Oczy

19 Sentimentos


Notas iniciais
Amantes de Cartas para Derek, uma palhinha pra vocês. =D

A guerra havia começado.

Mas nós não iríamos participar dela.

E isso era tudo que eu sabia.

Logo depois do primeiro dia em que as invasões na Polônia começaram e alguns países da Europa decidiram se reunir para combater as investidas da Alemanha, dando início à Segunda Guerra Mundial, Stiles havia ficado abalado com a possibilidade de eu ir para as batalhas no outro lado do mundo.

Com sorte, aquele medo dele não se concretizou, pois os Estados Unidos declararam sua neutralidade dias depois do início das invasões, o que nos tirou da rota do terror.

O alívio foi geral na nação e todos se sentiram mais protegidos ao estarem longe de tudo. No entanto, Stiles ainda não havia se acalmado por completo sobre a situação, mesmo que tivesse entrado em termos consigo sobre o que poderia ou não acontecer se nosso país decidisse entrar no conflito algum dia.

Contudo, era complicado se saber o que iria acontecer no futuro, tanto a respeito da guerra quanto a respeito da nossa participação. Ou das minhas chances de voltar ao exército e correr risco de perder a vida do outro lado do mundo. Stiles tinha se abstido de comentar a respeito, se negando a calcular possibilidades em sua cabeça, Mas aquilo não era a única coisa que ele estava fugindo.

Stiles também não tinha falado sobre o beijo que nós havíamos nos dado.

E eu só queria falar nele.

Não queria pensar em guerra ou nada mais.

Na mesma noite em que descobrimos que a guerra havia começado, Stiles e eu entramos em uma discussão. Eu senti que precisava me dispor a voltar ao exército e exercer meu cargo de Tenente, enquanto ele não queria que eu saísse de casa e colocasse a minha vida em perigo.

Claro que eu entendi o ponto dele, afinal eu também não iria querer ver o Stiles sair dos meus braços para ir a um mundo de dor com a possibilidade de nunca mais voltar. Da mesma forma, eu também não poderia dar as costas para as memórias dos meus familiares e toda a fé que eles colocaram em seus ideias e no país.

Era uma faca de dois gumes.

Minhas memórias contra meus sonhos.

Ou melhor, meus desejos contra minha realidade.

Eu consigo me lembrar de uma frase que meu avô costumava me falar. Uma frase que ele sempre falava durante os momentos em família, comemorações de datas importantes onde todos se reuniam. A frase era quase como que a nossa oração. Mesmo que eu nunca tenha entendido ela de verdade quando jovem, eu sempre a disse para mim mesmo, querendo lembrar dela como se fosse uma jóia.

A realidade é melhor que o sonho.

Essa era a frase.

O motivo de eu não entender ela era que a realidade é o que a gente tem, independente de ela ser melhor ou pior, não faz muito sentido tentar ignorar ela ou se fechar do mundo para viver dentro dos nossos sonhos. Os sonhos alimentam a alma, mas a única coisa que alimenta a carne é a realidade — e sem ela você morre.

Eu fui criado para ser prático e frio, e quando eu era jovem eu não conseguia ver o que havia de importante por trás dela. Agora eu vejo.

Quando meu avô dizia que a realidade é melhor que o sonho, ele não dizia para eu parar de sonhar. Ele não queria que eu deixasse de imaginar coisas boas para ter um dia, passar alguns minutos dentro dos meus pensamentos e imaginar mundo diferentes e melhores do que eu vivia, pois tudo aquilo faz parte do ser humano.

Sonhos nos dão esperança.

Mas numa guerra, por mais que a esperança movimento seu coração, só com ela você não sai vivo. No segundo em que você deixar a realidade de lado e apenas viver no seu mundo de sonhos, uma bala vem ao longe, um inimigo aparece em sua frente, uma bomba explode em sua cabeça. Quando você para de enxergar a realidade à sua frente, a morte é o que te visita.

Viver no mundo dos sonhos apenas nos leva a um ponto do caminho, o resto dele deve ser percorrido pelos nossos pés. A guerra só pode ser vencida quando se tem os sonhos na cabeça, mas a realidade nos nossos olhos, nos nossos dedos, nos pés, na nossa força.

A realidade é o que nos dá vida.

E mesmo que ela ainda não pareça o bastante, no momento em que você tira a realidade de alguém, nada mais importa.

Foi isso que aconteceu comigo.

