Oczy

17 Guerra no Paraíso


Os passos de Stiles faziam marcas na areia molhada da praia. Um depois do outro, os pés dele iam sentindo a diferença entre o passo anterior e o seguinte, tentando desvendar um jeito de perceber onde ele havia caminhado e onde não. Não era fácil. A areia lavada pela água do mar escondia qualquer traço do que havia passado por ela antes.

Uma coisa que Stiles queria poder ter feito também, esconder qualquer traço do passado que havia deixado sua marca nele. Ele queria poder fazer como o mar e deixar algumas cicatrizes para trás, mas aquilo não era possível.

Com o tempo, algumas coisas desapareciam ou se faziam menos importantes, mas não tão rápido como a maré fazia com as areias.

O cheiro do sal vinha forte nas narinas de Stiles, o que fazia ele pensar no infinito. A relação parecia estranha, mas o cheiro do sal lembrava o mar, e ele era uma coisa que a mente de Stiles apenas seria capaz de imaginar, já que ele nunca teve a chance de o ver com seus próprios olhos.

A maré das memórias apaga umas coisas que parecem importantes para nós e deixa para trás aquelas que nós queremos esquecer.

Ele respirou fundo, tentando se imaginar em um paraíso e não em uma praia qualquer. A sensação de estar em um lugar onde o únicos sons que se ouviam eram o das ondas do mar e as garças voando no ar era incrível, e parecia vir de outra dimensão. A liberdade parecia flutuar como o vento em meio a uma tempestade, rapidamente e sem qualquer direção certa.

A liberdade tinha seu próprio jeito de criar asas e fazer Stiles voar também.

“Isso é bom.” Ele falou.

“É bom sim.” Derek respondeu, segurando na mão do garoto. Stiles devolveu um pequeno aperto na mão do homem, como se ele dissesse estou aqui também.

Os dois caminhavam lado a lado em direção a casa deles, voltando de um dos pontos extremos da praia. Todas as manhãs antes de Derek ir trabalhar eles costumavam sair caminhando pela areia, apenas para sentir o vento e o sal do mar na pele. A caminhada era sempre feita de pés descalços e com os dois homens de mão dadas.

E foi Stiles que pegou na mão de Derek da primeira vez, mesmo sem saber o que ele sentia.

Bom, Stiles ainda não sabia o que ele sentia por Derek.

Tantas coisas haviam acontecido no passado, ainda quando ele sequer tinha essa proximidade com o homem, que os sentimentos que haviam se formado ainda eram estranhos a ele. Stiles não tinha certeza sobre o que eles eram, o que afetariam em sua vida e como eles se manifestariam. Os sentimentos surgiram de uma forma inesperada e Stiles não sabia como expressar eles.

Ele só sabia que sentia alguma coisa.

Ele sentia um aperto no peito quando Derek contava alguma coisa sobre o passado dele, que fazia ele querer chegar perto do homem e abraçar ele com força. Uma afeição maior, uma vontade de encostar na pele de Derek, pegar na mão dele, apenas ficar perto, querer dividir cada segundo do dia e cada centímetro do espaço.

Stiles queria ficar junto com Derek, e se aquilo não era o bastante para descrever o que ele sentia pelo homem, Stiles não queria procurar as palavras mesmo.

“Sabe que eu consertei o carro de um senador ontem?” As palavras de Derek furaram a bolha dos pensamentos de Stiles e ele sacudiu a cabeça antes de falar alguma coisa.

“É?” Ele perguntou. “Senador de onde?”

“Ele não disse?” Derek falou, fazendo um som de desaprovação com a garganta. “Acho que ele tinha medo que a gente fosse roubar ele o coisa parecida. Como se a base do exército logo aqui do lado fosse fazer as pessoas cometerem crimes contra alguém do Estado…” O homem bufou um riso criticando a idiotice do pensamento do homem.

“Faz sentido.” Stiles comentou. “Nem todos os senadores são a favor das políticas do presidente, o que , hipoteticamente faria dele um inimigo do Estado. De alguma forma.” Stiles falou.

