Oczy
21 De 1939 a 1941 - Interlúdio
Notas iniciais
Quando a felicidade chega antes do final é porque nós podemos nos considerar sortudos.
E a nossa felicidade havia chegado, finalmente.
Eu quase não conseguia acreditar em tudo que havia acontecido. Não era possível para mim que depois de todos os anos que passamos por dificuldades e momentos ruins, algo de bom havia vindo para nós. Algo que era genuíno, simples, que esteve sempre à espera do momento certo para acontecer.
O florescer de nosso amor.
Todas as descobertas que haviam acontecido em nossa vida tinham sido ínfimas perto da nossa incursão sobre as possibilidades que o toque, a proximidade e o carinho poderiam nos proporcionar. E como, por mais que pareça simples, o fato de nós podermos ficar um mais próximo do outro fez com que a nossa vida se abrisse para novos horizontes.
Enquanto pessoas se preocupavam com a guerra acontecendo na Europa e na Ásia, ouvindo as notícias no rádio e acompanhando o que os jornais tinham a dizer do que estava se passando no planeta, eu e Stiles vivíamos dentro de nosso próprio paraíso, com nossas próprias leis e regras, sem ter que olhar para o mundo em volta de nós.
Quando eu entrava pela porta da nossa casa e a fechava atrás de mim, tudo que havia de ruim ficava para fora. Todos os problemas dos outros, os meus problemas, o preconceito, as dificuldades, tudo ficava pro outro lado da porta. As diferenças que a sociedade via em nosso comportamento, o jeito que nós sabíamos que as pessoas olhariam para nós e as ideias conservadoras que a maior parte das pessoas tinha ficavam no resto do mundo, menos em nossa casa.
Dentro daquele lar só havia felicidade.
O quarto que antes era meu virou nosso, com Stiles mudando suas coisas lá. A cama que antes me abrigava sozinho virou um porto seguro, onde passávamos horas longas fazendo amor um com o outro, conversando juntos ou apenas ficando abraçados um ao lado do outro, lembrando de tudo que passamos para chegar até aqui.
Nossas roupas começaram a se misturar e Stiles teve que se acostumar a aquela pequena mudança na vida dele. Dessa vez, no entanto, ele agarrou aquelas novidades com as duas mãos e aproveitou o máximo de cada momento.
Eu sorria todas as vezes que eu via ele usar uma das minhas camisas, por acidente ou por propósito. Só de ver ele feliz, nos meus braços, sorrindo para mim, me olhando como se eu segurasse a lua em minhas mãos, tudo valia a pena.
Mesmo que esse mundo não pudesse aceitar o que éramos, coisa que aprendemos às custas da nossa própria pele, nada poderia nos para naquele momento.
A rotina de nossos dias continuou quase igual, eu indo trabalhar como mecânico e Stiles ficando em casa com sua música. A nossa vida, para a sociedade de Carmel-by-the-Sea era a mesma de sempre. Os vendedores da banca onde comprávamos comida e os poucos vizinhos que nos conheciam nos tratavam da mesma maneira respeitosa e para todos os efeitos nós éramos os grandes amigos que vieram de Chicago para uma vida mais calma na Califórnia.
E aquilo era verdade.
A única diferença é que além de eles serem grandes amigos, eles também eram grandes amantes.
A cada dia nós fomos descobrindo formas novas de demonstrar o nosso amor um para o outro, um mundo de diferentes maneiras de fazer o nosso carinho ser vivido e reciprocado. A música que se formava quando combinávamos os nossos instrumentos se fazia diferente a cada vez, se transformava, aperfeiçoava-se. A maneira como tocávamos um ao outro ia mudando nosso jeito de ver as coisas, nosso jeito de pensar.
Ao longo de dois anos a nossa vida foi perfeita. Ainda assim, uma quantidade de coisas queria entrar em nosso caminho e atravancar o nosso andar.
