Oczy
22 Cartas em 1942
Minha última noite com Stiles foi perfeita. Tudo que eu poderia ter pedido para qualquer dos deuses foi me dado e em uma noite de amor, esparramados em nossa cama, eu percebi que a coisa mais linda que eu já presenciei em minha vida seria a melhor memória para se levar para um mundo de dor. O corpo dele grudado ao meu, nosso suor se misturando, o cheiro do nosso amor pelo ar, tudo era perfeito pra mim.
Uma pena que na manhã seguinte tudo iria terminar.
A guerra me aguardava.
Não havia muito que dizer sobre o que poderia acontecer comigo. O futuro poderia guardar coisas boas ou coisas ruins para mim. Não há o que dizer de uma guerra, não há o que se prever. Eu escapei de uma, mas não seria sorte demais escapar de outra?
Eu não disse aquilo para Stiles, no entanto.
Combinamos de nos mandar cartas — e falando assim parece a coisa mais maluca do mundo. Nós criamos um sistema. Eu sempre iria enviar os envelopes com o meu endereço para ele, ou com a forma de ele me alcançar por cartas. E ele então me enviaria os seus escritos. E nós dois iríamos nos conversar em braile, já que eu havia aprendido há anos para ensinar a ele.
Eu ainda falei para o Stiles que talvez as minhas cartas fossem menores já que eu não teria como ter uma daquelas réguas mais bonitas para poder marcar o papel, tendo que usar uma das réguas mais antigas e mais fáceis de carregar para escrever para ele.
Pelo menos haveria uma forma de nos comunicar.
E o melhor de tudo? Provavelmente poucas pessoas iriam fazer ideia do que nós estávamos falando, o que protegeria a minha identidade e a do Stiles. Ninguém seria louco o bastante ou teria tempo para decifrar o braile na comunicação entre dois homens que se amavam no meio de milhares de outras cartas.
Bom, nós éramos loucos o bastante para escrever em braile um para o outro.
Enfim, malas feitas e coração apertado, eu saí de casa.
Beijei o amor da minha vida na boca e tomei-o em meus braços. Stiles tentava não chorar, mas eu conseguia ver as poucas lágrimas escapando de seus olhos.
Ele disse que me amava.
Eu disse que amava ele mais ainda.
E então eu me fui.
Quem sabe para nunca mais voltar.
Pelo menos eu morreria feliz.
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14 de março de 1942
Meu amor
Eu sei que você não pode me dizer exatamente onde está, mas eu espero que em qualquer lugar da França que você esteja, as coisas não sejam tão ruins. Eu ouvi no rádio que existe uma grande tensão em Malta e que as coisas parecem ruins por lá.
É uma pena que eu não possa mandar nada para você, já que eu simplesmente não sei fazer nada manual e nenhum tipo de comida que não vá se estragar para você se lembrar de mim e de nossa casa. Espero, porém, que as duas camisetas que lhe mandei que ainda tem o meu cheiro, te lembrem de quantas noites nós passamos juntos. E te façam pensar em quantas noites a mais nós iremos nos abraçar, beijar. Nos amar.
Eu continuo recebendo as entregas da vendinha aqui de perto toda a semana — e não faço ideia do quanto de dinheiro você pagou para o vendedor, mas eu posso ver que ele sempre tem um sorriso na voz quando vem entregar a comida para mim.
Derek, a casa não é viva sem você. Eu queria poder ter a chance de ouvir a sua voz, pelo menos uma vez.
Pra sempre seu,
Stiles
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23 de abril de 1942
Stiles
Eu ainda estou pelo mesmo lugar que estávamos há um mês. As nossas tropas caminham alguns quilômetros por dia, mas acabamos por voltar para as mesmas posições. As terras francesas não nos permitem muito descanso, mas também não muito perigo. Não conheço muito da minha tropa, mesmo que eu comande a todos eles, mas já consigo perceber uma animação de lutar e vencer a guerra vinda de cada um deles — o que me faz um pouco triste, pois só quem viu uma guerra consegue entender a dificuldade que é estar em uma.
Eu fiz o possível para providenciar comida para você pelo resto da sua vida, Stiles. Eu sei que dói em mim, escrever essas palavras, mas eu não sei se algum dia eu voltarei para seus braços — mesmo que à noite essa seja a única coisa que eu peço para a minha família no céu.
Se ele existe.
Eu te amo, Stiles. Nunca se esqueça disso.
Do seu, Derek.
