Oczy
20 A melodia do nosso amor
Meu pai sempre disse que eu não devia falar assim, mas eu não tenho escolha. Não que minha vida seja completamente controlada por forças externas, superiores, que eu não possa tomar cabo. O que eu não posso é mudar muito do meu universo apenas com o meu pensamento. E minha voz se faz ouvir mesmo quando não é chamada, fazendo minhas ideias saírem pela minha boca como uma cachoeira, sem controle.
Na maior parte do tempo, no entanto, não há ninguém ao meu lado para ouvir o descontrole de ideias que brota de mim.
E meu pai, que sempre me disse que eu não deveria falar assim, não pode mais continuar afirmando essas mesmas coisas ao meu ouvido.
O tempo muda nossa percepção do mundo, mas junto com o tempo, muda nosso mundo também.
Nem sempre para melhor.
Se eu fosse como um daqueles garotos eu poderia estar brincando agora, tomando um gole de rum, batendo os meus pés, empurrando um melhor amigo para uma parede ou para outra. Eu poderia estar sorrindo e cantando cantigas antigas sobre viagens de trem, brincando sobre os aspectos da vida que muitos homens não podem mais apreciar — ou todos os aspectos da vida que eu nunca pude apreciar.
Eu poderia estar vivendo toda essa vida que eu descrevi aí.
Mas eu não posso.
Em termos.
Eu não sou como um daqueles garotos. Eu não posso estar brincando agora, pois as brincadeiras que eles podem fazer não foram feitas para mim. Eu também não tenho idade para pensar em brincadeiras, mesmo que durante o tempo em que eu poderia ter pensado nelas, minha vida estava mudando drasticamente, fazendo com que brincadeiras fossem minha última preocupação.
Eu posso tomar um gole de rum, mas isso não faz mais tanta diferença em minha vida. Posso bater meus pés; isso também não faz diferença. Meu tempo de ser um aproveitador dos pequenos momentos se passou e eu fiquei pra trás, eu fiquei perdido, sem ter escolha sobre boa parte das minhas ações.
Ou melhor, eu tinha o poder de escolha sobre as minhas ações, só não tinha muitas ações sobrando para escolher.
Claro, quando você perde a capacidade de ver as coisas o mundo se apaga pra você. O que é óbvio. Você precisa aprender de novo como viver nesse mundo, precisa aprender como direcionar seu corpo para novas experiências e modos de se adaptar ao lugar que você vive, o que leva mais tempo do que é possível imaginar e muito mais vontade do que se precisa para apenas viver.
Ninguém havia me dito que isso seria assim difícil, assim complicado de se resolver. Ao meu redor as pessoas falavam que tudo iria ficar bem, que eu seria ajudado por muitos e que as coisas, eventualmente, se encaminhariam para a direção certa — mas é muito mais fácil se dizer isso se você não precisa lidar com o garoto com cegueira todos os dias.
Ajudar alguém uma vez durante o ano não faz sua vida assim difícil.
Tente guiar uma pessoa que não pode enxergar por todos os dias de sua vida e durante a maior parte desses dias. O que era uma tarefa de caridade vira um exercício de paciência, onde apenas aqueles com bastante dedicação são capazes de completar.
Todas as pessoas à minha volta tem a sua própria maneira de enxergar o mundo. Todos tem seu jeito de ver as coisas, de analisar o mundo a partir dos seus olhos e poder adivinhar o que se secreta além do que nossos sentidos podem capturar.
Eu também posso fazer isso.
Eu posso imaginar um mundo inteiro com minha mente, pintar as coisas e as pessoas com minhas cores e criar um universo onde tudo segue as minhas leis, sem a influência de qualquer outra pessoa ou de qualquer outro conceito.
E a diferença mais importante é que eu tenho a chance de viver nesse mundo, eu tenho a chance de acordar todos os dias dentro do meu imaginário, do qual mais ninguém pode fazer parte, enquanto as pessoas tem apenas o universo comum que elas vivem.
Essas pessoas veem o mundo com seus olhos famintos, olhos cansados, olhos esperançosos. Elas veem com sua mente aberta ou veem com as crenças que as protegem do outro lado. Todos enxergam com seus olhos o que a mente quer ver ou não. Todos tem essa mesma percepção de mundo, essa mesma ótica, que varia em interpretação, mas parte de uma mesma fonte.
Todos podem ser iguais nas formas de enxergar as coisas, mas a minha ótica é um pouco diferente: é a ótica de quem não pode enxergar.
Enquanto todos fazem seus universos a partir das coisas que viram, o meu mundo é criado a partir dos sons, dos toques, das sensações. O meu mundo é criado apenas por mim. Eu sinto esse mundo, mas não posso enxergar ele. As coisas se fazem em minha mente à sua própria maneira e eu apenas sigo com ela, tentando adaptar o que eu sinto ao que eu imagino.