Eu tinha uma família grande, tinha sonhos, tinha felicidade. O tempo veio e levou minha família de mim, tirou minha realidade. Junto com ela se foi a felicidade, restando apenas os sonhos.

Mesmo que eu tivesse os sonhos junto comigo, nada mais importava na minha vida, pois a minha realidade, tudo que eu tinha foi tirado de mim. Foi arrancado dos meus braços e eu fui entregue a um mundo que eu não sabia sequer viver direito.

Naquele momento os sonhos não me serviram de nada.

Você acha que o desejo de me tornar um soldado ou a vontade de ter um carro conversível me adiantou de alguma coisa quando eu perdi tudo que significava em minha vida? Não, pois eles não importavam em nada. Minha realidade era tudo pra mim. E aí que eu entendi que a realidade sempre é melhor do que o sonho. Por mais horrível que ela seja, no momento em que nós não temos mais ela, tudo se perde. Se a gente não ganha uma realidade nova, como eu ganhei muitos anos depois, a nossa vida não vale de nada.

E aí vinha o drama dentro do meu próprio drama.

Eu acreditava que a realidade era melhor do que meus sonhos, mas eu tinha duas dimensões de realidade e duas dimensões de sonhos. Minhas realidades eram Stiles e a vida de um soldado, eu poderia escolher uma ou outra, pois eu tinha as duas ao alcance das mãos. Os meus sonhos eram viver um futuro com Stiles ou honrar meus pais e meus irmãos, aqueles que deram a vida por mim.

Um sonho ia de encontro com uma realidade e ia contra a outra.

E como eu poderia escolher entre um tipo de felicidade e o outro? Como eu poderia escolher entre me arriscar para fazer o que eu nasci para fazer ou deixar meu passado ser esquecido e me assustar pelo resto da vida?

Se a realidade é melhor que o sonho, como eu saberia qual era realidade certa para mim não perder tudo em minha vida e ficar sem nenhuma realidade ou sonhos depois?

–--

Stiles e Derek estavam sentados no pátio que dava para a praia. A grama era quente na pele deles, sendo aquecida pelo sol brilhante que iluminava tudo. Derek estava apenas com seus olhos fechados enquanto Stiles tocava uma rendição de It makes no difference now, uma das músicas que ele estava obcecado ultimamente.

Não era exatamente a música mais feliz que ele havia ouvido, tendo toda uma mensagem por trás sobre não se importar muito com tantas coisas na vida já que nada mais faria diferença naquele momento.

“Sabe que essa música fala sobre alguém que não precisa mais de ninguém para viver, né?” Derek falou de onde estava sentado, chamando a atenção do garoto. Stiles travou o movimento do arco sobre as cordas.

“Sim, e?” Ele perguntou de volta, não fazendo ideia do que Derek estava tentando dizer.

“Nada demais, achei que fosse uma mensagem subliminar, talvez.” Derek falou, fazendo Stiles ficar mais confuso.

Ele bufou e balançou a cabeça.

“Mensagem subliminar pra que?” Stiles falou, um pouco irritado.

“Não sei. Talvez alguém que acha que não precisa de outra pessoa pra viver. Principalmente alguém que esse alguém beijou nos últimos dias e nunca mais comentou nada sobre isso, como se nunca tivesse acontecido.” Derek disse. A voz dele parecia brincar com as palavras ao mesmo tempo em que ele tentava esconder sua frustração.

“Então você acha que eu ia tocar uma música como se fosse uma mensagem subliminar para você só porque eu não comentei sobre o beijo que você me deu dias atrás?” Stiles falou. “Derek, nós não somos mais crianças, assim como eu poderia ter falado sobre o que aconteceu, você também. Ninguém proibiu você de vir falar comigo sobre aquilo.”

“Óbvio que eu não ia falar com você. Por um acaso você não lembra o que aconteceu quinze anos atrás quando eu tentei chegar em você?” Derek falou, levantando a voz. “Eu não queria obrigar ninguém a fazer nada, então eu nunca soube se haveria um momento certo pra tudo isso acontecer, pra mim ir falar com você.”

“Okay, não precisa ficar assim estressado.” Stiles falou. Ele parou por um segundo, tentando respirar e colocar as ideias no lugar, ao mesmo tempo em que pousou o arco no colo e deixou seu instrumento se encostar em suas pernas. “Eu não sabia como reagir também. E durante os anos tantas coisas erradas aconteceram que eu tive medo e achei que seria melhor não pensar nisso. Outro dia as coisas apenas aconteceram. Eu não me arrependo de nada, mas também não sei como falar sobre aquilo. Não é como se eu fosse experiente…”

Um silêncio se abriu entre eles. O mar soava ao longe, enquanto as ondas batiam na areia. Stiles ficou apenas escutando os próprios batimentos do coração junto com a respiração de Derek.