P.S.: Eu uso as suas camisetas por baixo do meu uniforme. Elas são minha proteção.
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13 de junho de 1942
Derek
Não pense sequer um momento em não voltar para mim. Não pense sequer um segundo que eu não estou aqui, rezando para qualquer anjo que me escute no céu para que você volte para a nossa casa. Pra nossa cama. Pra mim.
Eu não quero saber dessas palavras tristes. Eu sei que a guerra deve ser difícil, que estar longe de casa, longe de tudo e marchando em um campo de batalha deve ser horrível — e acredite em mim, se eu pudesse eu trocaria tudo nesse mundo para ficar no seu lugar, ou pelo menos poder ficar do seu lado.
Não sei viver sem você, meu amor. Não sei continuar sem pensar em você, sem sentir seu cheiro e ouvir sua voz. Derek, você é tudo pra mim. Eu não sei nem como demorei tanto tempo pra perceber isso — estava escrito na minha frente.
Deve ser tudo culpa dos meus olhos. Não pude ver.
Por favor, prometa pra mim que você vai voltar pra cá, vai voltar pra mim, mesmo que seja apenas pra dizer que me ama e pra eu poder ouvir a sua voz mais uma vez.
Do seu,
Stiles
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4 de julho de 1942
Meu amor,
Eu não quis fazer você ficar triste comigo, ou com essa vida. Eu só não pude deixar de não falar aquilo, pois é a verdade. Mas se você quer que eu prometa, eu prometo. Eu vou ver você, vou abraçar você, vou dizer que te amo e te beijar, mesmo que seja a última coisa que eu faça nessa vida.
Eu não posso escrever muito, ainda que seja um dia importante para todos nós, mas eu não pude deixar de lhe dizer tudo isso.
Eu te amo, Stiles. Nunca se esqueça disso.
Pois eu jamais me esquecerei de você.
Derek
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9 de setembro de 1942
Você deve imaginar o quanto eu chorei ao ler a sua última carta, não? Derek, eu sei que tudo na nossa vida parece mais difícil do que deveria ser, e que o destino nos faz sofrer demais antes de nos dar coisas boas. Então sempre pense assim, nós vamos sofrer um monte, mas o destino vai compensar. Ele vai nos dar algo de bom.
Se eu não pensar desse jeito eu não sei nem como sobreviver a cada dia.
Eu sinto demais a sua falta por aqui.
A casa parece mais solitária do que nunca, ainda que eu toque música por todos os quartos, carregue o pequeno rádio junto comigo aonde quer que eu vá e fique cantando enquanto limpo cada um dos cômodos. Não importa o quanto de música eu faça, a casa continua como um enorme abismo e eu estou sozinho dentro dele.
O sol da Califórnia é quente na minha pele, e a grama do nosso pátio cresce cada vez mais. Eu espero que você volte logo, pois eu não posso mexer com o cortador de grama. Na verdade, eu tenho certeza que algum lugar da casa precisa das suas mãos para uma reforma, já que eu não sei fazer daquilo.
Além da casa, no entanto, quem precisa de reforma sou eu. Preciso sentir suas mãos em mim, preciso sentir o seu corpo junto do meu. Preciso sentir você.
Eu te amo, Derek.
E sinto sua falta.
Stiles
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17 de novembro de 1942
Derek,
Eu sei que você disse que talvez você não pudesse me responder sempre, mas eu preciso mandar mais uma carta para você, pelo menos para ter a chance de lhe dizer algumas coisas.
Tive que pedir ajuda para o dono da vendinha para copiar seu endereço para outro envelope, já que eu não tinha outro envelope para lhe mandar a carta, seguindo o nosso combinado. Ele me ajudou prontamente, até pedindo se eu queria que ele escrevesse para mim — mas eu disse que nós usamos o braile.
Não sei como ficou a cara dele — do Sr. Deaton, como ele me faz chamar ele. Espero que ele tenha sorrido.
Enfim, nesses dois meses desde a minha última carta eu recebi algumas surpresas. Um pequeno cachorro apareceu aqui em casa. Eu não faço ideia da raça que ele é, mas ele amanheceu um dia na porta de casa, chorando, e eu não pude fazer nada a não ser pegar ele. Lobo, como eu chamo ele, era bem novinho quando apareceu por aqui, e nos dias que ele ficou comigo ele já parece um monstrinho, correndo pela casa.
