Oczy
18 Tempo de aceitação
Notas iniciais
Stiles estava fazendo o jantar na cozinha quando ele ligou o rádio para ouvir as músicas que gostava de acompanhar durante seus trabalhos comuns do dia-a-dia. As faixas preferidas dele agora eram principalmente os sucessos do country americano, que tinham encontrado um lugar especial no coração dele nos últimos anos, mesmo que ele ainda tivesse uma paixão pelo blues.
O motivo principal para Stiles não escutar mais tanto blues era porque ele não podia mais reproduzir todas aquelas músicas no piano. Não que ele não pudesse fazer elas com seus dedos no violoncelo, mas a sensação não era a mesma, por isso ele preferia o som do cantores boiadeiros e suas baladinhas de amor.
Tudo ia como de costume durante as horas do final da tarde, com Stiles preparando um ensopado de carne quando a transmissão das músicas se cortou e ele parou de picar os vegetais, prestando atenção ao anunciante que começou a falar sobre o início de uma nova guerra.
O coração de Stiles foi para na boca dele.
... guerra na Europa começa a fazer o mundo tremer. Hitler inicia invasão a vizinha Polônia, tomando portos e cidades inteiras, avançando com suas tropas para a capital do país. Fogo cruzado já foi ouvido por informantes da situação e vidas já foram perdidas durante a invasão. Os ideias arianos dos fascistas assustam as pessoas que ainda não compreenderam o perigo da situação: a Segunda Guerra Mundial acabou de começar.
Stiles desligou o rádio após o final da transmissão das notícias da última hora, tendo ficado sem inspiração para continuar ouvindo músicas.
O coração dele, que havia quase parado antes, agora voltava a bater com mais força no peito. Stiles respirou fundo para tentar fazer ele voltar ao normal. As mãos segurando faca e cebola estavam tremendo um pouco, por isso ele colocou o que tinha nelas na pia e se encostou no balcão.
As suspeitas deles haviam sido confirmadas e agora era uma questão de tempo para esperar o país declarar neutralidade ou sair correndo para os campos de batalha — e mesmo que na carta de Derek falasse em neutralidade, Stiles precisava do aviso oficial para se sentir mais calmo.
Só a menção de uma guerra pronta para acontecer era o bastante para Stiles sentir medo. Não por ele, exatamente, já que os conflitos eram apenas para se centrarem do outro lado do Atlântico, mas ele não queria ver Derek se indo para o outro lado do mundo, com a chance de nunca mais voltar. E Stiles sabia o quanto o homem não queria mais fazer parte da guerra, já que Derek tinha perdido tudo para ela, a família, seus sonhos e ideias, sua juventude e parte de sua beleza, já que o rosto de Derek tinha nele as marcas de uma guerra.
E no meio de tudo isso, Stiles ainda nem sabia se Derek tinha ideia do que estava acontecendo, pois mesmo tendo recebido aquela carta, Derek ainda estava quase isolado do mundo.
Stiles respirou fundo e se importou em terminar o jantar para esperar seu homem voltar do dia de trabalho.
–--
Quando eu fecho meus olhos à noite, todas aquelas imagens vem à minha cabeça de volta. Eu vejo as pessoas morrendo e gritando nomes que eu nunca ouvi em minha vida. Eu vejo soldados levantando armas que eles nem sabiam segurar direito. Eu vejo o desespero na cara de todos os pequenos garotos que estavam em frente a mim e me olhavam como se eu fosse o dono da vida deles, como se a sobrevivência de cada um dependesse de mim.
E de uma forma eles não estavam errados.
Só eu que não estava preparado para salvar ninguém.
Eu fui jogado no cargo de Tenente no meio de uma guerra que eu mal sabia os motivos de existir. Nunca havia sido treinado para conseguir as reações necessárias para me tornar um líder, eu só dei a sorte de ser o mais velho soldado a sobreviver no meu batalhão, o bastante para que eu recebesse o cargo.
E a partir daí tudo foi inferno.
