy
16 De 1934 a 1939 - Interlúdio
Quando se pensa em mudar de vida, a primeira coisa que a gente imagina é trocar de cidade, encontrar uma nova pessoa para dividir nossa rotina de todos os dias, ganhar uma boa soma em dinheiro, poder viajar o mundo, deixar tudo que vivemos até agora para trás e começar do zero.
Todas essas coisas são boas e bem atraentes, afinal, quem nunca sonhou em ter todo o dinheiro do mundo ou poder passar um dia em cada parte remota do planeta? A ideia é tentadora e os pensamentos voam só de me imaginar em uma vida assim.
Minha ideia de mudar de vida, no entanto, é bem mais pertinente à realidade que eu vivo. Embora nessa mudança se inclua a troca de uma cidade, o encontro de alguém para dividir a minha vida e esse sentimento de poder deixar tudo que vivi para trás e tentar começar do zero, essas coisas caem por terra perto da necessidade de salvar as pessoas que eu mais amo.
Eu não mudei de vida porque eu quis sair e ver o mundo ou esquecer do meu passado; eu mudei de vida porque eu quis salvar o Stiles.
Depois que nós perdemos John, o mundo todo virou do avesso. Ficamos no meio de uma tempestade sem saber como se esconder, para onde fugir ou que rumo tomar. Quando nós achamos que as coisas tinham se encaminhado para a normalidade, do nada veio um outro momento ruim, que fez nossas defesas, já fracas, caírem por completo.
A perda de uma pessoa tão perto de nós fez nossos planos se perderem pelo ar. A vontade de seguir subindo a escada social em nossos empregos, ouvir boa música ao lado do Stiles, quem sabe até recuperar o Olhos Negros — algo que passou por nossas mentes algumas vezes — e finalmente tentar se legalizar no país, junto de outros planos, se destruíram. Nada importava quando o alicerce que segurava nosso lar tinha caído ao chão.
Por um bom tempo nenhum de nós sabia o que fazer — mas uma ideia apareceu do nada também, uma ideia que nos tiraria daquele mundo de dor e perda. Eu abri meus olhos para o que estava à minha frente e encarei a realidade, esperando pelo melhor e dando de tudo que eu tinha para conseguir encontrar o caminho que nós deveríamos seguir.
Foi difícil, mas tudo em nossa vida tinha sido difícil até aquele momento.
Logo depois do ataque que eu sofri na rua junto com Stiles, o garoto — que eu nunca vou parar de chamar desse jeito em minha cabeça — ficou em choque por alguns dias, logo depois que o rum que ele havia tomado saiu de seu corpo. A única sensação que restava era a de que já não tínhamos mais nada a fazer em Chicago e só as memórias de tudo que havia acontecido por lá já tinham deixado nosso ser em completo conflito.
Então nós decidimos mudar.
Stiles não sabia para onde ir; ele só queria sair de lá. Eu dei a ideia de a gente ir para a cidade onde eu passei a minha infância, Carmel-by-the-Sea, onde eu tinha uma casa, há muito tempo atrás, e sabia que o lugar nos acolheria de braços abertos. Era a única ideia que tinha em minha mente naquela hora, mas Stiles disse que qualquer mudança seria boa, desde que fosse para longe de tudo que ainda nos rodeava.
Então não houve muito o que discutir. A decisão foi feita.
Recolhemos todas as coisas que parecia importante levar, juntamos o dinheiro que a gente tinha e as roupas que cada um iria precisar e partimos em uma viagem que durou duas semanas, de Chicago até a costa central da Califórnia.
Stiles não pode levar o piano, por razões óbvias, mas eu fiz uma força para que conseguíssemos carregar o violoncelo dele conosco. Levamos também a caixa com remédios, para o caso de alguma coisa acontecer, uma mala com algumas coisas que Stiles queria guardar de seu pai e tudo mais que fosse importante para a vida que teríamos que construir.
Saímos pela porta da frente para nunca mais voltar.
Eu lembro que ele até pensou em passar pelo lugar onde John foi enterrado, mas Stiles mudou de ideia e não olhou para trás. Ele me disse, mais tarde, que as lembranças boas do pai estavam todas na memória dele e que o corpo poderia descansar em paz, sem ter que suportar as lágrimas de um filho mais uma vez.
Não comentei sobre aquilo, mas fiquei aliviado ao ver que ele estava começando a aceitar o próprio pranto e a se entender como pessoa. Eu fiquei feliz ao ver que o garoto dos meus olhos estava amadurecendo para virar um homem, mesmo que ele tivesse que curar todas as feridas que o destino continuava a infringir em sua pele.
Entre caronas e trens e carros e qualquer veículo que pudesse nos levar, eu achei que a viagem nunca iria terminar, por isso mesmo que quando nós chegamos a nova cidade, enfim, eu estava mais cansado do que nunca, pronto para quase desistir.