“Eu não tinha certeza se algum dia a gente iria falar sobre isso. Eu sempre quis, Stiles. Só nunca soube como.” Derek falou, suspirando.

“Por quinze anos?” Stiles perguntou.

“Você também nunca disse nada.” Derek respondeu, calando Stiles por alguns segundos.

O garoto respirou fundo antes de falar de novo.

“Eu sei. Assim como você, eu nunca soube como falar sobre isso. As coisas foram acontecendo e acontecendo. Eu achei que tudo estava no lugar que precisava estar e então nada mais fazia sentido de novo e a gente tinha que começar a viver a vida de outro jeito e então tudo iria voltar ao normal e de novo algo iria acontecer e…” Stiles bufou. “Eu não sei como fazer isso.” Ele balançou a cabeça.

Ele ouviu Derek se levantar do lugar onde estava sentado e caminhar até perto de Stiles. O homem sentou ao lado dele e depois colocou uma de suas mãos em cima da perna de Stiles.

“Eu esperei por você um tempo. Achei que teria uma chance. Depois de uns anos eu meio que deixei isso ir para o fundo da minha cabeça. Eu era feliz em ser apenas seu amigo, fazer parte da família.” Derek disse. “Mas então as coisas começaram a mudar e do nada viramos só eu e você. E agora que eu tenho só você na minha vida eu voltei a sentir o que sentia e não tenho mais como esconder.”

As palavras de Derek ficaram soando pelo ar durante alguns segundos.

Stiles respirou fundo e colocou seu instrumento ao lado dele no chão, se virando para Derek.

“Então não esconda mais.” Ele sussurrou, nervoso, esticando sua mão para encontrar o rosto de Derek. O homem pegou na mão dele que estava no ar e levou a sua bochecha, esfregando com calma a pele dele na de Stiles.

O garoto deu um pequeno suspiro de surpresa.

“Tem certeza que eu não preciso mais esconder?” Derek perguntou.

“Talvez eu também não queria mais esconder nada.” Stiles falou e se aproximou do rosto de Derek, tentando encontrar os lábios dele.

O beijo, dessa vez, foi mais lento do que o outro. Stiles conseguia sentir o gosto de Derek em seus lábios, enquanto ele tentava mover os dele. Era tudo novo para ele, mas o sentimento da pele áspera de Derek na dele era algo que parecia que sempre esteve faltando na vida de Stiles. O cheiro do homem perto dele e a presença de Derek eram coisas que Stiles precisava.

Derek colocou sua língua, com calma, dentro da boca de Stiles, tentando achar o melhor do gosto do garoto. Stiles se surpreendeu com o movimento, fazendo um pequeno som no fundo de sua garganta, abrindo os lábios para deixar o homem provar dele.

As mãos dos dois começaram a se enrolar. Stiles colocava uma delas nos cabelos de Derek e a outra no ombro dele, enquanto o homem agarrava a cintura de Stiles para puxar ele para perto de seu corpo.

Naquele momento em que os lábios estavam selados um ao outro, Stiles sentia que o mundo parecia estar parado e a única coisa acontecendo era eles dois. A sensação de estar flutuando fazia Stiles se esquecer de tudo, se esquecer dos medos e das guerras, esquecer do passado e do futuro. Nada mais importava quando Derek estava junto dele.

O final do beijo foi simples e Stiles ainda não tinha voltado a realidade quando Derek soltou os lábios dele com um selo final.

“Eu te amo, Stiles.” O homem sussurrou.

O coração do garoto bateu mais forte e a respiração ficou difícil por uns segundos. No entanto, ele conseguiu responder.

“Eu te amo, também.” Stiles disse, encostando a testa dele na de Derek, deixando a respiração dos dois se misturar.

–--

Makes no difference now what kind of life they hands me

I'll get along without you now that's plain to see

I don't care what happens next for I'll get by somehow

I don't worry cause it makes no difference now

Não faz diferença, agora, o tipo de vida que eles me dão

Eu vou seguir em frente sem você, agora, isso é fácil de ver

Eu não me importo com o que aconteça a seguir, eu vou superar de alguma forma, também

Eu não me preocupo porque não faz diferença agora