Derek apenas confirmou com um pequeno som.

“Não sabia que o meu Stiles era assim entendido de política.” Derek falou, rindo.

Stiles riu também, balançando a cabeça.

“Bom, eu tenho tempo de sobra pra ficar ouvindo o rádio e descobrindo o que vai acontecer com o país na próxima assembleia com os políticos ou sobre a próxima visita de um chefe de Estado ou coisa parecida. Eu tenho tempo demais pra isso. E também pra ouvir música country. E programas de comida.” Ele completou.

Derek apertou a mão de Stiles.

“Eu sei que às vezes é complicado. Ficar em casa sempre. Mas…” O homem foi interrompido por Stiles.

“Mas nada.” Stiles falou, silenciando Derek. “A gente já fez essa discussão várias vezes e eu continuo com a mesma resposta. Derek, eu não tenho culpa de nada e você não tem culpa de nada. Se as pessoas não querem me contratar para fazer alguma coisa não tem nada que eu possa fazer. Literalmente. A minha vida continua assim. Eu queria poder trazer dinheiro pra cá, ajudar a manter o lugar que a gente vive, talvez sonhar com outras coisas diferentes, mas eu não posso. E eu aceitei isso. Essa é a minha vida.”

“Mas você deveria querer mais.” Derek falou.

“Eu sei que eu deveria querer mais. E isso não quer dizer que eu não queira mais, Derek. Eu quero. Poxa vida, como eu quero mais. Querer não é poder, no entanto. E eu aceitei que pelo resto da minha vida eu vou viver nessa cidadezinha que dá sono nas pessoas e não vou poder fazer nada.” Stiles respondeu, apertando a mão de Derek de volta.

Eles continuaram caminhando por mais alguns metros em silêncio. Derek respirou fundo antes de falar outra vez.

“Eu já lhe disse que a gente poderia abrir um outro bar aqui, Stiles.” O homem falou. “A gente não precisa mais pensar na ilegalidade, pelo menos o álcool não é mais ilegal, a gente poderia ter um lugar só nosso e você poderia tocar e a gente poderia ter uma vida parecida com o que a gente teve em Chicago.”

“A não ser pelo meu pai.” O garoto falou.

Os dois ficaram em silêncio por mais alguns passos, apenas ouvindo o barulho das ondas.

“Eu não sei se eu consigo colocar o pé em um bar e fazer música sem ter ele do meu lado, Derek. Você sabe que já fazem cinco anos, você esteve comigo esse tempo todo. Mas eu não sei se consigo. E eu me sinto mal por parar o seu sonho. Eu lhe disse que se você quisesse eu não iria ser contra, contanto que eu não fizesse parte desse sonho. Eu ainda não posso.” Ele falou e suspirou em seguida.

Derek parou de caminhar e se virou para Stiles, que parou na frente dele. O homem esticou seus braços e envelopou Stiles em um abraço, colocando a cabeça do garoto em seu pescoço.

“Eu sei que ainda é difícil pra você. Quem sabe um dia a gente possa abrir um novo Olhos Negros. Quem sabe a gente possa tentar ser feliz como a gente foi por aqueles anos, né?” Derek perguntou, beijando a cabeça de Stiles, que por sua vez apenas assentiu.

Quando os dois se separaram do abraço eles continuaram caminhando em direção a casa, já podendo avistar ela. O sol ia subindo no céu quando ele entraram pelo pátio dos fundos, indo em direção à cozinha que se abria para essa parte do jardim.

“Eu vou ir tomar um banho, certo?” Derek falou, apertando a mão de Stiles antes de soltar ela, quando os dois entraram pela porta.

“Eu preparo um chá pra gente.” Stiles respondeu quase em um sussurro, já sentindo a falta da mão de Derek na dele enquanto o homem passava pela cozinha e ia direto para o segundo andar.

A preparação de um chá era uma das coisas que Stiles gostava de fazer. Ajudava ele a se concentrar e fazia a mente relaxar ao mesmo tempo. Esquentar a água, arrumar as xícaras, escolher o aroma e preparar tudo com vagar era uma rotina que agradava a ele e ajudava Stiles a tomar um tempo para não tomar um tempo para nada.