O mar nos abraçou, no entanto. E tudo parecia que iria ficar bem.
A casa que eu morei ainda estava lá, vazia. Eu lembro de ter mais parentes morando em Carmel, mas parece que com o passar do anos todos eles foram morrendo e eu não fiquei sabendo de nada. Só restou uma casa antiga e vazia na beira da praia, no alto dos rochedos.
Na porta de entrada eu encontrei uma pequena montanha de cartas, muitas delas para mim. O meu endereço ligado ao exército continuava sendo aquele, por isso que qualquer carta que eu recebi foi para lá, nunca passando pelas minhas mãos — o que me deu um bom tempo para superar meus traumas com a guerra.
Eu iria tomar meu tempo ao longo do próximos anos para tomar a coragem necessária para abrir elas e analisar o que tivesse dentro.
Nossa vida começou de forma simples em Carmel.
Stiles teve que aprender a se virar em uma nova casa, o que demorou algum tempo. No começo ele batia nos móveis, ficava estressado a cada vez que as coisas pareciam estar fora do prumo, mas aos poucos ele foi aprendendo onde era o lugar de cada uma de suas coisas e onde que ele poderia ou não caminhar e se virar.
A casa era maior do que nossos apartamentos em Chicago, por isso Stiles também teve que se acostumar a ter mais espaço. No primeiro andar nós tínhamos uma sala e uma cozinha bem grandes, com a adição de um pequeno banheiro e mais um escritório, que virou a sala do violoncelo de Stiles, onde ele iria passar horas tocando daquele momento em diante.
No segundo andar tinha três quartos e um banheiro. Cada um de nós pegou um deles e o outro nós usamos para guardar o resto das coisas. O meu quarto dava de frente para a rua, já que eu gostava mais de acordar com o sol vindo me despertar nas manhãs, enquanto Stiles preferia ver ele descer no oceano às tardes.
A nossa vida levou cerca de um ano para adquirir uma nova rotina.
Eu encontrei um trabalho em uma pequena oficina para carros na beira da estrada, já que muitos começavam a andar pela California I e precisavam de ajuda de algum mecânico vez ou outra. O trabalho era calmo, mas precisava de força e disciplina, coisas que eu tinha me acostumado a usar quando trabalhava nas docas.
Stiles não conseguiu achar um emprego, afinal as pessoas, por mais que tivessem acolhido a gente na cidade, ainda não conseguiam encontrar uma maneira de arrumar um trabalho para um cego. Então ele passou bastante do seu tempo tocando. E lendo.
Eu tinha ensinado braille para Stiles há anos em Chicago, mas ele havia deixado a prática de lado depois das muitas adversidades que nós enfrentamos. Quando o tempo ficou muito vago para que ele pudesse passar sem fazer nada, ele me pediu ajuda para conseguir uma régua para escrever em braile e alguns livros para ele ler. Tudo foi bastante complicado de encontrar, mas eu consegui algumas histórias de Edgar Allan Poe e outros autores menos conhecidos que haviam sido traduzidos para o braille.
Após mais de três anos em Carmel, nós já tínhamos alguns conhecidos, ninguém muito próximo, sendo que a nossa casa era um pouco retirada do centro da cidade, mas algumas pessoas eram gentis conosco. O dono de uma venda, que às vezes fazia o favor de entregar nossas compras em casa quando eu não poderia ir buscar elas, e uma senhora que nos dava leite e pão vez ou outra eram os que sorriam quando viam eu e Stiles — e todos os que sorriam para um ex-soldado ao lado de um cego eram as melhores pessoas para mim.
Mas algumas delas também nos olhavam com olhares indiscretos.
Muitos achavam que eu e Stiles éramos criminosos vindos das gangues de uma das grandes cidades ou que éramos ladrões de bancos planejando um próximo assalto. Outro imaginavam que éramos pecadores da carne, homens que não honravam sua masculinidade em troca de um mundo de heresia.
Nada importava muito para nós, no entanto.
Ainda se estivéssemos cometendo alguma heresia… Mas não havia nada entre nós.
Stiles e eu viramos uma coisa só. Ainda assim, nossa relação era completamente platônica. Eu até tentei dar algumas investidas, mas ele sempre teve medo, ele não se sentia pronto, teve vezes que ele até parecia desentendido. Talvez ele não fosse interessado em nenhum contato daquele tipo? Porque eu sabia que ele me amava assim como eu amava ele, a gente não saberia viver um longe do outro e a nossa ligação era forte e importante para nós.
Eu sempre iria querer algo mais.
Não sei se ele poderia me dar.
Mas eu não iria desistir dele por isso.
Stiles era aquilo pra mim. Ninguém conseguiria ocupar o lugar que ele tinha em minha vida.
E eu nem queria que alguém tentasse.
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