Minha forma de ver o mundo se baseia em não enxergar nada, então eu não tenho problemas em ficar no escuro e me perder do caminho, pois eu faço o meu próprio caminho — mas a mão amiga de alguém sempre facilita a nossa vida.
Por isso mesmo que a falta do poder de enxergar nos torna criaturas da gentileza e passivos por natureza — podemos até tentar agir com voracidade, mas nossa caça para antes mesmo de começar, pois nossos pés não podem seguir apenas os caminhos imaginários.
E nossos caminhos imaginários podem nos levar para um mundo todo longe do nosso mundo — mas eles também nunca vão nos levar a lugar algum.
Porque nós não podemos caminhar por pensamentos.
E também não temos a opção de descobrir nossos caminhos com o olhar.
Muitas pessoas podem escolher entre abrir os olhos e fechá-los quando elas querem ou não ver as coisas.
Eu não tenho escolha.
Não posso enxergar nada.
Mas eu posso sentir.
Eu posso sentir tudo.
Eu posso sentir os lábios de Derek se encostando aos meus. Sinto o jeito que ele prova do sabor que a minha boca tem e como ele provoca meus lábios com os dele. Os movimentos são deliberados mas ao mesmo tempo naturais, como se o corpo quisesse comandar a ação ao mesmo tempo em que a vontade se faz presente — ambos se sentem satisfeitos, no entanto, sem ter que brigar pela dominância da ação.
Nunca antes eu havia sentido a boca de alguém tão próxima da minha, muito menos alguém tentando se fazer um só comigo. As sensações que correm pelo meu corpo são novas, diferentes de tudo que já passei. Tudo que meu interior sente enquanto Derek está perto de mim é algo que nenhuma outra pessoa causou.
Provavelmente porque nenhuma pessoa quis chegar perto de mim das mesmas formas que Derek sempre quis.
Eu posso sentir as mãos do homem percorrendo todo meu ser. Eu posso sentir o jeito que ele passa seus dedos por toda a extensão da minha pele, o jeito que cada impressão digital se fixa ao longo do meu corpo e ele vai marcando um caminho invisível ao longo do meu eu. Eu não tenho a chance de enxergar o jeito como o rosto dele se contorce enquanto ele se molda em mim, não sei o que ele sente quando nós estamos juntos daquele jeito, mas eu sinto os pequenos tremores que ele libera quando descobre um novo lugar para adorar em meu corpo, eu escuto o modo como a respiração dele tropeça no seu próprio ritmo quando ele percebe o mesmo que eu: nós estamos nos tocando.
Depois de anos de vida entre nós, depois de perdas, depois da felicidade, depois de tudo que nós passamos juntos, e quando eu achei que nada mais poderia nos ligar, vem isso e nos conecta de todas as formas possíveis que ainda faltavam.
Nós estamos fazendo amor.
Eu sinto os batimentos do coração dele se alinharem aos meus, mas saírem do ritmo segundos depois. Eu escuto o sangue correndo pelas veias em meus ouvidos e consigo descobrir a direção frenética que ele vai e volta, ao mesmo tempo em que consigo escutar o ar saindo e entrando nos pulmões dele. Todos os movimentos dos nossos corpos estão alinhados, mas correndo em direções diferentes e indo e voltado e se perdendo no meio de nós dois.
Nossos beijos começaram ainda na grama do nosso pátio, quando eu e Derek estávamos discutindo sobre nossas vidas. Meu violoncelo ficou pelo chão, junto com minha camiseta, a primeira coisa que eu tirei quando Derek começou a me beijar. As mãos dele iam me acariciando com calma, descobrindo os lugares que me faziam suspirar, coisa que eu nunca imaginei ser possível apenas com o toque de outra pessoa.
Depois de um tempo nós nos movemos para dentro de casa.
O toque de Derek me guiou até dentro do quarto dele. Nossos passos tinham sido lentos, um em frente do outro em meio a pequenos toques entre nós. Derek apertava a minha mão em cada degrau da escada, mas da boca dele não saíam palavras. Nem da minha.
A voz que nos movia entre conversas havia ficado calada, dando espaço para outras sensações.
Dentro do quarto, Derek voltou a me beijar, colando seu lábios aos meus e logo entrando na minha boca com sua língua, descobrindo vários lugares dentro dela durante sua exploração. Seu braços me envolveram e eu me senti completo e protegido de qualquer perigo, enquanto poderia me perder no gosto dos lábios dele.
Ao mesmo tempo em que o sentimento de ter o mundo virado do avesso a partir da descoberta de uma coisa nova, de algo diferente, minha mente gritava dentro da minha cabeça sobre o tempo que eu havia perdido antes de ter descoberto sobre a possibilidade do prazer ao juntar duas pessoas que se amavam.
Mas eu também não sentia tanto a falta de tudo que eu não havia feito — se havia algum momento certo para eu descobrir a realidade dos meus sentimentos por Derek e até aonde eu iria por aquele homem e com aquele homem, eu acho que nós havíamos acabado de descobrir ele.