A maior parte dos soldados sob meu comando morreu sem eu sequer saber o nome de cada um ou eles o meu. Grande parte dos homens que eu comandei se perdeu pelo meio do caminho, as incursões sob minhas ordens tinham sido as mais desastrosas e tudo que invadimos veio à baixo. Até parece que todas as coisas que eu toquei foram por terra, como se estivessem amaldiçoadas.
Como se eu estivesse amaldiçoado.
E às vezes eu acho que eu estou mesmo.
Depois daquela simples carta vinda do meu antigo quartel do exército, meus sonhos voltaram a serem povoados pelas piores imagens que eu poderia pensar. Durante os muitos anos em que eu tentei me distanciar de todos esses ideais de guerra, minha mente parecia ter colocado todas aquelas lembranças de lado, deixando elas irem para o passado, de onde nunca deveriam ter saído.
A pequena chance que havia de eu ver aquilo de novo foi o que bastou para que as lembranças voltassem com tudo.
Meu sono nos últimos dias havia sido perturbado, isso se eu conseguia dormir. O sangue de todos que morreram em minhas mãos ficava como uma mancha vermelha em minha retina, uma coisa que eu não sabia como apagar e nem deixar passar. A minha cabeça também tratava de imaginar os piores cenários para meu futuro — muitos deles incluindo Stiles.
Ou melhor, achando uma maneira de tirar ele da minha vida.
Eu não conseguia olhar para o lado sem ver o garoto que eu amava morto pelos cantos, sangue vazando pelos olhos e pela boca dele. Imagens fortes que me obrigavam a tentar pensar nele de outras formas e eu queria fazer ele ser uma das minhas lembranças felizes, mas os meus pesadelos não tinham as mesmas ideias.
Ver ele morrer na minha mente, centenas de vezes, era a pior coisa que eu passei na minha vida.
Mas se em sonho tudo aquilo já me machucava, eu não queria nem pensar se alguma coisa como aquela acontecesse em minha vida real.
O pior de tudo que havia acontecido, ou estava para acontecer, era que minha cabeça tinha suas ideias em um só objetivo, não cair nas garras de uma batalha vã em nome de outros homens e outros poderes, mas meu coração batia mais forte pelas palavras que meus oficiais me mandaram através da carta.
A vida das pessoas que eu tinha perdido não poderiam ter se ido em vão.
E como eu iria decidir entre deixar o homem que eu amava para trás, deixar Stiles sozinho sem ter a mim do seu lado ou ficar com ele, dividir meus dias com a pessoa que me fazia feliz enquanto outros precisavam de mim? Como eu iria escolher lutar pelos ideias de meus pais e toda minha família, escolher partir para uma guerra quando eu tinha medo dela? Mas como eu iria deixar a morte deles ter acontecido para eu me esconder do mundo?
Eles tinham me dado a vida.
Mas John e Stiles tinham me dado uma nova família. Tinham me dado um novo motivo para viver.
Como eu iria escolher entre meu passado e meu futuro? A família do meu sangue ou a família que eu poderia ter ao meu lado?
Eu não sabia o que escolher.
–--
Stiles escutou o barulho da porta da casa deles se abrindo antes mesmo de Derek entrar. O garoto soltou o pano de prato que usava para secar algumas louças e saiu caminhando pela casa a passo rápidos para encontrar Derek.
O homem nem teve tempo de dizer alguma coisa para Stiles, pois o garoto trombou com ele e lançou seus braços em volta do peito de Derek, abraçando ele com força. Derek não entendeu muito o que estava acontecendo, mas abraçou Stiles mesmo assim.
“A guerra começou.” Stiles sussurrou, rosto enterrado no peito de Derek.
O homem se tensionou por um instante ao ouvir aquelas palavras, mas ele logo começou a relaxar um pouco no abraço de Stiles, esfregando suas mãos nas costas dele.
“Você tem certeza?” Derek pediu.