Se é que aquilo fazia sentido.

A duração da preparação da bebida foi o necessário para que Derek tomasse sua ducha. Quando o homem desceu a cozinha, minutos mais tarde, Stiles estava sentado com uma xícara de chá à sua frente. A xícara de Derek estava esperando por ele na pia.

“Obrigado.” Disse Derek. “De o que que é?” Ele perguntou.

“Ameixa.” Stiles respondeu, tomando um gole.

Derek se sentou à mesa em frente a Stiles e os dois tomaram boa parte do chá em silêncio, sugando pequenas gotas do líquido doce com uma pontada ácida por trás. Não era estranho para eles que houvessem esses momentos sem conversa. A falta de coisas para dizer não era algo que eles tinham medo, o silêncio era parte da relação entre eles dois.

Na falta de palavras eles também conseguiam se entender.

Um som vindo da rua, o carteiro, tirou eles do torpor do momento, fazendo Derek se levantar para ir buscar o que tivesse chegado. Stiles tomou mais um gole ao esperar por Derek voltar com as correspondências.

“Veio um novo livro, Stiles.” O homem disse quando voltou, colocando um pacote em cima da mesa e se sentando de volta na cadeira. Stiles abriu o pacote e foi checar que exemplar era aquele, passando seus dedos pela capa e por algumas páginas.

Um sorriso se espalhou no rosto dele.

“Shakespeare. Eu gosto de Shakespeare.” Ele disse.

“Era um dos únicos que eles tinham para vender dessa vez.” Derek falou, tentando se desculpar por comprar mais um livro do mesmo autor para Stiles, que apenas sorriu.

“Não tem problema.” Ele falou.

Os dois voltaram a ficar em silêncio outra vez. Stiles terminou seu chá e colocou a xícara na mesa. Um som despertou ele, papel sendo mexido. Ele ficou escutando Derek por alguns momentos enquanto o homem folhava uma papel, antes de falar.

“Você recebeu alguma coisa?” Stiles perguntou o que ele presumia ser uma questão simples.

“Eu…” Derek hesitou antes de falar.

“O que é, Derek?” Stiles pediu sem nem pensar muito. Ele ficava um pouco frustrado por não poder enxergar o que se expressava no rosto do homem e Derek sabia que Stiles se sentia excluído por não poder ver o que realmente estava acontecendo.

O homem suspirou antes de falar.

“Eu recebi uma carta do meu antigo quartel.” Disse ele.

As palavras não fizeram muito sentido para Stiles no começo. Não havia motivos para Derek hesitar em responder alguma coisa sobre o quartel a não ser que eles estivessem em tempos de guerra.

E então a ficha caiu.

Stiles começou a acessar suas memórias. Derek tinha ido para a Primeira Guerra. Ele tinha ficado em um campo para soldados quando estava com seus dezessete anos ainda e foi mandando para o outro lado do mundo servir aos ideias da nação. Ele tinha visto morte e destruição por todos os lados e tantos soldados próximos dele tinham morrido, incluindo toda a família dele, que Derek chegou ao final da guerra como um Tenente, sem nenhuma experiência, mas com bravura de sobra para segurar as medalhas no peito.

Claro que aquelas não eram lembranças boas para o homem, tanto porque ele tinha contado tudo para Stiles em uma noite que ele havia bebido demais, anos atrás. Derek sabia que Stiles conhecia boa parte do passado dele por causa daquela noite, mas ele nunca tinha falado mais daquilo. Nunca tinha falado de mais nada.

E agora, uma carta havia chegado bem em meio às revoluções de um ditador no outro lado do mundo. Mesmo não enxergando, Stiles conseguia sentir que havia alguma coisa acontecendo. Ele ouvia ao rádio e sabia o que se passava no mundo.

Ele só não podia saber o que se passava no rosto de Derek.