As roupas que ainda cobriam nossos corpos foram caindo ao chão uma por uma e cada pedaço exposto de pele oferecia uma nova experiência para meus toques e para as sensações do corpo de Derek no meu. Tudo aquilo era tão novo para mim, mas ao mesmo tempo tão importante, que eu tinha medo de perder a minha cabeça em meio ao maravilhamento do que acontecia e acabar por esquecer de tudo, deixar o momento ir para no meu inconsciente.
E eu queria mais do que tudo ter a chance de lembrar do corpo de Derek. Eu queria poder ter em minha mente o quão longas eram as pernas dele, como os pelos cobriam elas e eram macios, eu queria lembrar de como os músculos na barriga dele se contraíam ao meu toque e como ele tinha sua pele mais áspera em alguns lugares e macia em outros. Eu queria lembrar da extensão dos braços dele, o cheiro másculo que ele exalava e a forma como as partes do corpo dele se mexiam em resposta às minhas carícias.
Eu queria me lembrar de tudo; queria me lembrar dele.
Em cima da cama, nossos toques se completavam.
Derek passava suas mãos pelas minhas costas nuas, acariciando cada pedaço de pele que seus dedos poderiam sentir enquanto seus lábios se soltavam da minha boca para encontrar novas paragens em sua expedição pelo meu corpo. O homem ia temperando um trilho de pequenos beijos entre meu pescoço e o centro do meu peito, acariciando com sua pele a minha.
Tremores iam assaltando meu corpo aos poucos, conforme Derek ia descobrindo novos lugares que me fazia tremer. A sensação do corpo nu dele junto ao meu corpo nu era algo que fazia minha cabeça girar.
Não nos conectamos assim rapidamente, mas com vagar, calma. Derek ia colocando cada uma das partes de seu corpo junto às minhas, pressionando os centímetros de sua pele na minha, um do lado do outro. Nossos toques iam se completando e eu ia sentindo cada parte achando a ligação perfeita comigo.
Quando finalmente estávamos um sobre o outro, Derek finalmente me pediu se eu me sentia pronto para dar um passo adiante. Eu só poderia imaginar o que seria aquele passo adiante, e mesmo que não tivesse a própria certeza, eu respondi que sim, disse que estava pronto.
As mãos dele que antes viajavam pelo meu corpo todo voltaram sua atenção para uma área em particular de mim. Os toques foram chegando perto da minha virilha até ele encostar em meu membro, fazendo um arrepio percorrer minha espinha. Os dedos dele se enrolaram em torno de mim e começaram a fazer movimentos que traziam pequenos choques de prazer do centro de meu corpo para todos os outros lados, enquanto a boca dele acariciava meu peito, sua língua lambendo pedaços de minha pele.
Ele me tocava com reverência, como se tivesse esperado uma vida toda por aquilo.
O que era verdade.
Mesmo gozando dos momentos de prazer que desciam sobre mim, meus dedos tremeram com vontade de tocar ele e eu procurei um jeito de achar onde o corpo de Derek esperava pelo meu toque. Meu dedos se enrolaram nele também, e eu tentei repetir os movimentos que ele fazia em mim. Em alguns momentos nós entrávamos em um mesmo ritmo, nossos corpos cresciam em um mesmo tempo, e logo nos separávamos, tentando um levar o outro ao máximo do prazer.
Assim como eu havia vivido uma vida toda perto da música, nossos corpos agora eram como os instrumentos que eu fazia um som. Quando alguém conseguia encontrar o lugar certo para tocar, nossas vozes emitiam as notas perfeitas para uma melodia que ia crescendo cada vez mais em velocidade e vigor.
A estranheza que uma vez fazia parte do que nós dois éramos se desfez em poeira enquanto nossos corpos transbordavam em uníssono o que de perfeito estávamos fazendo.
Derek sussurrava no meu peito os seus desejos mais profundos e minha boca repetia as lamúrias que minha cabeça queria colocar para fora. Meu corpo se preparava para um salto ao outro lado do mundo enquanto minhas mãos tentavam arrastar Derek comigo, freneticamente.
A sinfonia de nossos movimentos foi chegando ao seu clímax e tudo que havia levado a esse momento parecia fazer crescer a nossa vontade de chegar mais perto, de ser só um. E sendo um, queríamos fazer nossa música ser ouvida em todos os cantos do universo.
O prazer que me atingiu veio de um nada, me jogou para o alto e de volta ao chão. Junto comigo eu levei Derek, que grunhiu meu nome e depois disse que me amava. Eu respondi que o amava também.
E naquele momento, se já não éramos um só, os sons de nossa respiração ofegante, da batida dos nossos corações e das palavras singelas que escorriam de nossos lábios fizeram eu e Derek nos transformarmos na melodia de uma música que respondia pelo nome de amor.
Do nosso amor.
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