“Eu ouvi no rádio, uma meia hora atrás.” Ele disse. “Eu imaginei que você não teria ouvido ainda. Eu sinto muito, Derek.” As palavras de Stiles poderiam parecer estranhas para qualquer outra pessoa, dizendo que sentia muito pelo início de uma guerra que não afetava eles naquela momento. Stiles, porém, sabia o quanto Derek não queria que uma nova guerra acontecesse, pois quanto maior o perigo, maior seria a chance de ele ser recrutado pelo exército outra vez, sem ter muita escolha do próprio futuro. E Derek sempre falou que ele não tinha desejo de ir para uma guerra outra vez.
Se ele pudesse escolher, nunca mais.
E ainda tinha que levar em conta o fato de que Derek não era mais um jovem garoto sem futuro, ele já era um homem pra lá da metade da sua vida — aos quarenta anos, Derek já tinha uma boa carga de experiência nas suas costas, mas há tempo ele não tinha sequer contato com armas, e nos últimos anos ele nem fazia mais tantos exercícios pesados quanto os que ele ainda fazia em sua época em Chicago. O corpo forte de um jovem homem tinha ido embora, deixando para trás o peso da idade.
Stiles ainda olhava para ele mesmo, aos 35 anos, pensando em si como um garoto ainda, coisa que ele não era há muito tempo.
“Eu acho que eu vou ter que voltar a correr. E levantar alguns pesos.” Derek falou, tentando se desenrolar de Stiles. “Não custa nada a gente se preparar…” As palavras do homem pareciam vir sem muito pensamento por trás, como se a primeira reação de Derek fosse apenas assentir e aceitar o que viesse em seu caminho, sem nem pensar nas suas próprias escolhas.
“Mas você não vai pra guerra…” Stiles disse, tentando fazer sua voz parecer certa do que dizia, mas a frase saiu mais parecendo uma súplica do que qualquer outra coisa.
“Se eu tiver que ir, eu vou.” Derek falou. O homem suspirou na tentativa de clarear as ideias. “Eu não tenho escolha. Se eu tivesse eu ficaria em casa, do seu lado, Stiles. Mas eu não tenho como deixar meus generais desse jeito. Por mais que eu não queira, alguém tem que ir. E precisa ser eu.” Derek completou.
“Mas e tudo de ruim que a guerra te trouxe?” Stiles perguntou.
“A guerra me tirou tudo que eu tinha, Stiles. Não sei se algum dia eu vou poder esquecer. Mas tem pessoas que vão precisar de mim. Eles já até me mandaram uma carta, Stiles. Eles já querem saber de mim, querem que eu esteja pronto para servir ao país, querem que…” Derek parou falar e respirou. Ele pegou na mão de Stiles. “Eles querem que a escolha seja nossa, mas o que deu a entender é que eles querem que nós escolhamos o exército.”
Stiles apertou a mão de Derek.
“Mas ainda assim é uma escolha.” Ele falou, indignado.
“É uma escolha, eu sei. Eu ainda tenho que pensar. E eles mesmo falaram que o presidente vai declarar a nossa neutralidade, o que vai dar tempo pra gente esfriar a cabeça. Eu não sei o que vem no futuro. Eu só…” Derek parou de falar por um instante. “Eu só sinto que nós não vamos ficar de lado para sempre. E é melhor ficar preparado do que ser pego de surpresa.”
Stiles suspirou, tentando colocar as palavras de Derek em sua cabeça, ele queria entender o porquê do homem mudar de ideia assim. Stiles queria saber esses motivos, já que Derek sempre parecia tão contra os ideais da guerra e ainda tinha pesadelos sobre ela em muitas das noites — e Stiles conseguia ouvir alguns dos gritos do quarto dele.
“Mas você sempre pareceu tão contra a ideia de entrar em uma guerra de novo…” O garoto disse.