Incrivelmente ele aprendeu rapidamente a não sujar a casa, já que eu pisei em coisas que não queria algumas vezes e tive que deixar ele alguns dias lá fora para ele aprender quando deveria sair. Ele é uma boa companhia — mas eu ainda sinto a sua falta.
Acredite em mim, o Lobo já sabe toda a nossa história. Durante as noites, antes de eu ir dormir, ele aparece pela nossa cama e chega perto dos meus pés, e eu não resisto em não contar para ele todas as coisas que aconteceram comigo. Ele parece ouvir — ou ele dorme e eu não posso ver.
O que importa é que eu não me sinto tão sozinho. Houve dias em que eu tive medo de sair da cama, achando que alguém estava dentro de casa. Agora eu não tenho mais isso, o Lobo me faz companhia.
E também uiva quando eu toco violoncelo.
Apesar de tudo, a nossa cama não tema mais o seu cheiro. Eu nem uso mais as minhas roupas, optando por pegar novas peças do seu lado do guarda-roupa para pelo menos ter o resto do seu cheiro comigo, mas eu não sei quanto tempo isso vai durar.
Às vezes eu sinto que os dias se arrastam, outras vezes eles passam devagar demais. Se não fosse pelo rádio e pelo violoncelo, e agora pelo Lobo, eu não faço ideia do que seria de mim. Fazer comida, cuidar de uma casa, viver a vida apenas para uma pessoa parece trabalho demais. Eu já até fechei os outros cômodos que eu não uso, só pra não ter que limpar eles também.
Eu não me importaria em fazer nada dessas coisas se você estivesse aqui, já que eu teria alguém importante para dividir a minha vida. Sozinho, no entanto, tudo parece um tanto sem sentido.
Volte para mim, Derek. Eu lhe imploro. Não me deixe aqui sozinho, pois eu já não sei mais viver sem você.
E eu nem quero.
Te amo
Stiles
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17 de dezembro de 1942
Me desculpe a demora em conversar com você, Stiles. Nós tivemos uns meses complicados por aqui. As tropas precisaram marchar bastante, e depois tivemos ainda que trocar várias vezes de lugar. Foi cansativo, meus pés reclamaram do esforço e minha cabeça, se não fosse por você, iria se desligar completamente.
Hoje nós recebemos a notícia de que existem campos de concentração dos nazistas, e que eles estão matando milhares de pessoas inocentes. Os Estados Unidos declararam vingança contra esses crimes, mas nós ainda não sabemos qual é a nossa parte nisso tudo. Os soldados sentiram pela primeira vez o que é estar dentro de uma guerra, já que tivemos um pequeno conflito com soldados italianos que estavam meio perdidos dentro da França. Acredito que vamos marchar em direção a Paris dentro de algumas semanas.
Eu estou vivo. Não posso dizer que estou bem, mas a possibilidade de ir para casa algum dia e estar do seu lado me anima. Nem acredito que já faz mais de um ano desde o ataque a Perl Harbor, onde a guerra começou de verdade para mim. E nem acredito que já estamos há tanto tempo sem nos ver.
Não sei o quanto a guerra vai se estender. Nós estamos no meio de tudo.
Eu queria poder estar do seu lado agora, no entanto. Queria fazer você tocar alguma música para mim — quem sabe ouvir um pouco de blues para lembrar da primeira vez que eu me perdi em você, naquela noite em que eu te vi no Olhos Negros, quase vinte anos atrás.
Nem acredito que já passou tanto tempo desde a primeira vez que te vi.
Não sei se lhe disse isso, mas meu coração já era seu sem nem eu saber. A minha vida era toda sua desde a primeira vez em que coloquei meus olhos em você, Stiles. Todo meu ser e tudo que sou, completamente a seu dispor. Meu amor é seu.
Espero poder sentir o seu cheiro algum dia, ele me lembra da liberdade. A liberdade que tenho em poder te tocar. Em poder sentir que você é meu.
Eu te amo, Stiles.
Para sempre.
Derek.
P.S.: Estou mandando uma das primeiras camisetas do meu uniforme que já viraram trapos. Eu não faço ideia se o cheiro vai lhe fazer lembrar de mim ou te enojar. Mas eu queria pelo menos te dar a chance de lembrar um pouco de quem eu sou enquanto você se imagina comigo.
P.S.2: Eu quero conhecer o Lobo. Espero que ele seja um bom companheiro para você. Mas não deixe ele dormir na nossa cama. Aquela cama é só minha e sua, e de mais ninguém.
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