“É sobre as tensões na Europa?” Stiles perguntou. “Vai começar uma nova guerra?” A voz do garoto se perdeu na última pergunta, virando um sussurro.

Derek respirou fundo.

“Eu acho.” Ele falou. Stiles conseguia sentir a tensão se espalhando pelo ar e ele não sabia o que fazer com ela. Ainda assim ele não disse nada, apenas esperou por Derek vir a seu juízo e falar o que tinha que falar.

A espera deixava ele nervoso.

Stiles ouviu o som de papel sendo manuseado de novo e logo amassado.

Derek bufou uma golfada forte de ar, como se quisesse tentar se controlar.

Stiles ficou esperando pela notícia ruim que viria dessa vez.

Mas ela não veio.

“É sobre a guerra sim. Mas não tem nada pra mim, Stiles. A carta só fala sobre a possibilidade de alguma coisa acontecer e a gente ser chamado eventualmente. Mas os Estados Unidos querem anunciar a neutralidade, em todo caso. Eu vou continuar. Eu…” Derek parou de falar e tentou respirar fundo, mas parecia que o ar não queria ir para os pulmões do homem.

Stiles se levantou de sua cadeira e cruzou o espaço entre ele e Derek, se ajoelhando ao chão para conseguir colocar sua cabeça no peito do homem e enrolar seus braços em volta do torso dele.

“Você vai continuar aqui, então.” Stiles falou, enterrando seu rosto no peito de Derek. O homem colocou suas mãos em volta de Stiles e descansou sua cabeça na do garoto.

“Eu acho.” Derek sussurrou.

“Sim, Derek. Você não precisa voltar pra guerra.” Stiles falou.

“Eu não quero, Stiles. Eu não quero voltar.” Derek falou, apertando Stiles em seus braços. “Eu não quero morrer.”

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Aos cuidados do Lt. Derek James Hale

Essa carta vem com antecedência fazer um reconhecimento da situação das tropas que serviram com glórias a Primeira Guerra Mundial.

Recebemos informações de que Bretanha e França estão prontas para declarar guerra a Alemanha, assim que o ultimato oferecido ao comandante do país, Adolph Hitler, seja ignorado — o que grande parte da comunidade internacional espera que aconteça logo.

Não há ordens especiais vindo do governo americano nesse momento, mas as tropas do Camp Ord foram comunicadas, incluindo seus antigos e retirados oficiais. A ordem inicial é a neutralidade, que deverá ser respeitada por todas as tropas dentro e fora da nação.

Nossa economia ainda se recupera dos tropeços da década passada e nós estamos mantendo nossa energia focada no bem-estar dos americanos, que merecem nossa proteção e atenção mais do que ninguém.

Contudo, caso venha a ser necessário, se solicita a colaboração da população americana e de seus soldados para que defendam os ideias do país e se disponham a lutar mais uma vez pela liberdade que é roubada dos oprimidos.

E essa carta vai em especial para você, Lt. Hale, em nome de todos os oficiais a quem você serviu e todos os cabos que serviram você, num desejo de lhe ter em nosso meio mais uma vez, celebrando todas as pessoas que deram a vida pelo país — a quem nós somos gratos por uma eternidade.

Os que se foram, não se foram em vão!

Nós precisamos de você!

Camp Ord, Monterey, 28 de Agosto de 1939

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GERMAN ARMY ATTACKS POLAND; CITIES BOMBED, PORT BLOCKADED; DANZIG IS ACCEPTED INTO REICH. The New York Times, 1º de setembro de 1939.

EXÉRCITO ALEMÃO ATACA POLÔNIA; CIDADES BOMBARDEADAS, PORTOS BLOQUEADOS; DANZIG É ACEITO DENTRO DO REICH.

FRANCE JOINS ENGLAND IN SENDING ULTIMATUM TO GERMANY. WARSAW BOMBED; POLAND INVADED. The Scranton Times, 1º de setembro de 1939

FRANCE SE JUNTA À INGLATERRA NO ENVIO DE ULTIMATO À ALEMANHA. VARSÓVIA É BOMBARDEADA; POLÔNIA INVADIDA.