“Eu sei, Stiles. Eu eu sou, certo? Eu não quero ir…” O homem parou de falar por um instante antes de pegar na outra mão de Stiles, segurando as duas. Ele respirou fundo antes de falar de novo. “Eu lembrei que minha família toda deu a vida pela guerra, Stiles. Meus pais e meus irmãos. Todos eles perderam a vida pelo exército. Eu sinto que, se eu desistir disso, se eu não seguir ao menos um caminho parecido, eu não vou ser digno de ter esse sobrenome…”
“Essa é a coisa mais estúpida que eu já ouvi.” Falou Stiles rispidamente, soltando suas mãos das de Derek. “É como se você estivesse dizendo que o único jeito de ser um Hale é se matando em uma guerra qualquer.” O garoto falou com agressividade, se virando de costas par Derek e caminhando em direção a cozinha.
O homem o seguiu.
“Mas foi o que eles todos fizeram, foi o que eles foram ensinados a fazer. Eu nunca te disse a minha história completa porque eu não quis contar os detalhes, mas Stiles, meus pais, meus avós, meus bisavós, meus primos e tios, todos os parentes que eu conheci ou ouvi falar, todos eles foram criados no exército, foram criados nessa mentalidade de que a honra vem do sangue, a honra vem do poder de fogo, das armas. Porque você acha que eu sempre soube lutar bem? Porque você acha que eu consegui defender a gente dos homens que queriam bater em nós anos atrás, antes da gente vir pra cá? Como que você acha que eu matei o homem que assassinou o seu pai? Eu usei as minhas mãos porque eu fui ensinado a usar elas. Eu nasci pra ser um soldado, mas eu sempre tive medo de ser um. Meu pai e minha mãe sempre souberam disso. Mesmo assim aquilo nunca me parou quando eu tive que defender os meus. Eu defendi você, eu salvei você. Se eu tiver que defender o nome da minha família eu vou fazer tudo de novo.” Derek terminou de falar quando os dois estavam na cozinha. A respiração do homem era ofegante e o silêncio depois das palavras ásperas parecia profundo.
Stiles, que tinha sua cabeça virada para a janela, respirou fundo.
“Você acha que eu nunca soube dessas coisas?” Stiles disse, se virando de frente para Derek. “Eu sei de tudo isso, Derek. Você sonha todas as noites sobre a guerra, você sonha sobre a sua vida. Nas muitas noites em que nós dormimos um perto do outro eu pude ouvir tudo que você disse. Eu jurei que muitas das coisas que eu ouvi eram só invenções dos seus pesadelos, mas com suas palavras agora, eu sei que a maior parte delas pode ser verdade.” O garoto falou.
“Por que você nunca me disse nada antes?” Derek perguntou, quase num sussurro.
“Pra mim nada disso importa.” Stiles falou. “Derek, tem vezes que só existem duas escolhas, matar ou morrer. Eu não vou julgar você pelas escolhas que você fez, se elas nos mantiveram juntos, se elas nos levaram até aqui. Eu tenho você agora. Só que…” Stiles parou de falar, tendo que respirar fundo mais uma vez para não deixar as lágrimas caírem. “Só que eu já perdi coisas demais na minha vida para deixar você pensar em guerras outras vez e perder você também. Se eu perder você eu não tenho mais ninguém.” Stiles falou, sentindo uma gota cair do seu olho.
Derek deu os últimos passos que o separavam de Stiles. Ele colocou suas mãos em volta dele.
“E se eu jurar que eu vou sempre voltar pra você?” Derek disse, apertando Stiles contra o corpo dele.
“Se você morrer você não vai voltar.” Stiles disse.
“Eu não vou morrer, Stiles.” Derek falou, encostando sua cabeça na de Stiles, beijando os cabelos dele. “Eu não vou te deixar, meu amor.” As palavras saíram da boca de Derek com facilidade e Stiles sentiu seu coração bater mais forte ao ouvir elas. Ele desencostou a cabeça do peito de Derek, virando sua cabeça para cima.
“Eu não quero perder você.” Stiles falou.
“Você nunca vai me perder, Stiles.” Derek sussurrou antes de selar seus lábios com os de Stiles, que aceitou os lábios dele sem nem pensar.
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