A guerra corria seu curso e eu conversei com Stiles sobre o que poderia acontecer em nosso futuro. Caso o país me chamasse para as batalhas, eu teria que ir — o que se fazia mais difícil a cada dia que eu passava na cama ao lado do meu amor. Stiles, aos poucos, conseguia entender o quão importante tudo aquilo era, principalmente porque com o passar dos dias eu ia conseguindo contar mais da minha história para ele e ele conseguia entender parte dos meus motivos.
Ao invés de apenas caminhar nas manhãs eu comecei a correr e fazer os meus antigos exercícios, querendo devolver a boa forma que meu corpo tinha quando era mais jovem. Por mais que Stiles não se sentisse tão confortável com os motivos, ele apreciava muito as linhas mais duras que eu desenvolvi.
Em 1940 eu entrei em contato com o quartel onde eu passei boa parte da minha juventude para informar aos meus oficiais que eu estaria à disposição caso eles precisassem de tropas. Ele disseram que os oficiais veteranos não necessitavam passar pelo confinamento, mas se o país precisasse eles iriam ser chamados para um treinamento antes de irem para a guerra.
Todos sabiam que mais cedo ou mais tarde os Estados Unidos iriam mandar suas tropas. O dinheiro do país já ajudava os inimigos da corrente fascista e algumas tropas especiais haviam ido para a Europa em vista de apaziguar conflitos, principalmente ajudando as tropas britânicas.
O povo americano, no entanto, ainda tinha suas opiniões bastante divergentes sobre o que viria para o futuro.
Todos os dias em que uma nova notícia ruim vinha da guerra, meu coração se apertava um pouco com a antecipação de que o momento para eu partir estaria próximo, e Stiles sentia tudo aquilo. Ele, que ainda era meu garoto mesmo estando quase perto dos quarenta, sempre me abraçava forte naquelas noites e quando eu tinha pesadelos ele me ajudava a voltar a dormir.
Mas então o final de 1941 veio e junto com ele a história mudou.
Ao se aproximar o fim do ano as tensões entre nossas tropas e os japoneses só cresceram — muito mais do que elas foram durante os anos 30. O desejo por bens de consumo importantes para a economia americana, principalmente durante a época em que nós estávamos em crise e depois para poder assegurar nossas reservas, fizeram com que o Imperador do Japão se colocasse contra nossas incursões em busca de matérias prima no sudeste da Ásia.
Ao final de novembro de 41, Londres já citava a possibilidade de uma guerra entre os Estados Unidos e o Japão, mesmo dentro da guerra corrente entre os países da Europa. As tropas britânicas estavam em minoria dentro da Indo-China e o medo era grande de que eles seriam destruídos sem a ajuda dos americanos.
Então Pearl Harbor aconteceu.
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JAPS DECLARE WAR ON U.S. — ATTACK ON HAWAII KILL 350 — BIG NAVAL BATTLE RAGING. The Boston Post, 8 de dezembro de 1941.
JAPONESES DECLARAM GUERRA AOS EUA — ATAQUE NO HAVAÍ MATA 350 — GRANDE BATALHA NAVAL EXPLODE
1500 DEAD IN HAWAII — CONGRESS VOTES WAR. New York World-Telegram, 8 de dezembro de 1941.
1500 MORTOS NO HAVAÍ — CONGRESSO VOTA EM GUERRA.
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Aos cuidados do Lt. Derek James Hale
Como é de seu conhecimento, nossas tropas foram atacadas em Pearl Harbor. Avisos haviam sido enviados à ilha mas eles não foram considerados, sendo que, mesmo com a possibilidade de uma guerra entre os Estados Unidos e o Japão, esperava-se que o aviso oficial fosse declarado, ao invés de um ataque surpresa acontecer.
Perdemos mais de duas mil vidas nos ataques e mil de nossos combatentes estão em hospitais ao longo da ilha. Nossas forças foram bastante prejudicadas e o ataque serviu para mostrar a força das tropas japonesas ao Imperador, ao mesmo tempo em que eles atrasam nosso possível avanço sobre as outras nações do Oceano Índico.
Com o acontecido, o Congresso americano votou a favor da guerra e todos os soldados e oficiais estão sendo chamados para comparecerem em seus campos de origem.
Nós iremos para a guerra.
Fort Ord, 12 de dezembro de 1941
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